Sábado, 29 de Janeiro de 2005
por Daniel Oliveira
SADR City é um bairro nos arredores de Bagdade. Antes, aparecia no mapa como Saddam City. E é isto mesmo que está a acontecer ao Iraque. Não, Moqtada al-Sadr, sobrinho do líder religioso que deu o nome ao bairro, não tomou nem vai tomar o lugar de Saddam. Está mesmo mais para lá do que para cá. Mas, no Iraque, os religiosos começaram a tratar dos assuntos do céu e da terra.

Em Sadr City, uma cidade com dois milhões de xiitas miseráveis, sempre desprezados por Saddam, diz-nos uma sondagem, ninguém faz ideia o que vai acontecer amanhã. No Iraque, mais de metade da população nem sabe o dia das eleições. Nas mesquitas, os líderes espirituais xiitas tratam do esclarecimento eleitoral: ou votam na lista abençoadas pelo «ayatollah» Sistani ou vão para o Inferno. Nas ruas sunitas, a punição é mais terrena: «Votas, morres». E por ali ninguém põe em causa a credibilidade da ameaça.

É este o ambiente que lá se vive. Bem podem os guerreiros de sofá falar de uma janela de oportunidades. A única janela que está aberta no Iraque é para o abismo. Ou a uma autocracia sucede uma teocracia, e a ordem prevalece sem oportunidade alguma para a democracia, ou, mais provável, o caos continua. Nada é promissor. Apenas um improvável benefício pode sair desta farsa: o Ocidente aprender de uma vez por todas que a democracia ou é uma conquista de um povo ou é apenas um fato engomado no corpo de um mendigo.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
O PREC instalou-se, definitivamente, na direita portuguesa. Primeiro, o despesismo, que sempre foi, dizem os entendidos, apanágio da esquerda. 5,3% de défice, um recorde assinalável para os últimos anos. Depois, as nacionalizações: Fundo de Pensões da CGD e dos CTT para o Estado. Finalmente, o que faltava: quando não se gosta de um tipo, toca de lhe chamar fascista.

Bagão Félix, com um invejável currículo na luta contra a ditadura e na consolidação da democracia portuguesa, não fez a coisa por menos. Nem quero imaginar o epíteto que tem reservado para José Sócrates. Rato de sacristia, parece-me o indicado. E para Jerónimo? Lacaio do capital, pode ser?

Mas mal esta piranha de água benta deu o mote, logo o Pit Bull (não confundir com o do Porto) da direita fez o romance todo. No «Diário de Notícias», António Ribeiro Ferreira imaginou um país dirigido pelo Bloco de Esquerda. Meninos de calções, de suástica no braço, mandando para campos de concentração todos os desalinhados, suponho que homossexuais e toxicodependentes incluídos. Ribeiro Ferreira, quando escreve, é assim mesmo: põe os neurónios em «stand by» e já ninguém o agarra. Todos se lembram das suas hilariantes reportagens sobre o Iraque, ao estilo «Vida Soviética», mas ao contrário, quando tentou transformar o «DN» numa espécie de «Diabo» matutino, quer no estilo quer nas vendas.

E eu não lhe quero ficar atrás. Com a histeria revolucionária instalada na direita, imagino um país onde Pires de Lima ocupa fábricas, Morais Sarmento manda bloquistas para o Campo Pequeno e a Assembleia da República é cercada pelas Gerações Populares. Nesse dia, irei à janela do Parlamento e, qual Pinheiro de Azevedo, responderei definitivamente a Bagão: «Badamerda para o fascista!» E, assistindo a esta patética despedida da direita, voltarei a citar a saudosa figura: «É só fumaça! É só fumaça!»
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Sábado, 22 de Janeiro de 2005
por Daniel Oliveira
PODE Portugal sobreviver numa economia globalizada e bater-se, em simultâneo, por um modelo social próximo do que foi construído na Europa do pós-guerra? O consenso da inevitabilidade do sacrifício diz-nos que não. Que estamos condenados a viver mal em prol de amanhãs que cantam. Que o modelo social europeu é incompatível com a globalização dos mercados. Eu digo o contrário: só com menos sacrifícios temos futuro.

Como as coisas estão, com a falta de qualificação dos nossos trabalhadores e empresários, o nosso campeonato será o da mão-de-obra barata da China, da Tailândia ou da Formosa. E mesmo assim perdemos.

