Segunda-feira, 31 de Maio de 2010
por Arrastão
Texto de Júlio de Matos



Agora dizem-nos insistentemente que há uma grande crise económica e, sobretudo, financeira, que será mesmo até “a Crise”, mas a grande verdade é que o tempo nunca pára e, mesmo em alturas de crise (ou sobretudo nelas), é sempre necessário tomar decisões sobre os assuntos do Futuro, muito em especial quando elas já são “para ontem”.

Há quem defenda que os recursos nacionais, sendo escassos, devem ser canalizados nesta altura apenas para o que é prioritário, ou mesmo urgente. Também concordo. Mas, se é assim, então temos uma fortíssima razão para defender a construção imediata do novo Aeroporto de Lisboa (NAL), que já vem sendo estudado e é considerado necessário há mais de vinte anos! Não que os problemas da Saúde, o investimento na Educação e na Investigação Científica, a modernização da Administração Pública, ou a melhoria muito significativa da Justiça não sejam igualmente prioritários. Não devem é prejudicar, muito menos excluir liminarmente, o investimento reprodutivo em sistemas básicos de grande impacte económico, como é o caso das infra-estruturas de transporte de âmbito e importância nacionais.

Destas, avultam na actualidade portuguesa, para além das sempiternas questões rodoviárias, as problemáticas do NAL e do Comboio de Alta Velocidade (CAV), também conhecido pela sua sigla em Francês (TGV).

Parece todavia consensual que, em termos da rentabilidade dos investimentos necessários, o NAL é significativamente mais importante e urgente do que o TGV, senão mesmo o único viável dos dois (pelo menos nos próximos anos).

Continuar a ler no link em baixo




E todos sabemos que um Aeroporto, hoje em dia, já não é um “bem de luxo” (também o transporte aéreo se “democratizou”…), mas sim uma infra-estrutura crucial para o desenvolvimento económico das Regiões fortemente dependentes das actividades terciárias de nível internacional, sobretudo do Turismo. O Algarve e a Madeira (em particular o Funchal) que o digam. E penso ser inquestionável que o actual Aeroporto de Lisboa se encontra já muito para além do que seria uma utilização desafogada e com perspectivas de expansão para o crescimento da procura nas próximas décadas.

Por outro lado, um Aeroporto internacional é também um centro comercial muito lucrativo, pelo que o investimento que requer será, em grande medida, investimento privado e não público. E acresce que, sendo embora o retorno deste investimento mais lento do que no caso de um centro comercial convencional, também será garantido por mais décadas.

Assim sendo, não me parecendo haver hoje grandes questões reais a resolver quanto à necessidade, oportunidade e, até ver, quanto à localização do NAL, sobra apenas aquela perguntinha que continua a causar calafrios às pessoas mais conscientes e verdadeiramente preocupadas com o Futuro de Portugal e que, aliás, é uma questão comum a qualquer decisão importante sobre obras públicas: e será que as opções tomadas em concreto, sobre os aspectos fulcrais, foram as mais adequadas?

Porque não cabe analisar tudo num só Artigo, proponho que nos detenhamos apenas na questão da acessibilidade ao NAL, presumindo que será mesmo construído nos terrenos do actual Campo de Tiro de Alcochete.

Sendo esta actualmente uma zona de características ainda algo rurais (e até naturais), relativamente mal servida de rodovias de capacidade adequada para o efeito e com um único acesso importante próximo, constituído pela A12 (e pela sua continuação para Lisboa, pela Ponte Vasco da Gama), a opção pela ferrovia como meio preferencial de acesso parece-me bastante acertada, a todos os títulos.

O único problema é que terá de se tratar de uma infra-estrutura totalmente nova, uma vez que ainda não existe nenhuma Linha férrea que sirva a zona do NAL. Problema agravado pela necessidade e importância da sua ligação à margem Norte do Rio Tejo, onde se localiza a esmagadora maioria da procura dos utentes do transporte aéreo, ou seja, implicando a construção de uma nova Ponte sobre o Tejo em Lisboa.

No entanto, tendo supostamente tudo isto sido ponderado na avaliação comparativa, efectuada pelo L. N. E. C., entre Alcochete e a única alternativa de localização tecnicamente viável, a Ota, parte-se do princípio de que esta nova Ponte, com traçado previsto entre Chelas e o Barreiro está justificada.

Deste modo, a única questão que permanece discutível é mesmo a amarração desta nova ligação ferroviária à questão do TGV.
Não tendo ainda consultado os elementos técnicos disponíveis ao público sobre esta problemática, parece-me para já ser um erro metodológico associar estes dois empreendimentos distintos, o que provoca logo à partida uma menor flexibilização das decisões a tomar sobre cada um deles.

Simplificando, se a única ligação ferroviária prevista ao futuro Aeroporto, a partir de Lisboa, estiver integrada na rede de alta velocidade, ficaremos “obrigados” a construír o TGV ao mesmo tempo do que o NAL, para podermos aceder convenientemente a este, desde o início do seu pleno funcionamento! Sendo que, quanto a mim, teria sido preferível optar por uma ligação ferroviária convencional entre Lisboa e o novo Aeroporto e construir depois, ao lado do mesmo, uma Estação Terminal para o TGV, quando se decidisse avançar com o mesmo.

