Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013
por Daniel Oliveira

 

 

E de novo a fúria viral. Glória Araújo, deputada do Partido Socialista, foi detida numa operação "stop" por conduzir com 2,4 gramas de álcool por litro de sangue. Trata-se de um crime. Glória Araújo não se pretende esconder atrás da imunidade parlamentar, que não tem como função defender os deputados deste tipo de acusações criminais - mas garantir a sua liberdade de expressão e a separação entre o poder legislativo e o poder judicial. A imunidade será levantada com consentimento da deputada. Como tinha de ser. Mas a gritaria continua. A senhora não pode continuar no seu cargo.

 

A ver se nos entendemos: um deputado não é um exemplo de tudo o que nós devíamos ser e não somos. É um representante. Se usar o seu cargo para proveito próprio - e tantos usam - deve abandoná-lo. Assim como qualquer trabalhador corrupto ou funcionário desonesto. Se tentar que as leis que aprovou não lhe sejam aplicadas também não pode ser legislador. Falta-lhe autoridade. Não foi o caso. A deputada violou a lei e será julgada como qualquer cidadão. A lei não estipula, nem deve estipular, que ser deputado é uma agravante. Não estipula, nem deve estipular, que conduzir alcoolizado é razão para perda de emprego, de cargo político ou de função da administração pública. A lei estipula que a senhora, que não conheço, deve ser julgada. E caso seja condenada pode ser punida com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias. Por mim, defendo que os deputados, os ministros, os secretários de Estado ou os autarcas não podem estar acima da lei. Mas não defendo que devem estar abaixo da lei.

 

Um detentor de um cargo público, assim como qualquer cidadão, deve respeitar a ética republicana. Ou seja, zelar pelo interesse público no cargos que ocupa. Claro que alguns atos fora do cargo que se ocupa podem levar a que consideremos que um político não está apto para desempenhar determinadas funções. É pouco provável que um empresário corrupto seja um político honesto. Mas não se pode dizer o mesmo sobre alguém que conduz alcoolizado. Não, não reduzo a importância de tal crime. Ele pode custar, e tem custado, a vida de outros. Apenas não consigo vislumbrar qualquer relação entre este comportamento condenável - tão condenável que a deputada será, como qualquer outro cidadão, julgada - com o desempenho de funções públicas. Concluímos dele que a deputada é desonesta? Que é incompetente? Que não representará os seus eleitores? Que o seu cargo para benefício próprio? Não vejo como. Logo, não percebo porque raio há de abandonar qualquer função parlamentar que desempenhasse antes do sucedido. Ainda mais, quando ainda nem sequer foi julgada e condenada.

 

O que me incomoda nesta história, ao ponto de decidir escrever sobre ela, é confusão moral que se anda a instalar nas democracias. Que se baseia num princípio falso: que os políticos devem ser um exemplo para os restantes cidadãos. Não concordo. Os políticos devem ser um exemplo no desempenho das suas funções. Não fora delas. Porque corremos o risco de passar a escolher políticos que nos parecem tão perfeitos que só podem ter uma de duas características: ou não têm vida ou são excelentes mentirosos. Uma e outra são pouco recomendáveis a quem tem de decidir sobre as nossas vidas concretas.

 

Claro que estamos longe de andar a eleger gente perfeita. Se assim fosse, Isaltino Morais, condenado por corrupção, não teria sido reeleito já depois de ter sido julgado. O que parece suceder, e não só em Portugal, é uma inversão absoluta de valores: um político deve ser bom pai de família, marido extremoso, vizinho exemplar, condutor perfeito, cidadão sem mácula. Mas se, como político, for tudo o que não se recomenda, não há qualquer problema. Desde que seja, fora dos cargos que ocupa, um anjinho, tem lugar seguro.

 

Por mim, desde que Glória Araújo não use o cargo que ocupa para fugir à lei e se submeta a ela como qualquer cidadão, pode continuar no lugar para o qual foi eleita e ocupar todos os cargos que ocupava antes. Se foi uma deputada competente e cumpridora dos compromissos políticos que assumiu com os seus eleitores (e não estiver presa), deve ser reeleita. Se não foi nada disto não devem votar nela de novo. Mesmo que fosse, fora da Assembleia da República, uma cidadã exemplar.


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por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013
por Daniel Oliveira

 

Usando a metáfora dos reis magos para se referir à troika, Arménio Carlos referiu-se, no seu discurso no final da manifestação dos professores, a Abebe Selassie como "o mais escurinho, o do FMI". Esta forma de falar do etíope representante do Fundo Monetário Internacional na troika causou natural incómodo a muita gente. A mim também. E por isso escrevi que "esta crise anda a fazer quase toda a gente perder o norte e o sul e coisas extraordinárias vêm de quem menos se espera". Outros foram os que, com mais ou menos veemência, se indignaram.

 

Em defesa de Arménio Carlos vieram muitas outras pessoas, mais e menos anónimas. Com argumentos variados. Uns, que nem deveriam merecer grandes comentários:criticar Arménio Carlos para defender o representante do FMI, nas circunstâncias em que o País vive, é dividir a oposição à troika e ajudar o inimigo. A ver se nos entendemos: considero a troika inimiga dos interesses do País e da justiça social. Mas isso não permite tudo. E não me permitirá a mim, com toda a certeza, esquecer outros valores e outros combates tão essenciais como os que agora se travam. O facto de ser dito pelo líder da CGTP, organização em que muitas vezes me revejo, torna a coisa mais grave para mim. Se não criticamos os nossos nunca teremos autoridade para criticar os outros.

 

Outro argumento foi um pouco mais sonso: então ele não é mesmo mais escurinho? Qual é o problema? A não ser que passe a ser normal responsáveis políticos referirem-se a adversários desta forma, tudo bem. Será, assim, natural ouvir em intervenções públicas falar do ministro das finanças alemão como o "aleijadinho" (ele, de facto, anda de cadeira de rodas, não anda?), a António Costa como o "monhé" (ele, de facto, tem origem indiana, não tem?), a Jaime Gama como o "badocha" (ele, de facto, tem uns quilos a mais, não tem?), a Ana Drago como a "pequenota" (ela, de facto, é baixa, não é?), a Mário Soares como o "velhadas" (ele, de facto, já não é jovem, pois não?), a Miguel Vale de Almeida como "larilas" (ele, de facto, assume publicamente a sua homossexualidade e faz da luta pelos direitos LGBT uma parte fundamental do seu combate político, não faz?). Espera-se, no entanto, que o debate público mantenha algumas regras de civilidade. E, sobretudo, que não alimente alguns preconceitos importantes. Arménio Carlos não disse o que disse num café, onde a conversa se pode aligeirar sem problemas. Disse o que disse numa intervenção pública oficial.

 

Por fim, porque não há oportunidade em que a expressão não seja usada a propósito ou a despropósito, veio a costumeira acusação do "politicamente correto". A ver se nos entendemos: o politicamente correto tem um sentido. E esse sentido resume-se assim: as palavras não são neutras e carregam consigo história, cultura e política. Por isso, devemos usá-las com correção. Não quer isto dizer que devemos ser bem comportados ou que devamos fazer de cada frase um manifesto político. Quer dizer que não devemos usar as palavras ao calhas. Pelo menos quando estamos a falar ou a escrever na arena pública e não conhecemos as convicções mais profundas dos nossos interlocutores. Há, claro, excessos de purismo no politicamente correto. Que me irritam, como me irritam todos os purismos. Mas o princípio está certo e não é preciso ser especialmente adepto dele para não gostar de ouvir falar de um responsável público como "escurinho".

 

Portugal é um país racista. Tem uma longa história de racismo. E uma longa história de negação desse racismo. É um racismo suave, sorrateiro, com diminuitivo (como "escurinho"), que não se exibe de forma descarada na praça pública. É, talvez, das formas mais insidiosas de racismo. E um homem que se enquadra numa corrente política com provas na luta contra o racismo e a discriminação, como Arménio Carlos, tem obrigação de saber isto. É por isso que o incómodo com esta afirmação deve ser maior por vir da sua boca. Não duvido, no entanto, que se a expressão tivesse sido dita por um homem de direita a indignação seria muito mais violenta. E mal. A direita tem, nesta matéria, menos responsabilidades. Não porque a direita seja, em geral, racista, mas porque acredita, em geral, que os portugueses não o são. É, por isso, menos vigilante consigo própria.

 

Se repararmos, Abebe Selassie é o primeiro negro com algum poder real em Portugal. Ou seja, num país razoavelmente multiétnico, o primeiro negro com algum poder só o consegue ter porque esse poder não resultou da vontade dos portugueses. Há, que me lembre, apenas um deputado negro no parlamento - e é do CDS. Não há nenhum presidente de Câmara, nenhum ministro, nenhum secretário de Estado. Isto tem de querer dizer qualquer coisa. Ou quer dizer que os portugueses não votam em negros ou quer dizer que a generalidade dos negros não consegue ascender socialmente no nosso país para chegar a cargos públicos relevantes. Porque são geralmente discriminados ainda antes de chegarem à fase de poder ascender a estes cargos. São discriminados na distribuição do rendimento, dos empregos, das oportunidades. E é neste contexto, e não numa sociedade que dá a todos, independentemente da sua etnia, as mesmas oportunidades, que Arménio Carlos falou de um "escurinho".

