Domingo, 29 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira








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Sábado, 28 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira
DILIGENTES, os jornais passaram a semana a preparar o terreno. Que o défice tinha chegado à estratosfera. Que Sócrates estava boquiaberto com o que descobrira. Que Constâncio sabia agora o que nem desconfiara. Que economistas e empresários, que não indo a votos têm sempre um programa de governo pronto a servir, pediam sangue. Que o PS terá de fazer tudo ao contrário do que prometeu. E nós que já vimos este filme.

Os portugueses votaram no PS porque, ao que parece, não concordavam com o caminho que foi seguido pelo PSD. Sabem agora que é para continuar. Até o guião é o mesmo. Promete-se uma coisa, chega-se, fica-se «chocado» e faz-se o contrário. Tudo inevitável. A política deixou de ser um confronto entre alternativas. A política é hoje feita de inevitabilidades.

Voltemos ao básico: antes das eleições, Sócrates disse que não aumentaria os impostos. Agora, Sócrates não tem legitimidade democrática para os aumentar. A democracia é isto: diz-se ao que se vem, recebem-se os votos e cumpre-se. Não faltam alternativas, por exemplo, na saúde, principal responsável pela derrapagem orçamental. Porque se o programa de governo fosse inevitável, mais valia pôr Vítor Constâncio como primeiro-ministro. É verdade que descobre tudo em momentos muito convenientes. Mas, pelo menos, tem sempre o mesmo programa de governo, seja qual for o governo. Só lhe faltam mesmo os votos. Um pormenor.
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por Daniel Oliveira
AMANHÃ a Europa vai a votos em França. Na próxima semana é na Holanda. O que está em jogo é mais do que a Constituição europeia. É um sinal de alerta para Bruxelas. Para que entendam, de uma vez por todas, que a democracia, na Europa, não pode ser substituída por negociações entre Governos. Se a Europa quer ser mais do que um acordo económico, tem de ganhar os europeus.

Esta Constituição pretende unir os europeus, mas, na maioria dos países, nem referendada será. E a ideia, defendida por Durão Barroso, de que o chumbo nas urnas não implica a sua alteração é bem o retrato do défice democrático na União.

Ter esta Constituição é melhor do que não ter nenhuma, dirão alguns. Só que este tratado só pode ser alterado com o voto unânime de todos os Estados. Um erro agora, dificilmente poderá vir a ser corrigido. Nascendo torta, dificilmente se endireitará.

E esta Constituição tem, pelo menos, três erros graves: constitucionaliza as políticas monetárias de quem está hoje no poder; não diz uma palavra relevante sobre direitos sociais e emprego; não nasceu de um parlamento constituinte.

O tratado obriga os Estados a poupar, mas não os obriga a proteger os seus cidadãos. E torna a União menos democrática do que os Estados que a compõem. Dá, assim, razão a quem não a tem. A quem defende a nação como o único espaço de participação democrática. Tal como foi feita, esta Constituição ajuda os nacionalistas de esquerda e de direita.

O «não» é o único voto que obriga a Europa a discutir-se. Se ganhar o «sim», o referendo em Portugal não será mais do que um passeio da ignorância, com os «slogans» vazios do costume. O «não» francês seria uma esperança para o projecto europeu. A Europa ficava a dever-lhes esta.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Seiyun



Um grupo de homens com bengalas prepara-se para começar a actuação na rua principal de Seyiun. Começam. Como sempre, algum convida para participar. Aceito. Daí a cinco minutos estou com uma bengala em riste, um turbante na cabeça e a fazer figuras tristes. Nasceu uma estrela em Seiyun. A noite, quando passeio pela cidade, todos imitam o meu movimento e, demasiado simpáticos, elogiam a minha actuação. Um branco careca de turbante e calcas de ganga não passa despercebido. No dia seguinte vamos a Shibam. E difícil explicar. São prédios de oito, nove e dez andares, feitos de lama e palha, em ruas estreitas. Não parece real. Imensos miúdos e cabras. Um cheiro pesado. Passamos um tempo razoável a regatear numa loja de antiguidades iemenitas. Uma especialista nesta arte consegue levar por tuta e meia (achamos nos) um cinto e uma janela. Depois, para pagar o que pedem, exige mais uma janela em miniatura. No fim, ficam contentes com uma hora de combate e oferecem-lhe dez pulseiras. Os árabes gostam tanto de negociar como de conversar.