Significaria isto que a nova linha Alcochete–Lisboa, sobre a futura Ponte Chelas–Barreiro, poderia assim servir quer para garantir a ligação entre a Área Metropolitana de Lisboa/Norte e o NAL, quer futuramente para proceder à distribuição dos passageiros oriundos do TGV, das Linhas do Porto e de Madrid, pelas Estações da Linha de Cintura, situadas já dentro de Lisboa, bem como, preferencialmente, às Linhas suburbanas de Sintra, de Cascais e da Azambuja (e, subsidiariamente, também às Linhas do Oeste e do Norte – a qual, com o TGV, passará a ter uma utilização de cariz mais vincadamente regional).

Em termos de acesso ao Aeroporto, trata-se pois de uma solução perfeitamente normal, que funciona bastante bem, por exemplo, em Roma, no ainda considerado “novo” Aeroporto Leonardo da Vinci (que se situa a mais de trinta quilómetros de Roma e veio substituir o velhinho “Fiumicino”).

Em termos puramente ferroviários, implicaria a necessidade de os passageiros oriundos, por exemplo, da Linha de TGV Lisboa–Porto efectuarem um transbordo em Alcochete, para os últimos quilómetros da viagem até Lisboa (e caso não fosse de todo viável, na nova Ponte, a convivência do TGV com os comboios convencionais), o que não me parece grandemente prejudicial para a qualidade global da viagem, pois de qualquer modo quem viaja hoje de Lisboa para o Porto, e vice-versa, não viaja propriamente entre as zonas de Santa Apolónia e de S. Bento, nem sequer entre as zonas urbanas de Campanhã e do Parque das Nações.

Ou seja, para quem se desloque, por exemplo, da Azambuja, ou do Pragal, mas igualmente de Alvalade, de Queluz, ou de Algés, para Coimbra, Aveiro, ou o Porto também já tem, hoje em dia, que apanhar um outro transporte, eventualmente também ferroviário (comboio ou metro), para poder apanhar o Alfa, ou o Inter-cidades…

O sistema inicial seria, então, constituído por uma ligação em comboio dito convencional entre Lisboa e o novo Aeroporto, tal como acontece em Roma, com um serviço de qualidade e extremamente pontual, o qual, a prazo, serviria então igualmente como ligação ao Terminal das Linhas do TGV, igualmente localizado em Alcochete, mesmo ao lado do novo Aeroporto.

Júlio de Matos.

por Arrastão
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25 comentários:
Silva
Texto bastante interessante Júlio de Matos.

Só um pequeno comentário sobre isto: "Simplificando, se a única ligação ferroviária prevista ao futuro Aeroporto, a partir de Lisboa, estiver integrada na rede de alta velocidade, "

Isso não é verdade, o aeroporto terá (ou está previsto ter) ligação à rede convencional e à linha de Alta Velocidade através de um ramal, e a TTT terá quatro vias férreas (o que já responde a isto: "(e caso não fosse de todo viável, na nova Ponte, a convivência do TGV com os comboios convencionais)"), duas convencionais e duas de alta velocidade (ou mais ou menos, porque o limite de velocidade não deverá ultrapassar os 200 kmh - a divisão entre convencional/alta velocidade é mais por causa da bitola do que por causa da velocidade).

O shuttle que se fala para ligar o Oriente ao NAL em 20 minutos penso que utilizará a linha convencional (é a ideia que tenho, mas não tenho a certeza).

A linha de CAV\TGV será para os serviços Porto-Lisboa que, previsivelmente, começarão no Aeroporto Sá Carneiro, passam por Campanhã e pelo Oriente (e podendo em alguns serviços parar nas estações intermédias de Aveiro, Coimbra, Leiria e Oeste/Rio Maior - a operação obviamente que ainda não está definida a esta distância temporal da abertura da linha, o que se tem falado é em serviços directos Lisboa-Porto intercalados com serviços que parem numa ou eventualmente duas estações intermédias) e terminam a viagem no NAL (permitindo assim que se faça o check-in numa qualquer estação de CAV para ir apanhar o avião nos dois mais importantes aeroportos internacionais).

