Segunda-feira, 31 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
No Land alemão de Hesse, produziu-se uma aliança de governo entre o SPD (social-democrata) e o partido Die Linke («A Esquerda»; pós-comunistas e trotsquistas), enquanto há um governo SPD-CDU no país. (via Esquerda Republicana).

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Comemora-se nos próximos dias o aniversário da Comuna de Paris. A eleição e declaração da Comuna fez 137 anos no fim da semana passada. Fiquem com o documentário:






por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
A cultura de massas é assim: tudo o que ganha demasiada visibilidade rapidamente se transforma em entretenimento. Julgavam que estavam a ter um debate sério sobre a disciplina enquanto gritavam pela autoridade? Não, não estavam. Estavam só a dedicar-se a mesmo de sempre: voyerismo televisivo. Mas não eram os únicos a divertirem-se:



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Enquanto os pais viam 567 vezes o mesmo vídeo para terem o prazer da indignação, os filhos transformavam tudo em gozo. Para o mesmo fim. Tudo o que aparece mais do que uma vez na televisão transforma-se em momento lúdico e comércio. Neste caso, de fraca qualidade, o que é lamentável. O dos adultos e o dos jovens. O choque colectivo com o vídeo é o sinal de uma sociedade à procura de "valores" e de "autoridade"? Não, é só o mesmo do costume: divertimento. O "deles" e o "nosso".

Agora sim, o 9º C está em grande. São heróis Pop. Não, não foram os adolescentes que trataram da promoção. Foram os canais de televisão e a turba indignada de candidatos a linchadores.

Imagem e vídeo via Activismo de Sofá e Manual de Deus.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Apenas num fim-de-semana é já o inquérito mais participado do Arrastão (na sua nova versão). E é para continuar. Em cinquenta nomes escolha os três políticos que mais aprecia (ou que menos desgosta).

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


A blogosfera chegou cedo ao Algarve e não faltam blogues para escolher. Muitos nada têm de regional (como é normal) e a maioria são locais. Não há um blogue de referência evidente. Li muitos, procurei bastante, e acabei por escolher o que me pareceu mais aguerrido nas questões locais. Não faço ideia quem seja Pedro Cabeçadas, o autor do blogue Faro Este. Não sei quais sejam as suas simpatias políticas. Percebi apenas que não morre de amores pelo presidente da Câmara de Faro, o socialista José Apolinário. E nestas escolhas é isso mesmo que quero: quem faça o contraponto. Faro Este (bom nome) existe há três anos, dedica-se como poucos blogues algarvios aos problemas da sua cidade e tem preocupações ambientais, o que na tragédia que foi e continua a ser o ordenamento do território naquela região não é um pormenor. É um espaço de denúncia. Lá podem encontrar uma boa lista de blogues algarvios. O Faro Este é o blogue da semana.

Dois blogues do Algarve que costumo acompanhar com muita regularidade, mas muito raramente falam de questões locais, são o Vento Sueste, do Miguel Madeira e que já foi blogue da semana e vive em Portimão, e o Almareios, do João Romão, que vive em Vila Real de Santo António.

Outros blogues do Algarve: Albufeira Sempre, de Albufeira; A Defesa de Faro; de Faro; Makejeite, de Lagos; Antena Louletana e Grande Gente Louletana, de Loulé; Alcabrozes e Asul, de Olhão; Cartas de Alcalar, de Portimão; Local e Blogal, de Silves; Almariado e Terra do Sol, de Tavira; e A Fábrica, Alcagoita e Notas Soltas, que não consegui identificar o concelho exacto. Se faltar algum blogue fundamental, os algarvios que avisem.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 30 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


«O projecto do PS de fazer desaparecer o divórcio litigioso da lei portuguesa "é um grande erro que o país vai pagar caro no futuro", criticou o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Carlos Azevedo, para quem este projecto - ­que será debatido no plenário a 16 de Abril - é mais um sinal claro da postura de afrontamento que o actual Governo assumiu relativamente à Igreja Católica.»

Uma coisa extraordinária: a Igreja acha que fazer desaparecer o divórcio litigioso (que ela própria não permite aos católicos - nem esse, nem qualquer outro) da lei que rege o casamento civil é afrontá-la. A Igreja acha que tem um qualquer direito de propriedade sobre o casamento civil. O casamento de todos: católicos, protestantes, hindus, muçulmanos, agnósticos ou ateus. Para a Igreja, quando o poder político tem sobre qualquer tema uma posição diferente estará a afrontá-la.

A Igreja é contra o divórcio e gostava de dificultá-lo? Que o faça com os seus fiéis. É livre (e deve se-lo) de ter as posições que entender sobre cada assunto e tratar de usar instrumentos religiosos e a lei canónica para pressionar quem, por decisão própria, lhe resolve obedecer. Não é livre de querer que o Estado sirva para controlar os seus católicos e, por arrasto, os que não o são.

Independentemente das diferenças religiosas, cabe às democracias (ocidentais, mas não só) garantir a laicidade do Estado. Quer isto dizer que a religião trata de dizer o que devem ou não devem fazer aos seus fiéis (e eles obedecem se assim o entenderem), mas não decide como se devem comportar os restantes nem usa o Estado como instrumento de pressão das suas regras aos seus fiéis. Não sendo religioso, não dou a nenhuma igreja o direito de utilizar o Estado para me obrigar a ser o que não sou. E um Estado que sabe que não tem esse direito não afronta a Igreja. Limita-se a respeitar os direitos de todos.

Ou provavelmente até afronta. Mas foi com esse afrontamento a todas as Igrejas quem em todos os tempos de julgaram donas do poder secular que conquistámos a nossa liberdade. E será também afrontando todas as igrejas que outos países e culturas a conquistarão. E geralmente são os próprios fiéis que acabam por querer esta separação clara: Estado para um lado, Igreja para outro. A bem do Estado e da Igreja.
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por Daniel Oliveira
«Em 2005, fui ao Congresso do PSD e apresentei uma moção onde me disponibilizei para ajudar o PSD a ter uma oposição mais activa em relação ao Governo. O congresso teve lugar no fim-de-semana e na segunda-feira, logo de manhã, fui chamado ao gabinete do ministro Manuel Pinho, que me comunicou que todos os contratos com a GS estavam cancelados a partir daquele momento.»
António Borges ("Público" de hoje)

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Tenho aqui mais algumas citações do livro religioso que Geert Wilders podia ter acrescentado no seu filme, porque retiradas dos contextos histórico e literário e juntando-se à leitura o preconceito teriam um forte efeito:


«Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança (...) Então tirarás o homem ou a mulher que fez este malefício, às tuas portas, e apedrejarás o tal homem ou mulher, até que morra.»
«E aquele que blasfemar o nome do senhor, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do senhor, será morto.»
«Todo o que for achado será transpassado; e todo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas.»
«…matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos»
«Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada»
«Os homossexuais devem ser executados»
«As mulheres não devem usar roupa masculina - é uma abominação aos olhos do Senhor.»
«As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E se querem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos, porque é vergonhoso para uma mulher o falar na igreja»
«A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.»

Um pormenor que os crentes terão reparado: as frases não são retiradas de textos sagrados islâmicos. Se alguém resolvesse usar estas citações para descrever o Cristianismo o que lhe diriam? Que era um débil mental. No entanto não é o que se diz quando alguém escolhe este método idiota para retratar o Islão. Pode discutir-se as sociedades muçulmanas, que são muito diferentes entre si. Mas deixar que o debate desça a este ponto de indigência intelectual não é apenas um insulto aos muçulmanos. É um insulto à inteligência.


por Daniel Oliveira
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Sábado, 29 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
Os Centros de Saúde de Sete Rios, Benfica, Lumiar e Alvalade estão a proceder à avaliação dos médicos levando em conta a adesão a greves. Um dos parâmetros da grelha de avaliação contabiliza faltas por “greve/impedimento legal/nojo” - sendo possível chegar à identificação de quem foram os grevistas, pois o quadro inclui os números das cédulas profissionais. O CDS já pediu explicações à ministra da Saúde, alegando que está em causa o direito constitucional à greve. (no "Expresso")

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por Daniel Oliveira



Não usar uma mini-saia no trabalho pode significar menos dinheiro no fim do mês. Esta é pelo menos a ideia da clínica espanhola San Rafael, em Cádis, que retirou a dez recepcionistas e enfermeiras o seu prémio de produtividade, por não usarem a saia curta que faz parte do uniforme obrigatório. As mulheres recusaram o traje estipulado, que além de deixar as pernas descobertas obriga ao uso de um avental justo e pouco prático. Assim, no fim do mês receberam menos 30 euros, o preço por andarem com os tradicionais fatos de saúde.

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«Agora, o tema mediático, servido por um simpático Dalai Lama, caixeiro-viajante do império, é a «questão» tibetana, que visa apresentar a China, gigantesco país onde convivem há séculos muitas nacionalidades, como um Estado opressor, visando, pelo menos, estragar-lhe os Jogos Olímpicos. Se forem só os jogos... É que a União Soviética, destroçada também pela ingerência externa na convivência exemplar que soube construir, continua a ser um exemplo de como o imperialismo sabe ganhar com a desunião dos povos.»
Avante!

Nem discuto o conjunto do texto (que podem ler) e o que ele revela dos reflexos condicionados e da a ausência de reflexão sobre imperialismos, nacionalismos, direito à autodeterminação, diferentes formas de resistência e, já agora, do que foi o socialismo real e do que é o regime chinês. Fico por o bold que é de minha responsabilidade. Ouviram falar das deportações em massa? De povoamentos forçados para alterar a demografia de repúblicas inteiras? Das sanguinárias razias estalinistas? Se ouviram foram enganados. Nunca aconteceu. Tudo não passou numa «convivência exemplar».

Não tendo percebido o que se passou antes, é normal que no PCP não tenham percebido o que se passou com as ex-repúblicas soviéticas depois de 1989. E agora explica-se tudo pelo caminho mais fácil. De facto, ignorando a história quem pode ser lúcido a olhar para o presente? Não aprendendo com o passado, como pode o PCP não deixar de repetir o erro: o de apoiar mais uma ditadura imperial. E no caso, com uma pequena agravante para um comunista: uma ditadura imperial onde reina um capitalismo sem quaisquer direitos para os trabalhadores.
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


Qual foi a primeira reacção judicial contra o filme de Geert Wilders? De muçulmanos? Não. Da família do decapitado que ele pornograficamente exibiu? Também não. Foi de Kurt Westergaard, o autor do cartoon que abre o próprio vídeo. No Ocidente a liberdade de expressão é importante? Sim. Mas acima dela está um outro valor, esse sim absolutamente sagrado: o direito de propriedade. Não faço discussão jurídica. Apenas não deixo de achar irónico. Nós também temos os nossos tabus religiosos. (Informação via BiToque)

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por Daniel Oliveira
A Nebulosa Reaccionária, de Miguel Vale de Almeida.

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por Daniel Oliveira
Leio no "Público" que «numa das reuniões do conselho executivo, a professora Adozinda Cruz confirmou que autorizou os alunos a manterem os telemóveis ligados, permitindo-lhes que ouvissem música» Nestas coisas há que ter cautela com o diz que diz. Mas se é verdade, está explicada alguma coisa e talvez seja preciso ter um pouco mais de calma com o debate. Como disse antes, não se tem autoridade, conquista-se.

Fico também a saber que a turma em questão é «maioritariamente composta por alunos que foram transferidos das escolas do Cerco do Porto, de Custóias e do Colégio Universal, alguns deles por questões disciplinares.» Já no meu tempo se fazia isto: juntava-se os problemas. E já então o resultado não costumava ser brilhante.

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Quinta-feira, 27 de Março de 2008
por Daniel Oliveira



Confesso que hesitei se postava ou não este vídeo. Em princípio, não publico aqui propaganda de extrema-direita. Defendo a liberdade de expressão que o senhor Geert Wilders, um deputado da extrema-direita holandesa (sobre o qual já tinha escrito no Expresso), não aceita para os outros (propondo que o Corão seja proibido na Holanda). Defendo que o homem tem direito à palavra. Não obrigatoriamente no meu blogue, claro. Mas ver este vídeo pode ser muito elucidativo do que é e a quem serve a islamofobia. Posto aqui este inenarrável vídeo de propaganda racista, onde se misturam imagens chocantes, frases soltas e declarações incendiárias não identificadas. No vídeo quase amador, mas que foi divulgado hoje e já corre o mundo, o deputado não hesita em mostrar a imagem de um decapitado, que as televisões, por respeito à sua família, não exibiram.

Quem daria crédito a frases assim retiradas da Bíblia ou da Tora? E não faltaria por onde pegar em textos que lidos literalmente e sem contexto histórico só podem dar disparate. Ninguém decente. Mas a ignorância é sempre amiga do racismo. E a táctica do racismo é sempre a mesma: colar a todo um povo e a toda uma cultura os crimes de alguns para pôr o medo a render poder.

Geert Wilders não quer saber nada sobre o Islão ou sobre o Mundo muçulmano. Wilders nem sequer nos quer dar uma imagem do fundamentalismo islâmico. Geert Wilders quer nos dizer que o Islão é, ele mesmo, criminoso. Quer chafurdar no medo e assim ganhar poder. Exactamente como os nazis queriam explicar ao povo que os judeus eram culpados de tudo o que de mal lhes acontecia.

Nada distingue o senhor Wilders dos pais da criança que, no vídeo, repete que os judeus são uns porcos. São feitos da mesma massa estúpida e ignorante que nos levou, ao longo da história, para todas as tragédias. Uma diferença: Wilders é deputado e sabe muito bem porque faz o que faz e porque diz o que diz.

O que aqui vemos não é assim tão diferente da propaganda que o anti-semitismo espalhou e espalha sobre os judeus e a sua história. Nem da propaganda que radicais muçulmanos (mesmo os que não optam pelo terrosimo) espalham sobre os judeus e os ocidentais. Geert Wilders faz parte dessa velha família de incendiários, que na sede de poder espalha o medo do outro e ódio pela diferença. Este "documentário" é apenas um retrato do senhor Wilders, um dos mais populares políticos holandeses.

Mas aqui fica. Porque vivemos em sociedades livres e não daremos a este senhor o gosto da vitimização. Não será silenciado. Ao oriente diremos: sabemos que a maior parte dos muçulmanos não são isto. Saibam que a maior parte dos europeus não são Geert Wilders.

Como ateu e laico (os únicos que foram sempre perseguidos por todos os fanáticos de todas religiões), não respeito nenhuma religião mais do que outra. Apenas sei de uma coisa: aquele que me disser que há um povo, uma religião e uma cultura criminosa por natureza será seguramente o que não hesitará em matar em nome da sua autoproclamada superioridade cultural. Sempre foi assim, sempre assim será. O que assusta? É que também por cá esta gente começa a ser levada a sério. Olhem para a história e vejam onde isto acaba.

Que ninguém se engane: estes homens que usam a defesa dos direitos de umas minorias para expulsar da Europa outras minorias serão os primeiros a esmagar qualquer minoria se acharem que isso lhes dará popularidade e poder. O princípio é sempre o mesmo. Só mudam as personagens.

PS: o facto de ter postado este vídeo não abre a porta da caixa de comentários a insultos racistas, sejam contra quem forem.

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por Daniel Oliveira
Com 305 votantes (cada um podendo dar três respostas), foi este o resultado do inquérito que marcou os cinco anos da guerra do Iraque. "A indústria de armamento" foi a resposta mais votada e a única que contou com a maioria da escolha dos leitores: 58% (176 votos).Votei fundamentalismo Islâmico, Irão e curdos.

[poll=13]



O próximo inquérito vai ficar aqui mais tempo. Trata-se de saber quais são os três políticos preferidos dos leitores do Arrastão (ou os que menos desgostam) de uma lista de 50. A lista é sempre discutível. Estão lá apenas políticos no activo (que ocupam algum cargo electivo ou de direcção partidária ou social) com alguma dimensão nacional (apesar de alguns serem pouco conhecidos da generalidade da população). Seis do BE, seis do PCP e seis do CDS. Cerca do dobro do PSD e do PS. E alguns independentes ou sem actividade partidária relevante. Mais uma vez, a lista poderia ser outra. Não podia é ser maior, que me ocupava o blogue todo. Como no inquérito anterior, pode votar em três. Agradece-se que não se repita o voto. Não votarei neste inquérito. Seria o primeiro a votar, tenho na lista mais de três amigos e não quero ferir susceptibilidades.

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por Daniel Oliveira
Há um ano o PS disse que o projecto do BE, que permite o divórcio a pedido de um dos cônjuges, seria o mesmo que o «divórcio na hora». Que não era «compatível com o contrato do casamento, que não é propriamente um contrato que se rescinda sem mais nem menos». Que não se podia permitir o divórcio «por mero impulso». Menos de um ano depois mudou radicalmente de posição. Agora acha exactamente o contrário. Talvez isto se explique pela necessidade de piscar o olho à esquerda e aos jovens mais "liberais" sem grande investimento. Mas é claro que o PS não vai aprovar a proposta do BE, apesar de concordar com ela. O PS, com a sua maioria absoluta, nunca faz isso. Vai apresentar o seu próprio projecto no mesmo sentido. E, com alguma infantilidade, fez este anúncio no dia em que o projecto do BE vai ser debatido.

Apesar do PS repetir este hábito de dizer uma coisa e o seu contrário, por meras razões tácticas, e apesar da arrogância que não lhe permite trabalhar com base nos projectos de outros, preferindo a cópia ao original, não deixa de ser uma boa notícia. Porquê? Expliquei aqui, já lá vai quase um ano. Nessa altura o PS fazia coro com o CDS. Hoje faz com o BE. Amanhã quem sabe?

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por Daniel Oliveira
Obama representa a promessa da inocência. A ideia de que a intolerância ideológica e o ódio moralista de que se alimentaram os conservadores no poder podiam ser ultrapassados por uma retórica de reconciliação. As palavras mudam as coisas e as de Obama começaram a mudar. Mas seria ingénuo quem julgasse que não tropeçariam na realidade até às eleições.

Bastou a divulgação dos sermões violentos contra a América do seu amigo e pastor, o reverendo Jeremiah Wright, dizendo que Obama não se encaixava no padrão de um país dominado por brancos e que isso nunca lhe seria perdoado, para criar um terramoto político. A segregação e o ressentimento podem ter feito um minuto de silêncio para dar uma oportunidade a Obama. Mas num país onde a questão racial é a mais mal resolvida de todas as questões como poderia a cor de Obama ser um pormenor? Obama é um negro que teve vida de branco e isso alimentou ilusões. Mas as suas companhias, as de negros com vida de negro, trouxeram à campanha a biografia da raiva. A reacção de Obama à polémica mostrou como não é um político comum. Num discurso brilhante, distanciou-se, mas recusou a frase feita. Aproveitou o embaraço para subir o nível do debate. Trouxe política à política. Coisa rara em políticos.

Os sermões do reverendo foram uma excelente desculpa para acordar do sonho. Mais do que apontar as suas contradições ou a vacuidade do seu discurso, mais do que encontrar podres no seu passado, a forma de matar Obama é mostrar o que está mais à vista. Será com a sua cor que tentarão quebrar o encantamento. Porque a América de que Obama fala, misturada e em que tudo é possível, ainda é só um discurso. Obama tem cor e a cor divide. Os americanos lembraram-se agora. Não é racismo. É que a sua cor, sendo uma promessa de que tudo poderia ser diferente, exibe como está tudo tão igual. E ninguém se queria lembrar disso agora.
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Quando o debate político está pelas ruas da amargura e a mediocridade dos dois principais líderes partidários é pouco menos do que deprimente, a SIC resolveu tentar uma abordagem diferente: mostrar o lado pessoal de Sócrates e Menezes. A coisa não foi mais animadora. Sócrates tem a naturalidade de um boneco insuflável e os seus momentos mais profundos, perdidos na introspecção do nevoeiro, têm os traços de um adolescente gótico-depressivo. Menezes é um gajo porreiro, que para fazer boa figura põe a mãe, o pai, os filhos, o gato e o canário a falar das qualidade da sua liderança. Pensamos como seriam estas conversas com Soares, Cunhal ou Sá Carneiro e ficamos desanimados. Nos seus estilos diferentes, seriam retratos de homens com história, exactamente o que falta a estes dois.

Quando a política perde todo o interesse, quando as pessoas deixam de acreditar que ela pode melhorar as suas vidas, quando a direita se desfaz, quando uma esquerda se transveste e a outra decide ficar fora de jogo, sobra isto: encenações em família para mostrar o lado humano do poder. Só que não resulta. Não é regra, mas raramente os burocratas da política são pessoas interessantes. Escusam de procurar mais. Nós já sabemos que ficámos com o refugo.
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Geert Wilders é um deputado holandês à caça de votos. Usa o caminho fácil: o insulto aos muçulmanos e o combate à imigração. Pelas suas palavras: "Eu quero que o Corão fascista seja proibido. Temos de parar a islamização da Holanda. Isto quer dizer nem mais uma mesquita, nem mais uma escola islâmica, nem mais um imã...". Mas Wilders é mais inteligente do que Le Pen: em vez de ser o agressor, provoca à espera de ser vítima e de receber indignada solidariedade. E resulta. Agora fez um filme e quer transmiti-lo. Não está a ser fácil. É um filme anti-Islão e vindo de quem vem espera-se o pior. Geert Wilders diz-se defensor da liberdade de expressão. Apenas a dele, claro.

Wilders tem direito a fazer um filme insultuoso contra o Islão? Mesmo recusando a liberdade de expressão alheia, tem. Pode exibi-lo? Se o fez, deve. A Holanda tem, depois da exibição do filme, de garantir a sua segurança? Sempre e a qualquer custo. Mas depois do senhor Wilders conseguir o que quer é a nossa vez. Também nós, os que recusam a lógica do confronto de civilizações, os que sentem náuseas perante o fascismo da superioridade cultural, os que não gostam de quem usa o medo para ganhar votos, os que realmente defendem a liberdade de expressão de todos, temos direito a falar. Que não nos obriguem a fazer coro com esta gente. Temos de poder dizer ao senhor Wilders que reconhecemos o seu ódio: usou bigode estreito e marchou pela Europa. Usou a bestialização da diferença para chegar ao poder. Cá está de novo. E cá estaremos nós, mais uma vez, para defender a liberdade de todos. Porque em democracia todos os pulhas têm direito à palavra. Felizmente.
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Eliot Spitzer, governador de Nova Iorque, foi apanhado com a boca na botija. Contratou prostitutas. Ainda não se sabia muito mais e já todos pediam a sua cabeça. Demitiu-se. Independentemente de outros ilícitos do senhor, preocupa-me este hábito. O mesmo que neutralizou Bill Clinton, um dos mais razoáveis presidentes americanos, enquanto as mentiras, os escândalos políticos e as mortes à volta de George Bush não mereceram grande censura. Na verdade, os americanos parecem dar mais importância aos vícios privados do que à corrupção pública.

Eliot Spitzer foi eleito há um ano para o cargo de governador. Teve 69% dos votos. Antes era procurador-geral e ficou conhecido pelas suas corajosas investigações a crimes de colarinho branco. Com um assinalável sucesso que nunca lhe foi perdoado. E porque defendia uma ética pública esperava-se que fosse irrepreensível debaixo dos lençóis. Quem fica a perder? A democracia, que se transforma numa feira de virtudes povoada de corruptos incapazes, mas excelentes pais de família ou apenas bons mentirosos. Óptimo para as suas famílias. Péssimo para os cidadãos.
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Com um enorme atraso estão no espaço para os meus artigos do Expresso os do último sábado e do sábado anterior. Desculpem a demora.
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
O Governo poderá anunciar hoje a redução de impostos, nomeadamente uma baixa de um ponto percentual do IVA, para 20 por cento. Como sempre: primeiro sacrifícios, depois campanha eleitoral, depois sacrifícios de novo...
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por Daniel Oliveira
As notícias do Público na Internet passam a ter ligação directa para os blogues que as comentam. Colocada exactamente por baixo da fotografia, em lugar de destaque, uma pequena caixa dará conta do que se está a escrever na blogosfera sobre aquela notícia em concreto, aumentando as possibilidades de ligações entre os "bloggers" e o próprio jornal. Com a ferramenta Twingly.

Depois de uma reacção áspera à blogosfera, a comunicação social começou a citá-la. Agora, e bem, percebe que todos podem ficar a ganhar na rede. Os blogues dão leitura aos jornais online, os jornais online dão leitura aos blogues. Os blogues querem aparecer na sítio do jornal e aumentam os citações. O jornal devolve. Os blogues não são uma alternativa aos jornais. Integram-se na mesma rede. É este o futuro.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 25 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
Vitalino Canas é deputado do PS. E como deputado do PS fez, quando foi discutida a lei do trabalho temporário, uma declaração de voto: "é com inquietação que constato que, em aparente contraciclo, o novo regime de trabalho temporário é mais restritivo do que aquele que o PS apresentou inicialmente. (...) É o caso da responsabilidade do utilizador por dinheiros devidos ao trabalhador quando a ETT não lhe paga. Que utilizador quer correr esse risco?". E criticava a limitação dos contratos de trabalho temporário a um máximo de dois anos quando no projecto inicial do PS o prazo era de três anos

Vitalino Canas é, desde 2007, um obscuro Provedor do Trabalhador Temporário. E quem lhe paga? A Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego (ou seja, a associação das empresas de trabalho temporário). Este ano resolveu dar a cara de forma mais desabrida por esta nobre causa.

Vitalino Canas é porta-voz de um partido que diz que é socialista. Fala para a comunicação social, umas vezes em nome dos socialistas, outras em nome de empresas de trabalho temporário. Vitalino Canas é deputado da Nação. Faz declarações de voto em defesa das mesmas empresas que lhe pagam. E em nada disto vê Vitalino nenhuma incompatibilidade. Nem política (a de se dizer socialista e representar empresas que têm como única função sugar parte do salário de quem trabalha quase à jorna), nem ética (a de fazer declarações de voto no Parlamento em defesa de quem lhe paga), nem de imagem (a de ser uns dias porta-voz do PS e outros das ditas empresas).
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por Daniel Oliveira


De um anti-americano compulsivo, via Zero de Conduta

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por Daniel Oliveira

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Para além da vitimização e do ressentimento, que marcam grande parte do texto de Pacheco Pereira, o articulista aflora uma das razões porque seria a favor da intervenção no Iraque.

«Na Administração americana surgiu a ideia de que, para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam “distender” o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como o da Palestina. Esses conflitos não eram a causa do terrorismo da Al-Qaeda, de uma natureza diferente do Hezbollah ou do Hamas, mas, ao funcionarem como um irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região. A importância geoestratégica do Médio Oriente era crucial para o resto do mundo por causa da dependência do petróleo, líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados.»

No entanto, parecia já então evidente que uma intervenção no Iraque limitar-se-ia a criar uma nova fonte irratibilidade e a dmininuir o espaço de manobra dos ditos "moderados" (um termo dúbio e quase sempre usado conforme as conveniências quando se chega ao Médio Oriente). Como se verificou: só em cinco anos, no Iraque, já houve mais bombistas suicidas do que em toda a história da Palestina. Na verdade, o Iraque transformou-se, para os muçulmanos, numa nova Palestina. Era de esperar. Se é verdade que, pela violência extrema de Zarqawi e por o facto da Al-Qaeda juntar sunitas radicais, houve da parte dos xiitas iraquianos uma oposição a esta rede terrorista (que não é nova), não é menos verdade que o Iraque se transformou em pasto fácil para o terrorismo, como uma nova frente de combate.

Mais: sabendo-se que, desde sempre, uma das razões para o crescimento da utilização de meios não convencionais de combate (terrorismo) é a desproporção das forças em confronto ("guerra assimétrica"), era mais do que previsível que uma intervenção em larga escala naquela parte do Mundo levasse terroristas a um território onde não se tinham ainda instalado.

Não sendo previsível que uma intervenção no Iraque facilitasse a vida na Palestina e muito menos no Afeganistão, a razão do apoio de Pacheco Pereira à guerra é dada num texto de sua autoria que ele próprio cita: «A administração Bush (...) resolveu fazer uma política activa de mudar brutalmente os dados da questão que implicava acções militares preventivas sobre os estados que ou apoiassem grupos terroristas ou fossem fautores de políticas de desestabilização regionais. Esta politica resultou parcialmente na Síria e na Líbia, mas a sua prova dos nove teria que ser o Iraque. Por várias razões, o Iraque era o único país que tinha os meios e os recursos para prosseguir as políticas anti-americanas mais agressivas na região. Era também um país que se sabia disposto a tudo e com tradição de beligerância, um pária internacional que violava as resoluções das Nações Unidas todos os dias.»

Pacheco Pereira apoiou a guerra pela pior razão (aquela que era evidente desde o primeiro momento que daria maus resultados): redesenhar o mapa político e geoestratégico do Médio Oriente. Na realidade, esta posição não tinha, ainda antes da intervenção, qualquer consistência. Mas havia quem achasse que baralhando as cartas talvez lhe saísse uma boa mão. Só que no Médio Oriente a complexidade de todos os conflitos é tal que quando se baralham as cartas fica-se sempre com pior do que se tinha.

Pacheco Pereira apoiou a guerra com o mesmo voluntarismo de todos neo-conservadores, também comum à extrema-esquerda (uma análise biográfica de muitos deles talvez ajude a compreender as semelhanças). O caso mais evidente, em Portugal, foi o de José Manuel Fernandes, que num artigo com o título “De Bagdad a Riad» (cito o título e a ideia de cor, já que não encontro o texto na Net), mostrava que genuinamente acreditava que os EUA poderiam querer mudar o regime na Arábia Saudita, principal fonte de financiamento do terrorismo. Só muita ingenuidade ou ignorância sobre as relações de poder no Golfo e no Médio Oriente podiam levar a acreditar em tamanho delírio. Só um absoluto desconhecimento da natureza da administração de George Bush podia alimentar este tipo de ilusões.

Abandonando qualquer consideração ética e moral (que Pacheco Pereira não gosta quando o atacam e usa para se defender), vamos à frieza dos resultados, apenas do ponto de vista dos interesses dos EUA.

Não faltou quem avisasse que intervir no Iraque sem ter em conta a “questão xiita” era um suicídio. E os resultados estão à vista. A tomada do poder pela maioria xiita no Iraque, maltratada durante décadas por Saddam Hussein, iria inevitavelmente mudar o mapa da região. E, do ponto de vista dos americanos, só podia mudar para pior. Se é verdade que poderia enfraquecer o terrorismo sunita da Al-Qaeda, só o conseguiria por criar uma competição e uma nova frente para os americanos. Fortaleceu o Irão (e isso era mais do que previsível), que deixou de estar sozinho como país maioritariamente xiita governado por xiitas, e fortaleceu assim todo o eixo xiita (com vantagens evidentes e comprovadas para Hezbollah no Libano - transformando-se mesmo numa ponte entre o Irão e o Hamas -, criando uma nova frente para Israel). E a nova frente israelita perturbaria a frente palestiniana, como aconteceu.

Para além de Israel, criava ainda problemas a dois dos principais aliados dos americanos na região: o fortalecimento do eixo xiita assustou os sauditas e a autonomia (quase independência) do Curdistão Iraquiano levou os turcos a intervir contra o novo aliado dos EUA (os curdos), dando ao Irão (também com uma minoria curda) mais razões para se envolver na vida iraquiana. Pior ainda: obrigando a um investimento militar, enfraquecia a posição dos EUA no Afeganistão com repercussões explosivas (mas ainda pouco definidas) no Paquistão.

Ou seja, mais do que enfraquecer o terrorismo, a intervenção no Iraque criava uma nova frente de combate, um novo território para a Al-Qaeda, fortalecia outro opositor, retirava forças do Afeganistão e aumentava a pressão sobre Israel e sobre todos os aliados dos EUA na região. Pior para os EUA era impossível.

Diz Pacheco Pereira: «Muito do que aconteceu no Iraque deve-se a erros cometidos depois da invasão, uns inevitáveis devido ao modo ingénuo, ignorante e incompetente como foi previsto o período da ocupação, outros perfeitamente evitáveis e que se devem a erros clamorosos da Administração Bush.»

É verdade. Acontece que muitos dos erros cometido partiram de erros de avaliação sobre situação iraquiana anteriores à guerra - para os quais contribuiu o afastado de todos os que soubessem qualquer coisa sobre o assunto, tal era a vontade de avançar a qualquer preço. Caso a avaliação tivesse sido a correcta o mais provável (e a única coisa sensata, mesmo do ponto de vista dos interesses americanos) era que os EUA se vissem obrigados a desistir da aventura iraquiana. Os erros não são um desvio de percurso, são a consequência de uma intervenção às cegas. Muitos dos erros fundamentais (outros não) resultam da má avaliação que levou à intervenção. E essa má avaliação está bem espelhada nas razões de apoio à guerra que são dadas por Pacheco Pereira.

O Médio Oriente (e a sua vizinhança) funciona com vasos comunicantes. Qualquer coisa que aconteça na Palestina tem consequências no Líbano, qualquer coisa que aconteça no Líbano tem consequências na Síria, qualquer coisa que aconteça no Iraque tem consequências no Irão, qualquer coisa que aconteça em qualquer território curdo tem consequências na Turquia, qualquer coisa que aconteça no Afeganistão tem consequência no Paquistão e por aí adiante. Decidir uma intervenção militar no Iraque apostando na sorte (e tendo como base informações dadas por opositores imigrados) só podia dar maus resultados. Uma intervenção militar nunca levaria a “distensão” da situação no Médio Oriente, mas à sua explosão.

Como muitíssimo bem resume um artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público de há uns dias (com o esclarecedor título «Bush fez uma revolução no Médio Oriente, mas exactamente ao contrário daquela que esperava»), «três analistas do liberal Cato Institute, Benjamin Friedman, Harvey Sapolski e Chistopher Preble, advertem contra a ilusão de atribuir a catástrofe aos “erros” de planeamento ou de ignorância cometidos no Iraque - e cuja lista é infinda e risível. O erro de Bush foi ignorar os limites do poderio americano. “A força militar dá-nos o poder de conquistar países estrangeiros, mas não o poder de os governar.” Noutras palavras: a imposição do poder militar americano no estrangeiro “tende a unificar os nossos inimigos e a enfraquecer os aliados ideológicos”.»

Hoje, o mapa do Médio Oriente é mais explosivo do que era há cinco anos, a Al-Qaeda só está enfraquecida porque foi ultrapassada por outros adversários dos EUA, o Irão está mais forte, Israel teve a primeira derrota militar séria da sua história, a situação na Palestina está mais instável e incontrolada, os sauditas estão assutados com o crescimento da força xiita e reactivos, os turcos temem o que se passa no Iraque, e, já agora, o «petróleo, líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados» (ou os sítios ficam complicados quando ele aparece?) está muitíssimo mais caro (e o Iraque contribuiu para isso).

Pacheco Pereira garante que não apoiou a guerra por causa das mentiras que nos foram apresentadas: as relações de Saddam com a Al-Qaeda (vendida a ignorantes) e as ADM. Irrita-se quando lhe mostram os números de mortos (acusa que aos opositores da guerra «não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos» mas resume as centenas de milhar de mortos desta guerra a «números plásticos»). Fiquemos então pelos objectivos estratégicos. Eles aí estão e foram, mesmo do ponto de vista que Pacheco Pereira defende, uma catástrofe.

Pacheco Pereira defendeu a intervenção porque acredita na engenharia política por via militar no Médio Oriente. E esse caminho foi o maior derrotado desta guerra. É destes factos que Pacheco Pereira tem de tirar todas as conclusão. Esperemos pelo seu próximo artigo.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
«O Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Porto decidiu hoje que Jorge Nuno Pinto da Costa vai a julgamento no caso Apito Dourado. O presidente do FC Porto ficou a saber que será julgado no âmbito primeiro caso de corrupção desportiva em que foi acusado pelo Ministério Público, que remete para alegadas manipulações de resultados durante a época de 2003/2004. Em causa está um jogo entre o Beira-Mar e o FC Porto.

A decisão foi confirmada à saída do TIC por Miguel Moreira dos Santos, um dos advogados de Pinto da Costa. O líder portista vai a julgamento acusado do crime de corrupção activa desportiva. Ainda não é conhecida a decisão do TIC relativamente aos arguidos Augusto Duarte (árbitro) e António Araújo (empresário), outroe elementos envolvidos no processo.»

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Na despedida de solteiro, todos os convidados/todas as convidadas pediram factura ao/à stripper?
Alguma das damas de honor tinha um tatoo não autorizado?
O arroz que foi atirado aos noivos chegou à igreja devidamente embalado?
O bolo dos noivos foi preparado com colher de pau?
Algum dos empregados de mesa no copo de água era imigrante? Verificou se tinha autorização de trabalho?
Durante o copo de água algum convidado fumou em zona não autorizada?
Algum dos convidados conduziu depois de excesso de consumo de álcool?
Na noite de núpcias verificou se o seu marido/a sua mulher usavam piercing nos genitais?
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por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008
por Daniel Oliveira
«Existe em Portugal um delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes. Esse delito de opinião é ter estado a favor da invasão do Iraque e é particularmente agravado nos casos raríssimos em que se continua a estar a favor, esses então de reincidência patológica que justificam prisão e banimento.»
De Pacheco Pereira, que anda há anos a monte, perseguido por uma turba que o quer levar para forca.
Quando lhe faltam argumentos Pacheco faz sempre o mesmo: atira-se para o chão num pranto, apontando o seu dedo de vítima perseguida a quem se atreva a critica-lo. O que, tendo em conta a sua violência verbal (bem presente no resto deste inenarrável post), é de um descaramento extraordinário.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


As autoridades da Carolina do Sul estão a investigar uma série de gravações que mostram a polícia local a recorrer a métodos questionáveis para deter suspeitos. O último caso mostra um agente a atropelar um homem que fugia a pé após ter sido perseguido por excesso de velocidade.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Enquanto o presidente do comité organizador dos jogos de Pequim discursava, em Olímpia - Grécia - dois manifestantes pró-tibetanos invadiram o recinto, exibindo bandeiras negras.

Triste é ver como o portal do PCdoB faz, sem qualquer pudor, de porta-voz da propaganda da ditadura chinesa.
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



Do progama da Al Jazeera, "People & Power": Lisboa, corrupção, José Sá Fernandes e imigração.

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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Para os que tenham acabado de chegar de fim-de-semana de Páscoa, três posts longos e um curto sobre o caso da professora do porto e do telemóvel, que perdem em ser lidos do último para o primeiro. É esta a ordem:

Este post não tem comentários para que os debates não se baralhem todos. Comentem nos textos referidos.

Um post sobre um inenarrável recado de um pai a uma professora foi retirado pouco tempo depois de ter sido postado. Apaguei depois de um comentador ter garantido que se tratava de um documento falso que circulava em diferentes versões na blogosfera e que me chegou via mail. Não podendo confirmar a sua veracidade, apaguei o post em causa. Aos que lá deixaram comentários as minhas desculpas.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Via Insónia



Ok, a cena foi encenada. Já nem não mau feitio de um professor se pode confiar. Esperemos que este seja a sério.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 23 de Março de 2008
por Daniel Oliveira


O vídeo que deu que falar levanta a questão da autoridade dos professores. Na verdade, a questão da autoridade é um debate que está sempre a voltar: a da polícia, a da justiça, a dos pais, a dos professores. E o pior é que a estupefacção perante o que se está a passar, num país que viveu tantos anos em ditadura, vem atrasada. É um debate com barbas em sociedades democráticas. E quando aqui se fala de democracias não é apenas da questão da liberdade que se está a falar. Fala-se também de sociedades menos estratificadas e menos centralizadas.

O uso da autoridade depende da capacidade de coerção, da distância (superioridade reconhecida) de quem exerce a autoridade e da utilidade da aceitação dessa autoridade. Para que a autoridade possa ser exercida ou quem a exerce tem formas de nos obrigar a aceitar as regras que impõe, ou reconhecemos uma legitimidade especial que resulta da dificuldade de atingirmos o "posto" que ocupa ou essa pessoa pode premiar-nos pela aceitação do seu poder.

Na verdade, a escola e os professores perderam estas três formas de exercer a sua autoridade.

Numa sociedade mais democrática, os instrumentos de coerção foram reduzidos. E porque a escola não está isolada da sociedade em que vive, não pode exercer esses poderes fora das regras gerais. Para que continuasse a ser possível a ordem de um professor ser acatada sem questionamento seria necessário que toda uma rede de repressão social continuasse a existir. Já não existe.

Com a democratização do ensino, a escola deixou de ser um instrumento de ascensão social. A escola não oferece, pelo menos a quem não pretenda continuar os estudos para lá do 12º ano, nenhuma recompensa. E isso retira-lhe autoridade. Mais: a partir do momento em que a escola passou a ser para todos foi ela mesma que deixou de distinguir socialmente quem a frequenta, e essa sua natureza igualitária retirou-lhe autoridade social.

Por causa disto e da massificação da função docente (com a entrada de milhares de professores no sistema), o professor deixou de estar no topo da hierarquia social. Pelo contrário, a função de professor é hoje pouco respeitada. E os estudantes, que não vivem fora da sociedade, vêem o professor com indiferença. A não ser que ele seja excelente, claro.

Na verdade, a perda de autoridade não é exclusiva dos professores. Só como exemplo: com a multiplicação de fontes de informação, os jornalistas perderam autoridade; com o enfraquecimento do Estado, os políticos perderam autoridade. Mesmo os juízes ou os polícias perderam estatuto social e simbólico e só mantêm a sua autoridade por serem portadores de formas eficazes de coerção.

Vamos partir de dois princípios (sempre discutíveis): que em democracia há sempre uma diluição da autoridade e que, ainda assim, ela é necessária para que algumas funções sejam eficazmente exercidas. Há duas escolhas possíveis: repensar algumas instituições para que essa autoridade seja voluntariamente reconhecida pela sociedade ou reforçar os instrumentos de coerção. Se não se garantir o primeiro caminho acabará por ser o segundo a impor-se numa espiral difícil de controlar.

No caso da escola, sendo o ensino básico obrigatório e não aceitando as nossas sociedades o uso da força na educação, as formas de coerção disponíveis para adolescentes serão sempre fracas. Resta devolver à escola funções que a sociedade em geral e os adolescentes e suas famílias em particular reconheçam como benéficas para si.

Os mais conservadores têm uma resposta clara: querem voltar à escola elitista. Ter escolas de excelência, que seleccionando os seus alunos ganhem estatuto social de excepção, deixando os menos capazes num limbo caótico, socialmente desprestigiante e sem futuro. Não há dúvida de que assim devolvem a autoridade à escola. Pelo menos à escola onde estudem as elites e onde os melhores das classes mais baixas podem entrar quando são excelentes. E de lá não querem sair. Estão assim garantidas todas as condições para que se exerça a autoridade. O problema é que em todas as outras escola a crise de autoridade se agravará ainda mais.

Aqueles que acreditam na democracia (no que a palavra tem de mais profundo) têm de procurar um caminho mais difícil: que a escola dê a todos qualquer coisa para além de uma falsa promessa de ascensão social (que na realidade só outros instrumentos podem garantir). E só vejo uma possibilidade: preparação especializada, proximidade com o que será a experiência futura e experiências impossíveis de encontrar fora da escola.

Na verdade, a escola de hoje não tem quase nada a ver com tudo o que se passa fora dela. Estar 50 ou 90 minutos sentado numa secretária a ouvir um professor, dividindo o tempo por assuntos absolutamente diferentes, para depois ser avaliado por o que se sabe, é uma coisa que não se repete em praticamente mais nenhum momento das nossas vidas. Dificilmente conseguimos convencer alguém que se for bom naquilo será óptimo nas restantes funções que terá na sua vida.

A escola deve ser aquilo que sempre tentou ser: uma preparação para a vida adulta. Seja a vida profissional, pessoal ou de cidadão. E por isso, nela se devem dar os primeiros passos para o que será essa mesma vida. Dando, claro, informações fundamentais e instrumentais sem as quais nada se pode aprender, mas também criando hábitos de aprendizagem, elasticidade mental, experiência de trabalho em grupo e de liderança, hábitos de disciplina na gestão do tempo, estimulando a criatividade, ensinando a falar, a escrever, a pensar e a argumentar, estimulando a capacidade de iniciativa e de risco. Se o fundamental da escola é estar sentado numa aula a ouvir alguém e fazer testes (não digo que isto não tenha de existir), quase nenhuma destas capacidades é realmente trabalhada.

O problema daquilo a que têm chamado “pedagogismo” não é, na realidade, ser muito avançado. É ser quase tão atrasado como aquilo que tenta combater, ficando a meio caminho. O problema da escola não é ser muito ou pouco exigente. É ser desadequada naquilo em que é e não é exigente. É estimular a passividade absoluta para de repente , vindo do nada, promover o “achismo” inconsequente. É manter a lógica uniformizadora que vem do tempo em que a escola servia de instrumento de poder do Estado ou de preparação para uma organização do trabalho que está a desaparecer. E por vezes fingir que estimula a opinião própria sem garantir instrumentos para que ela valha alguma coisa. É ser burocrática. E o “eduquês” é tão burocrático como a velha escolha.

Quer isto dizer que a escola deve ser mais agradável? Quando não pode ser, não. Sendo certo que, ao contrário do que alguns parecem achar, ser desagradável não é por si só uma qualidade, preparar o futuro é preparar também para coisas desagradáveis. Quer dizer que devemos facilitar ou baixa a fasquia? Exactamente o contrário. Não podemos aproximar a escola à facilidade do lazer ou à ignorância da adolescência, limitando o que se ensina ao estreito horizonte do que se encontra na televisão e nas conversas com os amigos. Temos é de aproximar a escola da dificuldade da vida adulta, dando ao adolescente coisas que ele não tem fora da escola mas que terá no futuro.

Só escolas mais autónomas e menos dependentes do “centro”, mais democráticas e menos burocráticas, com mais projectos e mais actividades extracurriculares, menos uniforme e pré-fabricada, pode recuperar a autoridade. Num momento em que em todos os sectores se promove a personalização de tudo o que se oferece a toda a gente, leio com espanto imensa gente a defender exactamente o oposto para a escola: leis sobre tudo, regras iguais em todo o lado, exames nacionais a todo o momento...

O regresso ao passado numa sociedade que não volta para trás apenas isolará mais escola da realidade que a rodeia. E ao fazê-lo ela perderá importância. E perdendo-a perde todos os instrumentos que ainda lhe restam de autoridade. Aos professores restará serem amas-secas dos nossos filhos até eles voltarem para a vida real onde aprendam qualquer coisa sobre o que realmente lhes vai interessar.

Na verdade, a crise de autoridade dos professores é a crise de autoridade que vem sempre com a democracia. Em vez de nos indignarmos, vale a pena repensar a escola. Porque é com a crise da escola que nos devemos preocupar.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



Na campanha pela despenalização do aborto, nasceu, no campo do "sim", um movimento que se distinguia dos restantes. Fora dos partidos ou da Igreja, era um movimento de profissionais numa classe que, em Portugal, não se distingue pelo envolvimento em combates cívicos. Um grupo de médicos (muitos deles jovens médicos) forma o Movimento Médicos pela Escolha. Mais de um ano depois o movimento continua a existir ((hoje é uma associação) e desde este mês tem um blogue para debater a aplicação da lei que aprovámos com o nosso voto. O Médicos pela Escolha é o blogue da semana.

Para a semana voltarei, espero eu, aos blogues regionais.

por Daniel Oliveira
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Sábado, 22 de Março de 2008
por Daniel Oliveira



Sobre este post tive muitas reacções aqui (quase 200 comentários) e noutros blogues. Variaram muito. As mais críticas:

1. Uns resolveram debater se quem tinha razão era a aluna ou a professora e houve mesmo quem me acusasse de desculpabilizar ou até dar razão à aluna. Penso que fui claro mas confesso que nem me passou pela cabeça pôr as coisas nestes termos. Mal seria. Quando se discute um caso de indisciplina numa sala de aulas separam-se os planos. A aluna não está em pé de igualdade com a professora. Defender que o professor deve ter autoridade é dizer isso mesmo: que o bom funcionamento das aulas depende do professor, mesmo quando tem alunos indisciplinados na sala. Se um filho de um amigo nosso levanta a mão ao pai ou à mãe nós ficamos chocados com o comportamento do filho mas é ao pai ou à mãe que dizemos «estás a falhar em qualquer coisa». Não lhe dizemos «tu é que tinhas razão, o teu filho foi indecente». Bem sei que professores não são, nem têm de ser, pais e mães. Mas não podem estar em pé de igualdade com os adolescentes que estão sentados na sala. Nem na autoridade, nem na avaliação que se faz da sua prestação.

2. Outros usaram argumentos de autoridade: não sou professor, não sei do que estou a falar. Fui à marcha dos professores manifestar a minha solidariedade. Escrevi várias vezes sobre a sua luta. E a razão porque o fiz, mais do que profissional ou de política circunstancial, prende-se com a defesa da escola pública que passa pela defesa da dignidade da profissão docente, sem a qual a escola perde razão de ser. Quando o fiz nenhum professor me pediu credenciais. Se querem (e devem querer) envolver a sociedade na sua luta não podem, quando há um comentário critico, dizer «aí pára, que isto não é o teu ofício». A escola é um assunto de todos e devem ser os professores a querer que o seja.

3. Outros condenaram o facto de eu fazer uma avaliação do professor através de um vídeo de dois minutos. Nisto não posso deixar de lhes dar alguma razão. Mas mais do que querer avaliar a professora (apesar de repetir que o comportamento geral dos alunos - tratamento por "tu" e por "velha", descontrolo generalizado, etc - indicia uma indisciplina e falta de respeito que vem de trás), quis avaliar a situação em concreto, tal como quase todos os comentadores fizeram, só que no sentido inverso. E fiz menos do que todos aqueles que avaliaram a partir destas imagens todo o sistema e até os tempos em que vivemos. Todos ouvimos pessoas dizer que um determinado jornalista é um incompetente porque leram uma má notícia feita por ele, que um determinado político é um aldrabão porque ouviram uma declaração falsa, que a função pública é uma vergonha porque apanharam um determinado funcionário em dia não, que um determinado polícia é incapaz porque excedeu de forma inaceitável os limites das suas funções... Ainda assim, concedo o risco de fazer todo um debate em torno de um caso concreto e com muito poucos dados. Mas se usam este vídeo para provar qualquer coisa de mais geral é difícil não o fazer.

4. Veio, como não podia deixar de vir, o "no meu tempo" da praxe. Devo recordar que o «no meu tempo isto era assim (quase sempre excelente) e agora as coisas são assado (quase sempre próximas do Apocalipse)» é tão antigo como a humanidade. Foi dito em todos os tempos e não vale um caracol para o debate. No tempo de cada um havia coisas óptimas e coisas péssimas. E não seria mau recordar que "no tempo" de muitas das pessoas que fazem estes comentários o ensino na adolescência era para uma pequena parte da população. A escola é hoje outra coisa e estas comparações são inúteis. Os alunos eram outros (e menos) e até os professores eram outros (e menos).

5. Outra reacção: isto é um retrato da sociedade em que vivemos. Fica a minha dúvida: o que querem fazer? Fechar as escolas enquanto a sociedade em que vivemos é a sociedade em que vivemos? As escolas vivem sempre na sociedade em que vivem. Como é difícil adaptar a sociedade à escola, geralmente prepara-se a escola para saber lidar com a sociedade em que vive. Não quer isto dizer que a escola deva ceder a tudo o que lhe é imposto pela dura realidade do exterior. Às vezes, pelo contrário. Deve ser um contraponto (por isso reajo mal a alguma facilidade na abordagem de algumas matérias - há coisas que são mesmo complicadas e o que se deve é criar o gosto por o que é complicado em vez de fingir que é simples), mas isso não deixa de a obrigar a saber que é com aquela realidade que lida e é com ela que terá de saber lidar.

6. Por fim, acusar-me de «eduquês». Relendo o meu post nem imagino de que possam estar a falar, tendo em conta a minha insistência na importância da autoridade do professor. O meu post não é, ao contrário do que aqui se escreveu, contra qualquer sinal de autoridade. É exactamente o contrário: é contra uma demonstração de evidente falta de autoridade.

Vamos então à conversa mais geral. A escola hoje é diferente: já não é um espelho do privilégio de estudar. É um espelho de tudo o que há na nossa sociedade. Hoje andam na escola miúdos cujas famílias não valorizam a própria escola. Hoje andam na escola miúdos com experiências familiares muito diferentes. E hoje há muito mais professores, também eles muito mais heterogéneos entre si, e com diferentes graus de motivação ou apetência para a profissão. Este é o preço da massificação do ensino. Ela teve de se fazer e tudo tem custos. No "tempo" de muitos comentadores era tudo muitíssimo mais fácil. Grande parte dos verdadeiros problemas ficavam fora da escola.

Sempre houve indisciplina na escola e nas salas de aula. O tempo que as pessoas fantasiam nas suas cabeças desapareceu há umas décadas. Aceito, no entanto, que hoje seja mais grave. Algumas de muitas razões: famílias demissionárias ou ausentes (as mulheres hoje trabalham e espero que não as queiram de volta para casa), formas de socialização entre adolescentes que os pais e os professores desconhecem e com os quais não sabem lidar, concentração de miúdos problemáticos nas mesmas escolas e turmas, pais e alunos que não respeitam a escola porque não a vêem como uma forma de ascensão social, depreciação da imagem do professor, confusão entre autoritarismo e autoridade (sem a qual a educação - aceitação de que a pessoa que está à nossa frente tem qualquer coisa para nos ensinar - é impossível), uma escola cada vez mais distante da realidade quotidiana vivida pelos adolescentes, a hiper-mediatização de cada episódio que deixa de poder ser gerido dentro da sala de aula e passa a ser debatido por todos (para esta última contribuo eu próprio).

Alguns destes factores são inultrapassáveis. São assim mesmo. Outros não o são e vale a pena discuti-los. Mas há debates que não vejo muito bem para onde nos podem levar. O que propõem exactamente, para resolver os problemas de disciplina, alguns que aqui deixaram comentários?
1. Que o castigo físico volte a ser reintroduzido como forma de ensino?
2. Que os alunos complicados sejam proibidos de ir à escola e se acabe com o ensino obrigatório?
3. Que se acabe com a Internet e com a televisão?
4. Que se esterilizem os pais que não saibam educar os seus filhos?

A pura indignação pode ser uma excelente terapia colectiva, mas não serve de grande coisa.

Quando aqui quis debater a preparação daquela professora para lidar com um problema de disciplina quis, mais do que decidir quem tinha razão (como se isso estivesse sequer em debate), discutir o que pode ser resolvido. Usei este exemplo concreto, de que todos falavam, o que pode ser sempre injusto.

A importância de preparar os professores para lidar com a indisciplina (que passa por saber gerir uma crise, mas também por saber dar aulas) e com adolescentes pareceu-me evidente. Defender a dignidade dos professores é defender os professores, mas não só. É defender a sua qualificação. E quem trabalha com adolescentes em 2008 tem de saber trabalhar com os adolescentes que existem em 2008, com todas as diferenças que há entre eles, e não com o adolescente que devia existir ou que um dia existiu (se é que existiu). Haverá sempre excelentes professores, professores medianos, professores maus e professores péssimos. Haverá sempre excelentes alunos, alunos medianos, alunos maus e alunos péssimos. A formação dos professores, a valorização da profissão para que os mais capazes queiram leccionar e a adaptação da escola à realidade que tem pela frente é o que podemos fazer. O resto depende, como em todas as profissões, da qualidade de cada um. Mas fazer de cada professor uma vítima aos olhos da sociedade, dos pais e dos adolescente só piora o problema. Uma coisa não está ao nosso alcance: escolher os adolescentes que podem estudar. E ainda menos os pais deles. Por isso é que faz sentido falar dos professores e, claro, do funcionamento da escola.

De resto, os que não querem resolver os problemas podem continuar a falar do seu tempo. Já foi. Era outro. E sobre o outro tempo podemos também falar. Há muito para dizer e está longe de ser consensual. Mas não serve de muito para aquilo que está em debate. Esse tempo passou. Passa sempre. A escola que temos tem estes adolescentes que têm estes pais. Acabada a indignação, vamos discutir o que interessa?

PS1: Uma coisa que não suporto ouvir: o meu papel é ensinar a matéria, não é educar, gerir conflitos ou resolver este tipo de problemas. E não suporto por uma razão simples: é falso. Mesmo que fosse justo (e não é), não aguentava um segundo de contacto com a realidade. E denuncia uma relação burocrática com a docência que é intolerável.

PS2: gostei de ler este texto, que, com conhecimento de facto, talvez faça justiça à professora.

por Daniel Oliveira
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