 

Arménio Carlos não se referiu aos outros dois representantes da troika como "o carequinha" e o "loirinho". E é normal. Carecas e loiros há em muitos cargos semelhantes. Não chega a ser um elemento distintivo. "Escurinhos" é que há poucos. Ou melhor, não há nenhum. Só que essa característica física não é comparável a outras que aqui referi. Ela é causa de uma discriminação muitíssimo mais profunda. E foi isso que Arménio Carlos, sem o querer, acentuou: em vez do nome e do cargo, sobrou a Selassie (que eu aqui já critiquei violentamente sem me ocorrer falar da sua cor de pele) o facto de ser "escurinho".

 

Selassie não foi identificado como etíope, que é, como técnico do FMI, que também é, como alguém que usa óculos, que usa, que é careca, que também é, ou que é politicamente incompetente, que parece ser. É negro. Não pretendo que sejamos cegos perante a negritude. O que fica claro é que, mal surge um pessoa com algum poder no nosso país que seja negra passa a ser essa a forma mais evidente de a identificar. Com direito a dimunitivo. Que isso aconteça num café ou entre amigos não me choca. Que seja essa a forma como o secretário-geral da CGTP se refere a um adversário político - e o facto de ser um adversário político e da frase ter sido dita no contexto de um ataque político só torna a coisa mais grave - numa iniciativa pública é relevante.

 

Arménio Carlos é racista? Não me parece. Mas a indignação não resulta de uma qualquer avaliação do carácter ou das características políticas de Arménio Carlos. Resulta do que a frase que proferiu num contexto oficial acrescenta ao discurso político em Portugal. Mais grave: o que ela acrescenta ao combate a uma intervenção externa que está a deixar as pessoas desesperadas. A intervenção externa é condenável, mas nunca se pode passar a ideia que ela é condenável porque envolve um "boche" ou um "escurinho". Porque, mesmo que não seja essa a intenção de quem assim falou, isso transforma uma resistência em defesa da soberania democrática num ataque xenófobo. Repito: mesmo que não seja, e estou seguro de que não era, a vontade de Arménio Carlos. É que o sentido das palavras ditas na arena pública não depende da vontade de quem as diz. Dirigindo-se indistintamente a todos - e também a quem seja, e são muitos, racista -, é apropriável por todos. Por isso somos obrigados a especiais cuidados quando as dizemos no espaço público.

 

Arménio Carlos já veio dizer que não sabe de ninguém que tenha ficado pessoalmente incomodado. E que se alguém ficou, transmite as suas desculpas. Arménio Carlos é um político e tem obrigação de saber que a questão não é o incómodo pessoal de cada um. O confronto político permite o incómodo dos outros. Ele até poderia insultar Selassie. Mas deve pensar bem se o insulto que escolhe corresponde aos valores políticos que defende. A questão é o que a expressão, ainda mais com o diminutivo paternalista, revela. E se há coisa que um político tem de saber é que as palavras, sendo parte fundamental do seu ofício, são importantes. Um trabalhador pode ser um "colaborador"? Pode. Um despedimento colectivo pode ser uma "reestruturação" de uma empresa? Pode. E, como tão bem sabe Arménio Carlos, não é indiferente se usa umas ou outras expressões. Mesmo que ninguém fique pessoalmente incomodado por ser chamado de "colaborador". Porque, como gritava Nanni Moretti, "as palavras são importantes". E em política elas são muito importantes. Mesmo quando não se quer ofender ninguém.


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por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013
por Daniel Oliveira

As políticas de austeridade ganharam força no início desta crise. Assim como tinham força no período logo a seguir aos crash de 1929. Num e noutro período provaram o seu falhanço. Esperemos que agora, como no passado, sejam seguidas de uma correção profunda. Por agora, é receita da troika e do FMI, historicamente desastrosa, que prevalece. E ela vive deste dogma: a austeridade, baseada na consolidação orçamental, é expansionista. Ou seja, liberta dinheiro para a economia e fá-la crescer.

 

O Expresso publicou excertos de uma entrevista ao economista australiano Anisuzzaman Chowdhury , em que este demonstra como a tese é desmentida pela história da própria instituição financeira. Segundo Chowdhury, investigações de dois dos economistas que mais terão influenciado a tese da "austeridade expansionista" (Alberto Alesina e Silvia Ardagna) são contundentes a desmentir a sua bondade. Num conjunto de eventos estudados em países da OCDE, entre 1970 e 2007, apenas em 19% a austeridade teve resultados positivos. E em apenas 25% houve uma expansão económica posterior. Arjun Jayadev e Mike Konczal, do Roosevelt Institute , foram escalpelizar o estudo destes economistas e, alargando a amostra para 107 episódios, em nenhum caso os resultados bem sucedidos ocorreram, de facto, em contexto de crise económica. E é em contexto de crise que esta "austeridade expansionista" está a ser tentada.

 

Socorrendo-se de um outro estudo de Adam Posen, realizado em 2005 para a Comissão Europeia, concluía-se que em 50% dos casos em que houve sucesso dos programas de austeridade eles foram acompanhados por uma política monetária expansionista que, como sabemos, nos está vedada. E essas intervenções não aconteceram durante crises financeiras e económicas globais e não coincidiram com outros programas de ajustamento em países que fossem importantes parceiros comerciais. Ou seja, o expansionismo da austeridade é ainda menos provável quando é aplicado em todo o lado ao mesmo tempo.

 

Na realidade, não há, neste momento, qualquer base empírica para continuar a seguir o caminho que a Alemanha e as instituições europeias que esta domina estão a obrigar a Europa a seguir. Sabe-se, através de um relatório do próprio Fundo Monetário Internacional, que os cortes no Estado têm tido repercussões na economia que chegam a ser superiores ao que se conseguiu cortar nos gastos públicos. Julgava o FMI que por cada euro de corte na despesa pública ou em aumento de impostos o PIB perderia 50 cêntimos. Na realidade, desde 2008 até hoje, por cada euro de corte na despesa pública ou de aumento de impostos o PIB perdeu entre 90 cêntimos e 1 euro e 70 cêntimos. Em geral, a economia perdeu mais do que o Estado ganhou. Ou seja, o multiplicador orçamental era muito mais elevado do que se pressupôs. E este erro explica-se, diz Chowdhury, porque as estimativas eram baseadas em metodologias informais e não, como muitos acreditavam, em estudos confirmandos por resultados empíricos.

 

Para contrariar algumas ideias feitas sobre os multiplicadores orçamentais (efeitos das políticas orçamentais e fiscais na economia), é interessante conhecer os números recentemente usados pelo jornalista americano Doug Henwood . Por cada dólar investido pelo Estado em programas de criação de emprego e infraestruruas, o PIB cresce de um dólar e 60 cêntimos a um dólar e 70 cêntimos. Por cada dólar na redução de impostos o PIB cresceu um dólar e 20 cêntimos. Porque os trabalhadores gastam tudo o que ganham com este corte mas as classes mais altas não. Num caso o dinheiro entra todo na economia e multiplica-se, no outro não. Só que a política da troika está a conseguir o dois em um: reduz investimento e aumenta impostos. Isto em plena crise económica. Ou seja: o resultado é duplamente negativo.

 

Um outro estudo, da Unidade Técnica de Acompanhamento Orçamental, diz-nos que, em Portugal, por cada cinco euros que se poupou no Estado perderam-se quatro euros em receita fiscal por causa da crise económica que a própria austeridade alimenta. Ou seja, a crise comeu os cortes que se fizeram e os ganhos com eles são, para o próprio Estado, marginais. O ajustamento orçamental faz-se, mas com sacrifícios desproporcionais aos ganhos e efeitos duradouros na economia.

 

Tudo isto serve para dizer o que já deveria ser óbvio: a ideia de que o Estado vai, no meio desta crise global e sem instrumentos monetários, encontrar o seu equilíbrio orçamental através da austeridade esbarra com os factos. Como a austeridade tem efeitos na economia e as contas do Estado dependem da economia, a "consolidação orçamental", nestas circunstâncias, mata a economia e esta mata as contas públicas. Traduzindo para a linguagem de Vítor Gaspar: "se continuamos a cortar, haverá ainda menos dinheiro". Qual das palavras estes senhores não entendem?


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por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013
por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

 

Morreu ontem aquele que terá sido um dos responsáveis pelos massacres de Wiriamu, Chawola, Juwau e Inhaminga. Que a terra lhe seja tão leve como é sobre os cadáveres das vítimas destes massacres cometidos em nome da ideologia fascista e colonialista.

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por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

 

Na morte de Jaime Neves, vários órgãos de comunicação social referiram-se ao “militar de Abril e de Novembro”, sugerindo uma relação directa entre ambos os momentos. A chamada de capa feita hoje pelo Público ia mais longe: “Morreu o comando que manteve Abril no 25 de Novembro de 1975”. Esse “Novembro que mantém Abril” sugere que ali se repôs a natureza de uma ruptura cuja essência, a dado momento, teria sido corrompida (logo nas horas a seguir ao golpe?).

 

Independentemente das interpretações que possamos ter acerca do que foi e do que representou o 25 de Novembro, essa continuidade imaginada é sintoma da persistente incapacidade em pensar o biénio revolucionário no que ele revelou ser: uma inaudita irrupção popular, de natureza socializante, com múltiplas e por vezes contraditórias formas, e que em vários momentos ultrapassou as dinâmicas militares e partidárias então em disputa. Uma irrupção popular que reverteu formas antiquíssimas de opressão no país, levando a que muita gente se sentisse gente pela primeira vez (mais: que fosse convocada a definir por si própria o que é isso de “ser gente”).

 

A contenção do processo revolucionário, ocorrida a 25 de Novembro, não conseguiu eliminar algumas dessas marcas trazidas pela revolução. Elas passavam, genericamente, pelo entendimento da democracia, não apenas como pluralismo político, mas como democracia económica e social. A força desta ideia é tal que, apesar dos engulhos que a Constituição sempre criou à direita, só hoje – e a coberto da intervenção da troika – ela sente coragem para apontar a mira ao coração deste Estado democrático criado no pós-25 de Abril.

 

Volto à frase curta no jornal que leio todos os dias. E penso como o silêncio balbuciante sobre a guerra colonial – sempre referida de raspão, mesmo quando o lembrado fora um comando com várias comissões de serviço – e a incapacidade de pensar Abril para além da sombra de Novembro nos dizem tanto sobre o que foi e o que é este país.

 

(A imagem reproduz o conhecido quadro de Maria Helena Vieira da Silva)


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

Emigrar pode ser apenas uma escolha, mas quando é por necessidade última, porque o país não consegue criar condições para as pessoas ficarem juntos dos seus, das suas raízes, já estamos a falar de política. Toda a conversa sobre "mobilidade laboral" e "globalização do trabalho" não passa de fumo lançado para encobrir as políticas económicas que estão a forçar a saída não só da geração mais qualificada de sempre, mas também de muitos portugueses mais velhos e menos qualificados, que pura e simplesmente não encontram trabalho em Portugal. 

 

Ainda a propósito de mais um execrável Prós & Contras no qual os convidados via Skype eram todos exemplo de uma emigração por escolha, e não por obrigação, a qual constitui a maior parte dos casos registados nos últimos anos (todos nós, os que ficamos, conhecemos pessoas que estão a emigrar deixando ficar a família, trabalhando em empregos pouco qualificados, em sobre-exploração), ficam aqui as palavras do escritor Rentes de Carvalho, ele próprio emigrante forçado na Holanda por razões políticas:

"De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta".


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

O cemitério da política está cheio de dons sebastiões. De homens desejados que esperam tanto pelo momento certo para avançar que, quando finalmente se decidem, o seu tempo já passou.

 

António Costa teve o seu momento: o último congresso do PS, quando o político sem carisma nem qualquer das qualidades de que um líder precisa foi eleito secretário-geral. Costa tinha a força, a experiência e o distanciamento de Sócrates necessários para preparar o eu partido para o regresso ao poder. Preferiu não o fazer e esperar por melhor momento. Na realidade, a sua situação não é, agora, pior do que era então. Estamos perante um dos governos mais impopulares da nossa democracia, o País está desesperado por uma alternativa e Seguro mostrou ser ainda mais fraco na oposição do que os mais pessimistas previam. O problema de Costa é outro: o calendário.

 

A oposição interna a Seguro quer acelerar a marcação do próximo congresso. Parece existir a convicção de que este, para apear Seguro da liderança, tem de acontecer antes das eleições autárquicas, que deverão dar à direção do PS um novo fôlego.

 

Se o congresso acontecer antes das autárquicas, não faço ideia como vai António Costa descalçar esta bota. Se, mais uma vez, não avança, a paciência dos que esperam por ele esgota-se. Se avança, não deverá ser candidato à Câmara de Lisboa. Não havendo um candidato óbvio para o substituir e estando já no terreno Fernando Seara, o PS pode bem conseguir o que parecia ser impossível: perder a câmara da capital. Ou seja, Costa ganha a liderança do Partido Socialista e estreia-se, como líder, com uma derrota. Pior: uma derrota que só a ele pode ser imputada. É que dificilmente os socialistas podem cantar vitória nas autárquicas perdendo a capital para o PSD. Ou seja, Costa começa o seu mandato como líder do PS numa posição mais frágil.

 

Claro que António Costa pode ganhar a liderança do PS e, ainda assim, concorrer a Lisboa. Mas não me parece que seja fácil fazer uma campanha em que toda a gente sabe que o candidato não pretende ocupar por muito tempo o lugar de presidente.

 

Na realidade, a única possibilidade que me parece restar a Costa é esperar por um congresso depois das eleições autárquicas. Uma possibilidade arriscada. Porque não é certo que o governo de Passos aguente até lá. E porque as autárquicas podem mesmo dar um novo fôlego a Seguro. Ainda assim, diga-se em abono da verdade, será um fôlego partilhado. Já que a vitória nas autárquicas, sem que o PS conquiste a câmara do Porto, terá como principal rosto António Costa.

 

Resumindo: se Costa não avança, as pessoas cansam-se de esperar, se avança cedo demais poderá oferecer uma derrota em Lisboa à sua própria liderança, se avança tarde demais pode perder a sua oportunidade. António Costa esperou pelo melhor momento. Acabou num labirinto, onde todos os momentos parecem ser maus.

 

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por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

Todas as mensagens buscam um efeito, mas às vezes a vontade de afirmá-lo faz esquecer o conteúdo. O Prós e Contras desta noite, dedicado à emigração, teve vários momentos desses, com a tónica a transferir-se das condições estruturais que determinam os fluxos migratórios para o sermão sobre "estados de alma": falta-nos arrojo, optimismo, esperança, olhar os bons exemplos, confiar em nós próprios e mais uma série de lugares-comuns de natureza onanista. O reitor da Universidade Técnica, um antigo gestor de fortunas do BPP e um empresário dinâmico alinharam por esse diapasão. Felizmente, o painel contou com a presença de José Soeiro e de Jorge Malheiros, que trouxeram alguma informação e um olhar crítico e contextualizado sobre a situação que vivemos. Ambos recordaram, por exemplo - num momento em que a coisa resvalava para um misto de "fuga de cérebros" e "busca do sucesso" - que boa parte da emigração hoje ainda não é de gente hiper-qualificada que vai para fora após a licenciatura ou o doutoramento. Se essa é já uma realidade muito significativa, os níveis de escolaridade ainda baixos da população portuguesa e o reconhecimento dos sectores mais atingidos pela crise (como a construção civil, por exemplo) dão-nos um retrato menos "cool" (retrato esse onde se inserem, obviamente, essas fatias da população qualificada que não saem propriamente para ir trabalhar para a City de Londres). Mas essas - ontem como hoje - são as vozes silenciadas da emigração portuguesa.

 

(E já que vem a propósito, é de começar a seguir estas Cartas de Londres, registos pessoais de quem está emigrado naquelas terras).


por Miguel Cardina
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Domingo, 27 de Janeiro de 2013
por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013
por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Miguel Cardina

 

As crises, todas elas, são sempre mais duras com os seres mais frágeis. Porque têm uma autonomia limitada ou porque dependem fortemente de outrem, são eles as primeiras vítimas quando as coisas abalam e as pequenas certezas do quotidiano começam a ruir. Se a pobreza, o endividamento e a falta de perspetivas atingem cada vez mais gente, as crises são particularmente madrastas para quem, à fragilidade económica, soma outras vulnerabilidades. Como as relativas à idade, à orientação sexual ou ao grupo étnico de pertença, entre outras.

 

Num patamar diferente, existe um outro conjunto de seres que também sofrem com estes dias cinzentos que atravessamos: falo dos animais domésticos. O Jornal de Notícias registava anteontem o aumento do número de abandonos e de queixas relativas a maus tratos a animais, nomeadamente por falta de cuidados de alimentação e alojamento. Nas palavras de Maria do Céu Sampaio, presidente da Liga Portuguesa dos Direitos dos Animais, “a situação tem vindo a degradar-se desde 2011. O ano passado foi caótico e 2013 está a ser pior”.

 

Dados existentes apontam também para o aumento dos casos de donos que vão depositar os animais ao canis municipais, alguns deles com péssimas condições, ou às associações de proteção do animais, muitas delas já sobrelotadas. Sabemos que não é de agora o abandono de animais domésticos: é uma triste tradição que nos acompanha, com picos nas épocas de caça ou no período de Verão. Mas mesmo aqui o quadro parece estar a sofrer mudanças, com abandonos em outras alturas do ano e com as razões económicas a ganharem cada vez mais peso. Os pequenos progressos que foram feitos na perceção do cuidado que nos merecem os animais domésticos tenderão a regredir num quadro como este.

 

Isto não diz só respeito aos bichos cuja existência corre ameaça. Nem apenas aos seus donos. Interessa a todos nós, animais humanos. Em primeiro lugar, porque o aumento de animais errantes significará riscos acrescidos ao nível da saúde pública. Em segundo lugar, porque a nossa humanidade se constrói na exata medida em que nos relacionamos de forma bem sucedida com a alteridade e a diferença. Esquecer isso é abdicar de uma parte de nós.

 

Publicado no esquerda.net


por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira

 

Pela segunda vez na sua história o Parlamento vai hoje votar uma lei proposta pelos cidadãos. Esta Iniciativa Legislativa de Cidadãos, proposta por mais de 40 mil pessoas, não trata de um tema menor. O que o Parlamento vai votar é uma lei contra a precariedade. A primeira iniciativa deste género a ser votada pelos deputados foi bem mais restrita e dizia respeito aos arquitetos.

 

Sabemos que o desemprego real - bem diferente do que as estatísticas revelam - estará acima dos 20%, correspondendo a 1,2 milhão de pessoas. Que há mais de 16 mil desempregados todos os meses. Que a taxa dedesemprego entre os jovens está a aproximar-se perigosamente dos 40%. Se aos desempregados juntarmos os precários, temos 2,9 milhões de pessoas, a maioria da população ativa portuguesa. Ou seja, o trabalho com o mínimo de direitos é já um fenómeno minoritário.

 

A precariedade entrou no jargão político. Mas nem todos parecem compreender o que ela significa e os efeitos devastadores que tem na organização social de um país. Ser precário é não poder fazer projetos. É não ter qualquer capacidade de estruturar a vida e o futuro. É adiar a possibilidade de ter filhos ou de comprar uma casa. É não ter qualquer esperança de uma progressão profissional. É não ter qualquer direito quando se está doente, quando se engravida, quando se chega à idade da reforma. É a completa imprevisibilidade, o que torna insuportável a vida em sociedade e tem efeitos desastrosos na economia. É, muitas vezes, a impossibilidade de ter férias, horários decentes, direitos mínimos. É ter de comer e calar. De aceitar salários inaceitáveis, horários insuportáveis, condições de trabalho indignas.

 

A precariedade não se limita a degradar a dignidade do trabalho. Deixa aos pais a tarefa eterna de, volta não volta, sustentarem os seus filhos. Deixa os filhos dependentes dos seus pais. A precariedade (quando não corresponde a um excelente rendimento) não promove, ao contrário do que alguns pensam, a autonomia dos indivíduos. Porque a autonomia exige o mínimo de independência material e esta exige o mínimo de previsibilidade profissional. A precariedade é uma doença social que, por deixar tanta gente à deriva, acaba por corroer a vida de toda a comunidade, pondo mesmo em causa a sustentabilidade da democracia. E se a precariedade é tudo isto, em Portugal, onde os apoios sociais ao desemprego eram poucos e estão próximos de serem nenhuns, ela é uma autêntica catástrofe social.

 

Há quem tente vender a ideia de que o combate aos direitos laborais e a promoção da precariedade seriam uma forma eficaz de garantir o emprego. A ideia resume-se assim: garantindo maior rotatividade laboral e dando maior segurança ao empregador de que, a qualquer momento, pode "reestruturar", de forma barata, o seu quadro de pessoal, haverá mais empregos. Escuso-me a dar muitos argumentos. A realidade fala por si. À desregulação laboral e ao consequente aumento do número de precários não correspondeu, nem aqui nem em lado nenhum, uma redução do desemprego. Pelo contrário: os países com mais desemprego são, em regra, aqueles que têm mais precários.

 

Como só um cego pode continuar a defender uma teoria que os factos teimam em não confirmar, está chegada a altura de perceber que o efeito do aumento da precariedade não é esse. A única coisa que se conseguiu foi tornar a situação dos trabalhadores de tal forma frágil que ao mínimo abalo económico ficam completamente desprotegidos. E a sua desproteção tem efeitos imediatos na economia. Por outro lado, a precariedade - a legal e a ilegal -, teve um efeito direto, pela perda de poder negocial dos trabalhadores, nos salários. Os nosso jovens, quase todos precários, trabalham muito, ganham quase nada e não esperam muito do futuro. Por fim, a precariedade, reduzindo as obrigações do empregador, descapitaliza a segurança social.

 

A lei proposta por mais de 40 mil portugueses não pede muito. Não muda o espírito da lei laboral e pretende apenas combater o que teoricamente já é ilegal. Apenas institui mecanismos de combate ao falso trabalho independente, que, de forma abusiva, viola a lei perante a passividade de todas as autoridades. Exige-se que a Autoridade para as Condições de Trabalho e os tribunais de trabalho cumpram as suas funções e tenham condições para o fazer.

 

Limita o tempo permitido para os contratos a termo. Existe trabalho temporário admissível: em picos de produção, em atividades sazonais ou esporádicas, em períodos de experiência. Mas não há funções provisórias eternas, atividades sazonais permanentes e ninguém está à experiência a vida toda. Ou seja, segundo esta proposta, nenhum contrato de trabalho a termo certo pode ser renovado mais de três vezes e não pode exceder, no total, a duração de 18 meses. Se, ao fim deste tempo, o trabalhador não for integrado não é permitido o truque de contratar outro nas mesmas condições. O empregador fica impedido, por dois anos, de contratar outra pessoa para o mesmo posto ou funções. Se o posto trabalho existe e é necessário, se o trabalhador foi suficientemente competente para lá estar 18 meses, tem de ser contratado com os direitos que a lei lhe garante.

 

E promove a integração dos trabalhadores temporários nas instituições para as quais realizam a sua atividade. Não é aceitável que os patrões continuem a usar empresas "negreiras" para tornear a lei. Quando não se dedicam ao verdadeiro trabalho temporário, as Empresas de Trabalho Temporário e outras prestadoras de serviços semelhantes têm como única função driblar a lei. E, em muitos casos, ainda cobram a quem exploram pelo extraordinário serviço que lhe prestam. Se alguém trabalha para uma empresa ou para o seu grupo mais de um ano (ou vinte meses no período de dois anos), essa empresa tem de celebrar um contrato com essa pessoa. Os trabalhadores não são coisas. Não se emprestam ou alugam.

 

A lei proposta é simples e nem se pode dizer que seja radical. É o mínimo dos mínimos. O Parlamento aceitou-a porque não há, nesta proposta, nada de formalmente inaceitável. Hoje ficaremos a saber quem aceita e quem rejeita estes mínimos de decência. O PSD e o CDS chegarão para a chumbar. Sabendo que este governo considera que emigrar é sair da nossa "zona de conforto" e que o desemprego é "uma oportunidade", não há que esperar nada dali. A lei deve, por isso, ser chumbada. Sabendo-se que a proposta já tem o apoio do PCP, BE e PEV, tenho curiosidade em ver como votará o PS. Bem sei que por lá anda aquele que já foi (não sei se ainda é) provedor das Empresas de Trabalho Temporário. Espero, no entanto, que Vitalino Canas seja apenas um "socialista precário" e que haja no PS quem não vire as costas àquilo que qualquer socialista ou social-democrata moderado deve ter como mínimo civilizacional. Espero que mais de 40 mil pessoas a assinar uma proposta legislativa possam ter algum efeito junto de alguns deputados.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013
por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
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por Miguel Cardina

«Esta sexta-feira, dia 25 de Janeiro, será discutida e votada no Parlamento a segunda Iniciativa Legislativa de Cidadãos apresentada na democracia portuguesa. Será votada a Lei Contra a Precariedade, subscrita por mais de 40 mil cidadãs e cidadãos, que assinaram em mão esta proposta de lei. Numa altura em que mais de metade da população ativa é já composta por pessoas desempregadas ou precárias, a Lei Contra a Precariedade é uma resposta concreta cuja aprovação melhorará significativamente a situação de quase 3 milhões de pessoas.

Esta lei propõe mecanismos simples que enfrentam as situações mais comuns de precariedade: os falsos recibos verdes, a contratação a prazo para funções permanentes e o recurso abusivo ao trabalho temporário.

Esta iniciativa demonstra que há alternativas à precariedade e ao desemprego e uma clara vontade popular para que sejam implementadas. Num momento em que se tenta convencer o conjunto da população que não existe alternativa ao desastre social, nunca foi tão importante combater a precariedade e o desemprego. Esta é uma escolha de sociedade e do futuro. É com esta força que a Lei Contra a Precariedade confronta o parlamento. A força dos cidadãos pode ser lei.

No dia antes da votação voltamos a apresentar a força das mais de 40.000 pessoas que assinaram esta iniciativa e contamos com o apoio de várias personalidades que reforçam o seu apoio à necessidade de aprovação desta lei. Todos a favor?»


Subscrições: Ada Pereira da Silva - Professora e Produtora cultural; Alfredo Barroso - Comentador Político; Ana Costa - Professora Universitária e Economista; Ana Luísa Amaral - Escritora/professora universitária; Ana Maria Pinto - Cantora Lírica; Ana Sousa Dias - Jornalista; André Carmo - Geógrafo; António Laúndes - Sociólogo; António Mariano - Estivador; António Neto - Dirigente Sindical - CESP; Carlos Mendes - Músico; Elísio Estanque - Sociólogo - Universidade de Coimbra; Francisco Alves - Sindicalista CN/CGTP; Frederico Pinheiro - Attac Portugal; Henrique Amaro - Locutor de Rádio; Henrique Borges – Professor e sindicalista; Henrique Sousa - Investigador em Ciência Política; Irene Flunser Pimentel - historiadora; Isabel Menezes - Professora associada da Universidade do Porto; Joana Manuel - Atriz; João Bau - Investigador / coordenador; João Carlos Louçã - Ativista LGBT; João Mineiro - dirigente estudantil no Ensino Superior; João Salaviza - Realizador; Jorge Magalhães - Dirigente do CESP; José Alberto Pitacas - Economista; José Castro Caldas - Economista; José Gigante - Arquiteto, Professor Universitário; José Soeiro - Sociólogo; Júlio Cardoso - Ator / encenador; Luís Filipe Castro - Técnico REN; Magda Alves - Socióloga, ativista feminista; Manuel Carlos Silva - Professor Universitário; Manuel Carvalho da Silva - Investigador e Professor Universitário; Manuela Mendonça - Professora e Sindicalista; Maria do Rosário Gama - Coordenadora da APRE! Aposentados Pensionistas e Reformados; Maria José Casa-Nova - Professora universitária; Mariana Avelãs - Tradutora; Mário Brochado Coelho - Advogado; Mário Moutinho - Actor / Produtor; Miguel Cardina - Historiador; Nuno Calado - Radialista; Nuno de Almeida Alves - Professor Universitário e Investigador; Nuno Santos Carneiro - Investigador em Ciências Sociais - Universidade do Porto; Nuno Serra – Geógrafo; Paulo Praça - Músico; Paulo Jorge Vieira - Geógrafo e Ativista Feminista e LGBT; Romana Sousa - Dirigente Associação dos Profissionais do Regime de Amas; Salomé Coelho - Psicóloga; Sandra Monteiro - Jornalista; Sérgio Vitorino - Ativista LGBT; Teresa Medina - Professora Universitária; Vitorino - Músico


por Miguel Cardina
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira



Taro Aso é ministro das Finanças do Japão. Como ocupa o lugar há apenas um mês, ainda não aprendeu a não dizer tudo o que lhe vai na alma. E ao falar revelou o espírito do nosso tempo, sempre mais agressivo e frio na cultura nipónica. Numa reunião do conselho nacional que se dedica às reformas da segurança social e ao orçamento da saúde - como se vê, trata-se de um movimento internacional de "refundação do Estado" -, o ministro defendeu que a sustentabilidade do sistema só será possível se os idosos se deixarem "morrer depressa". "Que Deus não permita que sejam forçados a viver quando querem morrer. Eu iria acordar sentindo-me incrivelmente mal por saber que o tratamento era totalmente pago pelo Governo".

 

Esta é a ética da vida dos nossos tempos. Não está em causa o sofrimento do doente e o prolongamento da vida para lá da vontade do ser humano, que debates em torno da eutanásia, por exemplo, levantam. Está em causa o custo financeiro da vida. O dever de solidariedade para com os outros, na ética eugenista para onde o pensamento neoliberal mais violento inevitavelmente nos leva, não se traduz na ajuda aos indivíduos mais frágeis, mas na obrigação de não ser um peso para a comunidade.

 

O individualismo extremo, em que esta corrente política baseia a sua ideia de liberdade, só nos poderia levar a isto. Eu existo apenas enquanto individuo e o Estado é um entrave à minha liberdade. Sendo coerente, nada devo aos outros, nada posso esperar dos outros. E o meu direito à vida só é realmente um direito se eu, e apenas eu, o conseguir garantir.

 

Claro que as afirmações de Taro Aso, que o próprio, depois da indignação geral, tentou contextualizar com uma mera convicção pessoal, são uma caricatura. Mas as caricaturas têm a vantagem de retirar a maquiagem bondosa à frieza de ideologias totalitárias. E o neoliberalismo, parecendo que se rebela contra o poder absoluto do Estado, dá esse poder absoluto ao mercado e ao dinheiro. Nele, não há lugar para a solidariedade. Não há, sequer, lugar para a democracia, esse princípio que se baseia na ideia de que todos os homens são iguais em direitos e deveres, independentemente, entre outras coisas, dos seus recursos económicos. Quem tem dinheiro pode prolongar a sua vida, porque a sua vida não será paga pelo governo. Quem não o tem deve assumir a derradeira responsabilidade da sua solidão: morrer para não pesar na carteira dos outros. Tirando a brutalidade das palavras, é assim tão diferente de tudo o que temos ouvido por cá?

 

Escreverei sobre o "regresso aos mercados" e o prolongamento dos prazos para o pagamento da dívida à troika na edição em papel do "Expresso".


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013
por Daniel Oliveira

O Tribunal de Sintra ordenou que fossem retirados a Liliana Melo sete dos seus dez filhos. A ideia é que as crianças, entre as quais dois gémeos de quatro anos, possam vir a ser adoptadas. Não há qualquer registo no processo a maus tratos aos filhos – fala-se, aliás, dos fortes laços na família. A decisão judicial sustenta-se nas dificuldades económicas da família e no incumprimento, ao longo de anos, de algumas das medidas previstas no acordo de promoção e protecção de menores de que esta estava a ser alvo. Uma dessas medidas era que a mãe tivesse que provar que estava a ser acompanhada num hospital tendo em vista a laqueação de trompas. Mas esta nunca o fez. E, em 2010, o tribunal dava nota de que a progenitora persistia na rejeição à laqueação das trompas. A esterilização compulsiva tornou-se política nacional?


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Sobre a tão celebrada ida de Portugal aos mercados, que o governo quer vender como vitória (e como vitória sua), escrevi, no Expresso, num texto sobre 2013, um mês antes deste anúncio ser feito, o seguinte: "É possível que não haja um segundo resgate. Através das novas regras do BCE, ele será trasvestido de idas aos mercados. Como a Grécia, estaremos ligados à máquina fingindo que há vida num cadáver económico e social." Das duas uma: ou, além de ser bruxo, sou dos poucos que acreditam no bom trabalho dp governo, ou esta ida aos mercados não tem rigorosamente nada a ver com a economia portuguesa. Tem, como escrevi há um mês (e toda a gente que se informa sobre estes assuntos sabia), com as garantias que o BCE deu a quem anda a comprar dívida. Está a ter resultados para os "bons alunos" e para os "maus alunos". Como uns e outros vão conseguir endividar-se mais facilmente e mais dificilmente pagarem o que devem, fica para o texto que escreverei para o"Expresso".


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

O extraordinário sucesso - de propaganda - do regresso aos mercados tem como intermediárias quatro instituições financeiras. O Barclays, a Morgan Stanley, o Deutsche Bank e o BES. O Barclays foi um dos bancos intervencionados pelo Governo inglês depois da crise 2008 - tendo beneficiado das ajudas estatais para apresentar lucros logo nesse ano - e nos últimos anos tem andado envolvido em esquemas finaceiros duvidosos por todo o lado. O Morgan Stanley também foi resgatado em 2008 pela Reserva Federal americana, tendo lucrado bastante com a crise das dívidas soberanas na Europa. O Deutsche Bank foi o banco que, indirectamente, provocou o resgate ao sistema bancário irlandês - grande parte da dívida dos bancos irlandeses em 2008 era detida por este banco (operações descritas no livro "Boomerang", de Michael Lewis). Em 2012, foi descoberto que ocultou perdas de 12 000 milhões de dólares para evitar o resgate pelo Governo alemão - os resgates feitos desde 2008 na Alemanha implicaram sempre controlo estatal dos bancos, uma "inconveniência" que não se verifica por cá. Já o BES, conhecido como o banco do PSD, tem sido associado nas últimas semanas a crimes de colarinho branco. Um dos seus dirigentes, José Maria Ricciardi, foi constituído arguido, e o presidente Ricardo Salgado visitou duas vezes o DIAP para prestar declarações em dois processos diferentes.

 

Ontem corria a notícia de que o Governo espanhol pretendia que gestores indiciados por corrupção ligada ao sistema financeiro pudessem voltar a ocupar cargos em instituições bancárias. Recentemente, foi contratado pela Bolsa um antigo dirigente do BCP. Um extraordinário sucesso, sem dúvida. E também se fica a compreender por que razão as notícias sobre corrupção no BES têm sido bastante discretas. Sendo o banco um dos parceiros privilegiados do Governo nos seus negócios, não conviria sujar uma imagem que, de resto, é perfeitamente imaculada. Tudo está quando acaba bem. Na Sicília é assim: os negócios são sempre um assunto de família.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Talvez a maior ingenuidade dos portugueses tenha sido a de acreditarem na competência técnica das instituições que compõe a troika. Bastaria olhar para a forma a crise alastrou na Europa para duvidar da sagacidade da Comissão Europeia. Basta observar a obstinada ortodoxia do Banco Central Europeu para não confiar na sua capacidade criativa. E basta conhecer o trágico historial das intervenções do FMI para saber o que esperar dali. Porque o mundo está cheio de incompetentes? Não. Porque estas instituições estão dominadas pela mesma fé e foram esvaziadas de qualquer tipo de bom senso político.

 

Não será a sua proposta mais radical ou absurda. Mas diz bem da sua capacidade analítica. O FMI quer que o subsídio de maternidade passe a ser taxado em sede de IRS. A medida, como quase tudo o que é disparate, já constava do memorando de entendimento. Até este governo - na sua versão mais centrista, que é, como se sabe, o CDS - considerou que a medida não era prioritária e não a levou para a frente. Apesar da insignificante receita que tal medida traria, o FMI recuperou-a e insiste na sua aplicação.

 

Se os técnicos do FMI soubessem alguma coisa sobre Portugal - com o hábito de aplicar a mesma receita em todo o lado nunca sabem nada sobre os países onde intervêm -, saberia que um dos problemas estruturais mais graves deste País é a sua baixíssima taxa de natalidade. Problema que resulta em vários outros, do qual o mais relevante, pelo menos para as contas públicas, é a insustentabilidade da nossa segurança social.

 

Mesmo a partir de 2003, em que a taxa de natalidade subiu em quase toda a Europa, Portugal (com o Luxemburgo e Malta) manteve a sua queda. E continuou sempre nos três piores países da União. O número de nascimentos em 2012 deverá ter ficado perto dos 90 mil, o mais baixo em mais de 60 anos.

 

"As taxas de natalidade de Portugal são tão baixas há tanto tempo que, mesmo que a imigração, em queda, volte a subir, não será suficiente para manter a população", disse Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Demográfica Portuguesa, ao The Wall Street Journal. Com uma taxa de natalidade de 1,32, apenas mais alta do que a da Hungria e da Letónia, em 2030 devemos ser menos um milhão do que somos agora. Em 2009, os Estados-membro com as taxas de natalidade mais altas eram a Irlanda (2,07), França (2,00) e Reino Unido (1,96). As mais baixas eram as da Letónia (1,31) Portugal e Hungria (1,32) e Alemanha (1,36). A taxa de natalidade necessária para garantir a manutenção do nível populacional é de 2,1.

 

Junte-se a isto o aumento brutal da emigração, a queda da imigração e o aumento da esperança média de vidapara perceber que não faltará muito para que haja quase tantos reformados como pessoas no ativo. Quem vai produzir para manter a economia a funcionar e as contas públicas sustentadas? Quem vai pagar as nossas reformas? Quem vai tomar conta de nós quando a saúde nos impedir de trabalhar?

 

Há três formas de resolver este problema: ter um crescimento económico que garanta que os emigrantes regressam e os imigrantes escolhem Portugal como destino, ter uma política que reduza a esperança média de vida ou ter umapolítica que apoie de forma muito generosa a natalidade. A primeira não é, como qualquer um pode observar, a aposta do FMI e deste governo. A segunda, não sendo aceitável, pode bem vir a ter, com a crise e os cortes na saúde, algum futuro. E a terceira é contrariada pelas propostas do FMI.

 

O aumento da natalidade apenas pode resultar de duas coisas: ausência de planeamento familiar - penso que dispensamos esta opção - ou crescimento económico, otimismo, estabilidade no emprego e direitos laborais que protejam a maternidade. A terceira alternativa, sendo de eficácia moderada, não é dispensável para um país que vive a brutal crise demográfica que Portugal conhece: investir a sério no apoio à maternidade e nas condições para a educação e saúde das crianças. Quando assistimos a cortes na educação, a fechos de escolas e maternidades e àdegradação de todos os apoios sociais à parentalidade, percebemos que esta gente é incapaz de pensar para além do orçamento de cada ano. São contabilistas (sem desmerecer os contabilistas), e mesmo como contabilistas são incompetentes. Nada sabem sobre as prioridades de uma governação minimamente sensata.

 

A nossa crise demográfica é tão ou mais grave do que a nossa crise financeira. É, aliás, um dos factores para a crise das contas públicas. E está a ser agravada pela crise económica, o desemprego de quase 40% dos jovens e a fuga de trabalhadores qualificados. Esta medida simbólica, coerente com tudo o que está a ser feito para destruir qualquer possibilidade de futuro para este País, é apenas mais um exemplo da nossa caminhada para o abismo. Até sermos um enorme cemitério. E mesmo isso não sei se será possível. É que até os coveiros têm de comer.


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

Para quem ainda acredita na operação de propaganda de "regresso aos mercados", fica aqui este post do Nuno Teles:

"O regresso aos mercados não assinala o fim da intervenção da troika em Portugal? Confuso? Não é para menos. É nesta confusão que o Governo joga as suas fichas. Portugal prepara-se para regressar ao financiamento dos mercados através de uma emissão de obrigações a cinco anos. O Estado recapitalizou a banca nacional com o empréstimo da troika, com o compromisso, explícito no caso do Banif, de a banca comprar dívida pública portuguesa. É portanto provável que seja a banca portuguesa a ficar com o grosso da emissão agora anunciada.

Que importa que seja a banca portuguesa a comprar? O que interessa é livrar-nos do financiamento e da austeridade da troika. Aliás, é excelente para a nossa economia que se dê uma substituição dos credores estrangeiros por domésticos (o serviço da dívida deixa de ser uma sangria de rendimento para o exterior). Pois. No entanto, se a banca portuguesa pode substituir os agentes estrangeiros em algumas emissões, duvido que tenha arcaboiço para aguentar o exigente calendário de obrigações a refinanciar nos próximos três anos, mesmo com as facilidades de liquidez do BCE. Aparentemente, não sou o único a duvidar se tivermos em conta a extensão das maturidades do financiamento europeu também hoje anunciada.

Mas então isto não passa de uma vã manobra de diversão para enganar os mercados financeiros? Também não. O que o governo português consegue com esta jogada é obedecer a uma das condições fixadas pelo BCE para as operações de compra de dívida comunicada em Setembro. O BCE só compra títulos de dívida pública de um determinado país se este tiver efectivo acesso aos mercados. Ora, é exactamente isso que Portugal poderá agora apresentar em Frankfurt. Posto de forma muito simples, com o apoio do BCE, a banca portuguesa poderá comprar dívida, vendê-la ao BCE e em seguida comprar mais dívida ao Estado.

Portugal continuará a estar dependente de financiamento oficial, desta feita de um dos elementos da troika, mas agora não haverá memorando nenhum a cumprir. Teremos financiamento sem austeridade? Não. As operações anunciadas pelo BCE estabelecem explicitamente condicionalidade aos países “ajudados”, no quadro do FEEF e do FMI. Trocado por miúdos, teremos novo financiamento associado a nova austeridade desenhada pela troika. Bem-vindos ao segundo resgate."

por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013
por Bruno Sena Martins
Voltámos aos mercados? Eu pensava que o problema era estarmos excessivamente imersos nos ditos.

por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos

 

Lá chegámos. Depois de o trampolineiro Pedro Passos Coelho ter andado mais de um ano a proclamar aos quatro ventos que reestruturar a dívida ou pedir mais tempo representariam um falhanço para Portugal - o adiamento do pedido de ajuda tem sido, por si só, uma tragédia -, Gaspar lá foi encarecidamente pedir uma ajudinha do BCE para encobrir o falhanço - esse, sim, verdadeiramente falhanço - das políticas do Governo.

 

Será bom para Portugal? Qualquer mudança nas políticas europeias em relação ao país seria bem-vinda. O problema é que, mesmo com mais tempo, menos juros ou perdão parcial da dívida - não duvidemos que irá acontecer - enquanto a economia do país não arrancar continuaremos no fio da navalha. E a economia do país só se salvará se as medidas de austeridade forem bastante aligeiradas. Enquanto o objectivo do Governo - e da troika - for contrair a procura interna e assim reduzir os custos do trabalho de maneira a que o país se torne um El Dorado para investidores que pretendem ter uma mini China em plena Europa, nada mudará para nós, que sentimos na pele as consequências destas políticas económicas. Que interessa Portugal poder ir aos "mercados" financiar-se se isso significa na prática mais endividamento? Que interessa que os prazos sejam estendidos, se a taxa de desemprego e a pobreza continuam a aumentar vertiginosamente? Que interessa que os juros sejam ligeiramente reduzidos, se o Governo se prepara para acabar com o Estado Social e com a função redistribuitiva da riqueza que ele pressupõe, assim aumentando ainda mais as desigualdades sociais num dos países mais desiguais da OCDE?

 

O que significa na prática esta possível ajuda do BCE? Que o Governo falhou redondamente não só nas políticas prosseguidas como na teimosia com que defendeu a recusa de renegociações com os nossos credores. Significa também que a esquerda - mais radical - sempre esteve certa na sua defesa da renegociação. E significa que seria sempre impossível pagar uma dívida crescente - mais de 120% - nas condições em que esta foi contraída. Haverá mais renegociações, prolongamentos, perdão parcial da dívida. Como aconteceu na Grécia. Mas se a economia não começar a crescer, de nada adiantarão os cuidados paliativos que estão a ser administrados. E como poderá a economia crescer, se tudo o que o Governo está a fazer é errado?


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

uma pena, que o Passos Coelho não seja apanhado a dormir com a mulher do Abebe Selassie.


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

Todos os que me leem conhecem desde sempre - e não apenas quanto se tornou moda - a minha oposição à esmagadora maioria das Parecerias Público-Privado, quase sempre ruinosas para o Estado. Não é também de hojea minha oposição à maioria das SCUT. Apenas penso que se devem ter em conta, em tempo de crise, os efeitos que a introdução generalizada de portagens têm para a nossa economia. Sobretudo nas zonas mais deprimidas, mais isoladas, pior servidas por alternativas ou que dependem mais do turismo.

 

O governo decidiu poupar nas PPP. À partida, seria uma boa notícia. Não tanto a introdução de portagens, que, como disse, deveria ser mais cautelosa, mas uma renegociação do Rendimento Máximo Garantido que é dado aos privados. Um negócio sem risco que se transformou numa autêntica mesada pública.

 

Olhemos então para o que foi feito. Sabe-se que o governo quer poupar 250 milhões de euros por ano nos encargos com as concessões. As novas portagens deverão garantir, no total, um aumento de receita de 70 milhões. Isto, claro, se formos otimistas e acharmos que a queda de tráfego em 35% não se irá acentuar. O reforço da cobrança aos que hoje não pagam trará entre 21 e 33 milhões. A eliminação de isenções para tráfego local dará mais 31 milhões.

 

Falta então a renegociação dos contratos. Aquilo que o governo sempre disse que iria fazer, num processo de moralização urgente. A renegociação começa por não ser renegociação alguma. O Estado poupará 65 milhõesreduzindo as obrigações dos concessionários: aumentou 20% o limite de carros a partir do qual é exigido o alargamento da via, reduziu a exigência na proteção contra o ruído e poupou 60 milhões de euros nas grandes reparações. Ou seja, exigiu menos aos concessionários para lhes pagar menos. Onde está então a verdadeira renegociação? Serão míseros 12 milhões de euros por ano: a remuneração dos acionistas terá uma redução simbólica de 1%.

 

Aquilo que o PSD considerava, e bem, a vergonhosa negociata das PPP rodoviárias (em que ele também participou e até foi estreante) e a necessidade de urgentemente serem renegociadas acaba numa redução de 12 milhões de euros dos lucros garantidos para quem conseguiu contratos leoninos à conta das suas boas relações com responsáveis políticos. Trocos. Nada mudou, portanto. Os contribuintes pagam, quem ganhou com os negócios continua bem.

 

Dir-me-ão que temos de respeitar os contratos assinados. Concordarei se esse princípio for aplicado aos reformados, aos funcionários públicos e aos contribuintes e se deixarem da cansativa lengalenga contra os "direitos adquiridos". Ou é apenas com os que menos responsabilidades têm nesta crise que os compromissos firmados parecem ter sido assinados em papel molhado?


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013
por Sérgio Lavos

 

Umas vezes emergem, outras submergem. É assim a vida. Desde que os negócios continuem a rolar, está tudo bem no nosso querido Portugal. A crise? O desemprego? A miséria? Pormenores, aborrecimentos, nada que não se possa ignorar.


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina



A esta onda que tudo destrói vamos opor a onda gigante da nossa indignação e no dia 2 de Março encheremos de novo as ruas. Exigimos a demissão do governo e que o povo seja chamado a decidir a sua vida.

Unidos como nunca, diremos basta.

QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

Começou hoje a segunda fase da votação para os melhores blogues de 2012 promovida pelo Aventar. O Arrastão foi um dos 5 escolhidos finais na categoria "Actualidade Política - Blogues Colectivos". Podem ir lá votar (uma vez a cada 24 horas) que a gerência agradece. A bem de um Portugal mais sustentável, sem Coelho e Gaspar na cadeira apodrecida onde se sentam.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

O que diríamos de um pai que lançasse gás pimenta sobre os olhos do seu filho? O que diríamos de um professor que fizesse tal coisa a um aluno? O que devemos dizer sobre um polícia que o usa, levando a que crianças e jovens, entre os 12 e os 15 anos, a receber assistência hospitalar? Foi isso que a polícia fez na última sexta-feira, em Braga, para abrir um portão de uma escola perante uma manifestação que não representava qualquer risco para a segurança dos cidadãos.

 

Como pode o Estado português garantir o cumprimento da lei nacional e das convenções internacionais por ele assinadas, que proíbem qualquer forma de violência sobre crianças, se são as suas forças de segurança a usar, ao mínimo pretexto, violência contra crianças? Sim, violência. Devo recordar que a Amnistia Internacional considerou, quando foi usado, na Califórnia, este tipo de arma contra manifestantes adultos, que se tratava de um ato "cruel, inumano e degradante". Porque o gás pimenta causa um ardor extremamente doloroso, irritação nos olhos, náusea,choque e vómito quando usado contra a cara de alguém. Pode ter efeitos dramáticos em pessoas com asma ou outros problemas respiratórios.

 

Antes de mais, seria interessante perceber se a polícia usou de outros meios para abrir os portões da escola. Começando por se estranhar que a direção da escola se tenha insurgido contra esta atuação policial quando apenas dela poderia vir a exigência de abertura de instalações que estão à sua guarda. Ou seja, a polícia atuou por decisão própria, sem que ninguém, a começar pelos afectados, lhe tenha pedido que assim atuasse. Justificou o seu comportamento extremo como forma de evitar outras formas "mais musculadas" de repressão (imagino que quando desatarem à bastonada a miúdos dirão que antes isso do que lhes dar tiros). O uso de gás pimenta contra menores (incluindo miúdos de 12 anos) para abrir os portões de uma escola, sem que antes se tenha deixado que seja a própria direção da escola a resolver o problema, só pode ser considerado, por pessoas com o mínimo de bom senso, como umuso desproporciodo de violência. Coisa que, para quem não o saiba, está interdita à polícia. As forças policiais não têm legitimidade para usar da violência em qualquer circunstância.

 

O grande argumento que por aí se vê em defesa desta indefensável atuação policial é o de que aquelas crianças e adolescentes tinham desrespeitado uma ordem policial. Para quem esteja pouco familiarizado com o Estado de Direito,as forças policiais devem usar da violência para garantir um bem maior do que o dano que causam. Em Portugal, o uso da violência não serve para punir. Porque quem determina punições perante a violação da leis são os juízes, não são os polícias, sem autoridade nem formação para interpretar e aplicar a justiça. E nessas punições não está incluída a violência física. A polícia garante a segurança pública. E em nenhum relato do que ali sucedeu se percebe onde estava, antes da ação policial, em risco a segurança pública.

 

A evidente desproporcionalidade desta ação policial e a sua desumanidade perante a idade das vítimas - entre 12 e 15 anos, recordo de novo - não impediu que imensas reações em blogues e sites fosse de aplauso ao que só poderia, num país civilizado, merecer repúdio geral. Mais: a reação automática é a de que quem se manifesta é, à partida, um prevaricador. O que não pode deixar de fazer pensar que, ao fim de 40 anos, há quem ainda não se tenha habituado à democracia. E que, como aliás se vê perante todos os sinais do crescente autoritarismo deste governo, há quem veja com naturalidade o uso da violência do Estado contra os cidadãos. E que este deve começar bem cedo, para que todos se habituem à bovina obediência que se tenta instalar no País.

 

Nos telejornais de sexta-feira, esta notícia, que deveria ter merecido uma indignação geral, foi brevemente referida. Em dois dos três casos sem nunca se referir as idades das vítimas desta brutalidade.

 

Da fraca de reação geral a um caso que deveria levar à uma ação criminal contra o responsável policial que deu ordem para assim se atuar e, provavelmente, à demissão do ministro da Administração Interna; e do pouco destaque que este caso mereceu na comunicação social, só posso concluir uma coisa: quem viveu quase meio século em ditadura habitua-se rapidamente a qualquer sevícia, desde que esta venha do Estado. E já nem os seus próprios filhos sabe proteger. Esta foi, lamentavelmente para a geração em que ainda podemos ter alguma esperança, a Pátria que os pariu.


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 20 de Janeiro de 2013
por Ana Mafalda Nunes

A crónica “Perigosa futilidade” do Gabriel Leite Mota de hoje no P3, aborda o que realmente alimenta a crise - a dependência do fútil como uma semente da economia que gera mais futilidade consumível.

Ainda que se aproxime da arrogância extremista e pedante na classificação do que é fútil, fica  a ideia de que empanturrados da "futilidade a saldo", o sentido crítico fica lento e adormecido, só capta o imediato brilhante. Vulneráveis, tornamo-nos incapazes de reagir à máquina que nos fornece a confortável ideia de cidadãos.  

 

"O que precisamos é de pessoas activas, despertas, pensantes, críticas, que se opõem à maldade, que votam, que se organizam, que protestam, que criam novas soluções, que rejeitam o consumo desenfreado e o tele-lixo, que não se corrompem nem toleram os que se deixam corromper. Que se indignam com a pobreza, as guerras económicas, os fanatismos, os genocídios e que praticam a honestidade, o respeito, a ponderação e o civismo."

 


Gabriel Leite Mota, in P3




por Ana Mafalda Nunes
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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013
por Miguel Cardina
A PSP reprimiu com gás pimenta uma manifestação de rapazes e raparigas, entre os 12 e os 15 anos, que em Braga protestavam contra a criação de um mega-agrupamento. Descartando a ideia de se ter tratado de descontrolo policial, a estrutura afirma em comunicado que o ataque foi medido de modo a evitar "uma intervenção mais musculada". Fica a dúvida acerca do que se refere a PSP. Varrer à bastonada os menores? Disparar sobre eles? Cercar e deter a manifestação? E que acções subversivas terão os jovens desencadeado para que se produza semelhante ameaça? Seria importante ouvir o que os responsáveis políticos têm a dizer sobre o assunto. Miguel Macedo também acha que a acção foi justa? Abrirá um inquérito? E agora entre nós: não é incómodo, mesmo que da boca da polícia, ouvir-se desvalorizar a ideia de manifestação como uma "anormalidade" que urge conter e reprimir, em lugar de esta ser entendida como um direito fundamental a uma vida democrática rica e participada?

por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

Pedro Passos Coelho, o resto dos governantes e o batalhão de propagandistas do Governo regularmente vêm gabar-se da renegociação que estão a levar a cabo com os privados das PPP's rodoviárias. A renegociação destas parcerias foi apresentada como trunfo eleitoral. Mas a realidade é madrasta e o Governo embateu de frente com os interesses das clientelas que parasitam o Estado e os nossos impostos. Não foi uma questão de impotência, mas de pura demagogia; o Governo nunca teve realmente vontade de acabar com o negócio monopolista que as concessionárias das auto-estradas conseguiram junto do Estado. Mas a opinião pública precisava de alguma fumaça. Ao longo dos últimos meses, o inefável secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, foi aparecendo nas tribunas do costume - perdemos as contas às vezes que o sucedâneo de jornalista Mário Crespo o convidou para o seu circo televisivo - explicando o esforço hercúleo do Governo neste dossier. Tal esforço não foi em vão. Mais de um ano e meio depois, o resultado é... mais uma ida ao bolso dos portugueses. No fim de tudo, de um esforço de poupança anual no valor de 250 milhões de euros prometido pelo Governo, apenas 12 milhões serão recuperados ao lucro dos accionistas. Extraordinário feito! O resto virá dos aumentos no preço das portagens e na introdução de mais pórticos numa série de vias circundantes de Lisboa e do Porto. Sem falar das contrapartidas dadas pelo Governo em troca da redução de 12 milhões, entre elas a passagem da responsabilidade da manutenção das infraestruturas para o lado do Estado - alguém poderá contabilizar o que isto signfica em termos de encargos financeiros para as gerações vindouras? 

 

Abençoadas "gorduras do Estado" - pelos vistos, esta expressão referia-se às gorduras, ao couro e ao cabelo do médio contribuinte português. Valha-nos o facto de estarmos a contribuir para uma benemérita causa: os prémios dos gestores e os dividendos dos accionistas das concessionárias que vão manter as suas rendas intocadas.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

A PSP usou gás pimenta para dispersar alunos do secundário. As idades dos alunos atingidos pelo gás pimenta varia entre os 12 e os 15 anos. Quando as forças de segurança usam gás pimenta contra miúdos de 12 anos já nem sei o que dizer. Se ainda vivemos num país civilizado, espero por punição criminal (e não apenas disciplinar) do selvagem que deu ordem para esta forma de intervir.


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

Vou, agora que o ambiente serenou um pouco, voltar ao caso do cão que matou a criança. Não para o discutir, mas para falar do que ele revela. O abaixo-assinado para impedir o abate do Zico não tem grande importância? Ele, propriamente dito, não a terá, por isso não merece que se perca mais tempo com o assunto. Mas o que ele revela é bastante importante. E fala-nos de uma civilização desnorteada.

 

Sou um relativista. Ou seja, reconheço que os valores pelos quais nos regemos são construções culturais e históricas. E sou capaz de tentar compreender e contextualizar, mesmo que não os aceite, valores bem diferentes porque foram construídos em contextos diferentes. Mas, como relativista, até relativizo o meu relativismo. E posso reconhecer que ele tem riscos importantes. O mais importante: desfoca de adquiridos morais que, não sendo universais, são resultado de uma tradição histórica. Não desfoca apenas da tradição conservadora que justifica a desigualdade e a crueldade entre humanos. Desfoca da tradição progressista. Desfoca até do iluminismo.

 

Nessa tradição, reconhecemos em todos os humanos direitos fundamentais. Esses direitos não dependem das qualidades ou defeitos de cada humano individualmente considerado. São iguais para Mahatma Gandhi e para Adolf Hitler, para Nelson Mandela e Anders Breivik. Porque se justificam na condição humana, partilhada pelos piores e pelos melhores, única forma de serem aplicáveis de forma não discricionária. De todos esses direitos, o mais importante é, seguramente, o direito à vida. Que se baseia neste postulado simples: nenhum humano tem o direito a tirar a vida a outro com a exceção de em conflito com essa interdição estar a proteção da vida de outro humano.

 

O direito à vida não é inato. Na realidade, como presas potenciais, a natureza não dá a nenhum animal, nem mesmo os humanos, o direito de viver até ao limite das suas capacidades biológicas. Ele foi determinado pelos humanos para os humanos. E o que explica este adquirido civilizacional, que infelizmente está longe de ser universal, é a absoluta excecionalidade que atribuímos à vida humana. E isso resulta da nossa cultura humanista.

 

O homem atribuiu (foi ele que atribui) muito recentemente direitos aos animais. Na realidade, como escreveu Henrique Monteiro , tratam-se de deveres dos humanos para com os animais. Assim como tem deveres para com o Planeta. Mesmo em relação aos animais, eles são necessariamente diferenciados para animais sencientes e não sencientes, mamíferos e restantes, domésticos e selvagens, o cão ou o parasita que o incomoda. E, mesmo dentro das mesmas categorias, não tratamos da mesma forma um gato e uma vaca. Na realidade, se prestarmos atenção, esta estratificação baseia-se, não por acaso, na proximidade emocional ou biológica que o animal tem em relação a nós. Ou seja, continuamos a ser nós, para nós próprios, a medida de todas as coisas. Pelo contrário, não estratificamos os humanos nos seus direitos e deveres. Com uma única exceção: damos às nossas crias, que estão mais indefesas e ainda não receberam o legado moral para distinguirem o bem do mal, o justo do injusto, o certo do errado, muito mais direitos do que deveres.

 

Resumindo: os direitos dos animais não são uma antecâmara dos direitos dos humanos. Estão num outro patamar, porque assumimos que os próprios sujeitos desses direitos não nos são comparáveis. Apesar de, do meu ponto de vista, estarem errados nos principais pressupostos, mesmo autores mais empenhados, como Peter Singer, têm o cuidado de tentar não criar uma confusão absoluta entre conceitos incomparáveis.

 

Voltemos então aos defensores do Zico. O "animalismo" ou "anti-especismo" renega todas as base do humanismo, que assume a excecionalidade da condição humana, capaz de fazer uso da sua liberdade. E essas bases partem de um pressuposto: há, entre os humanos, um pacto de fraternidade. E esse pacto resulta da convicção de que partilhamos a mesma condição na terra. Ele é, por natureza, impossível de ser partilhado por espécies que não sejam, nem possam vir a ser, dotadas de consciência moral e ética. Ou seja, dotadas de uma extraordinária capacidade: a do uso consciente da liberdade.

 

Renegar a excecionalidade do homem é renegar todas as conquistas civilizacionais fundamentais. Quem pensa que, tal como antes se aceitava a escravatura, como resultado de uma desigualdade ontológica entre seres humanos, hoje aceita o "antropocentrismo", não podia estar mais enganado na causa e consequência das coisas. Foi por atribuirmos à vida de todos os seres humanos um estatuto absolutamente excepcional que a escravatura nos pareceu inaceitável. Exatamente porque se assumiu que o homem tem a potencialidade irrepetível de ser livre. Ao colocar as relações humanas no mesmo patamar que as relações com os animais a escravatura torna-se aceitável, porque desprezamos essa excecionalidade que a liberdade humana nos confere. Se eu sou dono de cães e de gatos, numa relação necessariamente desigual - e que só pode funcionar se for desigual -, porque raio não hei de ser dono de pessoas? Se eu mato animais para me alimentar, porque raio não hei de matar seres humanos para garantir a minha subsistência?

 

O que realmente me assusta é que este fenómeno essencialmente urbano de humanização dos animais (que só pode resultar de uma crescente distância em relação à natureza, que perdeu a consciência de que os humanos, como os restantes animais, vivem num meio que lhes é hostil), parecendo apenas uma mera excentricidade, ganhou dimensões que desconhecíamos. No caso do último abaixo-assinado, a que aderiram mais de 70 mil pessoas, vimos até políticos de tradição marxista a, por convicção ou mero sentido de oportunidade, assinar um documento que, sem o saber, é perigosíssimo do ponto de vista filosófico. E esta tentação de abarcar todas as causas pode bem levar as correntes políticas que têm no humanismo a sua principal origem a abandonarem as bases filosóficas fundamentais para os seus principais combates: que todos os homens devem ser iguais em direitos e deveres. Porque, caros amigos, os animais, e contra isso nada podemos fazer, nunca o serão. Falta-lhes a cultura e a história. Falta-lhes, para ironizar um pouco, a revolução francesa.


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013
por Sérgio Lavos

"Ninguém aconselhou os portugueses a emigrarem" - Pedro Passos Coelho, 17 de Janeiro de 2013.

 

Governo incentiva jovens desempregados a emigrar. - Notícia de 31 de Outubro de 2011.

 

Passos Coelho sugere a emigração a professores desempregados. - Notícia de 18 de Dezembro de 2011.

 

O mentiroso patológico caracteriza-se por mentir de forma tão deliberada e comum que chega acreditar nas mentiras que inventa. Para além disso, ofende-se quando é apanhado a mentir. E ainda há quem fale do outro que anda por Paris...

 

(Via Esquerda Republicana.)


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

«O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou hoje, em Paris, que o Governo está a trabalhar "muito intensamente" para criar "oportunidades" em Portugal, e para que o país seja "uma espécie de ancoradouro de gente de todo o mundo".»

 

E o resultado destes intensíssimos esforços vai-se fazendo notar, como toda a gente sabe:

 

Número de pessoas que saiu de Portugal aumentou 85%.

 

Também de evidenciar que o primeiro-ministro falou na sua intervenção do esforço que o Governo tem feito na divulgação da cultura e língua portuguesas pelo mundo. Devia estar a referir-se ao encerramento de consulados e ao fim do apoio do Estado ao ensino de língua portuguesa nas escolas espalhadas pelo mundo, com certeza. A "missão histórica" do Coelho é na realidade uma obra grandiosa.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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