Será também reservado espaço para que a linha deixe eventualmente de ser um ramal e passe a ser um bypass à linha Lisboa-Madrid (mas isso lá para 2080 e entretanto descobrirão que o espaço reservado já tem um centro comercial em cima e abandonam a ideia).

deixado a 31/5/10 às 10:49
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[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão, Rede TubarãoEsquilo. Rede TubarãoEsquilo said: O Arrastão dos comentadores: Comboios e aeroportos – as decisões para o Futuro: Texto de Júlio de Matos Agora diz... http://bit.ly/cfuI2f [...]

deixado a 31/5/10 às 11:34
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Silva
E já agora, para quem estiver interessado nestas coisas dos transportes, descobri hoje um interessante artigo brasileiro sobre a história da TAP: http://www.aviation.com.br/portal/noticias/artigos_det.php?id_art=55

deixado a 31/5/10 às 12:46
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O artigo começa muito bem a pedir um novo aeroporto e termina com um novo aeroporto, uma nova ponte e um novo caminho de ferro.
É o 3 em 1.
O aeroporto de Lisboa não está saturado, tem ainda uma quantidade impressionante de slots vagos (isto já foi demonstrado mais que uma vez).
Bastam duas obras nada complexas para o preparar para mais 50 anos.
A primeira é remover a Base Aérea Militar, vulgo chamada Figo Maduro, que ocupa uma área vital da Portela sem nenhum benefício a não ser para as grandes individualidades que por ali passam.
Não tem qualquer valor militar e toda aquela tralha podia e devia ir embora para o Montijo.
A segunda bastante mais complexa mas possível é desfazer o cruzamento das pistas, uma vez que a 17/35 deixou de ter utilização para aterragens e descolagens e colocar uma pista paralela á 03/21 ainda que mais pequena.
Resta a questão da segurança.
Alguns dos maiores aeroportos do Mundo estão inseridos bem dentro de cidades.
Voltarei se tal se justificar e por agora vou fazer em espírito um SID MORAS9N.

deixado a 31/5/10 às 12:56
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Só para corrigir: O Aeroporto Leonardo Da Vinci em Roma *é* o Aeroporto de Fiumicino.

O aeroporto "inicial" de Roma é o de Ciampino, que ainda funciona como base para as companhias low cost (principalmente Rynair). Este também e situado a uns quantos km do centro de Roma e não existe ligação directa por comboio até ao centro.

deixado a 31/5/10 às 13:04
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Antonio Cunha
É giro ver aqueles que passavam a vida a atacar Cavaco Silva por causa das auto-estradas que construiu virem agora querem TGV's, NAL's e cia.

É Giro.....

deixado a 31/5/10 às 14:20
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Nuno
Nunca ninguém explicou bem 2 coisas: uma, de onde vinham os números de previsão de passageiros da linha madrid-lisboa. Eu bem sei que uma previsão não passa de uma simulação, mas qualquer simulação baseia-se em factos concretos. Não me conveçam que o fluxo de pessoas entre as duas cidades aumenta simplesmente porque há um comboio de alta velocidade. A segunda é o modo como TGV, transporte aéreo e autoestradas (3ª Lisboa-Porto?) se articulavam. Já agora, metam também transporte marítimo (o socas aprendeu esta há pouco tempo) e ferrovia comum. Há mesmo algum plano? Ou isto é feito à base da fé? Gostava de ver aparecer alguém com um daqueles bonequitos como se fazia na primária, com as linhas ferroviárias a castanho, as estradas a preto, assim como que a explicar que tudo se encaixa e faz sentido...
Adiante... mas é bom ainda irmos pensando nestas coisas, pois ultimamente o País vive de economia e finanças (e bola e rock in rio); eu até penso que os restantes ministros que não o Teixeira dos Santos estão todos em sabática. Não se fala de Justiça, Adm. Interna não existe, Cultura? Educação, Ciência e Tecnologia, Ambiente??? Faz cá falta alguém que explique a toda esta gente que há vida para além do défice...

deixado a 31/5/10 às 17:31
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xuxu
A nossa apostinha de uma cerveja sobre o aeroporto já comeca a descarrilar. Por acaso eu até acreditava que o aeroporto ia _comecar_ a ser construido. Agora até isso já tenho dúvidas.

O aeroporto é uma desgraca de ideia: peak oil.

deixado a 31/5/10 às 22:53
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cafc
Meu caro Júlio de Matos

Começo por te manifestar a minha solidariedade, porque os temas da actualidade internacional "caíram em cima" do teu post. Não se vislumbre qualquer crítica, porque o Arrastão não podia, nem devia "entrar de férias". Aconteceu contigo, como podia ter acontecido com outros.

Posto isto, o tema que tu abordas é de grande importância nacional. Suscita-me mais dúvidas do que certezas e todas as opiniões podem contribuir para um maior esclarecimento. Por isso, peço aos comentadores que "voltem aqui".

Meu caro, vamos lá a ver se, como é "tradicional" haver estudos com dezenas de anos, não estaremos perante novos "Alquevas". Se calhar, daqui a dez, vinte anos, começam a surgir as inscrições "Construam-me, porra".

Um abraço.

Carlos

deixado a 1/6/10 às 12:04
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Silva
Carlos, não tenho bem a certeza de quanto tempo andou o Alqueva para ser construído, mas o NAL se não bate o recorde pouco deve faltar: tenho aqui um estudo na minha secretária de 1972!
Mesmo que abrisse no prazo previsto (2017), seriam 45 anos.

Já agora, deixo aqui uma notícia que passou completamente ao lado de 99% das pessoas: um estudo promovido pela Associação Comercial do Porto sobre a possibilidade de não se fechar a Portela aquando da abertura de Alcochete: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1572420

deixado a 1/6/10 às 12:29
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