Shibam



No dia seguinte, hoje, partimos para Mukala, a maior cidade de Hadhramout, já na costa do mar arábico. Vamos num taxi colectivo. Corremos grande parte daquele que e um dos maiores oásis do Mundo. Depois subimos as imponentes montanhas que o cercam. La em cima, tudo e diferente. Nada. Pedra e terra, pedra e terra, pedra e terra durante horas e horas.

No meio desta viagem continuo a ler “As Cruzadas vistas pelos Árabes” de Amin Maalouf. É a história das cruzadas vistas do lado de lá. Os massacres, o fanatismo religioso incompreensível então para os muçulmanos, dos cristãos em conquista. Mas o mais impressionante é mesmo o olhar sobre os lideres árabes. Iguais ao que são hoje. Enquanto o povo sente a humilhação a que a nação árabe e exposta, os seus dirigentes entretêm-se em guerras internas, pequenas traições, alianças com o inimigo. Ao ler o livro e ao ver a cara de Saleh, o amigo de George W. Bush, por todo o lado, não posso deixar de pensar que nada mudou. E estes homens fracos e sem espinha dorsal que tomaram, há quase mil anos, conta do povo árabe, são os principais responsáveis pela sua desgraça e pelo crescimento de grupos radicais que dão a um povo maioritariamente pacifico, acolhedor e curioso em relação a diferença uma ponta de orgulho e esperança. Estão enganados no caminho. Mas um povo que foi tantas vezes enganado, precisa de acreditar em alguma coisa. Em alguém. É geralmente nestes momentos que surgem todos os monstros. Olhar, naquela avenida, para a fotografia de Saleh e saber que ele é um dos exemplos da democratização do Mundo Árabe, faz-me ter a certeza de um triste fim para toda a região. Um fim, que na realidade, é a mesma historia de sempre. Que se repete há mil anos.


Presidente Saleh



Agora, em Mukala, limito-me a transpirar. Um calor e uma humidade insuportáveis. Amanhã cedo parto para Socotorá, uma ilha por onde portugueses passaram e pela qual hoje não passa quase ninguém. Ali espero encontrar Um Iemen antigo, junto a costa de África. E, com este calor, também não dizia que não a uma praia com uma água fresca. Quatro dias depois regresso para Sanaa e no mesmo dia para Lisboa. Só então vos poderei contar a minha experiência insular.

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Sexta-feira, 27 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira


Sanaa


Sentado num banco corrido do suq peço um chá. Um velho à minha frente, que come uma espécie de guisado de galinha usando como talher o hohz (um pão fino e largo que é feito colando a massa à parede do forno) oferece-me um cigarro. Os iemenitas oferecem tudo.

O som de fundo é um “sermão” gravado em cassetes que são vendidas na rua. Logo se cala quando os muezzin começam a sua cantoria. Primeiro um, depois outro, depois outro. O chamamento para a oração toma conta de tudo. Só no perímetro de Sanaa Velha há quase uma centena de mesquitas, com os seus minaretes com altifalantes.

Vou a uma dos milhares de minúsculas lojas do suq para comprar um vestido tradicional que quero oferecer. Regateio e fico contente com o preço final. De certeza que estou a pagar mais do que devo, mas sabe-me a conquista. 1.300 reais, uma fortuna. Cinco euros e meio.

Vou ter com as minhas companhias de viagem para almoçar. Chegamos a uma “tasca” de bancos corridos. Apesar dos nossos pedidos para que não o faça, o patrão pede a um cliente que mude para outra mesa. Este obedece, feliz, olhando deslumbrado para as ocidentais. Quando estou com elas sou invisível.

Vamos a uma parte nova da cidade, que elas, há mais de um mês em Sanaa, não conhecem. Apanhamos um táxi colectivo. Há quarto tipos de transporte em Sanaa: autocarros, umas carripanas velhas deliciosas com direito a paragens fixas; táxis colectivos, umas pequenas carrinhas de nove lugares, que vão apanhando e largando pessoas, seguindo um caminho mais ou menos lógico; táxis, onde se tem de negociar o preço antes, podendo a variação entre o preço proposto e o aceite contar-se em muitas centenas de reais; e as motos, que ainda não ganhei coragem para experimentar.

