Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
por Miguel Cardina

 

Tony Judt não é Nicolas Sarkozy. Por isso a leitura dos anos 60 que aparece em vários momentos do recomendável Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos não se confunde com o ódio que um dia Sarkozy destilou sobre 68 e os seus efeitos. Mas deixa aqui e ali um travo semelhante. Adepto da recuperação da ideia social-democrata, Judt fala dos anos 60 como um conservador. O capítulo dedicado à década no seu volumoso (e também muito recomendável) Pós-Guerra optava já pelo mesmo enfoque. E Judt não é caso único: Eric Hobsbawm também não nutre muita simpatia por esses tempos turbulentos. Na sua autobiografia, o reputado historiador marxista considera que os jovens de então procuravam sobretudo «emblemas para as suas lapelas privadas», que só por acaso coincidiram com os da esquerda mais radical.

 

Em traços grossos, Tony Judt olha para esses anos como uma antecâmara directa do triunfo do neo-liberalismo, da primazia do privado sobre o público, do fatalismo do fim da história. Para o historiador britânico, a época teria sido marcada pelo «subjectivismo do interesse e desejos privados», pela «rejeição do colectivismo» e pelo desprezo perante as questões relativas à justiça social. Daí a referência ao «legado irónico» da «esquerda egoísta» que usava o marxismo apenas como «tecto retórico». Convém desde já esclarecer que a panorâmica histórica que atravessa esta derradeira obra de Judt serve no essencial para sustentar as propostas contidas nas páginas finais – as melhores e mais incisivas – nas quais, simultaneamente, se elabora uma crítica do presente e se aponta um caminho político alternativo que passaria pela recuperação do legado social-democrata. Tony Judt defende a necessidade de uma social-democracia defensiva que resultaria de um projecto mínimo caracterizado como «a melhor solução possível nas actuais circunstâncias». Trata-se assim de resgatar a social-democracia histórica das suas reconfigurações do tipo «terceira via» e voltar a sintonizá-la com um padrão ético composto de justiça social e igualdade. Padrão ético, esse, que alimentara o New Deal e a construção do Estado-Providência, e que os anos 60 haviam interrompido. 

No fundo, há boas razões para ter em conta a posição de Judt. Parte significativa dos liberais-libertários que está no poder considera-se herdeira directa dos anos 60. É uma geração anti-autoritária e cosmopolita, aberta às dinâmicas pós-nacionais e confiante no poder dos mercados. Em O Poder e os Idealistas. A geração idealista de 68 e a sua subida ao poder, Paul Berman defende precisamente que a origem do liberalismo e do intervencionismo humanitarista da primeira década do século XXI radica numa espécie de «Internacional imaginária de 1968», composta por antigos esquerdistas que cotejaram as suas anteriores crenças revolucionárias com a crítica ao totalitarismo. Nesta linha de raciocínio, é provável que Berman lembrasse a Judt que, não obstante a suspeita que podemos ter sobre as reais motivações desse «humanismo das más notícias», é de frisar o rasto de um discurso centrado nos direitos humanos, na justiça social e na liberdade. Que, claro, tanto serve para justificar as «intervenções humanitárias» e o derrube de ditadores como para combater as escaladas bélicas e promover a solidariedade internacionalista.

 

Por outro lado, a visão dos anos 60 como anos de um duro individualismo em gestação apenas capta meia verdade. Em primeiro lugar, convém desconfiar de essencialismos que simplificam tempos e espaços diferentes em torno de uma característica dominante. Uma posição sensata afirmaria porventura que «os anos 60», enquanto realidade definida e definível, nunca existiram. Mas tomando-o enquanto realidade complexa, múltipla e contraditória, pode-se dizer que nunca como nos tais «anos 60» se pensou tanto em termos de projectos colectivos. Nunca a realpolitik foi tão acossada pela força dos idealismos. Nunca o egoísmo conviveu tanto com o altruísmo. Se o privado se tornou político, se o corpo se fez espaço de reivindicação, se a imaginação e a autonomia foram afirmadas, tal não se fez contra a ideia de comunidade mas buscando entendê-la de outras formas. E isso, não sendo suficiente, é útil para a reconfiguração da esquerda, à qual Tony Judt dedicou as suas últimas palavras escritas.


por Miguel Cardina
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