Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos
"Lamento tudo o que se está a passar".

Jogadores lamentam ausência do seleccionador.

A primeira afirmação de Gilberto Madaíl, lavando as mãos como um Pilatos enterrado até ao pescoço na fossa séptica em que se tornou o caso Carlos Queiroz, é vergonhosa. Neste momento, enquanto a selecção prepara o primeiro encontro da fase de apuramento para o Europeu, o melhor seria que tudo ainda piorasse mais. Queiroz não partirá, por muito que Laurentino Dias e a cabeça do polvo queiram. E chegou a um ponto em que manter a dignidade significa recorrer a todas as possibilidades de ordem jurídica de modo a prolongar o caso durante o maior período de tempo possível. Ninguém sai limpo, por muito que Queiroz deseje lavar a honra. E a última coisa com que todos os envolvidos estão preocupados é o futuro da selecção ou do futebol nacional. O último a sair que puxe o autoclismo (mas desconfio que vamos ter de levar com o mau cheiro durante muito, muito tempo).
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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
"É ainda interessante que o enquadramento dado à manifestação quando foi convocada (luta contra a lapidação por adultério) seja bastante diferente do enquadramento que é dado após a manifestação (Mas a figura de Sakineh foi apenas mais um pretexto para uma causa geral: lutar contra a pena de morte, seja ela de que forma for.). Fica a sensação de que o aderente menos atento aos pormenores corre sérios riscos de ser manipulado pelos organizadores destas manifestações.
João Miranda

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos


Fábrica de calçado despediu funcionários por SMS.

É possível a uma empresa ser ainda mais fria e impessoal na hora que mais custa aos trabalhadores. O filme Nas Nuvens peca por ser um retrato demasiado optimista e caloroso do despedimento colectivo.

por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins
Consta que há aí um realizador de cinema que acha que o Porto joga melhor sem Hulk. Antes de o atento leitor se permitir sequer a ponderar na bondade de um sistema táctico organizado para um colectivo solidário em detrimento de Hulk, um criativo indisciplinado cuja noção de passe é passar por adversários, cabe lembrar que o dito realizador considera Jorge Jesus melhor treinador do que José Mourinho.
O que se passa não é tanto a incapacidade do dito realizador para emitir juízos sobre o futebol – ou sobre tudo o que se passe num raio de 5 quilómetros de um estádio de futebol -, a coisa é mais apetecível: sempre que o dito realizador se põe a dar palpites a realidade decide escarnecê-lo. Se quisermos ser místicos isto já chegou a um ponto em que é lícito supor que o dito realizador mexa com a realidade a partir do momento em que esta - a realidade – definiu como divertimento supremo gozar com os bitaites do dito realizador. Senão vejamos: o dito realizador diz que Jesus é melhor que Mourinho e pouco tempo depois Mourinho volta a ganhar uma Champions (já agora Mourinho ganhou uma Taça Uefa na sua primeira época completa num grande, Jorge Jesus conseguiu desbaratar a Liga Europa com o Liverpool mais risível da última década).

Continua. Na passada semana o dito realizador fez uma sentida elegia ao futebol do Matías Fernández, poucos dias depois, no jogo contra o Brondby, o chileno viria protagonizar uma das jogadas mais patéticas já acontecidas desde que os hominídeos assumiram a posição bípede: 4 jogadores do Sporting caminham para a baliza do Brondby só com um defesa nas redondezas, Matias conduz a bola. Suspense. O que faz o bom do Matias com 3 colegas ao lado? Aposta na sua extrema velocidade (pausa para gargalhada) e oferece um espectáculo na primeira fila os 3 colegas; uns privilegiados que tiveram oportunidade de assistir atónitos ao desamparo de Matias perante o defesa dinamarquês que tranquilamente lhe roubou a bola depois de lhe ter ganho 3 metros em duas passadas. No mesmo programa o dito realizador chamou a atenção para o modo como o Porto vinha passando bem sem Hulk. Acto contínuo: Hulk regressa e faz 5 golos em 2 jogos. (...)

"Ler mais - aqui"

Publicado na Liga Aleixo

por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

© rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por João Rodrigues
No Estado fiscal de classe, os ricos nunca pagam a crise: "Ao fim de dez anos de vigência da lei que tributa as manifestações de fortuna no âmbito do combate à evasão fiscal, a administração tributária tem obtido fracos resultados. O fisco continua sem acesso directo e em tempo real à informação que permite aplicá-la. Em 2005, a Inspecção-Geral de Finanças (IGF) alertou para esse facto, mas, como foi confirmado ao PÚBLICO pelo Ministério das Finanças, esse constrangimento mantém-se, sem que o Governo veja necessidade de o ultrapassar." João Ramos de Almeida no Público.

por João Rodrigues
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por João Rodrigues


"Enquanto a velha ordem morre e a nova não nasce, ainda surge uma grande variedade de sintomas mórbidos." Esta frase, da autoria do filósofo político Antonio Gramsci, descreve na perfeição a crise e a política com "p" pequeno do bloco central, aquela política que se dedica a tentar manter o velho, ou seja, as estruturas do nosso capitalismo medíocre, uma máquina de gerar pobreza e desemprego.

Uma política onde as convergências fundamentais entre Sócrates e Passos Coelho são mascaradas com debates acessórios e onde os temas fundamentais são embrulhados numa nebulosa de oportunismo e de desrespeito por todos os contratos. Os benefícios fiscais são um dos sintomas mórbidos.

A campanha eleitoral das últimas legislativas ficou marcada pelas acusações de Sócrates a Louçã: as propostas razoáveis deste para limitar ou acabar com os socialmente regressivos benefícios fiscais à especulação financeira ou à saída das classes privilegiadas da saúde e do ensino públicos, a melhor forma de os enfraquecer a prazo, foram classificadas por aquele como um dos maiores ataques às sempre pardas "classes médias".

Passaram uns meses e, já se sabe, para Sócrates o mundo mudou em quinze dias. Rasgue-se o programa eleitoral do PS e acorde-se com o PSD uma política de austeridade onde a fatia de leão do ajustamento cai sobre os trabalhadores assalariados mais pobres e sobre os desempregados; as limitações aos benefícios fiscais são um dos poucos vestígios de justiça social. De repente, os sociais-liberais do PS, como Correia de Campos, por exemplo, apontam, com todos os dados na mão, a flagrante injustiça, antes tolerada, dos benefícios fiscais à saúde. Morbidez.

