Domingo, 24 de Outubro de 2010
por João Rodrigues


"Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada 'mercados'.

As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como 'ditamole'.



Os sinais mais preocupantes da atual conjuntura são os seguintes. Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população ativa; em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634 836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer o suicídio.

Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores - dominam os media como em nenhum outro país europeu - para quem o Estado social se reduz a impostos: os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer 'à choldra dos hospitais públicos', não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões. O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível.

Terceiro, Portugal transformou-se numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais. Fazem outro sentido os atuais juros da dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projeto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro e em breve, aquando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projeto europeu acabou.

Inverter este curso é difícil mas possível. Muito terá de ser feito a nível europeu e a médio prazo. A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta! Ao fascismo difuso instalado nas suas vidas, reaprendendo a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projeto alternativo de Manuel Alegre."

Boaventura de Sousa Santos

por João Rodrigues
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28 comentários:
Panzermayer
Magnífico texto!!! Uma análise brilhante da nossa história e da nossa vida actual explicada de forma coerente e racional. Posso não concordar com a solução final mas o diagnóstico é incrível...

deixado a 24/10/10 às 17:10
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Daniel
"A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada ‘mercados’."

Que disparate, desde o final dos anos 90 que falam da emergência dos "estado-mercado" e da decadência do sistema westfaliano. Pesquisar "FuKuyama" e "Philip Bobbitt".



"Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores"

Demagogia ou desconhece os paradigmas do Estado Social...


"O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político"

Termos banais, vagos, ocos, vazios, em suma uma soma de chavões típicos de alguém que fala sem conhecimento da matéria. Em Portugal é preciso ter cuidado com os intelectuais oportunistas.....

deixado a 24/10/10 às 18:03
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Ditadura camuflada, ou ditamole, o lema dos pseudo "mercados" acaba por ser:

"Podem ter as opiniões ou decisões que quiserem... desde que sejam iguais às nossas."

...e nós estamos cá para sermos independentes... dependentes deles :P

Se puderem, dêem uma olhadela no blog dos meus cartoons
http://cartunesblog.blogspot.com
http://www.zazzle.com/cartune

Obrigado e um abraço.

deixado a 24/10/10 às 18:01
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“Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas "

João,

Estamos FRITOS.

Se num espaço politico como é o Arrastão é o que se vê, onde mesmo sentados as pessoas reagem como reagem, acha que levantar o ku de onde se está e agir de facto faz algum sentido???

O DO disse ontem e bem, que o caso de França é todo uma nação em movimento e o que fazem passar??? Meia duzias de palermas a incendiar carros.

Desmontar este estado de coisas podia ser feita em espaços deste mas...

Vou repetir, estamos FRITOS.

Digo-o com tristeza João, tristeza de ver gente nova apatica, amorfa embalada em catilenas sem sentido onde o futil se subrepões ás nessicidade basicas.

Um abraço

deixado a 24/10/10 às 18:53
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AA
Que banalidade de homem. Eu ainda sou do tempo em que as pessoas se riram da Junta de Salvação Nacional proposta pelo tal tipo monárquico que também quer ser presidente... como é que ele se chamava?

deixado a 24/10/10 às 18:36
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José R.
Ora, aqui está tudo explicadinho!
E o problema é mesmo esse. Muitos seres não produtivos acham que tudo funciona melhor se o Estado meter o dinheiro nas suas mãos para eles pagarem a quem trabalha, depois de retirarem sem trabalho o seu quinhão.
Por exemplo, um cidadão necessita de um médico. O Estado paga ao médico para curar o cidadão, com as receitas dos impostos. Gritam os sempre os mesmos contra o Estado, dizendo: ponham-nos o dinheirinho nas mãos que a gente paga ao médico (depois de tirar-nos a nossa parte pelo trabalho de ter o dinheiro, claro!)
Fica-se assim com o mercado a funcionar e, ao mesmo tempo, com menos Estado. Claro que será ainda melhor se o "mercado" chegar a todos os "produtos" apetecíveis.
E desta maneira os liberais vivem obcecados com o dinheirito do Estado.
Porquê? Porque os cidadãos têm a "ditamole"!

deixado a 24/10/10 às 18:40
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barlavento
Quando um sistema não consegue criar dimensão, de evoluir no seu meio, morre. E não é drama nunhum; é o que acontece na metamorfose, e a Natureza é a nossa matriz.

deixado a 24/10/10 às 19:37
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Mas há algo nesta ditamole que não destoa da anterior ditadura; a propaganda das virtudes da pobreza resignada. Já recomeçou e afigura-se auspiciosa, pelo menos por alguma coisa que se vai lendo por aqui.

Amocha, tuga, e aplaude, não te esqueças.

deixado a 24/10/10 às 19:43
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Portanto o Boaventura acha que entre 74 e 2010 vivemos "um luminoso mas breve interregno democrático" !

Ninguem diria !!!

deixado a 24/10/10 às 19:45
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Estás Frito e vais continuar,

porque o oposto deste estado de coisas, não é uma ditadura comunista ou um regime de extrema-esquerda.

Acorda meu, a malta nova já não vai em cantigas...

deixado a 24/10/10 às 19:47
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