Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
por João Rodrigues
“De tudo o que se lê, ouve ou se tevê, fica a impressão de que Portugal seria governado por génios caso não houvesse eleições...”

José Medeiros Ferreira

Não se trata tanto de prescindir de eleições, mas sim de anular os seus efeitos, garantindo a adopção de políticas que dificilmente seriam aprovadas numa disputa democrática. É por isso que os génios da economia suspiram pelo FMI. Na realidade, hoje o FMI limita-se a dar cobertura à União Europeia, ou seja, ao eixo franco-alemão que comanda o fundo europeu. Muito conveniente politicamente para impor as chamadas “reformas estruturais”, de que fala o economista Pedro Santa-Clara (PS-C), detentor da cátedra Millenium-BCP de finança da Nova, um dos que anseiam pelo FMI, no Público de anteontem. PS-C nem sequer apresenta ou defende as tais “reformas estruturais”. Não é preciso. Basta referir Borges e Blanchard do FMI. É o famoso argumento de autoridade.

As inanidades interesseiras do primeiro sobre o sistema financeiro são conhecidas e o Jorge Bateira já as escrutinou. Os resultados da sua vitória estão neste gráfico: passagem de um sistema financeiro administrado para um sistema financeiro liberalizado igual a recomeço das crises financeiras. Uma maravilha da melhor economia ortodoxa. O segundo, que já aqui critiquei, defende cortes salariais profundos em Portugal, um país onde o salário mediano é pouco superior a 700 euros e onde a evolução dos salários reais tem estado, a custo, alinhada com a evolução da produtividade, não contando com as abismais desigualdades salariais que tornam isto enganador.

É para assegurar os cortes salariais continuados que serve a fraudulenta retórica da rigidez do mercado de trabalho: medo, desigualdades e maior poder patronal para transferir custos sociais para os trabalhadores da base. PS-C declara que o FMI anda muito preocupado com o crescimento desde a crise asiática. É verdade que a desastrosa realidade tem alguma força e que o FMI, perante o abismo económico, defendeu uma politica de estímulos para as economias dos seus principais accionistas e até, heresia, sugeriu que os controlos de capitais, que, felizmente, se generalizam, poderiam ter alguma utilidade para os países em desenvolvimento. Sinais contraditórios, como sublinha a economista Ilene Grabel num excelente artigo.

No entanto, não nos deixemos enganar pelos economistas austeritários. A Grécia é invocada. Da Grécia ao Leste Europeu, o FMI tem precisamente ajudado a UE a impor as mesmas receitas de sempre com os mesmos resultados de sempre para os países que não pesam na estrutura accionista do fundo: brutal austeridade assimétrica, desemprego de massas e captura pelo capital financeiro das partes apetecíveis da economia. Nada que já não esteja a ser posto em prática em Portugal com todo o afinco. Mas esta gente nunca está satisfeita. A chamada doutrina do choque quer trancar as conquistas orçamentais da economia do medo para sempre.

Que fazer? Resistir colectivamente, roubar a expressão reformas estruturais e passar à ofensiva à escala europeia e nacional: controlo público dos capitais e do crédito, política industrial, direitos laborais e poder para os sindicatos, maior progressividade fiscal. Há tanto a fazer para civilizar e modernizar a economia.

Publicado no Ladrões de Bicicletas

por João Rodrigues
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23 comentários:
A do mercado laboral não ser rígido é de bradar aos céus. Só mesmo aqui.

Aliás, se existe ponto comum nas críticas que têm sido feitas a Portugal deste há muito, seja de organismos nacionais, europeus ou mundiais, é precisamente o código laboral.

Só no Arrastão é que um mito.

deixado a 8/11/10 às 15:46
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"passagem de um sistema financeiro administrado para um sistema financeiro liberalizado igual a recomeço das crises financeiras"

A sério Rodrigues??!?!? Assim como "crescimento económico" implica "crises"?!?!? Uau, quando for grande quero ser um filósofo da economia...

deixado a 8/11/10 às 16:20
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“De tudo o que se lê, se ouve, ou se tevê, fica a impressão de que Portugal seria governado por génios, caso não houvesse eleições…”

Eu diria mesmo, Portugal seria governado por génios caso não houvesse eleições e os que dissessem mal dos "génios" fossem presos e torturados!

Pois bem, mas tudo isso já aconteceu emPortugal, os "génios" já foram para o Governo e governaram sem Liberdade e sem eleições, mas com polícia política e prisões, durante quarenta e oito anos; morria-se de fome (e guerra!) em Portugal nesses tempos "áureos", foi preciso quase uma guerra civil para acabar com esse pesadelo, mas agora há quem se entretenha a brincar com o fogo. Espero bem que se queimem...

deixado a 8/11/10 às 17:01
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PedroM
E apesar deste infernal capitalismo que descreve, o mundo, afinal, tem melhorado mais do que pensávamos (http://www.publico.pt/Mundo/o-mundo-afinal-tem-melhorado-mais-do-que-pensavamos_1464488)...
João Rodrigues, faça lá um post e discorra sobre o facto, sff.

deixado a 8/11/10 às 18:14
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Uma metáfora sobre políticos em Portugal:
http://exiladonomundo.blogspot.com/2010/11/os-tres-poderes.html

deixado a 8/11/10 às 18:38
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AA
De 1313 a 1356 o mundo também melhorou, não entendo para que se fizeram revoluções para que o voto fosse universal.

deixado a 8/11/10 às 18:43
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PedroM
AA, já está dado o "desconto" dessas revoluções que se fizeram por essa altura...

deixado a 8/11/10 às 20:29
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Não é de bradar aos céus: é um facto objectivo. A norma em Portugal é a precariedade. Pode parecer de bradar aos céus aos que ainda são tão crédulos que acreditam na barragem de propaganda com que o regime nos anda a bombardear há décadas, mas só a esses.

Quanto aos "organismos nacionais, europeus e mundiais", são todos constituídos pela mesma corja de patifes que vai rodando de uns para os outros, sempre ao serviço de patifes ainda piores. Fiar-se neles é crer no diabo.

deixado a 8/11/10 às 20:39
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Bolchevike
A minha proposta é mandar esses «economistas austeritaristas» para o estrangeiro para ver se eles conseguem sobreviver sem os tachos e as reformas douradas que democraticamente usufruem neste «estado social».

Desses «economistas austeritaristas» nenhum deles croiu qual empresa, qualquer emprego ou riqueza para o país.

São uns amanuenses chulos, incompetentes ou académicos da treta!

Puta que os pariu, que Portugal não precisa deles.

Eles que vão para as Ilhas Caimão!

deixado a 8/11/10 às 20:55
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AA
Qual desconto?

deixado a 8/11/10 às 21:11
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