Sábado, 29 de Maio de 2010
por Arrastão
Texto de Pedro M. Lourenço

“Celui qui ouvre une porte d'école, ferme une prison” Victor Hugo

Devemos à República o início de uma campanha de alfabetização em larga escala – revigorada no pós 25 de Abril – que permitiu a Portugal seguir no encalço da civilização ocidental no que concerne ao desenvolvimento social e humano. Num país onde ainda 7% da população acima dos 15 anos é analfabeta, cuja taxa de abandono escolar é ainda elevada, em que apenas 60% da população tem como escolaridade o ensino secundário, cujos fluxos migratórios trazem milhares de pessoas e em que o endurecimento das condições de vida ceifa a mínima perspectiva de futuro, o maior desafio que hoje nos é apresentado é a educação.

A escola e a educação constituem o derradeiro trunfo, mas a sua magnitude esbate-se em razão da implementação de políticas erradas e perniciosas. A mercantilização do ensino, os cortes no apoio às famílias, as respostas ineficazes à indisciplina nas escolas e o desmantelamento do ensino público fazem um país mais pobre, menos ciente dos seus direitos e deveres, suas capacidades, mais instável e inseguro, logo mais vigiado e menos tolerante, menos justo e igualitário.

Quis apresentar algo que não fosse demasiado datado, restando-me a esperança de que, se em 100 anos esta minha humilde colaboração no aniversário deste blogue for resgatada da poeira cibernética, não lhe dêem valor por se encontrar desactualizada. Seria excelente!

por Arrastão
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30 comentários:
[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão, Rede TubarãoEsquilo. Rede TubarãoEsquilo said: Arrastão dos comentadores: O maior dos nossos desafios: Texto de Pedro M. Lourenço “Celui qui ouvre une porte d’éc... http://bit.ly/9Z6P3l [...]

deixado a 29/5/10 às 17:16
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Henrique Morais
"Devemos à República o início de uma campanha de alfabetização em larga escala – revigorada no pós 25 de Abril"

Tem a certeza?

deixado a 29/5/10 às 17:28
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JB
«o maior desafio que hoje nos é apresentado é a educação»
Lamentavelmente,
como há 35 anos.
Sem tirar nem por.
A bem do Regime.

deixado a 29/5/10 às 21:17
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Lisboeta
Logo a seguir ao 25 de Abril, era de uma autêntica balda o ambiente disciplinar que se vivia em muitos quartéis: soldados com cabelo grande, barba por fazer, botas por engrachar, fardamento desataviado, refractária deferência pelos superiores hierárquicos, etc, etc. Esta era uma situação que os próprios contra-revolucionários estimulavam com a secreta intenção de hostilizar os oficiais de carreira, mais ciosos do seu "militarismo", e assim os virar contra a recém-nascida Democracia. A verdade é que este clima ajudou bastante ao 28 de Setembro e ao 11 de Março...

Na Educação, há largos anos que se passa algo de semelhante. A indisciplina e o facilitismo são confrangedores e convenientemente estimulados pelas forças mais reaccionárias - que até se dão ao luxo de fingir estar contra (veja-se, por exemplo, as posições do CDS). A intenção é clara: hostilizar os melhores professores, levando-os à saturação e/ou ao abandono, retirar aos alunos a vontade de aprender e, em consequência, esvaziar o Ensino Público da sua missão histórica.

A breve trecho, só aqueles que tenham uns papás com dinheiro para os porem no Ensino Privado poderão ser alguém na vida. E será a Direita a única culpada desta situação ? Não. A Esquerda também será culpada porque, com tantos rodriguinhos pedagógicos, não antecipou devidamente que isto nos levaria a uma espécie de Idade Média.

deixado a 29/5/10 às 23:45
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Rui F
É isso mesmo Pedro, sem dúvida.

Mas o maior analfabetismo é ainda o dos Patrões Portugueses! Uma absoluta vergonha para quem deveria dar o exemplo de formação.


P.S. Imagino Medina Carreira a ler este post e a falar: "eles e essa merda da integração de todos"

deixado a 29/5/10 às 23:47
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Gostei muito.
Gosto sempre de texto muito bem escritos que enunciam problemas e não apresentam soluções.

deixado a 29/5/10 às 23:55
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da Maia
Caro Pedro,

... o tema já foi falado noutros posts, mas sendo tão importante fica sempre muito por dizer!

Levanta uma questão interessante - o que vai ser ensinado daqui a 100 anos? Certamente que nada do que aqui é escrito tem importância daqui a um mês, nem para nós... quanto mais daqui a 100 anos!

Provavelmente daqui a umas décadas, o que restará serão os nomes dos políticos, e uma nota especial para Durão Barroso, grande português que esteve à frente da comissão europeia durante 10 anos.
Isto é tipicamente o que irá passar numa Escola normalizada...
Por isso há um ensino que não pode ser negligenciado, deixado ao descuidado público, e deve ser preservado - é a tradição oral dentro das famílias.

Cada um de nós tem obrigação de passar à próxima geração a nossa opinião, e não esperar que a Escola o faça!
Repare bem, durante algum tempo as famílias descuraram o seu ensino familiar, e os filhos já nem sabiam o que era o 25 de Abril... e já temos filhos desses filhos!
Há feriados, mas a maioria da população nem sabe porquê, nem sabe o que se comemora!

O analfabetismo foi importante, e começou a ser combatido mesmo durante o tempo da monarquia, ver por exemplo o artigo de Maria Filomena Mónica sobre Fontes Pereira de Melo:
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218793574T4kPM3ma5Rb25XZ7.pdf

Pior que o analfabetismo, é a inconsciência do analfabetismo! Ou seja, podemos ter uma boa percentagem da população que sabe ler textos, mas não é crítica ao que aí é dito... sobre esse aspecto regredimos muito. Isto é, quem era analfabeto sabia que tinha muito por onde trilhar, agora com "novas oportunidades", o que era exigido anteriormente numa 4ª classe era muito mais do que é exigido hoje para um 12º ano!

E depois... fica aquela dúvida: hoje temos licenciados que já não sabem fazer contas básicas, que não sabem quem foi o primeiro rei, o que se comemora no 1 de Dezembro, ou 5 de Outubro. Isso eram daquelas coisas que há uns 30 anos, mesmo alguns analfabetos sabiam.
Por outro lado, quando uma criança pega no rato e clica nuns botões diz-se que é um génio dos computadores. E isto prossegue... um tipo que mete um gráfico num Excel ou num Word, é um técnico especializado!

Vai tudo alinhando pelo mínimo, numa sociedade onde a aparência teve sempre mais valor do que a matéria de facto.

A educação pública transformou-se no último grande negócio rentável que as Editoras não prescindem. Numa altura em que haveria uma multiplicidade de oferta educativa na internet, insiste-se na cartilha do "livro autorizado", na opinião outorgada e chancelada. Não é só para salvar as editoras, nem é só para garantir um ensino mínimo - é muito mais para garantir que o ensino é exactamente aquele, aquele que interessa!

Será que interessa? Era bom ver o que fica na cabeça dos adultos, do que se ensinou... e era bom ver o que não sabemos e era importante ser ensinado, para a nossa vida habitual. Por exemplo, não deveriam ser ensinados os direitos consagrados na Constituição?

Vivemos numa sociedade onde não podemos invocar o desconhecimento da lei, mas onde esse conhecimento não é ensinado, nem tampouco tornado público...
Ou seja, esta é uma sociedade de farsantes, e não sendo actores, somos apenas figurantes para a parte trágica da comédia.

Cumprimentos,
da Maia

PS: Se não é o PedroM, para evitar confusões bastaria colocar Pedro Lourenço, certo?

deixado a 30/5/10 às 01:29
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Pedro M Lourenço
Fado,

A solução está explícita ao logo de todo o texto.

Integrar através da educação. Toda a gente.

Apostar no capital humano.

deixado a 30/5/10 às 03:23
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Pedro M Lourenço
De forma muito sucinta, algumas medidas do regime da I República:

Ensino primário obrigatório e gratuito

Escolas do ensino primário e técnico (agrícolas, comerciais e industriais)

Criação dos Institutos Superiores de ensino técnico;

Criação das univeridades de Porto e Lisboa

Que lhe parece?

deixado a 30/5/10 às 03:39
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Pedro Lourenço
Estou inteiramente de acordo.

O analfabetismo funcional surge porque o sistema de ensino está porventura mecanizado e acrítico.

E depois já ninguem lê "Os Maias", facilmente se compra no hiper da zona a edição já resumida, e a questão é que aquilo acaba por servir, e até dá para tirar um "dezito". É um exemplo, mas há outros e é, em si, ilutrador de um certo facilitismo, que, creio, somos obrigados a admitir que existe.

PS - Também aqui acaba por ter razão. Vou passar a assinar da forma que referiu.

deixado a 30/5/10 às 03:53
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