O dilema é este: ou estamos dispostos a viver com sete contos por mês e as empresas de trabalho intensivo não fogem, ou disputamos um mercado de trabalho mais exigente. Conseguir as duas coisas é procurar a quadratura do círculo. Não se tem os melhores quadros, os melhores técnicos e a melhor investigação a trabalhar 48 horas por semana, a ganhar 150 contos por mês e a gastar trocos com as universidades. A redução de custos na mão-de-obra só nos pode empurrar para o Terceiro Mundo.

Que, em Portugal, a generalidade dos empresários e dos gestores, habituados a fugir ao fisco e a pagar miseravelmente aos seus funcionários, a viver de expedientes, dos apoios do Estado e de fundos europeus, se recusem a vê-lo, não me espanta. A maioria dos empresários portugueses é parte do problema e não da solução. Muitos dos que opinam sobre o futuro da economia nacional, num país realmente competitivo, não passariam da porta das empresas que hoje dirigem. Estão chocados com o que escrevo? Não é nem metade do que tem sido dito, até à náusea, sobre os trabalhadores portugueses.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
ANTÓNIO Mexia anuncia com uma urgência inusitada 2-travessias-2 para o Tejo. E aproveita para desenhar no mapa o traçado do TGV. Era fundamental que o fizesse. Afinal de contas, vai começar a rodar em 2012, daqui a dois ou três governos.

Paulo Portas, recordista em salários para assessores e com uma generosa quota em colocação de lugares no Estado, lança a sua campanha contra o clientelismo no Estado. Na mesma linha moralizadora da política, candidatos do CDS preparam-se para ir ao Estádio do Dragão, ao beija-mão a Pinto da Costa. Mais uma facada no seu parceiro de coligação. Pelo país, cartazes do CDS dizem-nos que «A lealdade é útil a Portugal». E a «competência» também, explica o partido de Mariana Cascais, Nuno Fernandes Thomaz e Celeste Cardona. E ainda mais a «convicção», reafirma o mais recente dos convertidos ao europeísmo.

No PSD, vice-presidentes matam-se em praça pública e Santana Lopes esbraceja num dos mais épicos naufrágios da história da política portuguesa. Contra ventos e marés, afoga-se, enquanto, num ataque sem precedentes a José Sócrates, o acusa de querer governar como ele governou.

Sócrates, esse, entrou em crise adolescente. Não há dia que não bata, amuado, com a porta do carro. Não mete os pés nos debates, não fala com jornalistas e parece estar zangado por haver quem queira que ele faça campanha.

Resumo: o recordista das cunhas e das facadas faz campanha pela moral e pela lealdade, o primeiro-ministro faz oposição a si mesmo, o líder do maior partido da oposição, em plena idade do armário, não faz campanha e um governo de gestão apresenta planos quinquenais.

Não pensem que não aprecio o espectáculo. Os actores são bons. Os papéis é que estão todos trocados.
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Sábado, 15 de Janeiro de 2005
por Daniel Oliveira
APROXIMAM-SE as eleições no Iraque. Para o Ocidente é um descanso. Há eleições. Se há eleições há democracia. Se há democracia a invasão valeu a pena.

Já não falo da completa ausência de condições de segurança. Já não falo do facto de os candidatos abaixo dos cabeças-de-lista serem clandestinos. Já não falo do boicote sunita que tornará estas eleições um plebiscito à lista xiita, abençoada pelo líder religioso Sistani. Fico-me pelo sistema eleitoral.

No Iraque há enormes diferenças regionais que, em grande parte dos casos, coincidem com diferenças religiosas e étnicas. A Sul, xiitas. A norte, curdos. No meio, a minoria sunita que dirigiu o país durante décadas e que corre agora o risco de ser varrida por um tsunami xiita. A bem da paz futura, tudo aconselhava uma solução federal que garantisse uma representação proporcional de cada província, fosse qual fosse a afluência às urnas em cada uma delas, dependente de precárias condições de segurança.

Mas os EUA decidiram-se pelo extremo oposto: um círculo eleitoral único. Resultado: os curdos, para aumentarem a sua representação, fizeram uma lista única, que não representa a diversidade política que se exige em democracia. Os xiitas fizeram o mesmo e vão limpar as eleições. Os sunitas, pelo contrário, preparam-se para um boicote livre ou forçado que os atira para fora do sistema.

Para compensar, os sunitas podem vir a ganhar uma quota de 25% no novo Parlamento. A emenda à libanesa é pior do que o soneto. Em vez de uma solução federal, que dê espaço para transferências graduais de poder, acentua-se a identidade religiosa, onde quem manda é o dogma da fé.

