Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010
por João Rodrigues


Para não dizerem que, bem acompanhado pelo Jorge Bateira, só me meto com a cabo dos planos inclinados: ontem a RTP1 anunciava que Silva Lopes, Cantiga Esteves e João Salgueiro iam “explicar” as medidas de austeridade. Explicar? Não devia ser debater? Já tinha a minha dose de economia do choque e do pavor, tinha de trabalhar, não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo, conheço muito bem os personagens, já passei muitas horas a ouvi-los e a lê-los (Silva Lopes) e por isso não assisti à explicação. Imagino: um disse cortes mais cedo, o outro cortes agora e o outro inovou e disse machadadas? Talvez Silva Lopes tenha sido um pouco consistente e introduzido algum bom senso lembrando a Irlanda? Contem-me lá. Quero ser surpreendido.

Bom, a banca e outros interesses poderosos estão sempre bem representados na TV: o mais eficaz aparelho ideológico. A economia e o conhecimento é que nem por isso. A avaliar pelo sítio ISEG, todos temos muito a aprender com o Professor Cantiga Esteves, que tem o estranho hábito de não escrever nada. No entanto, diz coisas bizarras. Lembram-se do que o Daniel escreveu sobre os Ernâni Lopes e os Campos e Cunhas desta vida? Convenceu-me. É preciso chamar as coisas pelos nomes e abandonar as alusões vagas, exemplificadas na minha crónica sobre os consultores do capitalismo do desastre. Os do lobby da banca e dos especuladores, ou seja, dos “mercados”, o seu nome de código. Isto sim é serviço público.

O facto de as estrelas do jornalismo televisivo terem hoje níveis de remuneração que as aproximam dos círculos do privilégio económico também ajuda a esta festa ideológica. O serviço público de televisão é exemplar a esse nível. Enfim, a cobertura destes temas com a objectividade possível ainda se pode encontrar nos jornais, feita por economistas que são jornalista profissionais: "Governo corta rendimento real a mais de 3,5 milhões de pessoas"; "Mais impostos. Bancos ficam com a menor fatia do esforço"; "Seis em cada dez euros do esforço de contenção orçamental serão pagos por toda a população".

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

22 comentários:
Luís Bernardo
O problema não é as estrelas do jornalismo televisivo terem hoje níveis de remuneração muito altos. O problema é que, em muitos casos, as muitas notas que recebem são, em muitos casos, directamente proporcionais à ignorância que revelam

deixado a 1/10/10 às 23:29
link | responder a comentário

LFM
Realmente, a acreditar no site do ISEG o professor Cantiga não tem nada publicado nem tem currículo! Apenas um contacto.

deixado a 2/10/10 às 00:04
link | responder a comentário

da Maia
Já escrevi sobre isso, no #14 daqui:
http://arrastao.org/sem-categoria/a-caixa-que-adormeceu-o-mundo/

aqui fica de novo:
----
O Silva Lopes teve a coragem de dizer uma coisa óbvia, mas que por ser tão raramente dita, passa já por audaciosa – a não diminuição das altas reformas/pensões/comendas.
E com isso falou contra si próprio, coisa rara, e que merece nota de destaque.

Há todo um jogo de empurra… da direita que omite, à esquerda que distrai… com lucros dos bancos, e coisas afins – igualmente graves, é certo.

Achar que se há reduções em salários acima de 1500€ deveria ser acompanhado de redução de pensões acima de 1500€, no mínimo… parece ser um raciocínio evidente, mas proibido.

Ao menos, o Silva Lopes falou disso, ainda que tenha deixado logo o João Salgueiro aflito, e a ter que improvisar uma interrupção dizendo que o problema não era só esse…

Cada vez é mais claro que o problema é só esse – são os favores pagos em reformas chorudas, que condicionam as posições submersas… e que junto com as ameaças veladas, tornam o mundo da TV num espectáculo de marionetas.
----

deixado a 2/10/10 às 00:09
link | responder a comentário

o arrastão também é duma fundação?

a da historiografia das pescas e coisas afins?

deixado a 2/10/10 às 02:46
link | responder a comentário

Caríssimo amigo João Rodrigues,

Com efeito, a televisão como aparelho ideológico está cada vez mais na ordem do dia com o arrogar-se do pensamento único, daí torna-se necessário libertá-lo destes perversos mecanismos de controlo com que os oligopólios molestam as actividades produtivas.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrão. blogs.sapo.Ptt

deixado a 2/10/10 às 02:58
link | responder a comentário

Rui F
Uma definição de explicação:
“Massacrar” que ouve, até vencer o interlocutor pelo cansaço

deixado a 2/10/10 às 12:05
link | responder a comentário

A C da Silveira
O Silva Lopes talvez por má consciencia, uma vez que foi sempre um dos maiores entusiastas do Socrates, anda a falar nos cortes das grandes reformas, tendo sempre o cuidado de referir que fala contra ele. Não vi o debate em questão, mas já o ouvi referir esse assunto varias vezes.
As reformas acima dos 1500 euros não foram contempladas agora, mas selo-ão no proximo anuncio de mais medidas de austeridade daqui por uns meses. Fiquem descansados.

deixado a 2/10/10 às 12:16
link | responder a comentário

da Maia
... pesca de gold-fixes?

deixado a 2/10/10 às 12:26
link | responder a comentário

andré
Façam como eu não vejam!
www.cartasdaprovincia.blogspot.com

deixado a 2/10/10 às 13:01
link | responder a comentário

Antonio Cunha
e correspondem aos anseios dos telespectadores.

lá está o velho problema, a culpa nunca é do povo.

deixado a 2/10/10 às 13:47
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador