Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


Estive a ler alguns artigos do livro “Socialismo no século XXI”. Uma iniciativa do economista Duarte Cordeiro, até há pouco tempo secretário-geral da JS e actual director da campanha de Manuel Alegre. Num dia em que se confirma que o desemprego de longa duração atingiu máximos históricos e em que sabemos que o consumo de antidepressivos não pára de aumentar, esta passagem do primeiro capítulo do livro, escrito por Arons de Carvalho e Duarte Cordeiro, parece-me particularmente pertinente: "O mundo parece ter aprendido pouco com esta crise financeira, económica e social, e as soluções de austeridade apresentadas na generalidade dos países aumentarão ainda mais a recessão, o desemprego e as desigualdades sociais. São necessárias novas soluções e os Partidos Socialistas e Social-Democratas devem liderar esse caminho”. O problema é que nos poucos países europeus onde estão no poder estão mas é a liderar o caminho oposto. O contributo de João Ferreira do Amaral, em meia dúzia de páginas, ajuda ajuda a explicar porquê e merece destaque: a social-democracia abandonou a ideia keynesiana de que “o essencial para a obtenção do pleno emprego é manter um alto nível de procura agregada”. Depois de apresentar e descrever os eixos de uma política económica de “esquerda democrática” (como se pudesse existir outra esquerda…) – redução das desigualdades sociais, valorização do trabalho, produção de bens públicos e subordinação do poder económico ao poder político –, Ferreira do Amaral coloca o dedo nas feridas da social-democracia europeia, em especial na grande armadilha em que a social-democracia caiu – a integração europeia realmente existente depois de Maastricht: “Muito mais que um instrumento de regulação da globalização, a União tem-se transformado, pelo contrário, num veículo de transmissão da globalização desregulada até nossas casas. Por isso, não é hoje possível fazer uma política de esquerda na União. Não é possível valorizar o trabalho, porque todo o ajustamento macroeconómico incide negativamente sobre ele. Não é possível regular a maior parte dos mercados de acordo com as necessidades de cada economia (…) Daí também a grande tragédia dos líderes socialistas que se vêm obrigados a seguir políticas à revelia das concepções dos partidos que lideram”. A tragédia é ainda maior: as estruturas europeias e globais favorecem a mutação das próprias concepções dos partidos social-democratas. Pior: há quem chame “modernização” a esta desgraça. A neoliberalização, o esvaziamento em curso, da social-democracia é um problema para toda a esquerda.

por João Rodrigues
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18 comentários:
Rui F
Vicente Lisboa

"Cuba é da esquerda? Mas será democrática?"

Quanto a mim não é democrática porque oprime e não é Socialista.
Porque Socialismo é antes de tudo, liberdade.

Mas digo-lhe...quem a estrangula economicamente há décadas tem uma visão deturpada e obtusa da democracia.

deixado a 19/8/10 às 15:58
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helder
É possível que o autor do livro seja realmente ingénuo.
Mas não foram os lideres de "esquerda" que implantaram/aprovaram este sistema? reconhece que continuam a todo o pano, mas, (coitadinhos) pq não podem fazer nada???

Olha se a "meia dúzia de gandulos" que combateram a ditadura em Portugal fossem da mesma tempera destes eruditos da impotência...

P.S.(os os que tendo lutado essa luta heróica e que andam por este ps ou pelo psd só podem estar ferrugentos).

deixado a 18/8/10 às 22:11
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Bolchevike
Cagai no socialismo do séc.XXI!...

Um bom subterfúgio para os capitalistas continuarem a explorar o povo trabalhador!

deixado a 18/8/10 às 22:20
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Ainda hoje

Bordalo mesmo de barro

tem razões

deixado a 18/8/10 às 22:37
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Oh Rodrigues,

Você é um gajo com piada. Essa do

"O mundo parece ter aprendido pouco com esta crise financeira, económica e social, e as soluções de austeridade apresentadas na generalidade dos países aumentarão ainda mais a recessão, o desemprego e as desigualdades sociais. São necessárias novas soluções e os Partidos Socialistas e Social-Democratas devem liderar esse caminho" é de partir a moca a rir. É como dizer que o ensino do inglês tem que melhorar e o Zezé Camarinha devia liderar esse caminho. Ou como o Santana Lopes deve liderar a divulgação da música clássica. Ou...

deixado a 18/8/10 às 23:23
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LFM
"...a grande armadilha em que a social-democracia caiu – a integração europeia realmente existente depois de Maastricht..."

"Por isso, não é hoje possível fazer uma política de esquerda na União. Não é possível valorizar o trabalho..."

"Daí também a grande tragédia dos líderes socialistas que se vêm obrigados a seguir políticas à revelia das concepções dos partidos que lideram."

"A tragédia é ainda maior: as estruturas europeias e globais favorecem a mutação das próprias concepções dos partidos social-democratas."

Realmente, é tudo uma grande tragédia. Os PS's e similares por essa Europa fora foram "forçados" a aderir às políticas neo-liberais e, coitados, não se conseguem libertar. Será que também andam a anti-depressivos?

deixado a 19/8/10 às 00:49
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António
Caro concidadão

Trago uma questão social real e concreta:
Todos os dias incontáveis refeições completas são deitadas fora nos refeitórios das empresas ( para não falar em supermercados, restaurantes, etc ); a isso obriga a lei, por razões de saúde pública.
Ao mesmo tempo - e com tendência para piorar -, muitos portugueses têm fome..!
Não deveria ser possível escrever-se numa mesma frase, Lei de Saúde Pública - Desperdício Alimentar - Portugueses com Fome.
Porque confortáveis na nossa abundância, perdemos de vista o mundo real.

