Terça-feira, 10 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


Na minha última crónica no i tentei mostrar a falta de senso das duas principais propostas do PSD: reduzir impostos e salários. Noutra crónica tinha tentado contrariar a tese patusca, de um dos ideólogos do PSD, de que os impostos “elevados” são o caminho para o autoritarismo. Regresso as estes temas por causa de jcd do blasfémias, que já antes tinha mostrado os seus pergaminhos intelectuais ao criticar um artigo que tínhamos escrito sobre o neoliberalismo sem se dar ao trabalho de o ler (já agora, este livrinho é bem bom). Talvez isto explique alguma da confusão sobre um conceito que já é incontornável na história das ideias económicas e na economia e filosofia políticas. Como já defendi, citando Hayek, o peso do Estado não é critério para nada. No entanto, desta vez jcd deu-se ao trabalho de ler primeiro e de criticar depois. Estamos a melhorar. É claro que nem sempre consegue escapar à lógica do insulto pessoal. Acontece quando os argumentos escasseiam. A diferença entre a legítima crítica pessoal e o insulto pessoal é que a primeira parte de factos. Apesar disso, vamos lá extrair os argumentos e tentar responder. Comecemos pelos salários. É com satisfação que reparo que jcd nem sequer tenta defender a “proposta” de corte salarial de 15%, feita pelo gestor Pedro Reis do PSD. Será que uma parte da direita intransigente já reparou na aldrabice que circula por aí nesta matéria? Se sim, então continuamos a melhorar. jcd acha que é uma “palermice” dizer-se que “aumentar ainda mais a precariedade é uma das melhores formas de reduzir salários”. No mundo da fantasia “liberal” de jcd, os factos são uma palermice: um estudo encomendado pelo governo indica precisamente que, em Portugal, os trabalhadores precários auferem, em média menos 25%, do que os trabalhadores com contrato sem termo. O que Passos Coelho pretende, tudo o resto constante, é alargar a precariedade: razões atendíveis. Aqui chegamos à Dinamarca, terra do “despedimento livre”, onde a desigualdade salarial é mais de duas vezes inferior à portuguesa. Será que jcd ignora que a Dinamarca tem das cargas fiscais mais elevadas do mundo e dos mais elevados impostos sobre o rendimento? Será que ignora que o Estado social dinamarquês é dos mais robustos, por exemplo em matéria de formação profissional e de apoio aos desempregados? Será que ignora que os arranjos institucionais que favorecem a negociação colectiva centralizada e uma das mais elevadas taxas de sindicalização são responsáveis pela menor desigualdade salarial antes de impostos? Será que jcd alguma vez leu alguma coisa sobre variedades de capitalismo e sobre as complementaridades institucionais que dão coerência aos sistemas económicos e permitem combinar, segundo o economista Richard Freeman de Harvard, igualdade e eficiência? Duvido. Isto são coisas que não se aprendem naquelas faculdades de economia que tendem a não perturbar as jovens mentes com as complexidades dos capitalismos reais e da impureza económica. Agora, será que Passos Coelho ou Sócrates querem fazer reformas no sentido do modelo da chamada “flexigurança”? A avaliar pelos planos de austeridade, com os brutais cortes no nosso relativamente frágil Estado social, duvido. Poul Rasmussen, um dos artífices da coisa, um dia veio a Portugal e lançou o alerta: “Se em Portugal decidem de um dia para o outro cortar a protecção laboral, arriscam-se a que tudo o resto não se chegue a realizar. E os empregos precários tornam-se na regra da economia”. Foi o que aconteceu. Acabo nos impostos. Eu usei os resultados da excelente investigação do jornalista João Ramos de Almeida. Não acho que se deva aumentar o IRC no actual contexto, embora haja margem para aumentar alguns impostos sobre a riqueza. Isto é muito diferente de se pactuar com a fraude organizada. O meu ponto é simples e passa pela aplicação da liberal “rule of law” em matéria de fiscalidade sobre as empresas. A complacência neoliberal com a fraude diz-nos muito sobre as práticas políticas e intelectuais do “liberalismo” a que temos direito no nosso país.