Passos Coelho, por sua vez, assinou um acordo de austeridade com o PS, mas ameaça rasgá-lo, provavelmente sob pressão dos grupos económicos que agora o apoiam e que querem comer a fruta doce das rendas em áreas como a saúde, com muito financiamento público à mistura. Morbidez.

Entretanto, a morbidez intelectual acompanha a política. Num dos países mais desiguais da Europa, os economistas do velho reinam na televisão, porque se abandonou a ideia de que o debate deve ter contraditório. Defendem, por exemplo, que temos um "Estado social escandinavo". Um luxo. Só para terem uma ideia, o peso da pouco progressiva receita fiscal e contributiva era de 34,8% do PIB no nosso país, em 2009, e, em média, de 45,8% nos países escandinavos. Estes até tendem a ter uma taxa de emprego superior e regulação muito mais exigente, vejam lá. E, talvez, menos morbidez política, até porque a maior igualdade económica gera mais confiança social e mais participação política.

Em Portugal, o silêncio ou o apoio destes economistas quando se corta nas prestações que protegem, e pouco, os mais pobres contrasta com o chinfrim de cada vez que se corta levemente em alguns dos privilégios dos que, sei lá, não podem deixar de colocar os filhos nos colégios privados. Outro sintoma de morbidez. Quando é que o novo nasce?

Crónica i

por João Rodrigues
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Domingo, 29 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos


O Benfica, que parecia ter tudo preparado para avançar para outros voos, foi parado por uma ave rasteira, um Roberto que trouxe a equipa de volta à terra. O atleta parece ter-se perdido pelo caminho, preso nas redes de um negócio que Luís Filipe Vieira deveria explicar muito bem a todos os benfiquistas, mas veio à tona contra o Vitória de Setúbal, essa instituição benemérita desde 2009 (8-1 foi o ponto de partida, não esquecer isso).

A terceira jornada começa a definir posições: um Porto forte, um Sporting à procura de um pinheiro e um Braga comandado por um Domingos que, pese embora hesitações de personalidade do passado, parece ser o verdadeiro herdeiro de José Mourinho. E com esta proclamação espero concretizar a maldição associada - todos os que assim foram definidos acabaram perdidos numa qualquer quinta dimensão fundada por Luís Campos.

Roberto não merece o poleiro, nem com penalty falhado por Hugo Leal - o Moreira deve ser um dos benfiquistas mais mal tratados das últimas décadas. De titular aos 18 anos a um calvário de lesões e treinadores que sempre viram nele o patinho feio que nunca irá abandonar a ninhada, tem tido de tudo. E sem merecer. Melhor do que Quim, Júlio César ou Roberto, aceita o prolongamento de contrato em troca de um salário mais baixo. O amor ao Benfica é uma cruz difícil de carregar.

Quanto ao resto, Gaitán não é Di Maria - o óbvio ululante - mas aquele pé esquerdo pode fazer virar o sentido de um jogo. Os vinte e dois minutos de Salvio foram prometedores e a defesa parece começar a ganhar tino (se exceptuarmos o delírio momentâneo de Maxi). Falta Cardozo. Ou falta outro ponta-de-lança que não seja Cardozo. O que se passa com Rodrigo? E Coentrão corre o risco de se tornar o melhor lateral-esquerdo do mundo. Não é pouco.

A horda de anti-benfiquistas encontrou outro bode expiatório (o meu prazer culpado é ler os comentários das notícias sobre o Benfica na Bola): a equipa adversária. Se o árbitro não se envolveu em nenhuma caso polémico (houve um penalty por marcar a favor do clube da águia, mas isso são peanuts); se os túneis ficaram desertos ao intervalo; se não houve uma qualquer intervenção divina que tivesse levado as bolas na direcção dos postes e da barra; se mesmo com inferioridade numérica jogaram muito melhor - então a culpa só pode ser do adversário, que entregou o ouro ao bandido. Hugo Leal regressou às origens e falhou o penalty de propósito; Manuel Fernandes é amigo de Jesus; os jogadores do Vitória não se esforçaram; etc., etc. Tudo bem, espero que daqui para frente a imaginação da horda continue tão fértil como neste jogo. Cá estaremos.

*Esta é uma nova rubrica, sobre o Benfica, que conto actualizar todas as semanas.

por Sérgio Lavos
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por Arrastão
Agora, que já se conhecem aqueles que deverão ser todos os candidatos à Presidência, lançamos um inquérito para saber em qual deles pretendem os leitores votar.

Quanto ao inquérito anterior (que aqui ficou abandonado durantes as férias, à pergunta "concorda com o financiamento directo do Estado a artistas independentes?" as respostas foram: "não", 54%, "sim, mudando as regras actuais 34% e "sim, com as actuais regras", 12%.

por Arrastão
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por Daniel Oliveira
A crónica já aqui citada pelo Sérgio não merece, de tão pueril, grande comentário. Quem acha que a afirmação política da cidadania é inconsequente se não advogar a lei da bomba merecia experimentar por um dia que fosse as maravilhas das trincheiras,  E é olhar para o Afeganistao para ver como resulta.

A verdade é que meio século de paz na Europa criou uma geração de meninos guerreiros de sofá. Pensando noutros colunistas que gostam de alardear as suas origens humildes, é o mesmo fenómeno que leva tantos filhos do Estado Social a desprezar o que a mobilidade social lhes permitiu. Preferem acreditar que o mérito chegaria.

Há jovens americanos que se alistaram para combater no Iraque e no Afeganistão para assim pagarem os seus estudos. Estou seguro que muitos dos nossos jovens turcos gostariam de experinentar este dois em um. Contribuiam para os "direitos humanos" no Mundo e aliviavam o peso do Estado.  Talvez dessem então valor ao que lhes ofereceu esta "decadente" e "cobarde" Europa social: meio século de paz e de oportunidades.

por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos
A tonta croniqueta de João Pereira Coutinho, que tanta excitação espoletou, quer nos guerreiros de sofá de direita como nos bravos jihadistas da esquerda institucional-comunista (é bela, esta comunhão de contrários), tem a devida resposta do Ouriquense. O retrato de um artista enquanto jovem onanista:

(ler o resto)... Ora, a proximidade física entre as ergonómicas mãos de JPC e as fantasias juvenis que ricocheteiam no interior da sua cabeça é provavelmente o que de mais exibicionista e masturbatório  se encontra hoje na imprensa. Tendo ainda em conta que na crónica online da Correio da Manhã a foto de JPC é do tamanho da mancha gráfica do texto, o que remete para o primado do estímulo visual sobre o enredo, ao ler "pornografia" e "poses exibicionistas e masturbatórias" não pude deixar de me lembrar que é no relato autobiográfico que Coutinho atinge o seu cume histriónico, mesmo quando são actos actos falhados  - essa é uma das vantagens de saber que se está a ler um boneco e não uma pessoa, porque o espalhafato dos gemidos públicos de JPC deixa no ar a suspeita de um orgasmo fingido e só outros adolescentes o poderão levar a sério. Boys will be boys.
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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
15 dias sem jornais, sem televisão e sem Net, a não ser em pequenos momentos, faz bem à saúde. Regressado à vida e feita visita aos jornais da quinzena, está tudo mais ou menos na mesma, a não ser a floresta, que ficou ainda mais pequena. Sócrates continua a fingir que representa ideologicamente alguma coisa, Passos Coelho continua a fingir que é uma alternativa, Paulo Portas continua a socorrer-se dos criminosos para recuperar eleitores, o PCP continua a inventar operários que estão na secretária há umas décadas e a achar que isso chega para se ter um cancidatos, a comunicação social continua a ser condescendente com o PCP, Cavaco Silva continua a fingir que não é candidato, Vasco Pulido Valente continua a explicar ao povo que o povo é sinistro, Sarkozy continua a ser um megaportas, ainda mais assustador e em francês,

por Daniel Oliveira
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Sábado, 28 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos
Miguel Gomes em retrospectiva nos EUA.
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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos


A minha geração, a rasca ou à rasca, a primeira a sofrer as consequências da crise perpétua de Portugal, a geração que lutou contra as propinas - em vão, a geração dos professores a prazo que mais parecem caixeiros-viajantes, a geração de que os mais velhos não gostam e que os pais toleram, a geração que ainda não saiu de casa dos progenitores por não ter dinheiro para uma vida independente ou por comodismo consumista, a geração com uma taxa de desemprego que ultrapassa os vinte por cento, a geração precária, trabalhando anos e anos para o mesmo patrão (seja o Estado ou privado) a passar recibos verdes, a geração a que foi prometido o mundo se conseguisse uma licenciatura e que agora trabalha em call-centers, caixas de supermercado ou livrarias, a geração dos eternos estudantes, do bacharelato à licenciatura ao mestrado ao doutoramento e ao pós-doutoramento com via verde garantida para o desemprego ou um emprego abaixo da escolaridade ou a emigração em busca de um trabalho numa empresa ou universidade estrangeiras, a geração explorada por patrões de vistas curtas, geração que não sabe muito bem quais são as lutas justas, ou as válidas, ou sequer que lutas há para lutar, a geração que cresceu num Portugal optimista e chegou à idade adulta num país de rastos, sem confiança no presente nem esperança no futuro. A geração dos anos 80, das séries importadas, do Verão Azul e de Miami Vice, a geração da Spur Cola e das bombokas, a geração do Marco e da Galactica, a geração do Regresso ao Futuro e dos Gremlins, a geração que cresceu synth pop e se descobriu grunger quando entrou na universidade, a geração que tornou o alternativo mainstream e o mainstream respeitável. André Valentim Almeida decidiu fazer um comentário e, como membro de pleno direito desta geração, não conseguiu que fosse exibido comercialmente. Por isso disponibilizou-o on line. Sim, esta é também a geração que melhor consegue viver com todas as dificuldades, a geração "canivete suíço e uma pastilha do MacGyver", a geração que resolve problemas, que sobrevive. O futuro. É ver o tal documentário, que vale muito a pena, aqui.

por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010
por João Rodrigues
Adam Smith já nos tinha alertado no século XVIII: cada vez que os capitalistas de um mesmo ofício se reúnem para conversar, geralmente é para conspirar contra o público. Adam Smith não tinha visto nada. Alguns grandes especuladores nos mercados cambiais, que desde a abolição dos controlos de capitais se têm entretido a ganhar dinheiro à custa da devastação das economias, encontraram-se recentemente para jantar em Nova Iorque, segundo o "Wall Street Journal". No menu estava a aposta na desvalorização do euro e, qual profecia auto-realizada, a eventual implosão da zona euro. Saber que à frente da Comissão se encontra um neoliberal da estirpe de Barroso e que o BCE é dominado por fanáticos do monetarismo que hesitam em dar todo o apoio a quem se encontra em dificuldades deixa-nos ainda mais apreensivos.

No entanto, sigamos os apelos ao optimismo e concentremo-nos nas boas notícias nacionais. Em tempos de desemprego e de salários em atraso, não são só os bancos que apresentam lucros elevados: as empresas que controlam o sector da energia ou as auto-estradas também. A fraude que domina o debate económico dá vivas ao empreendedorismo. Trata-se, na realidade, de antigas empresas públicas privatizadas de forma míope pelo bloco central dos interesses para reconstituir grupos económicos com bases industriais subalternas, com reduzida consciência nacional e que operam em sectores que, dadas as suas características quase naturais, dão sempre grande poder de mercado: infra-estruturas públicas, muita distribuição, imobiliário, especulação financeira, pouca indústria e demasiada liquidez investida no estrangeiro.

Oscilam entre a expropriação financeira de outros sectores (perguntem aos verdadeiros empresários o que se passa na assimétrica relação com a banca, por exemplo), o rentismo fundiário, a captura de reguladores e de pessoal político, mais importação do que exportação: uma lumpemburguesia criada por más políticas e que deu origem a uma economia dependente. Perante a pressão da crise muitos salivam pela fruta doce: os serviços e as infra-estruturas públicas, da saúde aos aeroportos. A economia portuguesa está então entre a espada dos especuladores desabridos e a parede de betão que abafa a burguesia empreendedora. Como sair daqui? Com política industrial selectiva, controlos de capitais à escala europeia, serviços e equipamentos públicos protegidos de predações privadas e maior controlo público da banca, à mistura com instituições europeias e Estados nacionais (com a Alemanha à cabeça) que assumam as suas responsabilidades. Aliás, dada a importância dos mercados do Sul da Europa e o peso dos seus títulos de dívida no sector financeiro das grandes economias europeias, a "solidariedade" europeia traduz-se na protecção do seu smithiano interesse próprio.

Esta crónica tem algumas ideias que eu e Nuno Teles contamos desenvolver na nossa apresentação no socialismo 2010. É claro que para um revolucionário como Ramos de Almeida, isto não passará de reformismo social-democrata do pior. Estas dicotomias pobres interessam-me pouco e invocá-las, ainda para mais no actual contexto, é, na minha opinião e só na minha opinião que eu, como é óbvio, não falo em nome de ninguém, de quem não está a ver bem o filme de horror socioeconómico em que estamos metidos. Já a discussão em torno do último livro de Erik Olin Wright sobre os contornos institucionais de uma trajectória pós-capitalista e socialista, friso este dois termos que o Nuno dá indicações algo imprecisas sobre o livro, de um socialismo realizável, com mercados reconfigurados e limitados, sociedade civil activa e maior democratização das instituições – do Estado às empresas – interessa-me muito e pode ajudar a clarificar isso do socialismo como processo de efectivação de dois princípios de uma sociedade decente: igualdade substantiva de capacidades para que os indivíduos possam florescer e uma comunidade política onde as pessoas têm oportunidades, recursos, poder, para deliberar nas várias esferas da vida, incluindo a provisão, que as afectam. Uma comunidade política mais fraterna.

Talvez escreva sobre isto depois do socialismo 2010, que agora vou para Braga. Este é o debate com substância que vale a pena.

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos


(Esta manifestação, que se vai realizar em várias cidades à mesma hora (ver aqui), também pode ser uma oportunidade de ouro para muitos dos nossos comentadores geralmente indignados contra o Islão; é altura de passar das palavras aos actos: compareçam!)

Adenda: a frase que acompanha o cartaz pretendia ser uma pequena provocação aos comentadores habituais que costumam espumar de raiva de cada vez que aqui alguém fala da opressão na Palestina ou dos erros trágicos dos E. U. A. no Iraque e no Afeganistão. Curiosamente, quem mordeu o isco não foram os comentadores. Concedo que o tom irónico seja por vezes difícil de atingir num texto escrito - ou até que tenha sido pura e simplesmente inépcia minha. Aos comentadores deste post que se insurgem contra a minha suposta islamofobia (principalmente duas das mais empenhadas divulgadoras do protesto, a Inês Menezes e a Shyznogud), lamento que não tenha conseguido passar a mensagem da maneira correcta. É claro que esta é uma causa que eu partilho sem reservas, mas de forma alguma isto significa que tenha qualquer preconceito contra o Islão ou sequer contra o Irão (já em relação a Ahmadinejhad, tenho tudo contra). Mas mais lamentável ainda é que, depois de eu ter esclarecido neste post do Renato Teixeira qual o sentido deste texto, e de ele, respeitando uma ética blogueira implícita (sem ter obrigação de o fazer, por isso agradeço-lhe), ter acrescentado o meu comentário ao corpo principal do texto, outro colega do 5 Dias, cujo nome nem merece ser escrito, insista que eu queria ser literal quando escrevi a frase de cima. Esse canalha (não há termo que melhor defina o ser em questão) merece apenas o meu desprezo, deste momento em diante. Que continue a chafurdar na sua própria imundície, eu salto fora.
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por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010
por João Rodrigues
O Nuno Ramos de Almeida decidiu continuar a desconversar. Noto que o Nuno desvaloriza um dos colegas de blogue. É uma saída possível para o que por ali vai. Eu tenho a mania de levar a sério os traços autoritários de uma “esquerda” que persiste em valorizar dimensões execráveis do que passa por ideia comunista em certos círculos, sem grande peso político, é certo, mas com alguma influência intelectual. Da violência ao vanguardismo, há gente com muita falta de memória a vender muitos livros por aí. No entanto, reparem que o Nuno não faz ideia do conteúdo concreto da sessão do socialismo 2010 que se intitula “Há socialismo sem democracia?”. Vai daí dedica-se a uma inacreditável brincadeira com as palavras, salta para “socialismo em liberdade” e termina com a ideia de cumplicidade com Soares, o "anti-comunismo" e quejandos. Esta é uma prática intelectual sempre pouco recomendável, mas muito útil para quem queira prosperar num nicho em expansão no mercado mediático: a crítica estarola à esquerda socialista. O segundo parágrafo não é melhor. Estou mortinho por ler no cinco dias contributos para pensar o socialismo na economia. Aparentemente, o Nuno não gosta da diversidade temática do socialismo 2010 e acha, estranhamente, que as questões da fiscalidade ou da política económica que rompe com o liberalismo estão demasiado distantes da democracia na economia. Diz ainda que falta “articulação” ao fórum. O que quer que isto signifique. Talvez a “articulação” que é dada por um disciplinado comité de funcionários, que alinham os contributos de um vasto colectivo numa proposta única e sem espinhas sobre “democracia” na economia?

por João Rodrigues
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por Bruno Sena Martins

por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues


Ontem ficámos a saber, através do i, de mais um dos segredos mal escondidos que explicam o “sucesso” dos bancos portugueses: “As comissões líquidas dos cinco maiores bancos portugueses - CGD, BCP, BES, Santander Totta e BPI - totalizaram 1,38 mil milhões de euros, o que representa uma subida homóloga de 12,6%. Por outras palavras, ganharam 7,7 milhões de euros por dia só em comissões.” Hoje, confirmamos, através do Negócios, que a banca relançou as “práticas abusivas de crédito”. A complacência do Banco de Portugal, em termos de regulação, é conhecida e é proporcional ao fundamentalismo de mercado que anima as suas prescrições para a economia portuguesa. Recupero um excerto de uma crónica que escrevi, também no i, sobre a ausência de stress na banca portuguesa:

Por que é que, apesar da liberalização dos anos 90, ainda não ocorreu um estoiro bancário digno desse nome no nosso país, tirando as falcatruas que o vício da acumulação de dinheiro como um fim em si mesmo sempre vai favorecendo - do BCP ao BPN? Algumas hipóteses explicativas: a presença de um banco público relevante, a CGD, que serve de braço financeiro para o Estado ir controlando e amortecendo, com dinheiro e gestores, os desvarios privados; a existência de níveis reduzidos de concorrência, com o sector a funcionar como se fosse um clube de cavalheiros que conspira contra o público; um sistema feito de vantagens fiscais, sem paralelo na Europa, e que, como gentilmente nos indica a Associação Portuguesa de Bancos no seu último boletim, permite, em tempos de crise económica geral, por exemplo, reduzir a carga fiscal dos bancos.

Juntem a isto um off-shore feito à medida e um governo sempre disposto, como tem de ser, a dar todas as garantias aos bancos. Acrescentem um Banco Central disposto, como também tem de ser, a financiar os bancos a taxas praticamente nulas para que estes, por exemplo, financiem o Estado a taxas de juro muito mais elevadas. E chegamos a um sector que passa nos úteis, ainda que pouco exigentes, testes de stress europeus, destinados a avaliar a solidez bancária europeia, assim mostrando que só o poder público cria pontos focais estabilizadores dos mercados. Tudo isto é mesmo uma questão de poder: o stresse é passado para as empresas produtivas, sobretudo de pequena e média dimensão, que têm de aceitar condições cada vez mais draconianas para acederem ao crédito. O liberalismo é assim: concorrência e crises financeiras, em alguns países, e relativa tranquilidade e todo o poder financeiro, nos outros. Até quando?

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos
Parece que a jogada de Nicholas Sarkozy - o anúncio veraneante de dureza no combate à criminalidade, o que, descontado o jargão político, significa perseguir ainda mais as minorias empobrecidas que vivem no país - não resultou, e ele vai caindo a pique nas sondagens. Vai daí, abdica-se da dureza - e do namoro com a falange lepenista - e pede-se moderação nas deportações. Expulsá-los, mas com jeitinho, não vá o eleitorado flutuante de extrema-direita recém conquistado assustar os outros votantes na UMP. Foi você que falou em ideologia e princípios?

por Sérgio Lavos
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Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010
por Pedro Vieira

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Hitler 'had Jewish and African roots', DNA tests show





por Pedro Vieira
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por Bruno Sena Martins
Com tanta a coisa acontecida na Choupana, aparentemente envolvendo um guarda-redes espanhol de nome Roberto, que tudo indica ter custado 8 milhões e meio, preço agora aventando como absurdo em face da fraca valia demonstrada nos primeiros jogos, torna-se difícil a um portista concentrar-se exclusivamente nos golos do Falcão ou no afundamento do osso zigomático do Ukra. (...)

(Publicado na Liga Aleixo)

Vamos então ao Roberto, mas se acaso pensam que me vou juntar aos abutres tirem daí a ideia. Acontece que já fui guarda-redes, um reles guarda-redes do futebol de 5 da Académica (calma Bruno, não te encanites), ainda assim razão suficiente para achar que o “caso Roberto” não deve ser visto como uma mera oportunidade para escarnecer a contratação mais patética que há memória na história do futebol e, muito menos, para assim pôr em causa a qualidade das drogas alucinogénicas consumidas na época estival por Jesus, Luís Filipe Viera e Rui Costa. Nada disso, até porque me lembro de disparates compráveis nos montantes gastos; lembro, por exemplo, a “ousada” contratação pelo Sporting de Carlos Miguel da Silva Júnior, um médio de 800 mil contos que não chegou a dar dois toques na bola em solo luso. Por outro lado, cabe reconhecer que tenho telhados de vidro no que a guarda-redes diz respeito, basta lembrar a saga que se seguiu à ida de Baía para o Barcelona: Rui Correia, Pedro Espinha, Wozniak, Eriksson, Kralj ou Ovchinnikov (o menos mau, apesar de tudo).
Tudo isto para dizer que o meu interesse no caso Roberto se dirige à defesa do homem (já que em relação ao guarda-redes, aparentemente, há muito pouco a fazer). O facto trágico é que os guarda-redes estão sujeitos a níveis de amesquinhamento mil vezes superiores àqueles que recaem sobre um jogador de campo, mesmo que este se chame Palermo e falhe três penalties num só jogo. Mais: os guarda-redes vivem na iminência de que um erro ou que uma infelicidade cénica os marque com a culpa do golo e com o estigma de frangueiro. É pois natural que estejam mais vulneráveis a crises de confiança com origem nas bancadas (ou nas capas do nossos diários).

Sinceramente, não sei se a crise de Roberto tem a ver com a bola de neve de criada pelo começo aziago na pré-época, se com a responsabilidade imposta pelo preço por que que foi comprado, se com deficiências técnicas na sua formação (dá a ideia de ser um guarda-redes à moda antiga, bom entre os postes, uma tarântula fora deles). O que eu sei é que Roberto não deve dormir bem há um mês e que a sua eventual incompetência não cessa de fazer a abertura dos telejornais e as delícias do Correio da Manhã. Mas desse flagelo ninguém fala; como dizia o Chico Buarque, “a dor da gente, não sai nos jornais”.  O Cardozo pode ter um início de época horrível sem que ninguém o chateie, já o Roberto leva a cruz sozinho enquanto Jesus aponta o caminho do Gólgata aos Romanos.

Noutro clube, perante tal crise de confiança, Roberto tinha sido protegido: inventava-se uma gastroenterite devida à maionese das cantinas, o Júlio César assumia a baliza, e o bom do espanhol aparecia daqui a um mês para jogar na Taça de Portugal. Não sei se o Roberto é um mau guarda-redes ou apenas um homem a passar uma crise de confiança que o torna incapaz de ser guarda-redes. Como ex-guarda-redes e frangueiro não praticante, magoa-me a injustiça e crueldade com o duro ofício das balizas. Por muito que me regozije com as derrotas do Benfica, confesso que não consegui festejar a vitória do Nacional: é demasiado alto o preço que está a ser pago por Roberto. Nenhum jogador está tão cruelmente só na desgraça como o guarda-redes; pior se é um espanhol acabado de chegar a Lisboa a quem 6 milhões de benfiquistas andam a chorar 8 milhões e meio.
Uma nota final para Beluschi. Como eu sempre suspeitei, um mau corte de cabelo é conciliável com uma carreira ao mais alto nível.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira
A Moody's e a S&P baixaram a cotação da dívida japonesa em 2002. Na Moody's está, actualmente, abaixo do Botswana e Estónia. Oito anos depois, o Japão continua a pedir emprestado a menos de um por cento.
Paul Krugman