O transito é caótico. Não quero ser injusto, mas acho que só vi dois semáforos em toda a capital. Os sentidos, as regras de transito, tudo é meramente indicativo. A buzina é a forma de comunicação e de expressão de sentimentos permanente.

No regresso – o que fomos ver não tem nada para contar – as lojas estão todas abertas. E assim ficarão ate à meia noite. Sobretudo os carpinteiros. Ainda chegamos a tempo de ver o pôr-do-sol no terraço da escola internacional de árabe, em Sanaa Velha. Nem consigo descrever as cores dos edifícios – que julgo serem de barro – e os efeitos de luz. À medida que anoitece as janelas das casas ficam coloridas quando as luzes das casas se acendem. Quase todas as casas têm vitrais. Jantamos ali mesmo, no terraço. Trouxe vinho. Uma garrafa. É permitido, a cada estrangeiro, trazer duas garrafas de álcool. Bebemos e sabe a pecado.

No dia seguinte partimos para o deserto de Hadhramout.

***


A camioneta é excelente. Melhor do que as portuguesas. Depois de transpormos as montanhas que cercam Sanaa, estamos na planície. Passamos por um mercado. Paragem. Os viajantes abastecem-se de qat, a droga de que vos falei antes. Um grupo rodeia-nos. Boquiabertos, olham para as minhas companheiras de viagem. São cada vez mais. Uma pequena multidão de mirones. Nem o excesso de roupa que elas usam, para o calor que está, os demove. Alguns fazem perguntas com o inglês que sabem. Tira-se uma fotografia, o que é sempre um momento de enorme excitação. Um deles, armado como tantos, exibe orgulhoso a sua kalashnikov. O motorista tenta-nos convencer a comprar qat.

A viagem continua. Terra primeiro. Depois areia fina e dunas. Depois calhaus pretos. Depois areia de novo. Oito horas assim. Passamos por imensos check points militares. Raramente nos mandam parar. A nossa camioneta é uma carreira normal, sem mais turistas do que nós.


Deserto de Hadhramout


Passamos por pequenas aldeias perdidas no deserto. Numa delas, almoçamos. Um restaurante e alguns camelos, nada mais. Uma placa manda ter cuidado com as minas que sobreviveram à Guerra entre o Iémen do Sul e o Iémen do Norte. O Iémen do Norte era islamista, implacável na aplicação da Sharia e aliado do Ocidente. O Iémen do Sul mais pobre, comunista e mais laico. Ainda se sentem as diferenças; dizem-me as minhas companheiras de viagem (eu ainda não fui ao sul) que por lá é mais frequente ver mulheres de cara destapada, uma raridade aqui pelo norte. Onde estou agora, na realidade, quase nem se vê mulheres.




Entramos num oásis, que é o nosso destino. Passamos por Shibam, um aglomerado de edifícios com uma media de oito andares, feitos, mais uma vez, julgo eu, em barro. Chamam-lhe a “Manhattan do deserto”. Arranha-céus de outros tempos. Continuamos a nossa viagem. Shibam ficará para outro dia. A nossa base será Seiyoun, a maior cidade das redondezas, dominada por um palácio onde viveu o sultão Al Kathire. São 16 edifícios brancos e imponentes, que mais tarde foram transformados em forte.

As ruas de Seiyoun estão cheias. No Iémen todo o dia é dia de feira. Iluminações "de natal" enfeitam as ruas. Foram postas para comemorar os 15 anos da unificação. Não há cidade que não esteja assim. O Presidente Saleh não olhou a despesas num pais miserável e tratou, na leva, de espalhar fotografias suas por todos os cantos do pais. Saleh de fato e gravata, Saleh de turbante, Saleh fardado, Saleh beijando crianças, Saleh indicando ao seu povo o caminho, Saleh para todos os gostos. O bigode de Saleh e omnipresente. Só consegue rivalizar com as fotografias do Xeque Yassin. Mas essas são escolha do povo, bem embaraçosa, por sinal, para um governo que alimenta uma profunda relação amorosa com Washington. O Hamas é bastante popular por estas bandas. E para a causa palestiniana os iemenitas, pobres ou ricos, inventam dinheiro para contribuir.