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

29 comentários:
l.rodrigues
Isto é típico.
O capitalismo desregulado pode gerar não interessa quantas crises que os seus defensores não vacilam.

Não parecem perceber que o Keynesianismo é uma versão de capitalismo com mecanismos de estabilização destinados a evitar as ditas crises, e não uma panaceia para tempos de crise. Porque se acreditam nisto, significa que subscrevem como moral e justa a ideia de que os lucros devem ser privados e os prejuízos públicos. E nesse caso temos um problema.

deixado a 11/8/10 às 16:13
link | responder a comentário

Bolchevike
Um general alemão, quando ouvia a palavra «cultura», puxava logo da pistola (e não se pode dizer que o homem estivesse doido!...);

Eu quando oiço um «economista» (um desses patuscos que passam pelas televisões indígenas) fico logo com vontade de cagar....

deixado a 10/8/10 às 23:40
link | responder a comentário

Eles comem tudo

se a malta deixar

deixado a 10/8/10 às 23:48
link | responder a comentário

Não Interessa
Este blog está de aceitar comentários de atrasados mentais da Tasca até responder a broncos como o outro amigo do Blasf. Façam o favor de não atinarem...

deixado a 11/8/10 às 00:13
link | responder a comentário

Rui
excelente post.
Porque será que ninguem fala em acabar com as notas de 500€? É um pormenor, bem sei. Mas porque o não fazem se na economia quotidiana nunca se encontrem?
Outra questão, dado que sou muito burro: porque se fala em baixar salários para aumentar a competitividade, e nunca se questiona a capacidade empresarial para a criação de mais-valias?
Desculpem, mas sou mesmo muito burro.

deixado a 11/8/10 às 00:42
link | responder a comentário

Bolchevike
Rui:

De facto és mesmo um burro.

Não sei se também és loiro...

deixado a 11/8/10 às 01:11
link | responder a comentário

Libertário
Não acham que é de alguma desonestidade intelectual estarem sempre a falar no modelo nórdico como se porventura fosse esse o modelo de defendem?
É porventura esse modelo que defende o Bloco?
Porque é que tentam passar constantemente a mensagem que é um modelo de esquerda?
Parece-me que apenas usam as partes que lhe interessam no jogo demagógico e as que não interessam é como se nem existissem.
Da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Nordic_model">wikipedia</a>:
- Strong property rights, contract enforcement, and overall ease of doing business.
- Low barriers to free trade.
Little product market regulation. Nordic countries rank very high in product market freedom according to OECD rankings.
- Little financial market regulation. Denmark and Finland have the lowest regulation burden in EU-15 according to OECD rankings.
-All Nordics have been pioneers in privatisation alongside competitive public services. For instance, Sweden privatised education with education vouchers in 1992.
-Pension systems are privatised.


Já agora, Portugal está no 49º lugar em termos de liberdade económica. A DINAMARCA ESTÁ EM 12º: http://en.wikipedia.org/wiki/Economic_Freedom_of_the_World

Quer comentar caro João Rodrigues?

deixado a 11/8/10 às 01:25
link | responder a comentário

Rui
Loira. E já agora meretriz, tambem.
Tens alguma coisa contra?
Xauuuuuuuu, anormal.

deixado a 11/8/10 às 01:41
link | responder a comentário

Rui
Já agora, quando dizes cagar, é no sentido de exteroorizar ou de interiozar a morcela.
Parece-me mais o segundo caso.
Bom proveito.

deixado a 11/8/10 às 01:43
link | responder a comentário

Wyrm
Já comentou:

"Será que jcd ignora que a Dinamarca tem das cargas fiscais mais elevadas do mundo e dos mais elevados impostos sobre o rendimento? Será que ignora que o Estado social dinamarquês é dos mais robustos, por exemplo em matéria de formação profissional e de apoio aos desempregados?"

Poderíamos ter isso tudo que elenca, desde que também tivéssemos isto.

Mas isso já dá muito trabalho e é contrário ao que as "elites" portuguesas pretendem para o povo...

deixado a 11/8/10 às 10:05
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador