Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
por Sérgio Lavos

por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
Vieira, dá para fazeres daqueles teus bonecos, mas com um dragãozito de boca cheia? Que banho...
Post escrito do Estádio de Alvalade

Já em casa: Hoje não se janta na casa de Rui Pedro Soares e isso parece-me muito positivo. Quanto à ajuda que damos ao Benfica e ao Sporting de Braga... Acho bem. Pelo menos ajudamos quem, nos últimos anos, raramente fica nos dois primeiros lugares. Ainda assim, fica a promessa para o Barga: na Luz trataremos do resto.

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins


Sendo um bom filme, fico com a sensação de que Estado de Guerra está a ser grandemente sobrevalorizado em função daquilo que seria suposto representar. Cento e trinta e um minutos depois, é lícito supor que tanta reverência e unanimidade só pode dever à ideia que vem sendo cristalizada com a antevisão dos Oscars; reza a dita que o mundo cinematográfico se divide entre os blockbusters (Avatar) e os outros (Estado de Guerra). É bem verdade que, descontado o deslumbre tecnológico, Avatar consegue ser básico até para os padrões de um filme Disney, pelo que, no directo contraponto com o filme de Cameron, Estado de Guerra aparece como se de uma obra-prima se tratasse. Não é o caso.

Ademais, tendo James Cameron e Kathryn Bigelow sido casados, a dicotomia "quem não gosta deste deve gostar muito daquele" tem sido exacerbada por uma directiva tácita: temos que optar pelo membro do ex-casal que convidamos para o nosso aniversário, já que os dois iam dar mau ambiente. Da minha parte, não faço grande questão da presença de nenhum deles.

Reparo agora, crescentemente convencido da bondade da minha tese, que o início texto do Jorge Mourinha no Público expressa, em termos cintilantes, a tal dicotomia (ressalva: fui ler as críticas já depois de começar este texto):
"O melhor filme de guerra em muitos anos e um filme de acção que envergonha 95 por cento dos "blockbusters" americanos recentes."

Em bom rigor, o que é que os blockbusters têm a ver com o assunto? Pois, nada. Por aqui vemos como Estado de Guerra tem surgido na agenda mediática enquanto estandarte possível da oposição - estética e ideológica - aos filmes de massas. O facto é que o imperialismo mediático forjou um perverso Tratado de Tordesilhas. Assim, no vago manifesto que perpassa, consta que devemos abraçar Estado de Guerra com convicção, devemos elegê-lo como sinal inequívoco de que não pertencemos à tribo que se fez nativa do mundo dos blockbusters. Lamento a traição ao regime oposicionista no poder: da dialéctica em apreço, não achei especial graça a nenhum dos espécimes.

Publicado originalmente em Avatares de um Desejo.

por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues


A rubrica mais ou menos semanal, que hoje inicio no Arrastão, pretende escrutinar as aldrabices e as omissões que marcam o pensamento económico convencional monopolizador do debate público: uma fraude intelectual e política conveniente para certo poder empresarial predador muito pouco escrutinado no nosso país. No entanto, há diagnósticos e soluções, feitas por vozes críticas menos conhecidas, que podem ajudar a superar este triste estado de coisas. Começo por Pedro Bingre, professor no Instituto Politécnico de Coimbra e especialista em economia imobiliária. Escrutinar o rentismo fundiário é ir à raiz da corrupção, da captura do poder político, do caos urbanístico e do endividamento das famílias. Uma das heranças da facção mais predadora da burguesia nacional. Aqui ficam dois excertos de dois artigos publicados na Vírus e na Opinião Socialista, duas publicações socialistas na net. Boas leituras.  

"Contraste-se este nosso regime comercial com o dos Países Baixos; o mercado imobiliário holandês é dos que mais exemplarmente executa a retenção pública de mais-valias urbanísticas. Mesmo que se encontrem contíguos aos perímetros urbanos, os solos agrícolas holandeses são transaccionados a preço estritamente agrícola, posto que qualquer comprador privado sabe de antemão que futuros acréscimos de valor do solo, produzidos por via de loteamentos, reverterão para o erário público. Além de reter as mais-valias urbanísticas, o Estado Holandês oferece também para arrendamento público mais de 30% do parque habitacional do país — fórmula que além de facilitar a mobilidade laboral e assegurar residência a preço justo para toda a população, dificulta sobremaneira o crescimento de bolhas imobiliárias." (A bolha imobiliária: duas faces da mesma (falsa) moeda)

"Sempre houve ao dispor dos portugueses soluções de eficiência comprovada para evitar a especulação e o caos urbanístico das últimas quatro décadas. Não foi por falta de recursos financeiros nem de competências técnicas, científicas e artísticas que se produziram os péssimos subúrbios onde hoje vive metade da população. Foi por deliberação política, e não por qualquer outra fatalidade, que se sacrificaram quarenta anos de expansão urbana à cultura rentista do alvará. Os resultados estão à vista. Até quando?"  (Economia Política do Urbanismo Português - Quatro décadas de rentismo, corrupção e incompetência)

Nota: a foto é do mamarracho que acabaram de construir na antiga "Ponte do Galante" na Figueira da Foz. Um revelador estudo de caso também da autoria de Bingre.

por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira
Quem não é do PS não precisa de se esforçar. Todas as suspeições contra Sócrates são acolhidas e festejadas. Os boatos chegam para ter certezas acerca do seu carácter, responsabilidade, honradez. Quem é do PS, militante ou simpatizante, está sempre na berlinda. Tem de lidar com as sucessivas campanhas e manobras de destituição de Sócrates. O resultado é um permanente exercício analítico e reflexivo onde se interpretam notícias, declarações e comportamentos. Conclusão: qualquer estúpido repete uma calúnia e ataca sem provas, mas é preciso ter uma inteligência robusta para defender a Cidade da invasão dos bárbaros.

por Daniel Oliveira
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Sábado, 27 de Fevereiro de 2010
por Bruno Sena Martins
Referi-me ao anúncio da Super Bock Stout com duas palavras - "sexismo explícito" - e consegui a improvável proeza de ter gente que discorda de mim, alguns pela primeira palavra, outros pela segunda e, o que que é mais, alguns pelas duas. Gosto de provocar dissensões quando - raramente me acontece - logro em chegar a statments que por alguma razão possam ser considerados inovadores ou particularmente difíceis de defender. Já isto é como jogar contra os Caçadores das Taipas com o Messi no banco. À falta de ideias polémicas ou particularmente capazes de dividir as mundividências, reparo que, por exemplo,  o Sérgio Lavos e o Daniel Oliveira vão colocando o meu post dentro da economia discursiva com que lhes apetece discordar. Nenhum problema, até acho saudável só que às tantas não estão bem discordar comigo - seria uma honra, friso.

Se bem percebo, julgam  discordar comigo porque se distanciam de certo feminismo conservador que abjura os usos do corpo, da nudez e do desejo erótico na cultura mediática contemporânea. Pensei que o post da Laetitia - caros leitores, tenho um longo historial de posts da Laetitia que me ilibam destas atrozes acusações - fosse suficiente para explicar que não vou por aí, como não vai muito do feminismo da nova vaga. Pelos vistos, foi escusado.

O que eu crítico no anúncio da Stout, e só, é a sua extrema boçalidade; delira - colegas arrastões propensos a delírio, tomo nota - quem imagina que me revolto cada vez que vejo ser uma mulher representada como objecto de desejo, nada mais longínquo, enganam-se, pois, se pensam que critico o anúncio da Stout como metonímia dos usos patriarcais que sexualizam e coisificam a mulher na paisagem contemporânea; não, o anúncio da stout é apenas anúncio que, usando uma modalidade amplamente praticada - vide os anúncios da Martini -, brilha por um raro mau gosto.



Longe da sofisticação de algum erotismo publicitário, seja o que corteja as várias versões da dominação sexual e simbólica, seja o que capitaliza estereótipos como fantasias numa linguagem que a nossa libido percebe desde a creche, o anúncio da Stout seduz o seu público alvo - homens - esquecendo que um pouco mais de subtileza seria suficiente para não perder de vista o público feminino e, já agora, o público masculino mais sensível à cristalização caricatural de papeis. Sim, a mulher servil e fácil de abrir surge ali como uma caricatura vagamente grotesca - nem naquelas mamas eu me revejo. Mas avante, porque até parece que concordamos quanto à especial boçalidade da publicidade em causa.

Mais problemático, e porventura surpreendente, foi ver tanta gente embarcar na ingenuidade do mito da simetria, algo que um pouco de sensibilidade sócio-histórica deveria ser capaz de exorcizar.

Em vários momentos da discussão política, muita gente saca da fácil arma da simetria, tão depressa como do anúncio da Coca-Light (o facto de ser um marco por todos recordado deveria ter feito feito tocar as sinetas, mas não), como se não houvesse uma história de menorização, opressão e coisificação das mulheres enquanto serviçais do homem, objectos passivos de desejo, seres destituídos de autonomia e de auto-determinação. Como se não houvesse diferença na leitura que fazemos de anúncios que (como o da Coca-Cola Light) parodiam, invertem e subvertem valores hegemónicos, por oposição aos anúncios que reificam os valores hegemónicos - no caso do da Stout, não porque queira estetizar o erotismo da dominação, mas apenas porque se julga sofisticado na sua óbvia boçalidade.

O mito da simetria é uma lógica insidiosa com que o reacionarismo se compraz amiúde e, como alguns de vós devem saber melhor do que eu, dá cabo de qualquer discussão que se queira informada, informada, claro está, sobre o modo como a história das relações de poder permanece connosco. Celebrai a igualdade conquistada, sim, mas não sejais ingénuos.

Um último apelo às pessoas de bem, façam lá o favor de não me confundirem com a  Isilda Pegado.

P.s. Escrevi este post à pressa e incapaz de dar conta de algumas reacções que foram surgindo por aí, reacções a que, com mais vagar, tentarei dar justa réplica.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira
Uma idiota (mas não inocente) lei eleitoral chilena dissolve automaticamente os partidos políticos que tenham menos do que cinco por cento e não elejam no mínimo quatro deputados. Foi o que aconteceu ao Partido Comunista Chileno: teve menos de cinco por cento. Assim, apesar de ter eleito três deputados nas últimas eleições, o PCC pode ser mesmo dissolvido. Isto, quando a direita e a extrema-direita aliadas regressam ao poder (com fortes responsabilidades da esquerda na escolha do seu candidato presidencial e quando a anterior presidente Michelle Bachelet sai do cargo, por limite de tempo de mandato, com um nível de popularidade invejável). Esta regra eleitoral resulta do acordo assinado com Pinochet, para que este fizesse o enorme favor de abandonar o poder para o qual ninguém o tinha eleito.

Em baixo, fica um link para o comunicado do PCP, que obviamente subscrevo, de solidariedade para com o partido criado em 1912, central na resistência à ditadura e que teve Pablo Neruda como senador.



"Queridos camaradas,

Foi com profunda indignação que tomámos conhecimento da situação de “dissolução” e ilegalidade do Partido Comunista do Chile. A vigência de um instrumento legal ainda impregnado pelo espírito da ditadura fascista de Pinochet – cujo anacronismo a eleição de três deputados comunistas, nas legislativas de Dezembro, torna particularmente evidente – associa-se ao recente triunfo presidencial do candidato assumido da direita chilena e à ameaça revanchista representada pelos sectores mais retrógrados da sociedade chilena e do imperialismo, facto que não pode deixar de merecer a mais firme denúncia e rejeição dos comunistas e dos democratas em geral.

Um partido com tão heróicas tradições e tão funda raiz nos trabalhadores e na realidade chilena, como o PCC, está acima de tão iníquas medidas. Mas não deixa de ser profundamente inquietante que elas sejam possíveis num país que se pretende democrático.

Deste modo, queremos expressar-vos a fraternal solidariedade dos comunistas portugueses e formular votos para que seja rapidamente ultrapassada, sem maior prejuízo para a intervenção e actividade do PCC, tão grave limitação ao exercício cabal das liberdades políticas fundamentais e do pluralismo democrático no Chile e que a luta do PCC e demais forças democráticas chilenas por uma efectiva e profunda democratização da vida política nacional venha a ser coroada de pleno sucesso".

Jornal Avante, via Spectrum

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


O Bruno criticou o anúncio da Super Bock Mini Stout. Como abrimos aqui uma primeira polémica no Arrastão (já vi partidos trotsquistas cindirem-se por muito menos), aqui vai a minha opinião. O anúncio é mau. Apenas porque é básico, não por transformar o corpo de uma mulher num objecto. Sim, transforma. Mas isso não tem mal nenhum. Pelo contrário.

Há um subtexto no discurso conservador (que não é evidentemente o do Bruno, mas a esse já lá vou) contra a exploração do corpo feminino. Não nos enganemos: para os conservadores, o poder da mulher vive da sedução e do sexo (e da família, claro, graças à prole). Este suposto poder feminino acaba por se manifestar na sociedade através da influência que terá, em conjunto com a maternidade, nos homens. Ou seja, a mulher, através das suas artes "demoníacas" e do seu domínio da casa e dos filhos, tem poder sobre o homem. Por isso, o homem pode ficar com o poder da rua, do Estado e do dinheiro, porque no fundo "atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher". Mas como é poder, o poder de sedução da mulher deve ficar dentro de casa. Não se deve banalizar. É por isso que nas sociedades muçulmanas que conheço a mesma mulher que se tapa na rua usa roupas em casa que muitas mulheres ocidentais teriam dificuldade em ter sequer no armário. Esse é o poder que lhe é permitido.

O feminismo é um movimento político e social contra uma organização política e social machista e pela defesa da igualdade de direitos. Este feminismo “liberal” em que me incluo (o feminismo não é uma coisa de mulheres) é um pouco diferente do feminismo "radical", que acredita que o poder tal como o conhecemos é essencialmente masculino. Pelo contrário, acredito que as características que muitas vezes associamos aos homens são apenas as características do poder, e não o contrário. Quando as mulheres dividirem realmente com os homens esse poder terão os mesmos defeitos. Não haverá menos guerras, menos força bruta, menos exploração. Haverá igualdade de direitos entre homens e mulheres. Apenas isso. Não há um poder masculino e um poder feminino. Há um género que garante para si o poder público e outro a quem esse poder tem sido negado ao longo da história.



O poder da mulher estará exactamente no mesmo lugar em que está o poder do homem: na possibilidade de controlar pela força bruta, ou pela solidariedade, ou pela subtileza, ou pela sedução, ou de outra qualquer forma a sua vida e a vida dos outros.

A crítica feminista ao uso do corpo da mulher na publicidade, a que o Bruno adere, parte do principio que a objectificação do corpo corresponde a uma manifestação de um poder com características masculinas. Pelo contrário, a minha crítica feminista a este discurso parte do princípio que é a ausência de objectificação do corpo dos homens (que como se vê pelo anúncio em cima começou a ser resolvida há uns tempos) que corresponde a uma desigualdade de poder. É quase a mesma coisa, mas ao mudar o foco muda o que se critica.

A objetificação do corpo da mulher e do homem (aplaudo nos dois casos), em geral, é natural e desejável. Corresponde à procura do prazer sem qualquer outro objectivo. E à conquista por parte da mulher do mesmo direito (e poder) dos homens: o do controlo sobre a sua sexualidade sem constrangimentos morais que são, sempre foram, impostos para vantagem masculina - nós temos o prazer, vocês querem o afecto, nós a auto-estima, vocês a intimidade. O que para além de ser uma treta (as mulheres gostam tanto de sexo sem afecto ou intimidade como os homens), é muito confortável para os homens. Nós ficamos com os dois - o prazer e o afecto, que não são exactamente a mesma coisa - e vocês devem contentar-se com o segundo, na esperança que com ele venha o primeiro.

É por isso que não concordo com o Bruno: tudo pelo uso do corpo da mulher na publicidade, na pornografia, na prostituição, na arte, com bom gosto, com mau gosto, de forma velada, de forma explícita. O que é que elas têm de conquistar? Não é o recato e o respeito pelo seu corpo sagrado. É o uso do corpo do homem na publicidade, na pornografia, , na prostituição, na arte, com bom gosto, com mau gosto, de forma velada, de forma explícita.

Incomodam-me os esterotipos de beleza? Sim, até porque, diga-se em abono da verdade, não me parece que neles eu esteja incluido. Safo-me como posso. Incomoda-me a mercantilização do corpo? Muitas vezes sim. Mas não por se tratar do corpo. É por ser mercantilização. Incomoda-me tanto como a absoluta mercantilização da inteligência, ou do tempo, ou da saúde, ou do conhecimento. Se me ficar pelo corpo, então quer apenas dizer que dou ao corpo (e ao sexo, porque na realidade é disso que estamos a falar) uma espécie de estatuto sagrado que não dou a tudo o resto que define a individualidade de cada ser humano.

Por isso, para mim, só faz sentido ter um discurso crítico em relação à mercantilização do corpo e do sexo se ele for, na realidade, um discurso crítico do capitalismo. Ou pelo menos da sociedade de mercado. Se não, é apenas uma crítica à exposição e exploração dos desejos sexuais humanos. E com essa tenho uma certa dificuldade em alinhar. Seria estranho que pudéssemos apelar, para vender produtos, a todo o tipo de desejos, menos ao primeiro de todos eles.

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010
por Daniel Oliveira
"O país, o PSD e o Sporting estão iguais"
Pedro Santana Lopes

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Depois da eleição de Jimmy Carter, as relações entre os EUA e a URSS mudaram de tom. Do esforço na redução do arsenal nuclear aos dissidentes dos países do bloco de Leste, com conflitos que tiveram o seu ponto alto na Polónia e na invasão do Afeganistão. No meio, a revolução islâmica no Irão e a chegada de um polaco ao Vaticano. É o 19º episódio do documentário Guerra Fria.



Episódios anteriores:
1: Camaradas 1917-1945 ; 2: o Cortina de Ferro 1945-1947; 3: Plano Marshall 1947-1952; 4: Berlim 1948-1949; 5: Coreia 1949-1953; 6: Reds 1947-1953; 7: Depois de Estaline 1953-1956; 8: Sputnik 1949-1961; 9: O Muro 1958-1963: 10: Cuba 1959-1962; 11: Vietname 1954-1968, 12: M.A.D. 1960-1972: 13: Make Love Not War 60's; 14: Red Spring 60's; 15: China 1949-1972; 16: Détente 1969-1975, 17: Good Guys, Bad Guys 1967-1978, 18: Backyard 1954-1990.

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos


A morte de Zapata Tamayo, ao fim de 85 dias de greve de fome, trouxe à colação o filme de Steve McQueen, Fome, retrato da greve que vitimou Bobby Sands, membro do IRA, em 1981. Ao contrário de outros filmes sobre o IRA (Jogo de Lágrimas, Em nome do Pai ou Michael Collins), não existe uma vontade clara de McQueen em tornar Sands um simples herói da resistência republicana. As suas preocupações são essencialmente de ordem estética. Cada plano tenta capturar a essência do sofrimento humano, mas o caminho que McQueen escolhe não é retórico e muito menos redutor; ele escolhe a via da beleza, citando pintores clássicos - Caravaggio, a pintura religiosa da Idade Média -, encenando quadros e procurando o ínfimo clarão que pode romper o domínio da violência e do horror. Os prisioneiros mergulhados na sombra da cela, no meio dos próprios dejectos, são mais do que um instrumento de uma denúncia política; transformam-se em arquétipo da submissão e ao mesmo tempo da revolta. Sands e o companheiro de cela são espancados pelos carcereiros, são submetidos às regras da prisão sem hipótese de resposta mas acabam por resistir da única forma que lhes resta: o martírio, a entrega do seu próprio corpo, como Cristo - os corpos esquálidos, as barbas longas, as chagas na carne. O que é extraordinário em Fome é o modo como subtilmente passamos da estética para a ética. Não há uma denúncia clara do estado inglês (apesar da  imediatamente reconhecível voz de Margareth Thatcher servir de pontuação nas cenas de maior brutalidade), seria demasiado evidente, mas ao espectador é oferecido um ponto de vista, uma escapatória para os seus preconceitos, na longa cena da conversa entre Sands e um padre irlandês, quando este tenta dissuadir o prisioneiro de avançar com a greve de fome. Absolutamente admirável, o diálogo, e marcante sobretudo porque é a excepção num filme de silêncio entrecortado de ruídos que indiciam a violência (urros, gritos, o matraquear dos cassetetes, os ossos quebrando-se contra as paredes). Na troca de argumentos contra e a favor, é difícil tomar partido, mas acabamos por compreender a posição do prisioneiro, a sua absoluta determinação e, em última análise, a intuição de que a derradeira liberdade - a de poder dispor do próprio corpo (como um body artist) - servirá para derrotar o carcereiro, neste caso o estado inglês. Os nove mortos que se seguiram a Sands - a resistência colectiva - acabaram por provar que o martírio terá sido em vão: nenhuma das exigências foi aceite de imediato. Mas o gesto acabou por fazer a diferença, eventualmente. Toda a Arte pode - e deve - ser política.

(Ver aqui a cena da conversa entre Sands e o padre).