Depois de Seiyoun, iremos para Shibam. Depois a cidade portuária de Mukala. Por fim, a ilha de Socotra [Socotorá], quase na costa africana, mas ainda território iemenita. Disso falarei mais tarde. Agora passo a minha primeira manhã em Seiyoun, numa agradável esplanada de um jardim da cidade, onde bebo um batido de manga com groselha e um chá quente (tudo dulcíssimo, como sempre) enquanto uma silenciosa plateia nos observa. Não é, claro, em mim que estão interessados.

Publicado originalmente no Barnabé.

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Segunda-feira, 23 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira

Tentarei, na medida do possível, ir contando a minha viagem por terras iemenitas. Na capital Sanaa [ou Saná], onde estou, não é difícil. Depois, não prometo nada.




Às 6 da manhã, a cantilena da chamada para a oração entra pela minha janela. Muitas cantilenas em despique. Não há mais nenhum som na cidade. Só a chamada para a oração. Como a cidade fica cercada por montanhas altas, os muezzin fazem se ouvir em eco. Parecem lobos a uivar. Ainda é de noite. Começou o dia em Sanaa.

Olho para a janela e vejo terraços desordenados e pequenos pátios internos, onde se come, se ouve música e se conversa. Como nas cidades do sul de Portugal. Como em qualquer cidade árabe. É o dia da unificação iemenita. Feriado nacional. Na rua, o barulho é permanente. As buzinas dos carros misturam-se com a música vinda de todo o lado. Na Estrada que circunda Sanaa Velha, que é um ribeiro em dias de chuva, até parece que souberam da vitória do Benfica, tal a festa de buzinas sem razão aparente. Em todo o lado se vende ou compra alguma coisa.

O primeiro suq [ou suco, como já se disse em português antigo e é de onde vem a palavra açougue] em que estive, em Sanaa Velha, é gigantesco. Os cheiros, os gritos, a música, tudo misturado. E gente. Imensa gente. Sai gente de todos os lados. E vultos negros, milhares de vultos negros. Nem uma mulher de cara destapada. A presença de um ocidental num pais com pouco turismo não provoca mais do que olhares curiosos, mas discretos. Os miúdos metem conversa. Tudo se tenta vender, mas não há muita gente a pedir dinheiro, num dos países mais pobres do Mundo.

Sanaa Velha é indescritível. É a medina mais bem preservada do Mundo. Fica-se sem fôlego. Parece que se fez uma viagem no tempo.

Os homens andam todos com os seus jambia, uns pequenos “sabres” retorcidos. As mulheres são um pano negro com dois olhos. Mas o ambiente é descontraído e amistoso. Basta fazer uma pergunta e logo se junta gente para ajudar, para me levar de moto, para me indicar o caminho, para saber o meu nome, de onde venho...

A tarde, toda a gente anda com uma bola de "qat" na bochecha. O "qat" é o vicio nacional. Uma droga leve que todos os homens (e mulheres) consomem a partir das duas da tarde. O habito nacional transformou-se num problema nacional. Sempre foi. Mas hoje consome-se com menos moderação. Resultado: ninguém trabalha à tarde e as plantações de "qat" estão a consumir toda a água de um pais que já foi fértil.

As mulheres tapadas escondem uma outra existência. Basta olhar para as pequenas lojas de roupa feminina, no suq, para descobri-la. Lingerie e roupa que, em Portugal, só se poderiam encontrar numa sex shop. As pessoas com quem estou estiveram num casamento. Mulheres de um lado, homens do outro. Sendo mulheres, foi com as mulheres que ficaram. E as mesmas mulheres, que na rua só deixam ver os olhos (as que deixam) ostentam, longe dos homens, generosos decotes em justos vestidos cheios de cores berrantes e brilhos sortidos. É este o seu pecado, só permitido longe do olhar lascivo dos homens. Não julguem que por ali eram modernas. A noiva nem sequer conhecia o noivo.