Perante tanto disparate e a teimosia em não adiar umas eleições impossíveis, fica claro o que sempre foi, na verdade, cristalino: o voto, no Iraque, é para inglês, alemão e francês verem.
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por Daniel Oliveira
JÁ NEM é tanto o caso do mergulho. É a novela mexicana que, com este Governo, se segue a cada caso. Um ministro vai entregar uns auscultadores usados à televisão de São Tomé. Para tão parca entrega aluga um Falcon e faz uma paragem num ilhéu paradisíaco. Depois, para se explicar, garante que foi tratar do negócio do ano para a Galp. O ministro da Galp diz que não sabe de nada. O Ministério do ministro diz que se esqueceu de avisar o ministro que outro ministro andava a tratar dos seus negócios. A Galp vem em defesa da história e informa que, no mergulho ministerial, esteve um quadro da administração da empresa. Dá-se a coincidência do referido quadro ser primo direito de Sarmento. O mundo é, de facto, pequeno.

No meio da confusão, o pleonástico ministro ameaça demitir-se de um governo demissionário. Fica-nos a dúvida: como é que o que caiu cai da sua própria queda? Mas o que Sarmento queria, e conseguiu, era obrigar Santana a engolir o seu incómodo e mostrar que na relação com o chefe quem manda é o empregado. Sendo a derrota mais do que certa, estas são as primárias para ver quem perde menos. É bom que Santana se habitue a esta ideia: até às eleições não conta com um único amigo.

Lembro-me de Morais Sarmento dizer que o magro orçamento do programa «Acontece» daria para pagar uma volta ao mundo a cada espectador. Suponho que o ministro esteja agora a cobrar o seu quinhão. Se é esse o caso, reservo já o meu destino: qualquer república caribenha me serve. Os costumes são os mesmos, o clima mais agradável.
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Sábado, 8 de Janeiro de 2005
por Daniel Oliveira
AMANHÃ, a Palestina vai a votos. Esperar destas eleições uma mudança substancial para o Médio-Oriente não é apenas uma ingenuidade. É má-fé. A Palestina não é nem será uma democracia plena porque as democracias exigem estados viáveis e autónomos. Pedir à Palestina democracia e controlo da segurança é o mesmo que pedir a um prisioneiro que guarde a sua prisão.

Por agora, a Palestina ainda será o que Israel quiser que a Palestina seja. Israel, que goza de um estranho estatuto de excepção na comunidade internacional, tem tornado aquele território ingovernável. Não há democracia dentro de muros. Dentro de muros só pode haver caos, violência e corrupção. E só quando Israel compreender - ou a comunidade internacional obrigar Israel a compreender - que viverá melhor com uma Palestina livre e viável é que poderá encontrar, em conjunto com o lado de lá do Muro, a paz. O seu futuro está preso às gigantescas prisões que são a hoje a Cisjordânia e Gaza.

Uma mais do que improvável vitória de Mustafa Barghouti, primo de um outro Barghouti mais conhecido, e defensor de uma terceira via de desobediência civil não armada e de combate à corrupção, seria a melhor notícia para a Palestina. Mas nem tamanha surpresa faria esquecer as demolições, as execuções e a humilhação diária dos «checkpoints». Por enquanto, a democracia na Palestina está nas mãos do seu carrasco.
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por Daniel Oliveira
ELE quer mobilizar Portugal. Quer que o país olhe para o futuro. Que os portugueses acreditem no futuro. Que tenham a esperança que tanto tem faltado.

Ele não é do contra. Aliás, esse é um dos aspectos negativos na vida política portuguesa que ele vai mudar. Este hábito de, quando se chega ao Governo, destruir tudo o que foi feito. Ele não deixa espaço para dúvidas. Garante que haverá sentido de Estado, diálogo, responsabilidade e ponderação como se exige a um primeiro-ministro.

Ele tem um projecto. Um projecto ambicioso e, no entanto, responsável e realista. Um projecto que vai mobilizar o país. Um projecto inovador. Que dará a Portugal um desígnio. Ele está convicto de que acreditando, fazendo as apostas certas, Portugal pode ser uma nação moderna e preparada para os grandes desafios do século XXI.

Por mim, estou mobilizado. Tenho esperança e olho para o futuro com optimismo. Com José Sócrates, eu acredito. Só me falta conhecer alguns pormenores. Nada de especialmente relevante. O que é que José Sócrates pensa sobre qualquer coisa? Não sou esquisito, qualquer coisa serve. Qualquer uma. A forma está encontrada. Falta só saber se tem algum conteúdo. A coisa, só nos falta a coisa.
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por Daniel Oliveira
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