Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010
por João Rodrigues


Ao criticar a pertinência de mais uma desastrosa ronda de privatizações, no que é acompanhado por amplos sectores, Manuel Alegre revelou uma percepção aguda do lugar dos bens comuns da república que também cabe a um Presidente preservar, até porque são as bases da possibilidade do que já designou por “Estado estratego”. Alegre tem anunciado claramente os valores da sua candidatura: republicanismo, ancorado numa visão exigente dos direitos de cidadania, onde se incluem os direitos laborais; socialismo, ancorado no ideal de justiça social concretizado pela existência de serviços públicos de acesso universal; intensificação da democracia, em particular na sua dimensão participativa; combinação de patriotismo, europeísmo e cosmopolitismo.

Aliás, Manuel Alegre teve o mérito de ter recusado, nas suas várias práticas, o triste destino dos que seguiram um roteiro pensado pelos adversários da social-democracia como força de reforma substancial do capitalismo, sejam estes intelectuais ordoliberais alemães ou economistas do “Consenso de Washington”. Um roteiro que conduziu a esta crise e à impotência de uma União Europeia quase sempre reduzida a uma máquina antidemocrática de construir mercados nos espaços onde deve vigorar a lógica da solidariedade que impede, por exemplo, que o trabalho seja de novo reduzido ao estatuto de mercadoria.

Este último ponto foi ontem mais uma vez sublinhado por uma oportuna intervenção de Alegre, denunciando o antidemocrático exame prévio europeu aos orçamentos nacionais: a UE existente é o poderoso esteio politico dos agentes que dominam os mercados financeiros liberalizados, os que erodem a escolha democrática, para grande satisfação de uma direita que só gosta de democracias limitadas ou suspensas. A diferença entre a Alegre e a mal disfarçada economia política e moral de Cavaco e dos seus economistas do medo é evidente.

Apesar disso, há quem ande incomodado com o “candidato de Sócrates”: as más companhias temporárias são pouco relevantes quando o que está em causa é a construção de uma maioria que eleja um Presidente da República de esquerda e, seja como for, as companhias, as boas ou as más, nunca definiram a justeza de uma posição politica: trata-se também de atenuar o maldito enviesamento de direita na política portuguesa. Espero que nos juntemos todos – social-democratas, socialistas, comunistas e outros democratas – na segunda volta das presidenciais. Optimismo da vontade. CCB, no próximo sábado, pelas 18h30m.

por João Rodrigues
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41 comentários:
Oliveira
O Sócrates também diz que é pelo "Estado Social".
Aliás, tem aproveitado a revisão constitucional apresentada pelo Passos Coelho para o demonstrar.
E o João Rodrigues também acredita que o Sócrates é contra uma "democracia limitada" (seja lá o que isto seja, é tudo escrito no abstracto).
Podes dar todas as piruetas mas o BE apoia-lo é um erro crasso e vai paga-lo infelizmente caro.

deixado a 10/9/10 às 00:28
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E não só:

http://lishbuna.blogspot.com/2010/09/como-se-esperaria-de-um-candidato.html

deixado a 10/9/10 às 00:50
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da Maia
Alegre teve a confiança dos portugueses como alternativa. Teve uma expressão eleitoral que só a aritmética milimétrica não permitiu seguir para 2ª volta.
Teve confiança e motivo para refundar um PS verdadeiramente de esquerda... não quis! Nem quis fazê-lo no que poderia ser um natural alargamento do Bloco.
Deixou cair das urnas essa expressão, que tomou como um ajuste de contas pessoal com Soares.
Não se calou durante alguns tempos, até se calar... até desfilar em campanha, num apoio de que depois recebeu troco. Alegre não quer existir para além do PS... não será o PS que quer, mas a fidelidade clubista torna-o cúmplice silenciado.
Afinal, poderá ter querido apenas o mimo pessoal de ser o seguinte a Soares, lugar roubado por Sampaio.
Os detalhes discursivos, são arremessos vagos aos lugares comuns... lugares comuns que em tempos significaram alguma coisa, e hoje sabemos serem pura retórica.

