Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


LR do blasfémias anda embevecido com o sucesso do modelo asiático de crescimento. Miguel Madeira, do já imprescindível vias de facto, temperou a excitação com um pouco de bom senso empírico. Aliás, é com interesse, mas sem surpresa, que  tenho visto muitos “liberais” seduzidos pela combinação duradoura de autoritarismo político e de capitalismo em desenvolvimento na China. No entanto, creio que este entusiasmo é mais o produto de um mau esforço de propaganda do que o resultado de uma análise das características da formação social chinesa, uma opaca combinação de diversos modos de produção, ou do modelo asiático, assente na ideia do Estado desenvolvimentista. O que é que os liberais apreciam no original híbrido económico chinês? A complexidade e dispersão dos diversos direitos de propriedade, por exemplo da terra, ao arrepio de todas as cartilhas? A correspondente facilidade com que o Estado pode desenvolver as infra-estruturas do país? O controlo estatal quase total do sector bancário (a banca pública representa mais de 80% do total)? O controlo de capitais, típica política desenvolvimentista, que permitiu, por exemplo, escapar à turbulência financeira do modelo liberal? Os fundos de investimento soberanos, que andam por aí a comprar empresas e títulos da dívida pública, um instrumento de política industrial e de influência diplomática? As políticas industriais agressivas de inserção internacional, típicas do "Milagre Asiático", com muitos subsídios e exigências de transferência de tecnologia, que muito teriam orgulhado List e que são apontadas pela tradição do “mercado governado”, substituídas, depois da adesão à OMC, por uma política cambial deliberadamente calibrada, controlada publicamente para desvalorizar a moeda e assim aumentar a competitividade das exportações? A forma como a China sempre recusou o Consenso de Washington e de como replicou o modelo do Estado desenvolvimentista asiático? A recente política de estimulo económico, assente no investimento público e no aumento das despesas sociais, acompanhada, entre outros países, pela Coreia do Sul e que muito satisfaz os keynesianos? A lenta reconstrução da provisão, publicamente suportada, de saúde depois do desmantelamento da boa herança comunista nesta área, desmantelamento que muito contribuiu para a compressão do consumo interno de que agora muitos se queixam e para a relativamente medíocre evolução dos indicadores de saúde depois da década de oitenta? Talvez tenham apreciado os esforços teóricos para inserir a classe empresarial no partido único de vanguarda? Talvez os adeptos da pureza económica liberal se tenham convertido ao pragmatismo e experimentalismo económicos chineses, que muito agrada aos pragmatistas na economia política do desenvolvimento? Não. Talvez gostem mesmo é da repressão do movimento operário independente, mas que apesar de tudo se afirma, e que constitui uma grande esperança para todos os que acreditam nas virtudes da acção política autónoma das classes trabalhadoras?

por João Rodrigues
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8 comentários:
Bolchevike
Na China o capitalismo selvagem é rei.

Nem no tempo do Faroeste americano havia tanta exploração e luta pelo capital.

Actualmente, os EUA estão para a China como na década de 80 a gloriosa ex- URSS estava para os EUA!

Eu se tiver que optar por um paraíso socialista, não terei dúvidas em optar pelos EUA.

Para a China capitalista, monopolista e exploradora de mão-de-obra nem morto!

Nos EUA os sindicatos são muito fortes e não se compara com a palhaçada dos sindicatos europeus que estão caquéticos e enfeudados ao poder politico.

deixado a 20/8/10 às 00:59
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João Moreira
O que agrada na China aos liberais portugueses é o simples facto de esta ter sido outrora um Estado socialista e prosseguir hoje um caminho de reinstauração do modo de produção capitalista. É-lhes irrelevante se o fazem com mais ou menos peso do Estado na banca, com mais ou menos corrupção, menor ou maior uniformidade da legislação fundiária, melhor ou pior sanidade das liberdades civis. Tudo o que importa é que a China «infirma», pela sua prática, a «viabilidade» do socialismo. Isso para eles é tudo.

deixado a 20/8/10 às 01:30
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Wyrm
Bom, já é certo e sabido que os nossos liberais não gostam exactamente de liberdade.

Qualquer país é "livre" a partir do momento em que exista uma elite económica protegida pela elite politica e militar.

Olha afinal não tenho razão. Eles gostam mesmo da liberdade. A deles, desde que haja uma imensidão de farrapos humanos dóceis e obedientes para trabalhar nos seus campos, fábricas e escritórios...

deixado a 20/8/10 às 11:55
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l.rodrigues
"Eles vivem", de John Carpenter

Lembrou-me. :)

deixado a 20/8/10 às 17:55
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Leonel Nogueira
eles ainda não aprenderam o que significa a palavra sustentável. o crescimento económico da China não é um crescimento económico sustentável. (há facturas ambientais a pagar que não pagam agora mas vão ter de as pagar)

não consigo entender como é que um sistema económico pode ser bom quando não se traduz em qualidade de vida e não contribui de forma efectiva para um mundo melhor.
http://www.newsweek.com/2010/08/15/interactive-infographic-of-the-worlds-best-countries.html

eles muitas vezes jogam sem regras de honestidade e de humanidade e não queremos ver porque não somos nós os criminosos e por enquanto só nos traz beneficio (aparente).
julgo que não faz sentido imaginarmos-nos com o mesmo modelo mas faz sentido bajula-los.

deixado a 21/8/10 às 02:50
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Wyrm
Mas onde estão os "liberais"? Nem um vem aqui defender a dama? :D

deixado a 22/8/10 às 02:40
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GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
O liberalismo exige uma dose brutal de responsabilidade individual e de auto-determinação que a educação hodierna não favorece.

É normal que em todo o mundo impreparado para esta realidade esta ideia faça muitas vítimas.

Não vitimizem a ideia vitimizem quem não se pretende preparar para ela num mundo global.

deixado a 22/8/10 às 17:03
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GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
Para ter a liderança estatal da economia chinesa a funcionar precisa de duas coisas que não tem em Portugal:

- Gente competente

- Gente que tem orgulho no seu país.

deixado a 22/8/10 às 17:07
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