Sábado, 13 de Novembro de 2010
por João Rodrigues


Quem escreve só pode desejar leitores como Vítor Dias. Dias lê como escreve, ou seja, com a atenção e a exigência que me levam a ser seu leitor regular há já um par de décadas. As divergências, em particular em relação aos destinos partidários, não alteram isto, claro. As esquerdas têm problemas de comunicação, resultado dos fardos da história, e todos devemos ajudar a minorá-los. Dias assinala um ponto, que talvez não seja menor, no artigo que eu e o Nuno Teles escrevemos e que saiu esta semana no Público: o discurso da austeridade contaminou todo o espectro político. Dias discorda, lembrando a denúncia que à esquerda tem sido feita desta opção de política económica e a consciência de que muitos problemas são europeus e resultam de um euro disfuncional. É verdade e até poderia citar documentos, mas, há sempre um mas, também é verdade que no discurso público à esquerda, seja por razões tácticas, seja porque o europeísmo progressista é indigesto para certos estômagos ideológicos, passa demasiadas vezes a ideia de que é possível uma espécie de consolidação orçamental expansionista criadora de emprego à escala nacional e em tempo de crise. Não é. No fundo, é como se as esquerdas respondessem, por vezes, aos “incentivos” perversos que foram criados: entretenham-se à escala nacional, aceitem implicitamente os termos do debate paroquial que se criaram e que os moralistas das finanças públicas tanto gostam, ajam como se tudo dependesse do governo nacional, porque afinal de contas é aí que se disputam as eleições que contam. O drama é claro, as soluções políticas é que não. A nossa formulação, algo provocadora é certo, destina-se a contribuir para um debate que melhore a articulação entre as propostas nacionais de justiça social e de combate ao Estado predador e a situação das finanças públicas em contexto de crise, por um lado, e a adequada reflexão sobre a melhor forma de pensarmos os nossos problemas num contexto europeu que determina quase tudo o que é relevante em termos macroeconómicos, por outro. Entretanto, deixo aqui de novo um vídeo, já legendado em português, onde o economista político Mark Blyth explica isto tudo em cinco minutos...

por João Rodrigues
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4 comentários:
vítor dias
Embora deva sublinhar que o facto não me causou qualquer admiração, devo registar não apenas a cordialidade da resposta de João Rodrigues mas também que, ao contrário do que é tique dominante, não veio proclamar a indefectível correcção das suas duas frases ou asserções que eu critiquei.

À parte isso, creio ser uma evidência que João Rodrigues não consegue fazer nenhuma prova de que «todo o espectro político» foi contaminado pela política de austeridade e vem sim agora deslocar o debate para uma vertente conexa mas diferente que é o das soluções de âmbito nacional ou de âmbito europeu.

Neste último ponto, só desejo lembrar que, recentemente, em crítica a uma crónica de Rui Tavares, tive a ocasião de escrever o seguinte: «E, por fim, devo esclarecer que não separo a adopção de uma política de esquerda em Portugal da intervenção decidida e do combate frontal, no plano das instituições da U.E., às orientações e rumos de há muito aí prevalecentes, tendo como objectivo assumido aumentar, e não diminuir, a margem de manobra interna de cada um dos 27 países integrantes da U.E.»

Outras matérias, tais como o «debate paroquial» (que expressão infeliz, João Rodrigues) ou o dito «europeismo progressista», foram à escala de um blog e na medida das minhas modestas capacidades tratadas nesse mesmo «post» de crítica a Rui Tavares que está disponível aqui em
http://tempodascerejas.blogspot.com/2010/10/uma-cronica-de-rui-tavares.html .

deixado a 13/11/10 às 16:11
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da Maia
Às vezes há pessoas na Igreja que envergonham os discursos de muita "esquerda", foi o caso de Frei Fernando Ventura na Sic:
http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Edicao+da+Noite/2010/10/frei-fernando-ventura-sobre-a-situacao-do-pais02-10-2010-01611.htm
como é óbvio... passou despercebido!

deixado a 13/11/10 às 17:21
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Bolchevike
A austeridade é boa.
Faz-nos trabalhar, poupar e emagrecer.
Mas tem que ser aplicada de cima para baixo.
Até acho que os ordenados dos gestores públicos não deviam ultrapassar os 1.500 euros/mês!

deixado a 13/11/10 às 20:11
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JAraujo
a quem traduziu: meu obrigado.

deixado a 14/11/10 às 08:32
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