Domingo, 31 de Outubro de 2010
por Pedro Vieira


© rabiscos vieira


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

por João Rodrigues


PS e PSD chegaram a acordo, como se sabia desde sempre. A encenação não enganou ninguém. A austeridade ficou apenas um pouco mais assimétrica. Os 390 milhões de euros para os injustos benefícios fiscais dirigidos às chamadas “classes médias” terão de ser compensados com mais cortes, provavelmente nas despesas sociais. No entanto, isto são detalhes. O mais importante já era conhecido: um orçamento para cortar salários, directos e indirectos, um orçamento gerador de desemprego e de recessão. Uma desgraça. Um orçamento com assinatura na casa de Eduardo Catroga à Lapa, com direito a exibição em telemóvel, vincando, também simbolicamente, a submissão do PS aos interesses que contam.

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Sábado, 30 de Outubro de 2010
por Pedro Vieira

© rabiscos vieira



parabéns dieguito


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

por Bruno Sena Martins

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (5) | partilhar

por Sérgio Lavos


Há quem goste, nestes dias cinzentos, de ouvir música melancólica, sentado no sofá, a olhar para a chuva lá fora. Certamente haverá bandas-sonoras perfeitas para este estado de espírito. E admito já ter caído uma ou duas vezes nesse erro. Mas quando estamos limitados a um espaço reduzido e não queremos, de modo algum, cedermos a uma peregrinação ao centro comercial, juntando-nos ao desfile de zombies de fim-de-semana que não encontram nada de melhor para fazer do que olhar para as montras repletas de produtos que não podem comprar, o melhor é, no intervalo de um ou outro filme idiota que os canais nacionais nos costumam oferecer nestes dias, ouvir os clássicos.

Os clássicos, não aqueles discos do nosso crescimento - não queremos que a nostalgia dê cabo de um prazer único. Clássicos, os álbuns intemporais que chegaram até nós depois de gerações inteiras terem-nos fixados no cânone do rock. Não sinto qualquer vergonha em afirmar que apenas muito recentemente compreendi o fascínio de muitos perante os Led Zeppelin. Não terá acontecido antes por nunca ter prestado a atenção devida à melhor série de quatro álbuns da história (se excluirmos da contagem os Beatles a partir de Rubber Soul). Confesso que parte da razão da minha teimosia se funda num acidente biográfico: conheci em tempos um fanático da banda por quem não nutria muito respeito, e o preconceito sentido em relação à personagem acabou por se estender à música. Mas depois de algumas audições avulsas, admito que todo este tempo estava errado.

Immigrant Song é essencial não apenas por ser percursora do heavy-metal. Independentemente deste som ter definido um estilo musical, esta é um grande canção pela que será melhor combinação bateria/baixo/guitarra de sempre. Ao riff perfeito de Jimmy Page junta-se a bateria genial de John Bonham e o baixo acelerado de John Paul Jones. A voz de Plant confere um toque demoníaco ao conjunto; dando razão aos pais e aos avós que em tempos achavam ser o rock a música do diabo. Valha-nos deus por isso.

Os clássicos num dia de chuva. Valhalla, I am coming!

(Para uma versão ao vivo, impossível de incorporar no post, ir aqui.)

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (17) | partilhar

Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
por Sérgio Lavos


Acabei de perder mais uma declaração do Presidente da República ao país (a que eu mais lamento foi aquela sobre o estatuto político, ou jurídico, ou lá o que foi, dos Açores), mas parece que ele terá dito que espera haver um entendimento entre PSD e PS. Imagino que a ideia de "magistratura activa" passe por estas intervenções que apenas excitam os fãs da linha dura e um ou outro doido que, por manifesta ausência de concorrência, acha Cavaco a quinta essência do estadista, uma espécie de Churchill mais magro e abstémio. Cavaco tem o mérito de ter dado o empurrão inicial ao país na direcção ao abismo, conduzindo-o pelas maravilhosas auto-estradas que romperam a paisagem nacional e nos colocaram na cauda do desenvolvimento europeu. Não serei eu a retirar-lhe esse mérito, e certamente que a sua campanha, sem outdoors mas com um assinalável excesso televisivo, não irá deixar de vincar a sua vocação bartlebyana, entre o silêncio e o vazio de ideias, ponderando nos bastidores o melhor caminho para a sua (mediana) glória.

Não terá sido tempo perdido, portanto, aquele que passei a ver o Benfica-Paços de Ferreira, e apercebi-me de que passou uma semana sem notícias da frente vermelha. Vocês sabem que eu sei que vocês sabem que eu sei que o Benfica encaixou três jogos medíocres de seguida, dos quais perdeu um, com uma equipa a sério, o Lyon, e ganhou os outros dois, parecendo embalar numa sequência vitoriosa. Descontada a influência da recuperação para a vida de Roberto - e resta saber se esta recuperação também se estenderá ao futebol -, o grande factor de sucesso (bela expressão da modernidade) nestas últimas semanas tem sido a fraqueza dos adversários. O que pode ser um problema; como se viu em França e na Alemanha, falta ainda alguma qualidade e bastante classe para enfrentar os adversários mais difíceis. As contratações serão um caso a estudar: Gaítan é o quê? Um médio-esquerdo? Um número dez? Saberá fazer um passe de risco, um centro decente? Grandes questões que acentuam a inexistência de César Peixoto enquanto verdadeira alternativa a Fábio Coentrão (como a clonagem parece ser ainda uma utopia, continuaremos a vê-lo apenas ou como defesa ou como médio; apesar de por vezes parecer que faz os dois lugares ao mesmo tempo). O Benfica tem sido, nos últimos jogos, uma equipa segura na defesa e pronta a cometer um hara kiri a cada momento na zona do meio-campo (talvez o jogo de hoje seja a excepção). Resta-nos esperar que surjam lances como o de Aimar - mas será que Jesus sabe que apenas aparecem em situações excepcionais, geralmente acompanhadas de sinais de presença divina, como dilúvios anunciados que põem a nu a ineficiência do Presidente da Câmara de Lisboa? Não sei, mas sei que, tão surpreendente como as folhas das árvores caducas caírem no Inverno entupindo as sarjetas de Lisboa, é a eficácia constante do FCP a cada campeonato; portanto, a pergunta obrigatória é esta: o que terá passado pela cabeça da direcção e do treinador que terá levado a uma tão má preparação desta época?

Mas, de qualquer maneira, já sabemos: o mundo pode mudar em quinze dias.