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
"Considero duvidoso que o animal humano alcance sobreviver se não aprender a dispensar fronteiras e passaportes, se não for capaz de compreender que todos somos hóspedes uns dos outros, do mesmo modo que o somos desta terra contaminada e cheia de cicatrizes." George Steiner, George Steiner em The New Yorker

por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues


O socialismo 2010, debates para a alternativa, começa já depois de amanhã em Braga. Entretanto, o Nuno Ramos de Almeida acha que o título de uma das sessões – “Há socialismo sem democracia?” – é revelador de desorientação ideológica e de uma subestimação da questão principal: como democratizar a economia? Em primeiro lugar, notar que alguns postes do blogue cinco dias, onde o Nuno escreve, tendencialmente da autoria de Carlos Vidal, mostram precisamente a relevância da primeira questão e do seu adequado tratamento. Em segundo lugar, estou em condições de sossegar o Nuno: pelo que conheço, a segunda questão, obviamente relacionada com a primeira, será tratada directamente, pelo menos, em duas sessões. O José Gusmão falará sobre reforma fiscal para superar o que Vital Moreira chamou, num dia mais inspirado, o Estado fiscal de classe; eu e o Nuno Teles tentaremos, desenvolvendo os argumentos de um artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa, fazer um breve diagnóstico do capitalismo português, entre os especuladores e a lumpemburguesia, e apontaremos alguns toques de política económica que podem ajudar a gerar impactos sistémicos relevantes. Suspeito que nas sessões sobre a especulação, o poder de quem tem muito dinheiro, as questões do trabalho ou o banco de terras, a democracia na economia também seja abordada. É que, e nisto concordamos, sem um projecto consistente de democratização da economia, sem utopias reais, não há socialismo como democracia avançada depois do limiar do século XXI…

por João Rodrigues
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Terça-feira, 24 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


“Portugal chega a ser monstruoso pelo excesso de Estado Social”. Se fosse um dos inúmeros economistas do medo, que prosperam apenas porque praticamente não existe debate, eu não ligaria muito, mas foi  a economista Helena Garrido que escreveu isto. É uma das jornalistas que admiro, devido ao seu respeito habitual pelos factos e à sua capacidade para ser social-liberal sem cair na vulgata liberal e assim enriquecer o debate. Como é que se pode olhar para os dados, mesmo muito agregados, e dizer que temos um Estado social excessivo? Percentagem das prestações sociais, categoria demasiado heterogénea é certo, no PIB? Abaixo da média da zona euro (17,2% contra 17,7%, em 2009). O quê, então? Peso dos impostos no PIB  e sua progressividade? Também não: o peso da receita fiscal no PIB é de 34,8% (na zona euro é de 38,6%) e o peso dos regressivos impostos indirectos, como o IVA, na estrutura dos impostos é dos mais elevados. Aumento das despesas sociais? Bom, esse foi, felizmente, inevitável no actual contexto e mesmo assim foi insuficiente. Isto para não falar do idealismo que Helena Garrido revela quando fala numa suposta rede social que o Estado social teria destruído. Eu bem sei que os hegemónicos economistas do medo interpretam o aumento das despesas com o RSI ou com o subsídio de desemprego nos últimos dois anos como se de um súbito vírus da lassidão, que só afecta os mais pobres e vulneráveis, se tratasse. Entretanto, as sempre patrióticas e empreendedoras “classes médias”  transferiram 1,2 mil milhões de euros para offshores no primeiro semestre. Como nunca conseguiram entender a crise e o aumento do desemprego gerado, resultado das desigualdades, da desregulamentação e da crença no fundamentalismo de mercado que sempre apoiaram, caem num moralismo que só revela a sua situação social confortável. Como nunca conseguiram entender a natureza disfuncional da zona euro, que sempre saudaram, esquecem que estamos trancados num conjunto de políticas de austeridade que produzem um resultado perverso: o esforço para cortar na despesa produz as condições económicas conjunturais que podem aumentar a despesa mais tarde. Sem demagogia, é preciso dizer que o estado das finanças públicas quase só depende do andamento da economia. Diz que a retoma está em risco. Pudera. O bloco central apostou num irracional e desumano corte das despesas sociais para os mais pobres, para fazer com que as transacções desesperadas se multipliquem e os salários eventualmente baixem: a crise de distribuição, a crise de procura, intensifica-se dentro de momentos e o desemprego também. A pobreza vai aumentar e assim a ideia de que estamos todos no mesmo barco torna-se um pouco mais fraudulenta. Enfim, não se toma em consideração a abordagem dos balanços financeiros sectoriais:  a soma dos saldos dos sectores externo, público e privado, tem de ser igual a zero. Num contexto de crise, com o saldo do sector externo mais ou menos constante, é evidente que o esforço dos privados para reequilibrar os seus balanços, com cortes no consumo e no investimento, tem de gerar inevitavelmente um aumento do défice público. Sabendo que o cenário macroeconómico aponta para uma redução necessariamente ligeira do défice externo, então o contraproducente esforço para reduzir o défice público tem como contrapartida um aumento do endividamento do sector privado. E este dificilmente ocorrerá. Por algum lado a corda vai ter de partir e está a partir, claro. Remato brevemente com duas questões mais estruturais. Em primeiro lugar, a bota do Estado social que não bate com a perdigota da economia que temos. O Estado social construiu-se tendo como pano de fundo um processo de liberalização e de privatização, Isto gerou grupos económicos cuja hostilidade à provisão pública, que é onde está a fruta doce dos lucros garantidos, é proporcional ao seu desespero e às exigências dos accionistas. Gerou também níveis de ineficiência, de rentismo e de desigualdade que hoje podem corroer os fundamentos do Estado social. Em segundo lugar, e de forma talvez contraditória com o primeiro ponto, as tendências fortes do desenvolvimento – do envelhecimento ao aumento da importância dos serviços sociais de proximidade, da saúde e da educação, onde a superioridade da provisão socializada é evidente, passando pelas alterações climáticas, pelas insustentáveis desigualdades económicas ou pela constatação de que a finança de mercado é uma máquina de destruir capital – trabalham, no quadro das democracias, para manter e até aumentar a prazo a importância do sector público na criação de riqueza em sentido amplo e na extensão e aprofundamento da regulação. As sociedades que prosperarão são as que sabem viver pacificamente com o que a vida mostra com mais clareza em situações de risco: o peso do Estado não vai, não pode, diminuir. A questão nem sequer é essa, mas sim que ideias e que interesses controlam os recursos públicos e definem as regras do jogo.

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos


Quando os nazis levaram os comunistas, não protestei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando levaram os social-democratas, não protestei, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando me levaram a mim, já não havia ninguém que protestasse.

A julgar pelos comentários que encharcam este post, as palavras de Martin Niemöller, pastor protestante alemão que se opôs ao regime nazi (palavras que costumam ser atribuídas a Bertolt Brecht) ainda terão razão de ser. A preocupação neste caso sobrepõe-se à precaução que me diz que aqueles que insultam o fazem apenas por ignorância ou medo do que não conhecem. Precaução também porque sei que estas minorias são sempre ruidosas, gostam de exibir o preconceito e a intolerância como quem exibe uma bela farpela domingueira, esburacada e rançosa. E mais uma história edificante, para quem ainda queira aprender alguma coisa (e estão à vontade para me chamar paternalista), deixada pelo comentador dedo político:

“Conotações pejorativas (que matam!)

O ‘dedopolitico’ conheceu, em determinada altura da sua vida, um ‘cidadão de nacionalidade portuguesa’ que, emigrado em França disposto a trabalhar em tudo o que lhe aparecesse para melhorar as suas condições de vida (e a da sua família), lhe disse, que o que mais lhe custou no inicio desse tempo, não foi, a falta de dinheiro, a fome, ou as más condições em que vivia, mas sim, quando ia à escola buscar os seus filhos, ter de ouvir os autóctones a dizer-lhes: “Portugais? Sale race”!*

* Portugueses? Raça suja! (tradução livre) “

Agora, venham de lá essas pedras.

(A citação de Niemöller, devo-a ao Miguel Serras Pereira).

por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

© rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira


A escolha de Francisco Lopes, um homem desconhecido do eleitorado (apesar de provavelmente ser o lider de facto do PCP) como candidato dos comunistas à presidência só pode significar duas coisas: ou o PCP desprezou a oportunidade de comer voto ao Bloco e ao PS com a apresentação de um ultra-ortodoxo (não há mais para lá dele) sem um pingo de carisma (consegue ser mais apagado do que Carvalhas); ou está a preparar a sucessão de Jerónimo. Apenas um problema: começar com uma eleição muito personalizada é o pior que podiam fazer ao homem. Agora, não podem ambicionar mais do que convencer os seus próprios eleitores. E mesmo esses, terão primeiro de descobrir quem é Francisco Lopes. E depois não chegar a saber o que ele pensa, para não se assustarem. Uma coisa é certa: a linha mais dura do PCP tomou definitivamente o poder no partido. Imaginem o que seriam estas presidenciais com um Octávio Teixeira ou um Carvalho da Silva? Mas a ortodoxia é inimiga da ousadia. Alegre e Nobre suspiraram de alívio.

por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

© rabiscos vieira



28 agosto, 18 horas, largo camões


por Pedro Vieira
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos


Por vezes, o passado parece reflectir-se no presente de forma tão evidente que as semelhanças não podem deixar de provocar alarme. Em França, o processo de repatriação de ciganos romenos avança, e o que mais surpreende é o silêncio do resto da Europa perante uma acção que evoca um passado de perseguição étnica que não deveria repetir-se. Não nos podemos esquecer de que os roma, que chegaram à Europa na Idade Média, foram o outro alvo das políticas de limpeza étnica encetadas pelo Terceiro Reich, e no final da Segunda Guerra Mundial pelo menos 500 mil ciganos tinham morrido, em campos de concentração ou executados pelo exército nazi. Falar deste tenebroso passado de exclusão não é um exagero, até porque a "experiência"  sarkozyana também está a ser tentada na Itália de Berlusconi. Em tempos de crise, a Europa parece querer virar-se para o "outro", para o estrangeiro, e isso é o pior que nos pode acontecer - é sintomático que tal fenómeno tenha lugar no país do "caso Dreyfuss", a França que Sarkozy parece querer transformar no sonho totalitário de Jean-Marie le Pen. É preciso que não se torne norma, para que não se repita o passado.

(Sobre este tema, a crónica de Rui Tavares, hoje no Público, é exemplar - sem link, mas neste post Miguel Serra Pereira tem a gentileza de republicar alguns excertos. Assim como este texto de Rui Bebiano.)

por Sérgio Lavos
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por Pedro Sales


Espiões militares seguem para teatro de operações do Afeganistão no Outono. O ministro acredita que também no Líbano - os militares portugueses participam na UNIFIL - deve haver este "instrumento". Augusto Santos Silva, ao I.

Espiões militares portugueses é um eufemismo, ou um código militar, quem sabe, para caracterizar aqueles sujeitos cujos nomes costumam circular com maior rapidez e publicidade que os números de telefone das páginas amarelas. Mas, se forem tão bem treinados como os seus colegas civis, isto vai ser rápido.

Durante uma operação de vigilância a um político congolês, o operacional do SIS saiu por instantes da viatura para atender um telefonema, mas cometeu o erro fatal de deixar as chaves na ignição. Foi nesse momento de distracção que alguém terá entrado dentro do carro e partido a toda a velocidade, não dando margem para o agente reagir.

Dentro da viatura, um Fiat Stilo cinzento, estava todo o material de observação utilizado pelo SIS nas operações a que se dedica: um conjunto com três placas de matrícula falsas - vulgarmente utilizados nas operações à paisana -, uma câmara de vídeo, várias máquinas fotográficas e telefones móveis.

Mas este não foi o primeiro caso de furto de automóveis do SIS. Em 2004, numa operação levada a cabo na Malveira, perto de Mafra, um outro veículo foi furtado, depois de a equipa de operacionais se ter ausentado por momentos para executar uma tarefa policial. O automóvel, igualmente equipado, também não apareceu.

por Pedro Sales
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por João Rodrigues


Zhou Enlai, um dirigente comunista chinês, foi um dia questionado sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, ao que ele terá respondido que ainda era muito cedo para saber. Imaginem então o que dizer de um processo tão incerto como o da transformação da China em nova potência hegemónica, assente numa economia em expansão industrial, que ultrapassou o Japão e que, a manter-se esta trajectória, se tornará a maior economia. O resto da crónica no i pode ser lido aqui.

Nota bibliográfica. Sobre China, tenho lido com proveito as análises de David Pilling no Financial Times, os artigos de Hang Dongfang sobre as lutas laborais  e o que se tem escrito na New Left Review, a minha revista preferida de ideias de esquerda: por exemplo, este artigo de Sanjay Reddy sobre as reformas de mercado e a evolução dos indicadores de saúde ou este de Hang Ho-Fung sobre a dependência face aos EUA.

por João Rodrigues
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Domingo, 22 de Agosto de 2010
por Bruno Sena Martins
[caption id="attachment_20417" align="alignnone" width="607" caption="REUTERS/Akhtar Soomro"][/caption]

por Bruno Sena Martins
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Sábado, 21 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos
Suécia cancela mandado de captura contra criador da WikiLeaks.

Lá como cá, as autoridades judiciais também se enganam e se precipitam. Mas lá rapidamente corrigem o erro. E assim se prova que Julian Assange está a fazer um excelente trabalho de denúncia, alternativo aos media tradicionais - que parecem ter-se esquecido do jornalismo de investigação desde que paulatinamente começaram a ser aglutinados em grandes grupos de comunicação. Para quando um site semelhante em Portugal? Ah, é verdade, a fuga de informação de processos em curso é pecado, Deus castiga...

por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues


O novo documentário – South of the Border – de Oliver Stone promete. Até porque o argumento foi escrito por Mark Weisbrot e Tariq Ali. Tenho acompanhado o trabalho do economista keynesiano Mark Weisbrot do Center for Economic and Policy Research. Weisbrot tem registado com todo o rigor o progresso socioeconómico dos governos de esquerda na América do Sul. Os trabalhos sobre a Venezuela e a Bolívia ou este artigo traduzido pelo esquerda, por exemplo, são um bom antídoto contra a desinformação que grassa por aí. Tariq Ali, por sua vez, é um infatigável activista-jornalista-ensaista-escritor, um daqueles imprescindíveis que nunca confundiu, ao contrário de tantos da geração de sessenta, as derrota políticas com as derrotas das ideias socialistas bem entendidas e que tem, entre os seus inúmeros livros, um magnifico ensaio sobre o “eixo da esperança” no sul. A ler antes e depois de ir ao cinema, que o documentário deve estrear em breve.

por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos
Marylin Monroe autora? Ou Norma Jean leitora e escritora de um diário? A notícia de que textos inéditos da mulher que mais se aproximou de um ideal feminino iriam sair em livro tem feito sensação nos sítios do costume: as secções de cultura dos jornais do mundo inteiro. Sensação é mesmo a palavra certa. É verdade que já conhecíamos a Marylin mulher de Arthur Miller e a Marylin que lia Ulysses. E até a Marylin, figura transcendente do poema de Ruy Belo de que Bénard da Costa tanto gostava. A Marylin para além do estereótipo da bomba loura, ingénua e vagamente burra, a mulher por quem os homens se apaixonavam de maneira ainda mais estúpida do que a imagem que o mundo tem dela. A banalidade sensata deveria-nos deixar de sobreaviso: uma actriz não é a personagem que representa. Mas é verdade que, enquanto viveu, esta imagem também passava para o público, como se a figura pública fosse uma emanação desse estereótipo. Estas revelações contradizem a ideia feita? Ou reforçam a noção de que uma figura pública é o resultado de uma construção subjectiva, resultado das escolhas da figura mas também (e acima de tudo) da percepção que o público tem

por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos
Em um ano e meio, passámos de ser “humilhados” pelo Bayern, uma das 3 maiores equipas do Mundo em 2010, nos oitavos de final da Champions, para ser “humilhados” pelo Bröndby, uma das 3 melhores equipas da Dinamarca em 2010, na pré-eliminatória da Liga Europa.


Ou seja, largámos o convívio (às vezes doloroso) dos grandes da Europa (Inter, Manchester, Barcelona, Bayern, Roma) e as presenças nos oitavos/quartos de final das competições europeias e voltámos ao tempo em que éramos a alegria do Genclerbirligi, do Viking e do Halmstads e nos ficávamos pelas duas primeiras rondas.


Entretanto, já tínhamos largado as “tacinhas”, goleados que fomos pelas equipas “B” do FC Porto e Benfica, equipas contra as quais, desde 2006 (e pela primeira vez desde os anos 50) tínhamos mais vitórias que derrotas – bem como os “péssimos segundos lugares, trocados por um magnífico quarto (com vista tão boa para o primeiro lugar como para o último: 27 pontos).


Desde Janeiro, gastámos 29 milhões de euros em contratações de jogadores (quase todos monos com mais de 28 anos de idade), enquanto despachámos 2 dos nossos 4 jogadores mais valiosos por menos que isso (isto porque dos outros dois, um já tem 32 anos e o outro recusou ser vendido).


Noto que, entre Julho de 2006 e Janeiro de 2010, o total gasto em contratações pelo SCP foi de 24,5 milhões de euros – menos um milhão do que rendeu só a venda do Nani, e menos 5 milhões do que gastámos nos últimos seis meses (e foi com isto que se ganharam as “tacinhas” e os segundos lugares, e se jogou contra os colossos da Champions).


E nem sei quanto o JEB gastou no Carvalhal, no Sá Pinto, no Costinha, no Paulo Sérgio (por este parece que pagou 600 mil ao Guimarães), nos amigos que despediu e recontratou para “prestar serviços” ao SCP, e na tenebrosa campanha de comunicação montada no dia em que o nosso capitão foi vendido ao FC Porto (jornaleiros do “amigo Joaquim”, “paineleiros” e até comentadores “multi nick” nos sites generalistas e na “blogosfera leonina”).


Quanto a receitas, pela primeira vez, desde 2006, não vamos (tudo indica) receber a contrapartida da participação nas fases de grupos da Champions’ ou da Liga Europa. Os lugares de época e os camarotes de empresa foram vendidos com grandes descontos, a prestações e na sequência de dispendiosas campanhas de marketing.


Tudo isto aconteceu desde que uma, e só uma pessoa saiu de Alvalade. Como essa pessoa saiu porque os “sportinguistas” tudo fizeram que isso acontecesse (os mesmos “sportinguistas” que 9 em cada 10 votaram no JEB, faltaram ao jogo do Iordanov, vaiaram o Izmailov, insultaram o Moutinho por ter “forçado” a sua venda ao Porto e acham que “ajudar o Sporting” é chamar nomes ao Benfica e pagar os salários do JEB, do Costinha e dos cabecilhas das claques), digo-lhes apenas, citando a palavra do Senhor, “que la chupen e que la sigan chupando”! - pescado neste post.

Eu, que até sou benfiquista, achei que este comentário de JPT era especialmente certeiro no diagnóstico que faz ao actual Sporting. Vá lá, pessoal da segunda circular, não queiram passar pela vossa fase "Artur Jorge".
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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos


Depois dos submarinos, blindados. A batalha naval organizada pelo ex-ministro Paulo Portas - o líder do tal partido que faz parte do arco da governação, e vê-se por este exemplo que deve fazer mesmo - conta agora com a força de uns blindados última geração (experimentais, parece), prontos para derrotar qualquer Burkina Faso (ou mesmo Liechtenstein) que nos possa invadir. Tudo muito turvo? Nem pensar. Provavelmente estes tanques hight tech foram comprados para serem um transporte alternativo ao táxi que os deputados do CDS-PP costumam utilizar. Para passar por bairros problemáticos, com muita criminalidade e tal. Mas a menina Cândida agora vai investigar - o chefe manda, alguém tem de obedecer.

por Sérgio Lavos
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