A alternativa política que Alegre representou, que passa para além dos invisíveis movimentos de bastidores partidários, só tem hoje um rosto:
- Fernando Nobre.
Será um Fernando Nobre propositadamente esquecido, até que seja impossível ignorá-lo, e nessa altura só espero que ele esteja à altura de não cometer erros... o resto será natural, a menos que a sentença seja proferida antes que se abram as urnas, e nem seja preciso contar!

deixado a 10/9/10 às 01:01
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José R.
Vale o que vale, mas a sondagem que vi há um pouco, na SICN, colocava o PSD de novo atrás do PS.
A deriva ultraliberal do, provavelmente, pior líder que o PSD já teve, dá-lhe agora estes dois castigos: 1. Voltar ao segundo lugar; 2. Estar atrás do Sócrates.
É assim uma espécie de dois em um.
Ele próprio é uma espécie de dois em um: primeiro, as suas ideias políticas, que alguns dizem que são novas (esta, diverte-me); segundo, ainda por cima farta-se de dar tiros nos pés - nas pessoas que vai escolhendo e no discurso que lhe falha. Enfim, um bluf político.

deixado a 10/9/10 às 01:15
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Rui F
Pois é...

Oxalá o Bloco não se férre!
As ultimas sondagens não são animadoras: o PS sobe e o Bloco desce.


Sócrates é um “miserável” engenheiro civil que deixa toda a classe envergonhada, mas é muito hábil politicamente e vai seguramente aproveitar-se do BE com Alegre e apelar pela “enésima” vez ao coração da Esquerda, e pela milésima vez, continuar a sua escalada liberal, fragilizando ainda mais a nossa pequeniiiiinnnaaa economia “escancarada” aos predadores.
E assim passa a perna a todos: os mais aptos liberais à séria, são realmente os do PSD.

O PS deixa mal visto o Socialismo e faz um liberalismo de meninos de couro.
O Facto é que sem ter jeito para fazer coisa alguma – safa-se a política energética – o PS vai passando a perna TODOS.

deixado a 10/9/10 às 01:46
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bolchevike
Como disse o primeiro comentador, o Admirável Sócrates também é pelo «Estado Social», pelo casamento gay, pelo divórcio on-line e por toda essa fracturância tão ao gosto dos apoiantes do Sr. Manuel Alegre.

Muita malta ainda não compreendeu que o «apoio» oficial de Sócrates a Manuel Alegre foi um verdadeiro presente envenenado.

O Manuel Alegre se quisesse vir a ser PR nunca teria aceite os apoios «oficiais», nem do PS, nem do BE.

Com estes «apoios» a candidatura de Manuel Alegre já morreu na praia.

deixado a 10/9/10 às 01:53
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nim.petinga
Joao, lamento informar-te que estas expressoes de duas palavras que insistes em usar estao a virar cassete.... e' que ja nao da mais para ouvir o "estado estratego", o "optimismo da vontade", os "economistas do medo". e' uma versao ma' (muito ma' mesmo) do sempre vazio obamismo.

ps: e MA e o codigo laboral. vais justificar o teu apoio a um candidato que apoiou o codigo laboral ou vais continuar a sacar chavoes e a assobiar para o lado?

deixado a 10/9/10 às 09:02
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j
É isso tudo. Sò é pena o governo dele estar a fazer tudo ao contrário do que ele vem dizendo. E só é pena ele ter estado envolvido como deputado no Governo que fez rebentar com todas e quaisquer veleidades de estado social ou soberania nacional face a UE.

"Faz o que eu digo, não faças o que faço"!

deixado a 10/9/10 às 09:11
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[...] Para que Manuel Alegre pareça ao menos keynesiano. [...]

deixado a 10/9/10 às 10:20
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Nuno
mas eu não ouvi o candidato alegre falar mal do PEC...

deixado a 10/9/10 às 10:29
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