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

por Sérgio Lavos
Ainda assim, foi sensato da parte de Teixeira dos Santos deixar passar quarenta e oito horas depois de ter saído a sondagem. Ninguém reparou na relação entre os dois acontecimentos.

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

por João Rodrigues


Mark Blyth é um dos meus economistas políticos preferidos ou não fosse ele um dos principais autores neo-polanyianos. A economia não vem com uma ficha de instruções em anexo, como costuma dizer. Este vídeo explica a crise com uma clareza impar, começando com os balanços financeiros, como eu aqui tenho tentado fazer, sem moralismos, e termina com uma crítica à austeridade assimétrica e à loucura económica em que entrámos. Tudo em pouco mais de cinco minutos. É pena não ter legendas porque isto não se vê na TV. Quem se oferece para as colocar?

Publicado no Ladrões de Bicicletas

Adenda: um anónimo amigo disse-me que se for ao youtube e clicar em CC posso ver o video decentemente legendado em português.

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

por João Rodrigues
gg

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

por João Rodrigues
The Watson Institute presents Mark Blyth on Austerity from The Global Conversation on Vimeo.

Mark Blyth é um dos meus economistas políticos preferidos. A economia não vem com uma ficha de instruções, como ele costuma dizer. Este vídeo explica com uma clareza impar a crise, começando com os balanços financeiros como eu aqui tenho feito, sem moralismos, e termina com a austeridade assimétrica e com loucura económica em que entrámos. Tudo em pouco mais de cinco minutos. É pena não ter legendas porque isto não se vê na TV. Quem se oferece para as colocar?

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (…)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, – como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos (…), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (…) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (…)”

Guerra Junqueiro, A Pátria, 1896

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (68) | partilhar

por Daniel Oliveira
Este orçamento tem de ser aprovado. Porque é bom? Não, é péssimo. Porque nos salva. Não, vai-nos afundar ainda mais. Porque ajuda a economia? Não, vai rebentar com a economia.

Tem de ser aprovado porque não é aqui que se governa.

Não é aqui que se governa porque a Europa é governada por dois ou três países. Os restantes são meros adereços. A estrutura institucional do Euro e o conteúdo do último tratado que assinámos assim o determinam. Temos uma moeda à qual não corresponde nenhum poder politico com legitimidade democrática e real poder. O resultado é este: há o poder da chantagem sem a compensação da solidariedade.

Não é aqui que se governa porque a financialização do capitalismo tornou o poder difuso e os Estados reféns do caprichoso jogo dos mercados. E esse poder difuso, sem a força da legitimação do voto, é estruturalmente antidemocrático. Quem julgava que o mercado livre correspondia ao máximo de democracia tem aqui a resposta. A democracia só casa com o mercado se tiver o Estado democrático como padrinho.

O que este orçamento nos diz, quando todos o acham péssimo e todos o querem defender, é que não é apenas a economia que está em crise. É a democracia. O que toda esta charada nos devia dizer, aos portugueses e aos europeus, é que vivemos uma farsa. E que um dia isto rebentará por algum lado. Os povos europeus não aguentarão muito mais vezes a chantagem de pagar a crise provocada por outros. Aqueles que salvámos há dois anos e que agora nos apontam uma pistola à nuca. Um dia os europeus vão ter de exigir que a política e as instituições em que ela é legitimada pelo povo se imponham. Esperemos que essa exigência venha a tempo de ter uma natureza democrática.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (51) | partilhar

por Bruno Sena Martins
Publicado na Liga Aleixo

O futebol de Hulk representa um assombro que o futebol português não merece e que o Porto nos oferece por manifesto excesso de generosidade. Tanta generosidade, aliás, está a ter como ingrato retorno sucessivas queixas entre os guarda-redes adversários, aparentemente, por dores de costas (nenhuma actividade tem tantas contra-indicações psico-somáticas como ir apanhar a bola ao fundo das redes). Lamentavelmente, a partida de Hulk para a Europa, aquela a salvo do FMI, está por meses; é minha convicção que o valor a resultar dessa venda será pouco importante se considerado o simbolismo histórico envolvido no previsível destino do Givanildo.

“Se a memória não me falha” é um preâmbulo bem-intencionado cujo uso se torna ridículo na minha idade. Se a memória não te falha jovem pouco molestado por ressacas de gin, pessoa de bem com pouco remorso a atrapalhar a limpeza da lembrança, feliz pouco traumatizado que não precisas de te atirar para baixo do sofá quando te acorrem as memorablias da adolescência, então os meus sinceros parabéns. Se a tua memória é parecida com a minha então deixa-te de presunções e vai à Wikipedia ou anda com post-its por perto como naquele filme do Christopher Nolan (O Cavaleiro do Memento, se me não falha tudo).

Mas, dizia, como pouco me permito a confiar na memória e na medida em que evito frequentar sites (como a wikipedia) por conselho do médico, estava de jurar que o Rui Barros foi o último avançado que o Porto vendeu a um clube de topo europeu (criança, a Juventus nos anos 80 era uma equipa de topo). Inúmeros avançados que nos encheram de alegrias e de dinheiro não lograram alcançar os píncaros da Europa: o Futre foi para o Atlético de Madrid, o Gomes foi para o Sporting de Gijon (lembrei-me desta sem usar a wikipedia, atenção), o Rui Águas foi para o Benfica, o Domingos foi para o Tenerife, o Sérgio Conceição foi para a Lazio, o Kostadinov foi para o Corunha, o Pena foi para o Braga, o Postiga foi para o Tottenham, o Yuran foi para o Spartak de Moscovo, o Drulovic foi para o Benfica, o Derlei foi para o Dínamo de Moscovo e nem o Jardel não foi mais longe que o Galatasaray.

Dir-me-ão que estou mirabolante, que o Deco foi para o Barcelona e que o Anderson para o Manchester. É nessa altura que eu vos lembro da diferença conceptual entre médio ofensivo e avançado, aliás uma diferença bem mais definida do que aquela que separa o médio ala do extremo, ou a heterotopia do Coimbra Fórum. Mais: as posições que os dois desempenharam nos clube de destino são claros indicadores que eles sequer foram comprados para aparecer muito na área adversária: o Anderson encaixou naquela posição do duplo pivot onde militam Hargreaves, scholes, Fletcher ou Carrick (na luta de classes estariam do lado dos bons); o Deco foi servir de ajudante ao Ronaldinho. E escusam de me vir com o Quaresma: na altura em que foi vendido a última vez que o Inter tinha ganho a Champions ainda o Heidegger tinha uma vida sexual moderadamente activa com a Hannah Arendt.

Portanto, se tudo correr mal, o Hulk será o primeiro avançado em muito tempo que o Porto vende a um clube de topo europeu; se tudo correr mal, ficará no Dragão até o ocaso da velocidade o converter numa estátua. Naturalmente, desejo o pior.

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

por Pedro Vieira


e o quarto tomo de Ah, a Literatura! já roda por aqui

por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

por João Rodrigues


“Face à depressão da procura agregada na Europa e nos Estados Unidos, os governos viram-se naturalmente para os mercados exportadores para aliviar o desemprego interno. Mas os países não podem ter todos, simultaneamente, excedentes comerciais. A tentativa de os alcançar levará a uma depreciação competitiva da moeda e ao proteccionismo.

Como Keynes, inteligentemente, observou, ‘se as nações aprenderam a alcançar o pleno emprego como políticas domésticas… não existiria um motivo para que um país precisasse de impor os seus produtos a outros ou rejeitar as ofertas dos seus vizinhos’. O comércio entre países ‘deixaria de ser o que é, um recurso desesperado para manter o emprego em casa forçando as vendas nos mercados estrangeiros e restringindo as compras’. Em vez disso, passaria a ser um ‘intercâmbio voluntário e sem impedimentos de bens e serviços em condições de vantagem mútua’.

Por outras palavras, a actual turbulência relacionada com as moedas e o comércio é o resultado directo do nosso falhanço em resolver os nossos problemas de emprego.”

Robert Skidelsky no Negócios.



É um dos mais lúcidos economistas ou não fosse ele o principal estudioso do pensamento de Keynes. Isto permite-me sublinhar um ponto: a actual configuração da globalização pode bem estar em processo de autodestruição devido à austeridade generalizada, que alimenta o desemprego e erode o Estado Social. Acontece que um Estado social robusto, segundo indica alguma investigação empírica, é uma condição para a legitimidade da abertura comercial. Os neoliberais têm de ter cuidado com o que desejam.

A liberalização financeira e a abertura comercial desregrada são o problema. A refragmentação da economia global poderá ser necessária para que possam emergir modelos com maior enfâse na procura e na criação de emprego. Não resisto a invocar Keynes:

“Simpatizo com aqueles que querem minimizar, em vez de maximizar, as interdependências económicas entre as nações [ou os blocos regionais…]. Ideias, conhecimento, ciência, hospitalidade, viagens – estas são as coisas que, pela sua natureza, devem ser internacionais. Mas deixemos que os bens sejam produzidos localmente sempre que seja razoável e conveniente, e, sobretudo, asseguremos que a finança seja nacional. No entanto, aquele que querem reduzir as interdependências devem ser lentos e cautelosos. Não se trata de arrancar a planta pela raiz, mas de orientá-la lentamente para que cresça noutra direcção.”

Os acordos de Bretton Woods, que fixaram o quadro do pós-guerra, parcialmente inspirados pelas ideias de Keynes, previam mecanismos de controlo de capitais (a finança nacional) e criaram condições para que os países definissem o seu espaço de desenvolvimento através de uma abertura comercial gerida (orientar a planta). Só faltou o crucial bancor, parte de um projecto de gestão politica supranacional que evitasse a acumulação de défices e de superávites comerciais persistentes.

Temos de imaginar soluções razoáveis e convenientes para o trilema da economia política internacional e para a insustentável acumulação de brutais desequilíbrios, expressão da perversa configuração da globalização. A planta europeia também deveria poder crescer noutra direcção, antes que alguém a arranque. O proteccionismo pragmático é um bom antídoto contra a emergência da xenofobia e do nacionalismo agressivo, filhos das utopias (neo)liberais.

Publicado no Ladrões de Bicicletas. Entretanto, o Nuno Teles explora Keynes 2.1:

"Enquanto que na Europa estamos condenados a uma política económica inspirada na teoria económica que presidiu à Grande Depressão dos anos trinta, no resto do mundo há vontade para aprender com a crise financeira. Bom exemplo disso é a forma como os controlos de capitais estão a ser reinstituídos em vários países, da Islândia ao Brasil, passando pela Tailândia, como bem aponta este artigo de opinião de Ilene Grabel e Ha Joon Chang, hoje publicado no Financial Times. Os controlos de capitais não são nenhuma panaceia para o desenvolvimento. No entanto, se bem desenhados e implementados, eles permitem a estabilização financeira e, assim, sólidas fundações para o crescimento económico, como, aliás, aconteceu no período que precedeu os últimos trinta anos de política neoliberal.

Como bem apontam Grabel e Chang, estas políticas devem ser acompanhadas pela refundação do sistema financeiro internacional, por forma a garantir soluções concertadas para a instabilidade económica e para o desemprego. Existem já alguns esforços meritórios para o conseguir. Um deles é inspirado directamente na proposta de keynes para a criação de uma moeda 'internacional', sem existência real, o Bancor, que servisse de meio de pagamento internacional e que, aliado a um fundo internacional, fosse um instrumento para a correcção dos desequilíbrios externos dos diferentes países. Chama-se 'SUCRE' e envolve os países da Alba (Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba e Nicarágua). Este sistema foi desenhado como unidade conta gerida por uma entidade regional, onde todos os países têm os mesmos direitos de voto. Pretende-se promover o comércio regional nas moedas locais, ganhando assim autonomia face ao dólar, ao mesmo tempo que prevê o uso dos excedentes comerciais 'excessivos' em investimento produtivo, direccionado para as exportações, nos países deficitários. Política industrial, lembram-se? O sistema é embrionário e depara-se como inúmeros problemas, já que os diferentes países têm políticas cambiais e de capitais muito diversas, dificultando a concertação. Contudo, é certamente um exemplo a seguir de perto."

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

por Sérgio Lavos
As razões que terão levado o PSD a roer a corda no último momento, afastando-se do processo negocial com o PS para a aprovação do OE, acabarão sempre por levar à essência do que é a política portuguesa (ou, quem sabe, de toda a política): cada decisão, cada ideia, cada projecto de lei, cada tomada de posição, terá sempre, na sua origem, cálculos que nada têm que ver com noções vagas como "bem comum" ou "servir o povo". Chegados a este impasse, começamos a perceber que nunca terá havido uma vontade de chegar a acordo; nem da parte do PSD - porque as sondagens mais recentes mostram o partido do Governo em queda livre, em resultado do OE apresentado -, nem do Governo, cada vez mais interessado em passar o ónus da crise política para o lado do PSD, colocando, no movimento, Cavaco entre a espada (a dissolução da Assembleia) e a parede (as presidenciais). Portanto, a últimas ideias que estariam no pensamento tanto do PSD como do PS seriam a "responsabilidade", a "credibilidade do país" ou a "estabilidade política". Tudo ilusões, areia atirada para os olhos de quem poderá sofrer mais intensamente com um OE errado e injusto. Para pedir compreensão aos portugueses pelas medidas não é preciso muito, basta manter a cara de pau habitual. Agora, torna-se muito mais grave, esta hipocrisia da política, em tempos de crise acentuada e na iminência de uma bancarrota. Os salamaleques, o fingimento, a encenação, a dramatização, a mentira pura e crua, eis a fossa em que PS e PSD gostam de chafurdar. E o país lá dentro, com eles. Uma questão menor, uma chatice. Voltemos aos jogos.

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (22) | partilhar

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
por João Rodrigues


Ao assistir ontem à interrupção do teatro orçamental, dei por mim a pensar que até parecia que as marionetas tinham ganho autonomia face a quem as comanda: o capital financeiro e o eixo económico-político de Bruxelas-Frankfurt-Washington, ou seja, UE, BCE e FMI. Dei por mim a pensar, num momento de idealismo, que poderá não ter havido acordo porque olharam para o orçamento que estavam a cozinhar e recuaram perante a associação ao horror económico. Os cortes na despesa pública, os mais profundos desde o 25 de Abril, vão originar quebras intensas, e assimétricas, nos rendimentos públicos e privados. É esse o efeito. E depois ainda têm a desfaçatez de vir dizer que é tudo muito promotor da poupança. É claro que o teatro continuará com outro cenário, mas com desfecho que me parece certo ainda hoje: no fim, o espírito santo prevalecerá. Enfim, vamos fingir que as marionetas ganharam consciência da situação.

A abordagem dos balanços financeiros sectoriais, que parte de uma igualdade contabilística incontroversa, ajuda a ver a coisa: a soma dos saldos dos sectores externo, público e privado no PIB tem de ser igual a zero em cada momento. O projecto do  bloco central, mais milhão ou menos milhão, é o de operar uma brutal contracção do mercado interno por via orçamental e da quebra dos rendimentos e assim reduzir o saldo do sector externo, ou seja, o nosso défice externo. No entanto, a redução do saldo do sector externo não deve acompanhar a redução do défice público prevista em percentagem do PIB, o que significa que o contraproducente esforço para reduzir o défice público, a ser bem sucedido, terá como contrapartida uma deterioração do saldo do sector privado, ou seja, um aumento do endividamento privado. Num contexto de deflação e de crise, pode acontecer que o saldo do sector privado se deteriore também porque aumenta o valor real das dívidas. Mas será que a corda parte por outro lado?

E se a redução do consumo e investimento privados for maior do que a redução dos rendimentos? O colapso das importações poderá ser maior do que o previsto? No entanto, tenho dúvidas em relação ao aumento das exportações previsto devido à situação europeia global num contexto de austeridade generalizada, ou seja, o cenário de uma melhoria muito significativa da posição externa parece improvável. Pode então acontecer que o défice público, devido à recessão criada, não vá diminuir como o governo prevê e que a corda parta por aqui. Teremos novos cortes e o acentuar do ciclo vicioso. Por isso é que Rob Parenteau, um dos proponentes da abordagem dos balanços financeiros sectoriais, criou várias cenários e concluiu que uma coisa é certa: os “porcos (pigs) vão ser mortos” com estas políticas deflacionárias à escala nacional e europeia.

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (15) | partilhar

por Daniel Oliveira


Ontem, no telejornal da SIC, Eduardo Catroga disse o que teria feito se fosse ministro das Finanças, esquecendo-se momentaneamente que já foi ministro das Finanças. Não teria esbanjado dinheiro e, sobretudo, não empurraria para o futuro investimentos do presente. E deu o exemplo como a SCUT. Concordo. Já escrevi aqui que as Parecerias Público-Privadas são um dos cancros do Estado. Além de saírem mais caras apenas para difarçarem o défice e limitarem por décadas as grandes opções do Estado, criam um ambiente de promiscuidade entre o poder político e as empresas.

Depois comecei a pensar: mas uma das primeiras grandes obras que se socrreu deste tipo de financiamento - e uma das mais ruinosas -, foi feita quando? A concessão foi dada em Abril de 1994 e a construção começou em Fevereiro de 1995. Tratava-se da segunda travessia do Tejo. Deu e continua a dar muito a ganhar à Lusoponte e muito a perder aos cofres do Estado. Era então o ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira do Amaral. As condições foram as que se conhecem. O mesmo Ferreira do Amaral acabou à frente da empresa que ganhou com o negócio.

Quem era então o ministro das Finanças? Nada mais nada menos do que Eduardo Catroga (entre Dezembro de 1993 e Outubro de 1995). É por isso que as suas declarações sobre o Estado gordo e a irresponsabilidade de quem governa valem o que valem. Se ele fosse ministro das Finanças faria provavelmente coisas muito acertadas. Incluindo travar este género de negócios que deixaram o Estado empenhado por décadas. Mas a única coisa que interessa não é o que faria se fosse ministro das Finanças, mas o que fez quando foi ministro das Finanças. E a verdade é que deixou fazer o que agora lhe parece inaceitável.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (55) | partilhar

por Daniel Oliveira


O Estado é gordo. É isto que temos ouvido vezes sem conta. Tantas vezes dito por gente que, de uma forma ou de outra, viveu quase sempre à sombra dele. Como os católicos não praticantes, só se lembram de Deus na hora do sufoco.

Agora, que vai haver cortes a sério, é que vamos tirar a prova dos nove. Veremos se o sector privado vai finalmente gastar qualquer coisa que se veja em investigação e desenvolvimento quando não tiver as universidades públicas para fazer esse trabalho. Quero ver se as empresas começam a usar a lei do mecenato à cultura porque isso lhes dá prestígio.

Quero ver se em vez de mamarrachos encomendados a engenheiros do gabarito de José Sócrates vai haver encomendas dos privados a arquitetos que não destruam a paisagem. Quero ver os hospitais privados a tratarem do que é caro e dá prejuízo. Empresas a apagar fogos. A garantir escolas economicamente acessíveis. E quero ver os privados a contratar as pessoas mais qualificadas deste país.

É que não é por acaso que a média salarial no Estado é mais alta do que no privado. Grande parte dos mais escolarizados é para lá que vai. A maioria das empresas, em Portugal, prefere o que é barato e descartável.

Agora sim, vamos poder ver as maravilhas do Estado mínimo que nos andam a vender há anos. Quando faltarem polícias na rua, não resmungue. Quanto não houver meios para combater os fogos, não se indigne. Quando as escolas e cresces fecharem, as universidades se transformarem em depósitos ainda mais inúteis e não houver gente qualificada para trabalhar em lado nenhum, sorria.

Quando fecharem os centros de saúde e comprar medicamentos para ficar vivo for um luxo, não se apoquente. Morra sabendo que o Estado sempre foi o culpado de todos os nossos males. E maravilhe-se com a sua elegância depois de uma boa dieta.

O que me espanta, o que sempre me espantou, é haver tantos, entre os que devem à maternidade pública o seu nascimento seguro, à escola pública quase tudo o que sabem, à universidade pública a sua ascensão social e cultural, ao Estado a sua segurança e ao hospital público a sua sobrevivência, a pedirem o seu emagrecimento.

Uns são apenas egoístas: garantida que está a sua condição, os outros que façam pela vida. Outros são só parvos. Esses vão ver agora como elas mordem.

Publicado na edição de 23 de Outubro do Expresso

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (84) | partilhar

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
por Pedro Vieira

© rabiscos vieira



a montanha pariu um cavaco



por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (17) | partilhar

por Bruno Sena Martins


Quando a abstinência do PSD se consumar saberemos que tudo não passou de um monumental bluff de Passos Coelho. A partir daí o mais  provável é que esta jogada arriscada se cole ao futuro do político anteriormente conhecido como Pedro Passos Coelho.

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (15) | partilhar

por Sérgio Lavos
O Ministério Público confirmou que foram detidas três pessoas e realizadas 50 buscas e apreendidos documentos e bens de “significativo valor pecuniário” nas últimas 48 horas, no âmbito de um dos 17 processos do dossier BPN.

Acusação da Face Oculta deduzida contra 34 arguidos e duas empresas.

Corrupção: Portugal na 32.ª posição entre 178 países.

Cavaco, o economista que recusa ser político profissional.

Tudo isto no dia em que OE foi, como sói dizer-se, pelo cano abaixo.
tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Arrastão
O novo inquérito resulta de um debate aqui começado, nas caixas de comentários, a propósito de Cavaco Silva: "Qual foi o político que mais continuada e decisivamente contribuiu para a definição da política económica do Portugal democrático?"

O inquérito das presidenciais continuará activo e aqui. Quem ainda não tiver votado, faça o favor de o fazer.

por Arrastão
link do post | comentar | ver comentários (30) | partilhar

por Pedro Sales
João Proença, líder de uma central sindical que convocou uma greve geral contra o impacto das medidas do Orçamento de Estado, defende a aprovação do Orçamento de Estado...

por Pedro Sales
link do post | comentar | ver comentários (22) | partilhar

por Daniel Oliveira
Com as negociações rompidas, o PSD mantém o tabu sobre o sentido do seu voto. Diz que espera pela reacção dos mercados. Já Teixeira dos Santos diz que sim, é "inflexível". Ninguém lhe explicou que para ser inflexível precisaria de ter maioria absoluta. Não tem. A não ser que consiga convencer alguém que consegue cumprir as desastrosas metas que definiu sem o PSD, não se percebe bem que vantagens lhe traz a inflexibilidade.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (17) | partilhar

por Daniel Oliveira


No seu discurso de ontem, Cavaco Silva quis convencer o País que fez ou poderia ter feito alguma diferença na resolução dos problemas que enfrentamos. A diferença que podia ter feito foi há muitos anos, quando nos governou. Agora, como se vê no impasse da negociação do Orçamento, é carta que não conta.

Na sua intervenção, saltou à vista um pequeno truque. Daqueles que mostram que a demagogia nem sempre se serve aos gritos. E Cavaco Silva é mestre em usá-la em sussurro. Anunciou que terá uma campanha barata. Até aí, tudo certo. Deviam ser todas. Mas acrescentou que não colocará cartazes. Porque os tempos não estão para isso. Cavaco Silva sabe que as pessoas olham para as campanhas eleitorais como um desperdício e explora a coisa.

A decisão não espanta. Se olharmos bem para agenda do Presidente da República, Cavaco Silva está em campanha há mais de um mês. Multiplica-se em visitas e declarações. Não o faz como candidato, mas o resultado é exactamente o mesmo: aparece diariamente na televisão. Ninguém o pode condenar por isso. Mas a verdade é que a sua campanha é paga pelo Estado e não entra na contas da campanha. Cavaco Silva dispensa os cartazes porque aparece no mais importante de todos: os televisores dos portugueses. Não precisa de se dar a conhecer porque é o Presidente em exercício. Não precisa de se bater pela visibilidade pública porque é Chefe de Estado. Ao lançar esta cartada, quase como um desafio (não se limitou a decidir gastar pouco, anunciou-o e deu-lhe destaque), pede aos outros que, acompanhando-o, fiquem numa posição de inferioridade nas eleições.

É que se fosse uma questão de princípio, Cavaco Silva teria feito isto quando não tinha a vantagem de ser Presdiente. Não foi o caso. Ele e Mário Soares gastaram em 2006 mais de três milhões de euros. O triplo do que gastou Manuel Alegre; quatro vezes mais do que Jerónimo de Sousa; sete vezes mais do que Francisco Louçã; e quase 150 vezes mais do que Garcia Pereira. Aí sim, o desafio seria interessante. Agora, é apenas propaganda. E de borla.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (76) | partilhar

por Daniel Oliveira
De que falamos quando falamos de liberdade de expressão? Nos últimos anos, os grandes meios de comunicação social fazem alarde da liberdade de expressão contra alegadas interferências do Estado, mas poderemos falar de liberdade de expressão no quadro de uma economia dos media em que a concentração impera? Neste contexto, importa atender a novas formas de comunicação que, à margem do controlo directo do Estado e dos grandes grupos privados, têm vindo a tecer redes muito vastas em que a fronteira entre emissor e receptor parece fragilizar‑se. É o caso de uma série de meios suportados pela internet, que, aliados aos novos desenvolvimentos tecnológicos, permitem colocar em cima da mesa novas possibilidades de estender o direito de emissão televisiva ou radiofónica além das empresas públicas e das empresas privadas de comunicação.

Media, propriedade e liberdade
Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira
Teratro Maria Matos, quarta 27 Outubro 18h30

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

por Bruno Sena Martins
Qual foi o homem que mais continuada e decisivamente contribuiu para a definição da  política económica do Portugal democrático?

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | partilhar

por Sérgio Lavos
José Vítor Malheiros é, há algum tempo e a par com Manuel António Pina no JN e Rui Tavares também no Público, o meu colunista preferido nos jornais portugueses (se exceptuarmos MEC, claro). Inteligente, escrita límpida, lucidez desarmante e, sobretudo, independência. A crónica de ontem é exemplar. Fica aqui, na íntegra (on line apenas está disponível para assinantes):

Memórias de uma imprensa bem comportada

Os jornalistas realizam diferentes tarefas e preenchem diferentes funções sociais. Uma dessas tarefas consiste em produzir e difundir notícias. Outra função consiste em alimentar o debate de ideias no seio da sociedade.

Porém, aquilo que, aos meus olhos, é a função essencial do jornalista é o que se chama vulgarmente a "fiscalização dos poderes" e a que os anglo-saxónicos chamam de forma mais colorida a função de watchdog - servir de cão de guarda das liberdades cívicas, revelar todas as actividades de todos os poderes e de todos os poderosos e denunciar abusos.

Esta é a função que só os media levam a cabo de forma independente e constitui o coração do ethos jornalístico. Isto não quer dizer que não possa haver uma organização não-mediática que funcione dessa forma, mas a prossecução desse objectivo de forma independente - sem qualquer agenda predefinida, sem defender interesses particulares - é a marca de água da actividade jornalística.

Tivemos há dias um exemplo de grande impacto do que pode ser essa fiscalização dos poderes com a publicação pelo site WikiLeaks de milhares de casos de abusos perpetrados pelas tropas americanas e iraquianas no Iraque.

Curiosamente, o líder do WikiLeaks, Julian Assange, não só não se considera um jornalista como recusa com veemência o rótulo, que considera "ofensivo". Porquê? Porque Assange pensa que a esmagadora maioria da imprensa, premeditadamente ou não, não só não fiscaliza os poderes como colabora activamente com eles, escamoteando ou maquilhando as suas práticas mais criticáveis. Um exagero? Talvez. Mas vale a pena, no actual panorama de crise e recessão, quando todos os portugueses têm uma lista de perguntas que gostariam de ver respondidas pelo Governo (sobre as empresas que não pagam impostos, sobre os impostos da banca, sobre a nacionalização do BPN, a política fiscal, o real funcionamento da economia, as razões para o optimismo com que nos regalaram nos últimos dois anos) podemos perguntar-nos a quantas dessas perguntas os media conseguiram responder. Ou quantos nomes foram responsabilizados. Ou quais foram as denúncias que vimos nas páginas dos jornais e nos ecrãs dos noticiários. Existem pequenas excepções singulares, mas contam-se pelos dedos de uma mão. No geral, a imprensa limita-se a reproduzir os discursos existentes na cena política ou económica. Claro que isso significa citar o Governo e a oposição, os patrões e (esporadicamente) os sindicatos, mas a verdade é que isso é dramaticamente insuficiente.

Mais do que saber qual é a mensagem que os protagonistas querem transmitir, o que os cidadãos gostariam de ter é um retrato fiel da situação. Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade - para além do consabido "este disse, aquele disse". Todos gostaríamos de saber o que de facto aconteceu com o PEC I e II. Quais as contas reais do país. O que está a acontecer com as parcerias público-privadas (os factos, e não as leituras ideológicas). Com as empresas que não pagam impostos. Com o off-shore da madeira, com as mil e tal fundações privadas que recebem dinheiro dos nossos impostos, com os privilegiados que acumulam pensões e salários, etc. A verdade é que a maioria dos media se encontra ou acantonada num confortável comodismo ou numa quase paralisia imposta por uma draconiana redução de despesas, que impede qualquer investigação. Só que, sem essa investigação, sem essa função irreverente de watchdog, os media apenas repetem as versões que interessam aos poderes. Sobrevivem, mas isso não é vida. A crise que os media estão a atravessar não é alheia a esta situação. Os media parecem empenhados em provar a sua irrelevância, sem perceberem que é esse o caminho que os está a levar à cova.

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
por Sérgio Lavos


Um dos mais batidos argumentos contra Lula da Silva, repetido por adversários de todos os quadrantes, é a sua presumível iliteracia (extraordinário achado, alguém como ele ter chegado a presidente). Enquanto era apenas um sindicalista ou um candidato presidencial com poucas hipóteses de ser eleito, o presumido analfabetismo nem chegava a ser tema - era natural que um metalúrgico fosse iletrado, dali não vinha qualquer ameaça às elites brancas brasileiras. Quando finalmente chegou à presidência, o tema tornou-se central nos seus opositores, dando razão àqueles que acham que a História não acabou e a luta de classes é coisa que está para durar. A crítica, produzida por intelectuais sem complexos de culpa, que sentem um certo nojo perante o proletariado sem vergonha do berço, é um estudo de caso. O hábito é repetido pelos nossos inimigos de Lula, e, desde o mais sóbrio intelectual de direita ao mais putativo letrado taberneiro, todos insistem, a cada texto escrito, em lembrar as suas origens. Pode-se analisar esta tendência de duas maneiras: a iliteracia do presidente enquanto pretexto para criticar o pouco que o trabalho dele tem de criticável ou, pior, a iliteracia enquanto defeito em si, como se de peçonha se tratasse. O fundamento é simples, básico mesmo: Lula da Silva, com todas as qualidades que se lhe possam encontrar, nunca deveria ter sido eleito presidente - o homem orgulha-se de não ter pegado livro, como pode? A chatice que deverá ser ele ter desempenhado o seu cargo de forma superlativa; porque a definição de elite contém em sim mesma uma definição de poder anti-democrática: as eleições são um problema, e ter de levar com um "analfabeto bêbedo" na presidência a pior das ofensas. O poder, para esta burguesia esclerosada, deveria apenas legitimar quem pertence a estas elites, em representação dos seus próprios interesses ou de uma vaga promessa de poder popular.

Não é uma coincidência que esta aversão das elites ao povo seja mais evidente nos países com maior desigualdade social. No Brasil, muitos brancos ricos sentem-se ameaçados pela emergente classe média, mestiça, não por terem perdido privilégios - o caminho de Lula nunca passou pelos radicalismos boçais de Chávez, por exemplo -, mas por verem os antigos pobres a consumir o que antes não era acessível. Este tipo de reacção, da burguesia anónima, é em tudo igual à dos intelectuais que encontram na escolaridade de Lula motivo de chacota ou ataque. Lá e cá, vão-se indignando as elites, como também aconteceu, por exemplo, quando Saramago recebeu o Nobel (Vasco Pulido Valente à cabeça, claro).  O maior mérito de Lula, aquilo que o definirá no futuro, será o abalo que provocou no sistema estabelecido, na ordem natural das coisas. Não será esta a principal qualidade de um estadista, essa palavra tão cara ao sistema?