O Iémen é dos países mais duros para as mulheres, em todo o Mundo. A quase totalidade das mulheres é analfabeta, as execuções por questões de honra, que na maioria dos países árabes são a excepção, são aqui corriqueiras. Neste momento, uma mulher de vinte e pouco anos esta à espera de um julgamento (graças a alguma pressão internacional o já realizado terá de se repetir), por supostamente ter assassinado o marido. Casou com o homem aos 11 anos, aos 13 já era mãe, aos 15 mãe duas vezes. Chama-se, como a [sua companheira de infortúnio] nigeriana , Amina. Toda a gente sabe que foi um outro homem, por uma disputa de terras, que matou o seu marido. Mas ficou mais fácil assim. Uma sessão de tortura na prisão chegou para resolver o problema do assassínio. É para isto que as mulheres servem. Aos 16 anos já esperava a morte. O processo prolongou-se porque as execuções de menores se tornaram num problema internacional para o Iémen. Agora, Amina tem mais de vinte. Se for condenada, terá morte certa. Se não for, na aldeia é a morte que também a espera. Uma ONG ofereceu-se para a tirar do pais.

Estamos, dizem os livros, numa “democracia”. O Parlamento é eleito e até tem uma ministra, a dos direitos humanos. Ou seja, por aqui, isto quer dizer relações públicas para estrangeiros. Não é democracia nenhuma e esta ministra é uma aberração na realidade política e cívica iemenita. O Presidente não passa de um ditador, como qualquer outro. Mas o Iémen é um importante aliado dos EUA. Há que manter as aparências.

Meio dia. Recomeça a chamada para a oração. Alguns homens dirigem-se à mesquita, de mão dada. Mas, em geral, a vida continua imperturbável, apenas cortada por aquele despique de vozes. A religião está em todo o lado mas a vida corre sem ela. Os iemenitas não são fanáticos religiosos. O pais é que é brutalmente atrasado, e a Sharia vale mais do que a Lei e do que o Corão.

Já estou em Sanaa, capital do Iémen, no extremo meridional da Península Arábica. Estou noutro tempo onde o ambiente de festa, a simpatia e a generosidade das pessoas se mistura com enorme atraso e pobreza. Tudo é lento, tudo é barulhento. Nunca me senti tão estrangeiro em toda a minha vida. E gosto.

Publicado originalmente no Barnabé.

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Sábado, 21 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira
UMA notícia da «Newsweek» pôs a ferro e fogo o mundo islâmico. Para fazer os prisioneiros de Guantánamo falar, os seus carrascos rasgaram páginas do Corão, deitando-as numa sanita. Saldo da notícia: dezenas de mortos em motins pelo mundo fora. Dias depois, a revista obedeceu às exigências do Pentágono e desmentiu a informação sem, no entanto, responsabilizar ninguém por o que seria um erro gravíssimo. Tarde demais. Vários ex-prisioneiros confirmaram a história que não é, aliás, nova. A gracinha acontece desde 2002.

É um bom resumo do que tem sido o comportamento dos Estados Unidos em relação ao mundo muçulmano. Desrespeito, seguido de abuso, rematado com uma mentira. É esta a sua «superioridade moral».

Ninguém ignora que há um retrocesso civilizacional sem precedentes no Islão. Ele tem uma história e muitas explicações. A Palestina, a decadência de uma civilização com um passado extraordinário, um salto cultural que as sociedades islâmicas não conseguiram acompanhar, regimes corruptos e a religião como o derradeiro espaço de dignidade. E há a responsabilidade do Ocidente: uma política sem princípios para todos os países com recursos petrolíferos. Estamos hoje a pagar a factura do «relativismo moral» da «real politik». Os nossos governos alimentaram, durante anos, alianças espúrias com bandos de fanáticos religiosos que, no maniqueísmo da guerra-fria, apareciam como libertadores aos olhos do Ocidente.

E, como se vê, continua a valer tudo. Os guardiães da «civilização Ocidental» estão tão empenhados no combate ao «relativismo moral», tão seguros do bem e do mal, que acham que, contra o terrorismo, a moral é, ela mesma, muito relativa.
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por Daniel Oliveira
NUMA bibliografia usada para dar formação a professores, a Associação para o Planeamento Familiar referia um programa adoptado pelo Governo das Canárias e que nunca foi implantado em Portugal. Nele, era pedido às crianças que colorissem as partes do corpo em que gostam de tocar. Na mesma bibliografia, outro livro, da autoria de Júlio Machado Vaz, Susana Cardoso e Duarte Vilar, explica que se deve dizer às crianças que a masturbação é coisa para se fazer na intimidade. Não é uma lição de masturbação, que seria desnecessária. Há coisas que todos sabemos sem aprender.