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos


Não concordo contigo, Bruno, não concordo mesmo nada (e que isto não seja o início da primeira cisão no Arrastão). Estes dois textos da Shiznogud e da Inês Menezes no Jugular ajudam a explicar a minha discordância - e gostava de saber o que têm as mulheres que lêem o blogue a dizer sobre este assunto, já há demasiados homens a comentar o post do Bruno.

por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues

A Cultra, Cooperativa Cultura Trabalho e Socialismo, dirigida pelo historiador Fernando Rosas, promove este fim-de-semana, no Liceu Camões em Lisboa, um ciclo de debates subordinado à questão fundamental: O que fará um governo de esquerda socialista? De Manuel Carvalho da Silva a Francisco Louçã, passando por João Ferreira do Amaral. Não percam. Não estamos condenados ao mesmo de sempre...

por João Rodrigues
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por João Rodrigues
Alegremo-nos. Portugal, país socialmente fracturado, continua a convergir com as melhores práticas do capitalismo anglo-saxónico: os ricos ameaçam fugir se tiverem de pagar mais impostos, mas acabam sempre por ficar e até criam fundações dedicadas a todas as ideias. É uma generosidade gramsciana de centenas de milhões: a resolução política de uma brutal crise socioeconómica depende sempre das interpretações que são dominantes. A Fundação Francisco Manuel dos Santos, criada em 2009 por Alexandre Soares dos Santos, o do sítio do costume, é dirigida por António Barreto.

A fundação arrancou muito bem: uma útil base de dados sobre Portugal chamada pordata. Gosto daqueles números da despesa pública em saúde e em educação que não param de se mexer. Toda uma narrativa em construção. Lamento que a base não pareça ter muitos dados sobre pobreza ou sobre desigualdades. Escolhas a corrigir. No entanto, não se preocupem: já temos um excelente observatório público sobre o tema. Aliás, aguardo com impaciência mais um ataque de Barreto aos observatórios públicos.

Enfim, agradeço a generosidade. Começo a dar bom uso a esta bem organizada base de dados: corrigir uma aldrabice que circula entre a opinião confortável. Aquela que fala como se tivesse ocorrido um regabofe salarial em Portugal. É o que dá olhar para o umbigo. Na realidade, como já aqui defendi, o peso das remunerações do trabalho no PIB tem permanecido estável: 50,5% em 2005 e 50,2% em 2008. No entanto, as desigualdades salariais aumentaram...

por João Rodrigues
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por Pedro Sales


Rui Pedro Soares foi ao Parlamento e, se é verdade que não esclareceu grande coisa sobre o interesse da PT na TVI, entreteve-se longos minutos a contar uma verdadeira história da carochinha. Confrontado pelos deputados sobre a natureza da sua relação com o primeiro-ministro, e para deixar claro que essa ligação nunca interferiu com as suas actividades como administrador da PT, Rui Pedro Soares conta como, apesar da longa e enternecedora história de amor da sua família pelo FC Porto, foi capaz de manter relações profissionais com o Benfica...

por Pedro Sales
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por Bruno Sena Martins

É possível achar que o anúncio da Stout constitui um momento de sexismo boçal e, ainda assim, achar inteiramente bem conseguido este post onde figura a Laetitia Casta.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira
O país divide-se entre os que acham que Sócrates cometeu todos os crimes e os que acreditam que vivemos no meio de uma conspiração tenebrosa. Porque os factos contam, uma revisão da matéria dada. Aqui vai um texto um pouco maior do que se aconselha neste meio. Quero falar aqui desse assunto tão raro nas colunas de opinião: José Sócrates. Disse Almeida Santos que já o tentaram tramar quatro vezes. E que das quatro vezes falharam. Como as coisas não são todas iguais, como o nem as pessoas nem os factos se dividem entre os que são a favor de Sócrates e os que são contra Sócrates, vale a pena voltar a lembrar do que estamos exactamente a falar.

Ler no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010
por Arrastão
Petição dirigida à embaixada de Cuba em Portugal

"Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade."

Assina aqui.

Através das redes sociais e dos vossos blogues divulguem a petição.

por Arrastão
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Arrastão


Graças aos reforços de Inverno, e sem bandeiras, escadotes, telejornais ou baderna na rua, típica de grupos extremistas, o Arrastão voltou a ultrapassar o 31 da Armada. Regressa, assim, tudo à normalidade democrática. E que tal enfiarem uma coroa no cocuruto do Cavaco? Vamos a isso?

Se nos ultrapassarem amanhã, já sabem a que link devem. Nós somos assim: só generosidade.

por Arrastão
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por Bruno Sena Martins

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira


Ser presidente de um partido, explicar a investidores estrangeiros que não devem acreditar nas estatísticas porque o que interessa é o que dizem as agências de rating e garantir que Portugal está mesmo como a Grécia nem numa líder que já não o é se compreende.

por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues


“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento / Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”

Bertolt Brecht

Desta vez muita gente tem falado da violência das margens que comprimem as ribeiras da Madeira. Uma catástrofe destas nunca é natural nos seus impactos humanos: falta de planeamento e de ordenamento do território. Um país que fala muito em direitos de propriedade e que se esquece das obrigações da propriedade: cada um constrói onde quer e como quer e os custos sociais são suportados por todos, sobretudo pelos mais pobres, os que são oito num único quarto. A Madeira, não se esqueçam, tem a mais elevada taxa de pobreza do país. Entretanto, o PS decidiu acabar com a encenação das finanças regionais. Questão de decência ou de cálculo? Indecentes têm sido mesmo as declarações de Jardim sobre o impacto no turismo da cobertura jornalística desta catástrofe. A liberdade de imprensa e a difusão de notícias e de reportagens são excelentes nestes contextos: espevitam e escrutinam os poderes públicos. Que aliás têm cooperado e mostrado empenho.

por João Rodrigues
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por João Rodrigues


Desigualdade, solidariedade, virtude cívica

Em muitos países, a distância entre ricos e pobres está a crescer atingindo níveis que não se viam há muitas décadas. Uma distância demasiado grande entre ricos e pobres danifica a solidariedade que a cidadania democrática requer.