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (57) | partilhar

por Daniel Oliveira


Sem contar com a sua breve passagem pela pasta das Finanças, conhecemos cinco cavacos. Mas todos os cavacos vão dar ao mesmo.

O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades de deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.

O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.

O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.

O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros.

Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.

E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.

Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (202) | partilhar

por João Rodrigues


"Acredito que vai ser alcançado rapidamente um acordo que viabilize o orçamento", afirma Ricardo Salgado do BES. Vai ser alcançado um acordo que viabilize o orçamento. Entretanto, o cavaquista Eduardo Catroga, um dos mais destacados economistas do medo, negoceia o desastre orçamental, aproveitando a sua generosa reforma e os intervalos das suas actividades nos grupos económicos. É a economia política e moral do cavaquismo em todo o seu esplendor.

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (18) | partilhar

por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
por Pedro Sales


...toca lá a despachar essas negociações para o Orçamento de Estado que o PSD tem que chegar hoje a acordo, ou o pai Cavaco puxa as orelhas.

por Pedro Sales
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

por Daniel Oliveira


O Banco de Portugal está a esquivar-se à redução dos salários dos seus funcionários. Diz que essas reduções têm de ser aprovadas pelo Banco Central Europeu. Porque o BCE manda implementar politicas de austeridade mas trata dos seus, pode ser que se safem. É que em vários países que estão a aplicar as medidas mais duras de cortes salariais os bancos centrais foram olimpicamente poupados. E, em geral, o BCE tem exigido que as reduções de salários dos governadores entrem apenas em vigor em novos mandatos. Tão lestos que são a cortar nos outros, tão seguros que são a prescrever estricnina aos pacientes europeus, tão rigorosos que são com os seus próprios direitos adquiridos.

Note-se que o Banco de Portugal não está a fazer nenhuma pressão para ser a primeira instituição pública a fazer os cortes, dando o exemplo do que aconselha aos demais. Está à espera que o BCE diga que não para ser poupado. E isto naquela que é, provavelmente, a instituição do Estado com os mais escandalosos privilégios. Aquela da qual muitos dos principais advogados da sangria salarial em todo o País recebem reformas pornográficas, por vezes resultado de passagens fugazes pelo Banco.

Esta é apenas mais uma história bem reveladora da verdadeira natureza desta crise. Uma história em que o sacrifício é sempre transferido para o vizinho de baixo. Porque esta crise não é apenas financeira. É ética. Aliás, se se lembram como isto começou, a primeira resulta da segunda.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (37) | partilhar

Domingo, 24 de Outubro de 2010
por João Rodrigues


Eu tenho argumentado que os "economistas" neoliberais estão totalmente equivocados, em particular na questão laboral, a questão socioeconómica mais importante. E basta. No entanto, não resisto a adicionar um elemento, certamente secundário, mas muito revelador sobre o estado moral das nossas “elites”.

Comecemos por um bom artigo no Público de sábado sobre a erosão da democracia causada pelo “mercados”. São José Almeida faz uma pergunta a propósito do último Prós e Contras: “Houve uma coisa que saltou aos olhos e provocou uma clara sensação de mal estar: por que razão sorria Mira Amaral?” O livro "Os Donos de Portugal", acabado de ser lançado, responde: “Como a ponta de um iceberg, os mais notórios globetrotters dos conselhos de administração são Mira Amaral, Nogueira Leite, Joaquim Ferreira do Amaral, Murteira Nabo e Luís Todo Bom.” (p. 321). Juntem a pensão da CGD e é só sorrir.

Mais motivos para sorrir: Mira Amaral era o grande defensor da desastrosa austeridade à irlandesa e apesar deste e de outros disparates continua por aí com amplo tempo de antena. Ex-ministros sempre com boas sinecuras públicas e privadas e com controlo televisivo quase total. A banca ou outros grupos económicos rentistas reconstruídos por privatizações ruinosas foram o destino da esmagadora maioria, como está bem documentado em “Os Donos de Portugal”.

Estas coisas não são para se dizer entre as pessoas por quem se deve ter consideração: é o que, inspirado pelo Rui Tavares, já apodei de economia da consideração. E a ordem dos economistas, que supostamente vela pela ética da profissão, é presidida por Murteira Nabo, precisamente um dos globetrotters. Desde os meus tempos de estudante no ISEG que sou contra a ordem dos economistas.

O que é que isto mostra? O que o Daniel já defendeu: “economistas” demasiado bem alimentados andam a brincar com a vida dos outros há muito tempo neste país. E estão errados. E demasiados privilégios toldaram os seus sentimentos morais. A passividade dos outros também ajudou à festa.

Daí para a incapacidade de pensar realisticamente a economia como um conjunto de mecanismos e de relações sociais e políticas é só um pequeno salto para o abismo da politica económica seguida desde há muitos anos: foi esta gente que nos meteu alegremente no colete de forças deste euro mal instituído. E agora aí estão a dar a cara por todos os PEC que afundam a economia e geram desemprego para os outros. Sempre a sorrir? Só se deixarmos. A greve geral também é contra esta economia de predação.

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (50) | partilhar

por Sérgio Lavos
A ressurreição de Cristiano Ronaldo. Um nascimento de uma estrela - Özil. E o brilho de um mediano jogador de futsal na melhor equipa do mundo (sim, cada vez tenho mais saudades de Di Maria). Alguém duvidava de Mourinho?
tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Sérgio Lavos


... excepto a malta do costume. A ler, com toda a atenção:

[…] A partir do primeiro trimestre deste ano, os lucros das empresas dispararam entre vinte a mais de cem por cento (Financial Times, 10/Agosto/2010, p. 7). Na realidade, os lucros das empresas subiram mais do que antes do início da recessão em 2008 (Money Morning, 31/Março/2010). Contrariamente ao opinado por bloggers progressistas as taxas dos lucros estão a subir em vez de descer, principalmente entre as maiores empresas (Consensus Economics, 12/Agosto/2010). O acréscimo dos lucros empresariais é consequência directa do agravamento das crises da classe trabalhadora, dos funcionários públicos e privados e das pequenas e médias empresas.

