Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
por João Rodrigues


As alternativas democráticas a partir de “baixo”, que Miguel Madeira tão bem defende em artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa, precisam de alternativas vindas de “cima”. O Estado é um campo em disputa e pode, haja força politica e boas razões, estar ao serviço dos de baixo, sendo capaz de exercer muitas funções económicas com relativa eficácia, como apoiar o financiamento das suas iniciativas empreendedoras, e assim contrariar a discriminação no acesso ao crédito, que bloqueia tantos projectos cooperativos. Se queremos superar a separação entre baixo e cima podemos também apostar na defesa das políticas sociais universais. É que as políticas para pobres tendem muitas vezes a ser pobres políticas, para invocar o suspeito Milton Friedman, e por isso devem ser secundárias no quadro do Estado social. A experiência mostra que os serviços públicos e apoios sociais, financiados por impostos progressivos e acessíveis a todos os cidadãos sem barreiras de preço ou outras, são, paradoxalmente, mais redistributivos, estão politicamente mais protegidos porque todos deles tendem a beneficiar, exigem menos custos administrativos com fiscalizações intrusivas dos “pobres merecedores”, fazem menos exigências à administração em termos de conhecimento e ajudam a evitar armadilhas sociais à portuguesa; “equilíbrios baixos” em que a desigualdade e a desconfiança sociais se reforçam mutuamente. Coisas que tenho aprendido com estudos empíricos sobre os modelos de Estado. Precisamos do espírito da igualdade, a que o Daniel já aqui aludiu. Ao contrário do que pressupõe o deslocado e estranhamente a-histórico essencialismo de Rui Ramos no Expresso desta semana, o Estado é muito mais variado e plástico. Tem diversas naturezas, digamos. Tudo depende dos blocos sociais que definem as políticas. Aliás, o que Rui Ramos, sem se preocupar com a evidência sobre estes assuntos, diz sobre o Estado necessariamente punitivo e vigiador dos pobres aplica-se sobretudo ao tipo de Estado guarda-nocturno para o século XXI que Rui Ramos, ideólogo de Passos Coelho, anda por aí a defender.

por João Rodrigues
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2 comentários:
Platão
Bom artigo! É preciso insistir nas análises sobre o funcionamento de um verdadeiro estado social, onde impere o espírito de igualdade. É preciso continuar a desmontar os motivos ideológicos dos que defendem o modelo económico-social vigente, à custa da instauração de desigualdades cada vez mais gritantes, como se não houvesse alternativa. Cabe ao Homem mudar o que não funciona, criando alternativas mais adequadas ao Bem comum, já que não há modelos absolutos em política e em economia, como de resto noutras matérias. Só que isto não é, evidentemente, compatível com a defesa dos interesses privados de alguns. A retórica ao serviço da demagogia e da corrupção todos os dias ajuda os políticos da situação e seus boys a convencerem quem não pára para pensar. Lutar contra a corrente é um serviço público fundamental. Ainda bem que o faz.

deixado a 28/9/10 às 00:20
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enfim enfim .. If all the trees in all the woods were men; And each and every blade of grass a pen....muito qual é a palavra
idílico?

deixado a 28/9/10 às 02:31
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