A partir daqui podem-se tomar duas atitudes:

1 - "Pois é, é a lei; olha que maçada mas, não se pode fazer nada".
Só que ao fazerem-se leis super rígidas e politicamente correctas, no tampo da secretária, ninguém se lembrou de consequências possíveis como esta.

ou então


2 - Alterar-se/adaptar-se a lei ( feita por homens e para os homens ), de modo a permitir que todo esse alimento em perfeitas condições, seja verificado, acondicionado, transportado e distribuído a quem precisa.
Esta é a única opção decente e civilizada; não nos podemos render à burocracia e à falta de humanidade. Temos de reagir.
Temos de ser mais exigentes connosco próprios enquanto cidadãos e com quem nos representa e governa.

Vantagens na alteração da Lei :

1ª Social - Esta não precisa de grandes floreados nem considerações, pois pode eliminar de alguma forma, com a fome que assola muitos portugueses., dando-lhes alento e esperança num melhor futuro, especialmente nesta fase de descrença.

2ª Económica - Ao aproveitar as incontáveis refeições que sobram todos os dias, as várias associações ( estatais ou não ) poupam muitos recursos financeiros, que poderão ser utilizados para outros fins. Um desses fins, poderá ser empregue no uso de carrinhas preparadas para o transporte dos alimentos e para os técnicos que verificarão a necessária qualidade desses alimentos.


3ª Exemplo Cívico - Será um excelente exemplo cívico, dado aos cidadãos deste País e uma boa publicidade que Portugal passará para o Estrangeiro. Além disso, quem contribuir para o êxito desta operação, sentir-se-á muito recompensado pela acção tomada. E voltará alguma confiança e esperança por parte dos portugueses, em quem os representa e governa.

Posto isto, criei e envio uma Petição Pública chamada Desperdício Alimentar e gostaria que a lesse, caso concorde assine e a divulgue com toda a sua alma lusa.
Também coloquei aqui no Facebook um grupo chamado ACABAR com o DESPERDÍCIO ALIMENTAR, ao qual gostaria que aderissem e participassem com ideias, críticas e sugestões.
No fundo, o que todos pretendemos é um Portugal melhor.

Cumprimentos,

António Costa Pereira
cidadão português


A sua petição está alojada em:
http://www.peticaopublica.com/?pi=Cidadao

deixado a 19/8/10 às 01:37
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Rui F
Já li parte do livro parei (pausa) ao começar a ler a parte de Pedro Adão e Silva.

Há uma coisa que deveria ficar esclarecida de uma vez por todas: Onde acaba o Socialismo e onde começa a Social-democracia ou vice-versa, e onde encaixa o Capitalismo (se é que deve encaixar) tendo em consideração que este possui várias caras como o Socialismo.
Isto parece fazer comichão a muita gente de Esquerda, mas temos que começar por aí.

Será a Social-democracia apenas a institucionalização do “Estado Social” do Socialismo?
Será o Socialismo apenas o braço esquerdista da Social-democracia das políticas públicas?

Para uma politica de Esquerda, quanto a mim deveríamos começar discutir esta “dicotomia” e abrir o leque.

Uma coisa é certa: o Socialismo (ou Social-democracia) que chegou ao poder deixou-se Neoliberalizar afectando mais uns países do que outros. Em Portugal foi trágico.

Convêm igualmente relembrar: após a Morte de Sá Carneiro (um Social-democrata Burguês), jamais o PPD/PSD, cheirou a Social-democracia.

deixado a 19/8/10 às 09:31
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Rxc
Recentemente tomei conhecimento dum caso duma pequena pastelaria familiar, onde só trabalha o casal. Ora depois duma visita da nossa estimada ASAE, ficou a saber que a lei obriga o estabelecimento a ter duas casas de banho, assim como um escritório, este também com uma casa de banho. O proprietário lá teve de arranjar uns milhares largos de euros para cumprir com a lei, sob pena de ter de fechar portas e resignar-se a trabalhar para outrem.
O escritório lá está, fechadinho à chave e sem nada dentro, pois a sua utilidade é ZERO (deu jeito para o Estado embolsar mais uns milhares de euros em impostos e licenças e para o empreiteiro). A segunda casa-de-banho idem.

Para cúmulo, teve também de criar uma zona de "estufa" pois o produto (bolos) não pode ir para a rua directamente (pode apanhar um resfriado e isso seria desumano)! O "problema" é que vai logo porque tem de ir, pois felizmente a saída é grande e o movimento continua em alta. Logo, mais uma inutilidade que nada fez para aumentar a sua produtividade (antes pelo contrário).

Deve ser isto mesmo um Estado neo-liberal...

deixado a 19/8/10 às 09:38
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PedroM
"uma política económica de “esquerda democrática” (como se pudesse existir outra esquerda…)"
Perdão? Pode explicar melhor? Quer dizer que:
- Não há nem nunca houve "esquerda totalitária"?
- Presumo que, por coerência, aplique o mesmo raciocínio à direita: "uma política económica de “direita democrática” (como se pudesse existir outra direita…)"?

deixado a 19/8/10 às 12:47
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