À medida que a desigualdade se aprofunda, ricos e pobres cada vez mais vivem em mundos separados. Os ricos mandam os filhos para as escolas mais qualificadas, deixando as restantes escolas para os filhos das famílias que não têm alternativa. Os ginásios privados substituem os pavilhões gimnodesportivos e as piscinas municipais. Um segundo ou terceiro automóvel põem de lado a necessidade de contar com o transporte público. E por aí adiante. Os abastados desertam dos espaços e serviços públicos deixando-os aos que não têm recursos para outra coisa.

Esta tendência produz dois efeitos nocivos – um orçamental, outro cívico. Primeiro, os serviços públicos degradam-se dado que os que já não os usam cada vez menos estão dispostos a pagar impostos para os sustentar. Segundo, os espaços comuns deixam de ser espaços onde os cidadãos com diferentes percursos de vida se encontram uns com os outros. A retracção do domínio público torna difícil cultivar a solidariedade e o sentido de comunidade de que depende a cidadania democrática.

Por isso, a desigualdade pode ser corrosiva da virtude cívica. Uma política orientada para o bem comum teria como um dos seus principais objectivos a reconstrução da infra-estrutura da vida cívica.”

Michael Sandel, The Guardian [a tradução deste importante excerto foi feita pelo Jorge Bateira no Ladrões de Bicicletas]. Michael Sandel é um dos principais filósofos ditos comunitaristas. O livro que aqui se coloca oferece um mapa para algumas das principais questões da justiça. É uma espécie de sebenta do seu popular curso em Harvard. O curso de introdução à filosofia política está na net. Vejam aqui. Já agora, podem ouvir as suas Reith Lectures da BBC. Recomendo em especial a sessão dedicada à relação entre moralidade e mercados.

por João Rodrigues
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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
por Sérgio Lavos


A questão levantada pelo leitor António Barbosa  nos comentários a este post é de facto interessante: na sucessão de trapalhadas em que José Sócrates se tem visto envolvido, muito tem contado o trabalho e, no limite, a palavra dos jornalistas. Quando as primeiras suspeitas sobre o caso Freeport apareceram, houve uma fonte que soprou algo e o jornalista que não investigou, publicando apenas a suspeita; no caso da licenciatura, foi divulgada documentação (pelo jornal Público) que levanta muitas dúvidas, mas o caso, por assim dizer, é apenas acessório e da ordem do carácter do PM, e por isso irrelevante; a compra do apartamento a um preço inferior tem também pouco interesse; finalmente (vamos esquecer todos os outros casos secundários), no processo Face Oculta há uma investigação que envolve escutas a gente próxima do PM, escutas essas que acabam por resgatar do passado as pressões que foram sofridas pela TVI para suspender o incomodativo Jornal de Sexta (relembre-se, incomodativo porque ameaçava revelar indícios do envolvimento de Sócrates no caso Freeport). Pelo meio, há o pequeno furacão iniciado por Mário Crespo - e nesta situação contou apenas a palavra do jornalista, que ainda por cima não ouviu a tal conversa em primeira mão. Agora, Henrique Monteiro afirma que foi pressionado para não publicar uma notícia que desagradava ao PM.

O poder dos jornalistas é real. E, neste caso, parece evidente que muitas vezes esse poder tem chocado com a máquina de propaganda do Governo. Mas não se pode esquecer que um estado democrático também se afirma protegendo a independência dos media perante os outros poderes, o político e o económico, e isso obriga a que os jornalistas sejam credíveis e respeitem o código deontológico da sua profissão. Ora, por que razão devemos desconfiar dos media nesta situação quando, até aqui, sempre confiámos neles? Um exemplo: no auge da campanha anti-Cavaco que o Independente encetou  nos anos 90 não me recordo de alguém ter duvidado das intenções do jornal dirigido por Paulo Portas. É verdade que foram cometidos alguns abusos, mas havia um trabalho sério de investigação na maior parte dos escândalos revelados - talvez se tivesse cedido ao sensacionalismo na forma como eram apresentados, mas isso é outra história. O que mudou, então?

Se aplicarmos a este problema o princípio da lâmina de Occam - a explicação mais simples é quase sempre a correcta - torna-se fácil intuir onde poderá estar a solução para o dilema. O que é mais simples de aceitar: que a maior parte dos media quer prejudicar o PM deliberadamente, de forma "ignominiosa", por razões vagamente oportunistas ou obscuras? Ou que Sócrates está realmente  envolvido em quase todos os casos que foram sendo revelados pela imprensa? Deixamos de achar credível e competente uma classe em que sempre acreditámos para aceitar a palavra de um indivíduo acossado, perseguido pelos seus pecados passados? A escolha não é assim tão difícil.

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos
José Sócrates pressionou o director do "Expresso" para não publicar notícia sobre licenciatura.
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por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues


Estradas, prisões, aeroportos, matas nacionais, rede eléctrica, património histórico, áreas protegidas, hospitais. A lista não tem fim. A progressiva canibalização da esfera pública é assegurada através de engenharias políticas, envolvendo opacas privatizações e parcerias público-privadas, complexas subcontratações ou dispendiosos subsídios e incentivos fiscais. Entrega-se, desta forma, o controlo de equipamentos e de infra-estruturas públicas à voragem de interesses capitalistas cada vez mais predadores.

O resto do meu contributo para o encontro das esquerdas socialistas sobre serviços públicos e democracia, que se realizou no final de 2008, pode agora ser lido na Vírus, a "revista que só se apanha na net".

por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira
"Chegou a fazer parte do CDS? Sim, participei nuns conselhos? Mas foi mesmo militante? Isso é que eu também não sei? Eu tenho um problema com as militâncias (risos). Mas assinou um cartãozinho? Não sei se assinei. Não me lembro bem. Estou a dizer a verdade? A sério que não se lembra? Não me lembro!"
Paulo Rangel, 19 de Maio de 2009

"Escrevi a carta de renúncia no dia em que Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas romperam com o acordo para a Alternativa Democrática (AD)"
Paulo Rangel, 23 de Fevereiro de 2010

Via Esquerda Republicana

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
O Ministério Público pediu a condenação do advogado Ricardo Sá Fernandes por crime de difamação agravada a Domingos Névoa. Apesar do empresário bracarense ter sido condenado por um crime de corrupção activa para acto lícito (condenação em que Ricardo Sá Fernandes foi um elemento fundamental de prova), o MP acompanha a tentativa de condenar o advogado por este ter dito numa entrevista que Névoa era "corruptor" e "vigarista". Querem ver que no fim Sá Fernandes ainda vai pagar mais do que a miséria que Névoa pagou?

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Deixo aqui um texto escrito por Cecílio Gomes da Silva no "Diário de Notícias" da Madeira. Engenheiro silvicultor. Madeirense. Não foi escrita agora esta premonição. Foi escrita a 13 de Janeiro de 1985, já lá vão 25 anos. Não resulta de nenhuma revelação, mas do conhecimento técnico de quem o escreve.

“Eu tive um sonho”
Cecílio Gomes da Silva

“Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da
Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as
bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal,
dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da
infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras
- a de Santa Luzia - o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por
pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira.
Tive um sonho.

Continuar a ler no link em baixo




Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar
Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras,
sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade,
fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu.
Acompanhavam-me dois dos meus irmãos - memórias do tempo da Juventude - em
que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e
trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras,
Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de
pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros
que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que
corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos
tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a
paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um
ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto
durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo
parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído
continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer
coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa
Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes
rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os
transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a
ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova - um
elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de
tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da
Rua 5 de Outubro - galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho
acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na
margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas
efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas,
tudo cobriram até à Sé - único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha
desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João
Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém,
chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem
esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis
junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas
da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando,
tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama
ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em
fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no
meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a
fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido - só água lamacenta em
turbilhões devastadores.

Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer.
Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a
serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez
acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e
erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e
louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos;
corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial,
canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água
cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos
enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos
socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real;
felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.

Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a
concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da
Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é
uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e
totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem
nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a
baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços
estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante
se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a
jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).

Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso
afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com
ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é
menos provável de acontecer do que o primeiro."
Dei o alarme - pensem nele”

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
É nos momentos de grandes tragédias que a racionalidade mais tem de determinar o nosso comportamento. Assim é com as pessoas, assim é com os regimes. Perante as perguntas que têm de ser feitas - até porque são obrigatórias respostas rápidas mas, ainda assim, acertadas -, a tendência de todos é a de ceder à emotividade dominante. Não questionar nada e, sobretudo, não contestar nada, como se essa fosse a melhor forma de não atrapalhar. Compreende-se. Mas não se recomenda. Perante críticas ao ordenamento do território na Madeira, Alberto João Jardim...

Continuar a ler no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Deixo aqui uma reportagem emitida pela RTP Madeira a 13 de Janeiro de 2010 (antes da tragédia desta semana) sobre a ocorrência e prevenção de catástrofes naturais (enxurradas, deslizamentos de terra) na ilha. Ajuda a perceber algumas das coisas que aconteceram, o que era e o que não era previsível, ainda sem a emoção dos acontecimentos.


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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Vidal e Insurgente continuam juntos na luta. Mais uma vez, a propósito do jornalismo. Felizmente, no Cinco Dias, antes de se ter feito esta divertida aquisição, já havia quem soubesse distinguir jornalismo de opinião. A propósito, aliás, da mesma expressão usada sobre um dirigente político numa notícia: "cassete". Mas a concordância neste tema não deve espantar: apesar de se terem manifestado juntos pela liberdade de expressão, um e os outros têm excelentes referências políticas para nos dar a todos lições sobre esta matéria. Suspeito que o amor é tanto que mesmo depois de Sócrates podem continuar esta caminhada juntos. Não se estragam duas famílias.