As associações contra a educação sexual têm-se encarregado de espalhar a ideia de que psicólogos e pedagogos andam para aí a fazer exercícios de masturbação com os meninos. De meras referências bibliográficas para o escândalo nacional foi um passo.

Dizem estes senhores que se tem de dar à criança «o enquadramento afectivo». A educação sexual tem um conteúdo. A masturbação, o prazer, o corpo, são parte dele. Com ou sem «enquadramento afectivo». Uma coisa é explicar a uma criança o que está a sentir no seu corpo, na idade que tem. Outra, bem diferente, é explicar-lhe o que estará certo ou errado na sua sexualidade adulta. Para isso, como pai, dispenso bem a escola e ainda mais os esquadrões dos bons costumes.

Eles queriam que a escola se dedicasse a lições de anatomia reprodutiva e moral sexual. Uma é, na infância, inútil. A outra é, na escola pública, abusiva. Os miúdos estão ainda e só a descobrir o seu corpo. Querem lá saber do «enquadramento afectivo». Só que se dependesse destes senhores, as crianças teriam como respostas às suas perguntas mais embaraçosas um silêncio reprovador. E a educação sexual na escola teria um único objectivo: educar para a culpa.
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Sábado, 14 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira
HÁ anos que os funerais das associações mutualistas eram inspeccionados pelas autoridades competentes. As funerárias, com um volume de negócios que ronda os 400 milhões de euros anuais, achavam indecente que andassem para aí uns «caramelos» a dar descanso às almas por tuta-e-meia, valendo-se de benefícios fiscais e da ausência de lucro. Esta semana, o Tribunal Constitucional deu razão às associações. Mas os cangalheiros não desarmam e vão apresentar uma queixa à Autoridade para a Concorrência.

As associações mutualistas, que têm 700 mil sócios e vivem das suas contribuições, cresceram no fim do séc. XIX como uma espécie de segurança social antes do Estado. Em muitos casos, eram já os primeiros passos para o sindicalismo. Noutros, apenas uma forma de os mais pobres se valerem uns aos outros. Para quem não podia sequer sonhar com uma vida decente, a dignidade na morte era a última esperança. Assim, o mutualismo, não se resumindo a isto, sempre foi um recurso muito procurado para o pagamento das despesas dos funerais. Esta tradição vinha, aliás, das irmandades do fim da Idade Média.

Hoje, estas associações são muito diferentes. Mas a ausência de lucro e a ideia de solidariedade entre iguais mantém-se. Por isso, os cangalheiros têm razão. São um corpo estranho no meio do seu negócio. Numa sociedade de mercado há regras. Quem não quer fazer dinheiro que não se meta no ramo. Se o lucro é o que faz rodar o mundo, quem não quer lucro trava o progresso e ofende o espírito da concorrência.

Neste mundo em que vivemos, a própria ideia de solidariedade é antiliberal. E não faltará muito para que nos digam que a segurança social faz concorrência desleal aos fundos de pensões, os hospitais públicos às clínicas, as escolas aos colégios, os confessores aos psicólogos, os amigos à televisão. A verdade deste tempo é esta: a vida, sem lucro, não faz qualquer sentido. Para dizer a verdade, nem a morte, se não nos der dinheiro a ganhar, serve para seja o que for.
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por Daniel Oliveira
ESTÁ tudo doido. Primeiro, foi Marques Mendes. Arrogante, corre com os mais queridos homens da nossa terra. Homens que ajudam o pequeno clube local a dar ao povo uma pequena alegria. Homens que dão a mão a incansáveis financiadores da democracia, generosos comendadores do 10 de Junho e laboriosos empresários locais. Homens que se batem de forma viril, por vezes incompreensível para a tibieza urbana, contra os que, oportunistas, lhes querem tomar o lugar.

Mas a decadência dos valores pátrios não acaba aqui. Esta semana, o Ministério Público, alheado das nossas mais profundas tradições, constituiu como arguidos um ex-ministro, um ex-tesoureiro partidário e três quadros do Espírito Santo. É a Santíssima Trindade que é profanada. Mesquinha, a Justiça terá descoberto um despacho do anterior Governo a permitir o abate de uns reles sobreiros para que em seu lugar se construísse um empreendimento turístico de «imprescindível utilidade pública». Um ministro tira uns chaparros do caminho do progresso e faz qualquer coisa pela interioridade. Alguém lhe agradece? Não. É a inveja, o desporto nacional.

E este país tinha avançado como - não fosse aquela atençãozinha, aquele pequeno favor, aquele telefonema ao amigo lá do ministério, aquela simpatia para a coisa não ficar presa nas malhas da burocracia? Não vêem, senhores magistrados? É um país que se move assim há séculos. Feito de pessoas que conhecem o valor da amizade. Pessoas que se ajudam e que não esquecem quem as ajudou. É um país solidário que começa agora a perder a sua inocência. E ninguém faz nada.
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Sábado, 7 de Maio de 2005
por Daniel Oliveira
HÁ UMA semana, um tenente-coronel na reserva assentou praça nesta mesma página. Explicou-nos como a presença de homossexuais nos quartéis afectava a moral dos magalas. E exigiu: «deve ser vedado o acesso ao quadro permanente a indivíduos com esta tendência (os que têm os pés chatos também não são admitidos...) e obrigar os que cumprem o seu serviço nacional a não o evidenciar». Por isso, caros recrutas, cuidado com esses gestos.

Escrever e dizer estas alarvidades está na moda. É «politicamente incorrecto». Um sinal de irreverência. Mas um juiz contrariou a moda. Considerou inconstitucional o artigo 175.º do Código Penal. Não o aplicou. O artigo distingue o acto homossexual de um adulto com um adolescente entre os 14 e os 16 anos do acto heterossexual. O primeiro é sempre crime. O segundo não. O tribunal achou que esta lei criminaliza a homossexualidade em vez de se limitar a criminalizar o abuso sexual de um adolescente.

Miguel Sousa Tavares ficou indignado. Escreveu no «Público»: «O tribunal achará que para um rapaz de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusado por uma mulher ou homem?». Esqueçamos a confusão que Sousa Tavares faz entre crianças e adolescentes. O que ficamos a saber é que, para ele, não é tão chocante ver um rapaz abusado por uma mulher como por um homem. Vale a pena perguntar: e se fosse uma rapariga de dez anos a ser abusada por uma mulher? Chocava-o mais ou menos do que uma rapariga abusada por um homem? Estou certo que, para Sousa Tavares, a resposta seria bem mais difícil. Definitivamente, não há pior preconceito do que aquele que se mascara de senso comum.

Miguel Sousa Tavares é obcecado com o tema. Há um ano explicou-nos a anormalidade da homossexualidade. Ilustrou a sua convicção com exemplos que retirou da sua atenta observação do reino animal. Com tantos porta-vozes, o Portugal profundo e «incorrecto» já merecia a sua data: o Dia do Orgulho Grunho. Com arraial e marcha. A bem da tradição.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
SE O terrorismo está mais forte do que nunca. Se no Ocidente há gente presa durante anos sem culpa formada, havendo fortes suspeitas da prática de tortura. Se a Convenção de Genebra é uma memória longínqua. Se leis que atentam contra os mais elementares direitos humanos são aprovadas em democracias ocidentais. Se o poder de um Estado tornou impossível qualquer lei internacional. Se a autoridade da ONU foi defectivamente enterrada. Se a guerra voltou a ser a forma legítima de regular a economia. Se ela será infinita e marcará as nossas vidas durante estas décadas. Se o mundo está perigoso. E se Tony Blair é a chave europeia para esta catástrofe. O que me interessa a mim que a segurança social inglesa nunca tenha estado tão bem?

Pode até ser que Blair tenha acertado no Reino Unido. Mas falhou no mundo. E, não sendo eu inglês, é deste cantinho, é do Planeta, que faço o retrato de Blair. E o seu retrato é o retrato da guerra. É, aliás, também na guerra que, por cá, os mais surpreendentes dos convertidos à agenda social trabalhista estão a pensar. Sem a guerra, esta eleição era para nós e para a história irrelevante.

É por causa da guerra que queria que Blair perdesse. Que o trocaria pelos liberais-democratas. Porque em Blair, enquanto houver guerra, só a guerra interessa. E mesmo que os ingleses não quisessem, foi à guerra que deram, na quinta-feira, uma vitória. Uma curta vitória.
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por Daniel Oliveira
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