Sábado, 25 de Junho de 2005
por Daniel Oliveira
180 mil pessoas - número um pouco distante do milhão e meio anunciado pela Igreja - manifestaram-se em Madrid. Como de costume, os bispos, que se recusam a constituir família, estavam ali em representação da dita. Preocupa-os o matrimónio legal entre homossexuais. Dizem que vai destruir a família, que, já se sabe, é a base da nossa sociedade.

Ao lado dos bispos estavam «mães», dirigentes do Partido Popular e jovens conservadores. Pergunto-me: se estes senhores têm as suas famílias e elas são tão sólidas e sagradas, que mal lhes pode fazer um casamento de dois homens ou de duas mulheres, na casa ao lado? A verdade é que eles não estão a falar das suas famílias, compostas por pessoas concretas. Estão a falar de uma coisa que acham ser «natural», que se impõe como uma revelação, onde o espaço de liberdade de cada um de nós não tem lugar. A família, a verdadeira família, só pode ser como as deles. As nossas, sejamos homossexuais ou heterossexuais, sendo diferentes, só podem existir se relegadas para um limbo jurídico de semiclandestinidade.

Não defendo nenhum modelo de família. Que cada um viva como lhe aprouver. Sigam as vossas regras, proíbam aos vossos o divórcio, a sodomia, o sexo antes do casamento. É-me completamente indiferente. Mas como o Estado é de todos, deixem-no legislar tendo em conta a vossa vida, a minha vida e a vida dos outros. Todos. É simples: nem toda a gente quer viver como vocês. E nem por isso quer ter menos direitos. Deixam?
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
OS QUINHENTOS não eram afinal mais do que trinta ou quarenta. Os roubos afinal aconteceram depois de uma rixa e no meio da confusão. Na verdade, em Carcavelos, só houve três assaltos declarados. E nada disto aconteceu pela primeira vez. O «arrastão» nem «arrastinho» foi. Qualquer semelhança com o que nos foi descrito naquele dia é pura coincidência. Se fossem quinhentos, se tudo fosse planeado, estaríamos perante um fenómeno de organização criminosa descomunal. E, já agora, perante um fenómeno de estupidez inaudita. Quem tem capacidade para organizar quinhentos assaltantes não vai para uma praia de pelintras palmar carteiras.

Mas o arrastão tinha de existir. Havia boas fotos, a história era boa. Para quê estragar as potencialidades narrativas deste furo? E quem achou estranho foi logo acusado de querer meter a cabeça na areia. Só que serem quinhentos ou trinta, ser planeado ou não, ter havido uma limpeza geral ou três assaltos diz-nos coisas diferentes sobre a realidade. E eu julgava que era disso que os jornalistas tratavam. Mas não.

O que os jornalistas fizeram, em vez de investigar a origem de tamanha efabulação, em que a polícia local parece ter tido um papel activo, foi dar corda à história. Um dia depois, a SIC transmitiu imagens de assaltos em comboios. Porque gostam de dar às pessoas o que elas querem. E as pessoas precisam de se entregar, de vez enquanto, à histeria colectiva. A maioria dos jornalistas não tem agenda, não faz agenda, não olha sequer para nenhuma agenda. E não investiga nada. São apenas artistas de variedades, prontos para entreter o público com aquilo que o público quer. Mas se o «arrastão» existiu nos jornais e nas televisões, nas conversas de café e de autocarro, quem sou eu para o negar? Vou na onda: isto vai de mal a pior, já nem se pode sair à rua.
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Sábado, 18 de Junho de 2005
por Daniel Oliveira
AS mortes de Álvaro Cunhal e de Vasco Gonçalves serviram, nestes dias, para um ajuste de contas com a história. E ele foi especialmente excitado nos que vivem com a má consciência do seu papel antes do 25 de Abril. Dizem que a liberdade teria nascido a 25 de Novembro. Mas a verdade é que o PREC está no DNA da nossa democracia.

Já nem relembro que as primeiras eleições livres foram antes de Novembro. Já nem relembro que a censura acabou ali mesmo, com a revolução. Vou mais longe do que isso. A democracia social, sem a qual a democracia política não sobrevive, foi conquistada nesses meses quentes. O divórcio, uma mais justa redistribuição da riqueza, os direitos no trabalho, a greve, a adaptação (violenta) de um tecido empresarial intimamente ligado ao antigo regime a uma sociedade democrática, o acesso generalizado ao ensino, uma segurança social digna desse nome, o serviço nacional de saúde, tudo precisou desse período para se impor. Foi o salto histórico português. E por ter acontecido na rua teve muitos actores. Contraditórios e muitas vezes irresponsáveis. Mas foram tantos que demasiados sentiram como seu aquele momento. Por isso é tão difícil voltar atrás.

Tivesse sido a nossa revolução uma suave transição e a sociedade portuguesa seria muito diferente. Teríamos ficado economicamente mais saudáveis, até posso conceder. Mas guardaríamos muito mais do provincianismo, atraso e rigidez social que nos dominaram durante meio século. Ao contrário do que muitos pensam à direita e à esquerda, a revolução nunca foi derrotada. Foi o que tinha de ser. Antes e depois de Novembro.
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por Daniel Oliveira
ÁLVARO Cunhal não era coerente e não tinha uma fé. O elogio recorrente esconde, de facto, uma enorme desconsideração. Cunhal era absolutamente político. Não queria apenas ser respeitado. Queria vencer. Com inteligência, mudou sempre que sentiu que tinha de mudar. Maldisse a China, abraçou a China. Combateu Soares, deu a vitória a Soares. Fez a revolução, travou a revolução. Escondeu a sua vida privada, exibiu fotografias da neta quando o partido precisou de aparecer doce e de rosto humano. Contrariou o culto da personalidade, alimentou o mito do segredo. Cunhal, como qualquer génio político, era um táctico. Tão brilhante que nem se dava por isso.

Cunhal não esteve no lado errado da história. Bateu-se contra o fascismo - que alguns, como Maria José Nogueira Pinto e Ribeiro e Castro, toleraram - e o fascismo foi derrotado. Bateu-se pela conquista de direitos sociais e eles foram absorvidos pelo sistema. Bateu-se pela existência de um movimento organizado de trabalhadores - por vezes sufocando-o - e os sindicatos são hoje a força social organizada mais relevante no nosso país. Os comunistas não estiveram do lado errado da história. Marcaram o século XX e, depois dele, qualquer assalariado vive infinitamente melhor do que vivia. Na política e na história, a derrota é só o epílogo de muitas vitórias.

Quem esperava que Álvaro Cunhal mudasse de posição, aos 80 ou 90 anos, não percebe nada da natureza humana. No fim da vida somos fiéis à nossa vida. É isso que temos de ser. Cabe a outras gerações destruir o que se construiu. E aí está a grande fraqueza de Álvaro Cunhal. Apesar da sua absoluta superioridade intelectual, cercou-se de mediocridade. Para desgraça do PCP, o seu génio foi maior do que a sua generosidade. Deixa um enorme passado aos comunistas. Não lhes deixa grande futuro.
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Sexta-feira, 10 de Junho de 2005
por Daniel Oliveira
OUVI Alberto João Jardim dizer que os jornalistas são uns «piiiiiiii». Mesmo com o efeito sonoro, deu para apanhar o espírito da coisa. Não conheço as mães de todos os jornalistas, por isso não me envolvo na contenda. E disse também que são «bastardos», um termo caído em desuso no Continente. Bastardos e filhos de uma profissional do sexo não é, esclareça-se, exactamente a mesma coisa. O filho da dita pode ser legítimo, desde que haja um eficaz planeamento familiar, da mesma forma que o filho de uma senhora com actividade em qualquer outro ramo profissional pode ser, como diz o nosso bom Alberto, um bastardo. Mas adiante.

Alberto João Jardim é um palhaço. Envergonha, de cada vez que abre a boca, a nossa democracia. Não é politicamente incorrecto. É apenas um palhaço que manda numa ilha com mais de duzentas mil pessoas. Recentemente, deu-se mesmo ao luxo de retirar a imunidade parlamentar, da qual nunca abdicou, a um deputado da oposição que o atacara. É um palhaço perigoso.

Não julguem que uma boa parte dos madeirenses não acha isto mesmo do seu presidente. Só que Alberto João é um palhaço que traz, todos os anos, uma mala cheia de dinheiro vinda do Continente. O seu orçamento não tem fundo. Na Madeira não falta nada. Nem estradas, nem equipamentos, nem emprego. O Estado está em todo o lado. Para dar dinheiro, para controlar a oposição. Para acabar com o circo, não era preciso muito. Bastava obrigar Alberto João a viver com o que tem. Iam ver como os madeirenses deixavam de achar graça à palhaçada.
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por Daniel Oliveira
O DINIS, pirralho de um ano, diz, entre sorrisos: «papá, papá, papá». E «olá». Também diz olá. Esperto, o miúdo! Como o pai. «Tem o mesmo sorriso, cumprimenta as pessoas, é muito simpático», explica a Bárbara.

A esposa fala do «Manel». Com a admiração submissa que se espera de qualquer esposa, não faz a coisa por menos: «tem constantemente muitas ideias, todas boas». E Bárbara sabe, pelas «pequenas coisas», que «ele vai mudar Lisboa». É a tal intuição feminina para as «pequenas coisas». Das grandes, sabe o Manel, claro.

A irmã do Manel, a Ana, diz que «apesar do seu ar filosófico» é uma pessoa determinada e convicta. Coisa rara nas abéculas que costumam ter um ar filosófico, como sabemos. O Manel mostra que não é desses. Quando fala, é o «Correio da Manhã» e «A Capital» que traz debaixo do braço.

Foi este o vídeo de apresentação da candidatura de Manuel Maria Carrilho à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Nada que espante no ambiente cor-de-rosa que Carrilho cultiva.

Mostrar a vida privada, fazer dela uma arma política, tem pouca tradição em Portugal. Não que haja um especial respeito pela intimidade de cada um. Os políticos e a sua vida privada é que interessam pouco aos portugueses. A não ser que tenham uma Bábá para mostrar.

Diz-se que a vida pessoal revela o carácter do político. Por mim, ela é-me indiferente. O mais crápula dos maridos pode ser o mais competente dos líderes. O mais extremoso dos pais pode ser o mais inapto dos dirigentes. Não quero saber nada. Até porque nada me é revelado. A exibição da vida privada ou é manipulação ou é pornografia. No caso de Carrilho é as duas coisas.
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Sábado, 4 de Junho de 2005
por Daniel Oliveira
TINHA 11 anos quando se casou. Tinha 13 quando teve o primeiro filho. Aos 14, veio o segundo. Por essa altura, o marido foi morto por um rival numa disputa de terras. Torturada na prisão, a adolescente confessou ser a autora do crime por ter, claro, um amante. Não fosse a pressão de algumas organizações internacionais e já teria sido executada. O julgamento vai ser repetido mas a sua sorte já esta traçada. Ou é condenada à morte ou é absolvida, regressa à sua aldeia e é morta.

Chama-se Amina, como a nigeriana a quem a justiça divina quis condenar ao mesmo calvário. Vive no Iémen. Há poucos países no mundo piores para as mulheres. Nem sempre foi assim, no Iémen do Sul, comunista e, por isso, laico. Sempre foi assim, muito pior, no Iémen do Norte, islamista. Duas ditaduras com esta pequena diferença. No Iémen do Norte, tal como no Iémen agora reunificado, e, ao que parece, «pró-ocidental», governa um tiranete, o Presidente Saleh. Tem o seu retrato espalhado por todo o pais, que travestiu de democracia, com eleições e tudo. Ali, cuida-se das aparências. Há anos que nenhuma criança é condenada à morte. Espera-se que cresça. Mas a corrupção, a opressão e a miséria são as marcas de um dos países mais pobres e atrasados do Mundo Árabe.

Só que Saleh é um fiel amigo de George W. Bush. Por isso, não está na rota das cruzadas dos neoconservadores. Fosse Amina da Palestina ou do Iraque, dois paraísos laicos quando comparados com o Iémen, e o coro de combatentes contra o «relativismo moral» não lhe esqueceria o nome. Infelizmente para ela, é apenas uma iemenita condenada a morrer como viveu: sem direitos.
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por Daniel Oliveira
SOBRE o referendo em França, a generalidade dos comentadores optou pelo «prêt à porter» argumentativo: ganhou o chauvinismo francês e a sua extrema-direita. Esqueçamos o pormenor de a maioria dos votantes no «não» serem de esquerda, eleitores socialistas e «verdes» incluídos. Fiquemo-nos pelas razões apontadas pelos votantes de cada um dos lados, tomando como rigoroso o estudo feito à boca de urna pela TF1 e o «Le Monde». Do «não»: primeiro, o desemprego, depois, a situação política em França, a seguir, a necessidade de renegociar o tratado e a opinião de que este seria demasiado liberal. A suposta perda de identidade francesa e a entrada da Turquia para a União, os grandes argumentos de Le Pen, são escolhidos por uma pequena minoria, aparecendo em sexto e sétimo lugares. Do «sim»: o reforço da Europa contra os grandes blocos, como os EUA e a China, só depois a continuação da construção europeia e, logo em terceiro lugar, o fortalecimento da França na Europa. De que lado está o egoísmo e o nacionalismo?

As razões do «não» francês são justas. Podiam não ser, mas são. Esta Constituição pretende cristalizar, sem recuo possível, as políticas económicas de quem hoje detém o poder político na maioria dos países europeus, que são responsáveis por uma crise social à escala europeia. Foi por isso que foi chumbada.

Bem podem os eurocratas sonâmbulos assobiar para o lado. Bem pode o homem que, sendo demasiado inepto para governar um pequeno país foi chamado a governar a Europa, afirmar que sendo o voto no «não» contraditório, este não exige qualquer renegociação. Tomemos isto apenas como uma manifestação de saudosismo pelas suas convicções passadas. A França votou «não» e não só quer dizer não. Bem pode a vanguarda dos povos europeus atirar o problema para o alto. Ele vai cair-lhes em cima. E aí, sim, os argumentos de Le Pen começarão a contar. Por enquanto, este foi o «não» da Europa democrática. Aprendam a respeitá-lo. Ainda estão a tempo.
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