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos


Sobre a maravilha técnica chamada Avatar muito se tem escrito, mas o que James Cameron mais queria - um blockbuster que apelasse ao coração dos membros da Academia - acabou por se concretizar na perfeição. Eu até nem posso dizer mal de Cameron, confesso; gosto do segundo Alien, o mais musculado, gosto do Exterminador Implacável e ninguém pode duvidar de que o homem sabe filmar cenas de acção como poucos. Mas quando, em meados dos anos 90, se separou de Kathryn Bigelow e teve um sonho - ganhar Óscares - o que saiu foi... Titanic, e quem não sinta suores frios só de pensar na voz de Celine Dion que atire a primeira pedra. Muitos anos depois, o regresso teria de se fazer em grande, e no mesmo comprimento de onda. Avatar é na verdade um prodígio em 3D e Cameron quase que consegue criar um Universo próprio - e, diga-se, as batalhas estão bem encenadas, de cortar o fôlego. Lamentavelmente, esse tal Universo é mais apelativo a audiências infantis ou adolescentes - o meu filho vibrou com o final, quando os Na'vi contra-atacam.

A melhor análise ao filme foi escrita por Slavoj Zizek, o que não surpreende, e foi publicada no Russian Journal - infelizmente, o site apenas está disponível em russo, e somente através de assinatura se consegue obter a versão inglesa em PDF. De Lacan a Arundathy Roy, passando pela filosofia chinesa, Zizek consegue evidenciar a plasticidade da crítica anti-capitalista ensaiada por Cameron. O grande público, na cabeça do realizador, deve ser reduzido ao mínimo denominador comum, uma criança: os militares são maus - o coronel é uma caricatura -, com a excepção do herói, humano que apenas deserta quando posto entre a espada e a parede; os Na'vi são bons, criaturas fofas que, vá-se lá saber porquê, apenas podem ser salvas por um colono - e, ainda por cima, incapacitado. Os paralelismos com a atitude beligerante americana são tão evidentes que perdem toda a força. A força rebelde ganha legitimidade apenas porque há alguns humanos que a apoiam. Zizek passa desta realidade - duplamente virtual - para os nossos dias, falando da rebelião que neste momento está a ter lugar no estado indiano de Orissa (artigo de Arundhati Roy aqui), uma reacção contra a planeada exploração dos recursos minerais (no caso, bauxite) da região por empresas de exploração mineira. O grupo rebelde é considerado uma organização terrorista (essa bela capa usada a torto e a direito nos dias de hoje) pelo Governo indiano, apesar dos seus poucos recursos e quase nenhum dano infligido no inimigo que combate.

O cinema tem o poder de manipular as emoções do espectador, e a maior parte das vezes isso pode ser libertador. Mas à emoção, imediata, instintiva, deve suceder sempre a razão; dos milhões de espectadores que viram Avatar, quantos sentiriam simpatia pela tribo dos Kondh, que neste preciso momento passa por uma situação semelhante ao povo Na'vi? Em que momento é que a ficção ganha mais peso do que a realidade?

por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira


Ao fim de 85 dias de greve de fome Orlando Zapata Tamayo, um opositor à ditadura castrista, morreu. Fora condenado a 18 anos de prisão (agrava depois para 25 anos) por alegada desordem pública. Já estivera preso em 2002 e foi de novo preso em 2003, depois da sua primeira greve de fome pela libertação de outros presos políticos. Desta vez deixaram-no morrer.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010
por Daniel Oliveira

Concerto (cerca de uma hora) de Zeca Afonso no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em Janeiro de 1983.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
"Há muita gente que ainda não entendeu que já ninguém acredita nessas coisas da direita e da esquerda: acreditam em valores, em pessoas com carácter e com coluna vertebral."
Fernando Nobre, jornal i

Lamento, mas é exactamente por acreditar em valores que acredito (e sou alguém, espero) nessas coisas da direita e da esquerda. Conheço pessoas com carácter e coluna vertebral de direita. Muito à direita, mesmo. Dificilmente votaria nelas. Porque os meus valores não se resumem a avaliações éticas sobre as pessoas. São também políticos. Há pessoas sérias a defender a privatização da saúde. Podem ter o meu respeito pessoal, mas não têm o meu voto. Há pessoas com coluna vertebral que acreditam que o mercado sem freio é que garante o desenvolvimento. Nunca votaria nelas para um cargo político.

Já aqui disse que esta é, por enquanto, para mim, a grande fraqueza do discurso de Fernando Nobre. E espero sinceramente que o abandone quanto antes. As eleições não são apenas uma avaliação de carácter. São para um cargo político. Os valores políticos são fundamentais para a decisão democrática do eleitor. Pelo menos para a minha decisão são determinantes.

Não será apenas a seriedade de Nobre, da qual ninguém em boa-fé duvida, que terá de ser avaliada nestas eleições. Até porque uma campanha baseada apenas nisto teria de provar a falta de carácter e de coluna vertebral dos restantes candidatos. E não acredito que quem queira melhorar a qualidade do debate político em Portugal vá por aí. Interessa saber o que pretende fazer cada candidato com um cargo que é político. Porque quando se tratar de dissolver ou não um parlamento, de vetar ou não uma lei, são os valores políticos e não o "bom fundo" de cada um que contam.

Até agora, este caminho não me chega. Como não me chegam os silêncios ou as meias palavras de Alegre e de Nobre sobre o que se está realmente a passar no país.

Nota: o título do jornal "i" (Manuel Alegre? "Mordidelas de mosquitos não me importunam") não é muito sério. Não me parece, depois de ler a resposta com atenção, que a frase seja dirigida a Manuel Alegre.

por Daniel Oliveira
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