No início da recessão, o grande capital eliminou milhões de postos de trabalho (um em cada quatro americanos ficou desempregado em 2010), conseguiu recuos dos patrões dos sindicatos, beneficiou de isenções de impostos, de subsídios e de empréstimos praticamente sem juros dos governos locais, estaduais e federal.
Quando a recessão bateu no fundo temporariamente, os grandes negócios duplicaram a produção com a restante mão-de-obra, intensificando a exploração (maior produção por trabalhador) e reduziram os custos passando para a classe trabalhadora uma fatia muito maior dos encargos com os seguros de saúde e com os benefícios de pensões a aquiescência dos responsáveis milionários dos sindicatos. O resultado é que, embora as receitas tenham diminuído, os lucros subiram e os balancetes melhoraram (Financial Times, 10/Agosto/2010). Paradoxalmente, os directores-gerais utilizaram o pretexto e a retórica das "crises" oriunda dos jornalistas progressistas para impedir os trabalhadores de exigirem uma fatia maior dos lucros florescentes, ajudados pela reserva cada vez maior de trabalhadores desempregados e subempregados como possíveis "substitutos" (amarelos) no caso de acções de protesto.


A actual explosão de lucros não beneficiou todos os sectores do capitalismo: a sorte grande saiu sobretudo às maiores empresas. Em contrapartida, muitas pequenas e médias empresas registaram altas taxas de falências e de prejuízos, o que as tornou baratas e presa fácil para aquisição pelos "grandes patrões" ( Financial Times, 01/Agosto/2010). As crises do capital médio levaram à concentração e centralização do capital e contribuíram para a taxa crescente de lucros das empresas maiores.
O diagnóstico falhado das crises capitalistas feito pela esquerda e pelos progressistas tem sido um problema omnipresente desde o fim da II Guerra Mundial, quando nos foi dito que o capitalismo estava ’em estagnação’ e se dirigia para um colapso final. Os recentes profetas do apocalipse viram na recessão de 2008-2009 a queda definitiva e total do sistema capitalista mundial. Cegos pelo etnocentrismo euro-americano, não viram que o capital asiático nunca entrou nas "crises finais" e a América Latina teve uma versão suave e passageira ( Financial Times. 09/Junho/2010, p. 9). Os falsos profetas não conseguiram reconhecer que os diferentes tipos de capitalismo são mais ou menos susceptíveis às crises… e que algumas variantes tendem a sofrer rápidas recuperações (Ásia, América Latina, Alemanha) enquanto outras (EUA, Inglaterra, Europa do Sul e do Leste) são mais susceptíveis a recuperações anémicas e precárias.


Enquanto a Exxon-Mobil arrebanhou mais de 100% de aumento de lucros em 2010 e as empresas de automóveis registaram os seus maiores lucros dos últimos anos, os salários dos trabalhadores e o seu nível de vida diminuíram e os funcionários públicos sofreram pesados cortes e despedimentos maciços. É óbvio que a recuperação de lucros empresariais se baseia na mais dura exploração da mão-de-obra e de maiores transferências de recursos públicos para as grandes empresas privadas. O estado capitalista, com o presidente democrata Obama à frente, transferiu milhares de milhões para o grande capital através das operações de salvamento, empréstimos praticamente isentos de juros, cortes nos impostos e pressionou a força de trabalho a aceitar salários mais baixos e reduções na saúde e das pensões. O plano da Casa Branca para a ’recuperação’ resultou para lá de todas as expectativas – os lucros empresariais recuperaram; "só" a grande maioria dos trabalhadores é que se afundou mais nas crises.

As previsões falhadas dos progressistas quanto à morte do capitalismo são consequência directa da subavaliação da dimensão com que a Casa Branca e o Congresso iria pilhar o erário público para ressuscitar o capital. Subavaliaram o grau com que o capital iria ser aliviado para sacudir toda a carga da recuperação de lucros para cima das costas dos trabalhadores. Neste aspecto, a retórica progressista sobre a "resistência da força de trabalho" e o "movimento sindical" reflectiram a falta de compreensão de que praticamente não tem havido qualquer resistência à redução dos salários sociais e monetários porque não existe organização da força de trabalho. O que se intitula como tal está completamente ossificado e ao serviço dos defensores da Wall Street nos Democratas na Casa Branca.

O que o actual impacto desigual e injusto do sistema capitalista nos diz é que o capitalismo consegue ultrapassar as crises aumentando apenas a exploração e anulando décadas de "ganhos sociais". Mas o actual processo de recuperação de lucros é altamente precário porque se baseia na exploração de inventários actuais, taxas de juros baixas e cortes nos custos da mão-de-obra (Financial Times, 10/Agosto/2010, p. 7). Não se baseia em novos investimentos privados dinâmicos nem no aumento da capacidade produtiva. Por outras palavras, são "ganhos ocasionais" – não são lucros provenientes de receitas de vendas acrescidas nem de mercados de consumo em expansão. Como poderiam ser – se os salários estão a diminuir e o desemprego, o subemprego e a redução da mão-de-obra é maior do que 22%? Obviamente, esta explosão de lucros a curto prazo, com base em vantagens políticas e sociais e num poder privilegiado, não é sustentável. Há limites para os despedimentos maciços de funcionários públicos e para os ganhos de produção a partir da exploração intensificada da mão-de-obra… alguma coisa tem que ceder. Uma coisa é certa: O sistema capitalista não vai cair nem ser substituído por causa da sua podridão interna ou"contradições".

James Petras

Via Branco Sujo, que não tem apenas este texto para se ler - e vale mesmo a pena espreitar o resto. Originalmente publicado aqui.

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

por João Rodrigues


"Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada 'mercados'.

As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como 'ditamole'.



Os sinais mais preocupantes da atual conjuntura são os seguintes. Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população ativa; em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634 836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer o suicídio.

Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores - dominam os media como em nenhum outro país europeu - para quem o Estado social se reduz a impostos: os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer 'à choldra dos hospitais públicos', não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões. O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível.

Terceiro, Portugal transformou-se numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais. Fazem outro sentido os atuais juros da dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projeto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro e em breve, aquando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projeto europeu acabou.

Inverter este curso é difícil mas possível. Muito terá de ser feito a nível europeu e a médio prazo. A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta! Ao fascismo difuso instalado nas suas vidas, reaprendendo a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projeto alternativo de Manuel Alegre."

Boaventura de Sousa Santos

por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (28) | partilhar

por Pedro Sales

por Pedro Sales
link do post | comentar | partilhar

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador