Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira

É provável que depois de ontem Ricardo Salgado e João Salgueiro continuem a cruzar-se com ministros e líderes da oposição e aqueles expliquem a estes que as medidas da crise não lhes podem tocar enquanto o governo corta no abono de família de quem vive com demasiado pouco para respirar.

 

É provável que hoje os varas e os godinhos e os coelhos deste país continuem a telefonar aos amigos que deixaram no governo e nas empresas do Estado para resolverem uns problemas pendentes e uns concursos faz de conta. É provável que Dias Loureiro continue a passear-se por Cabo Verde, como se o buraco negro do BPN, pago com a nossa desgraça, nunca tivesse existido. E que outros dias loureiro joguem golfe com homens de negócios e tratem de fechar os olhos a quem devia zelar pela saúde da nosso sistema bancário. É provável que António Mexia não deixe de receber um salário maior do que muitos presidentes grandes multinacionais enquanto os portugueses falidos pagam das facturas mais altas de electricidade da Europa. É provável que tantos turbogestores de tantas empresas, dedicados à sua boa agenda no Estado generoso mas selectivo, continuem a referir-se a quem depende do seu salário para viver como "colaborador", sempre sublinhando a sua baixa produtividade. É provável que senhores como Luís Correia da Silva, administrador da Groundforce, ex-secretário de Estado de Durão Barroso e importante operacional da campanha de Cavaco Silva, continuem a despedir centenas de trabalhadores por e-mail e continuem a ser tratados como gente respeitável.

 

É provável que amanhã ex-ministros das finanças continuem opinar sobre o que devia ser feito e eles nunca fizeram. Que reformados precoces do Banco de Portugal continuem a explicar ao país como ele tem vivido acima das suas possibilidades. Que economistas avençados nos continuem a vender o Purgatório para salvar os seus do Inferno. Que os seus jovens aspirantes, muito radicais e frescos, se alinhem para dar a cara pela autoflagelação nacional à espera de um lugar ao sol na academia e nos corredores do poder.

 

É provável que depois de amanhã a Banca continue a pagar impostos simbólicos enquanto desempregados e beneficiários do rendimento mínimo são tratados como trapaceiros até prova em contrário. É provável que os funcionários públicos continuem a ser vistos como parasitas privilegiados enquanto boys inúteis trepam na arte de fazer coisa nenhuma.

 

É provável que a greve geral não tenha mudado nada. Mas ela, tendo sido a maior da história deste País, mostrou que ainda não estamos mortos. Deprimidos, claro. Com medo, pois somos humanos. Mas ainda resta alguma dignidade. Aquela que fez, por exemplo, os trabalhadores da Autoeuropa, a maior fábrica em Portugal, onde até houve aumento de salários, a fazer greve por solidariedade com a sua gente. É provável que tudo fique na mesma. Mas ao menos ontem respirou-se alguma sanidade. Ainda há gente com coragem. E só por essa gente pode passar a salvação deste País.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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