Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014
por Daniel Oliveira

 

José Luís Arnaut foi ministro de Durão Barroso e de Santana Lopes. Anda nos corredores do poder há muitos anos e teve direito, claro está, a uma comenda. Nos tempos em que parecia que Arnaut se dedicava à política, era uma espécie de Relvas que sabia ler e escrever. Mais polido do que o aprendiz de Tomar, dedicou-se a uma das mais antigas profissões das democracias: fazer uma ponte entre o mundo dos negócios e o Estado, quase sempre com vantagem clara para o primeiro. Era e continua a ser, usando alguma liberdade de linguagem, um facilitador.

 

A Rui Pena & Arnaut, sociedade de advogados de que é um dos sócios, esteve ligada à privatizações da REN e da ANA e envolvida na fracassada privatização da TAP. Nunca sendo muito claro de que lado joga, como foi o caso da REN, onde o escritório tinha como cliente da Rede Elétrica Nacional e, em simultâneo, participava na elaboração das propostas de lei de base e diplomas regulamentares do novo enquadramento legislativo nos sectores da energia. Essa é, aliás, uma das funções destes escritórios: autênticos órgãos não eleitos de produção legislativa para o Estado, sem qualquer verdadeira fiscalização de conflitos de interesses. A RPA também participou nas negociações dos swaps com o Estado e representou os interesses da Goldman e da JP Morgan.

 

Resumindo: o escritório de José Luís Arnaut é, com mais um ou outro, uma placa giratória onde os interesses de alguns políticos mais ambiciosos e empresários que dependem de decisões do Estado se cruzam, num emaranhado de cumplicidades em que se perde o rasto de quem representa quem e mais não se pode fazer do que escrever, com cuidado, em textos como este, o que toda a gente sabe: que por ali se faz o que a democracia não deveria tolerar. 

 

A ida de José Luís Arnaut para a Goldman Sachs não me choca rigorosamente nada. Não se pode dizer, desta vez, que alguém mudou de campo. É apenas a conclusão lógica de toda uma carreira. Fazer lá fora o que já se faz cá dentro é o que se lhe pedirá, como administrador não executivo daquele gigante bancário, com participação tão ativa na crise financeira que o mundo vive hoje. Servir de apoio para os principais clientes em todo o mundo, é o que fazem estes administradores. Traduzindo para a realidade: sacar das agendas de contactos e pô-las a render. E a agenda de Arnaut será pequena quando comparada com a de alguns senhores que lhe farão companhia.

 

É isso mesmo que lá fará Otmar Issing. O alemão foi, como membro da Administração do Bundesbank e do Banco Central Europeu, um dos principais arquitetos dum Euro mal parido e da catastrófica política monetária europeia. Ou Robert Zoellick, que, depois de trabalhar no Departamento do Tesouro dos EUA, foi para a Goldman Sachs, da Goldman Sachs para a presidência do Banco Mundial e do Banco Mundial regressou para a Goldman Sachs. No meio, trabalhou para a Enron e teve, como representante dos EUA, um papel central nas negociações para a entrada da China na Organização Mundial de Comércio. Ou Lord Griffiths, antigo conselheiro de Margaret Thatcher, grande amigo, na política, dos interesses da banca e autor da ideia de que devemos "tolerar a desigualdade [promovida pelos brutais bónus dados aos banqueiros] como uma forma de atingir a maior prosperidade para todos". Ou o antigo ministro das finanças sueco, o social-democrata Erik Asbrink, um dos autores dum código de ética empresarial.

 

Mas os caminhos paralelos dos organismos públicos, da burocracia europeia e internacional e da Goldman Sachs são tantos que um texto não chegaria. Basta lembrar Peter Sutherland, ex-procurador-geral irlandês, comissário europeu para a concorrência e com um papel central no vergonhoso resgate à banca irlandesa. Homem que foi diretor não executivo do Royal Bank of Scotland, até este colapsar e ser, claro, nacionalizado. Chegou a diretor não executivo da Goldman Sachs. Ou Mario Draghi, atual presidente do Banco Central Europeu. Antes de regressar ao Banco de Itália foi, entre 2002 e 2005, vice-presidente da Goldman Sachs. Ou o falecido António Borges, que foi responsável do FMI para a Europa e conselheiro do governo português para as privatizações (algumas das que Arnaut também participou). Foi vice-presidente da Goldman Sachs. Ou Mario Monti, primeiro-ministro italiano nunca eleito (e que, depois, nas urnas, não conseguiu mais do que 10%). Foi conselheiro sénior da Goldman Sachs. Ou Petros Christodoulou, que, à frente Banco Nacional da Grécia (privado), e com a ajuda da Goldman Sachs, participou num esquema para esconder o défice do Estado antes da crise rebentar. Começou a sua carreira na Goldman Sachs e a última vez que ouvi falar dele estava à frente da agência governamental da dívida pública grega.

 

Resumindo: em todos os momentos fundamentais da desregulação económica e financeira do mundo e da Europa e da transformação do projeto europeu no monstro que hoje conhecemos encontramos gente da Golman Sachs. Generais, como Otmar Issing, Zoellick, Griffiths, Draghi ou Monti. Ou soldados, como Arnaut. Porque um dos ramos fundamentais da atividade deste colosso é a compra da democracia, pondo os Estados a decidir contra os seus próprios interesses, roubando o sentido do nosso voto e entregando o poder que deveria ser do povo a quem tem dinheiro para o pagar. São um verdadeiro partido invisível, um poder acima das nações que regula as nossas vidas independentemente das nossas vontades. Privatiza o que é nosso, vende lixo aos Estados, armadilha leis, governa em favor de poucos e premeia quem lhe preste vassalagem

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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33 comentários:
JgMenos

Tudo muito certo e muito errado!


 O poder da finança sobre a democracia é antes demais o poder da demagogia sobre a política.


Todo o bicho-careta reclama, exige, declara a urgência de que os Governos façam aquilo para que não têm dinheiro; por outras palavras, reclama, exige e manda com urgência os governos a endividarem-se junto da banca ou sob a tutela desta. Antecipam-se os candidatos a governantes prometendo tudo e mais um par de botas!


Para obterem crédito os Governos precisam de facilitadores que por definição facilitam; o que quer dizer que têm que conhecer bem os processos de decisão das partes em presença ou não facilitariam coisa nenhuma. Mudar de campo é tão natural quanto o é para todo o intermediário, que ora compra ora vende, ora defende ora acusa.


Quanto à feitura das leis, houve em tempo uma Câmara Corporativa que se encarregava daqueles pormenores que só os advogados hoje tratam, e os mais lestos sempre agenciam ou directamente assumem o papel de deputado em part-time!


deixado a 13/1/14 às 11:27
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what?
Trata-se portanto de um problema da democracia e não da finança portanto. Não sei porque é que o santander apresenta sempre um anúncio a oferecer 4500 euros de crédito ao consumo quando se entra no home banking... enfim...


JgMenos
O big brother quer proteger os coitadinhos das tentações...comovente!


what?
Estás a falar da Câmara Corporativa ou da PIDE? podias arranjar alguma coerência... és mesmo triste...

deixado a 14/1/14 às 08:13
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Anónimo
"Mudar de campo é tão natural quanto o é para todo o intermediário, que ora compra ora vende, ora defende ora acusa."

ora rouba reformas, ora aumenta impostos, ora fecha serviços, ora contrata assessores, ora compra mais um BMW, ora volta a aumentar impostos.


JgMenos
Poupem-me ....a pieguice de esquecer causas para esses choradinhos sobre as consequências !


what?
J, poupa as pessoas da tua indigência mental! As causas são os teus amigos anti-democráticos do mundo financeiro, não é a democracia!

deixado a 14/1/14 às 08:19
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Anónimo
as causas?
são a herdade da coelha do teu amigo cavaco, o roubo no BPN do teu amigo dias loureiro, as burlas do teu amigo duarte lima..

deixado a 14/1/14 às 16:35
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JgMenos
Não há uma alma caridosa que assegure uns links a uns respondos numerados com os diversos exorcismos?
001.001 BPN...segue-se a ladaínha
...
001.427 Urbanização da Coelha...
....
Simplificava enormemente


Anónimo
portanto, achas bem esses casos, é isso? .triste moço. Volta para marte


JgMenos
Acho bem que te agarres aos responsos e às ladaínhas em vez de fazeres perguntas estúpidas!

deixado a 16/1/14 às 19:51
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Cravo
Menos: Faz-te falta saber ler. Inscreve-te num horário pós-laboral. Talvez te corra bem. 

deixado a 13/1/14 às 20:21
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" Todo o bicho-careta reclama, exige, declara a urgência de que os Governos façam aquilo para que não têm dinheiro.."

Menos,

Tu estás cada vez mais parecido com o Osgas, o Pançudo, o Fado e cia...

Menos, será o bicho-careta que reclama ou será o politico manhoso que promete em campanha e depois não cumpre????

Isto foi o que foi prometido:
http://www.youtube.com/watch?v=FTxlqcgSGZQ&feature=player_embedded (http://www.youtube.com/watch?v=FTxlqcgSGZQ&feature=player_embedded)
E Isto foi o que aconteceu:
http://www.youtube.com/watch?v=1A7Oh-j8BOU (http://www.youtube.com/watch?v=1A7Oh-j8BOU)

Podes esperniar o que quizeres o factos sºao estes.


JgMenos
«Antecipam-se os candidatos a governantes prometendo tudo e mais um par de botas!»
 
Queres que traduza?


what?
Antecipa-se o JgMenos desculpando os bandidos! Ser bandido é perfeitamente normal, a culpa é de quem está a ser roubado!


Anónimo
desde que o bandido se vista da cor certa ele perdoa sempre. nao é o unico, infelizmente. limitados ha-os de todas cores

deixado a 14/1/14 às 23:31
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what?
Por falar na demagogia do JgMenos e fazendo contas: a taxa de natalidade baixou 7 % em 2013 - parece que o pessoal que emigra está em idade fértil e o que não emigra não tem guitos...

Mais divida, menos capacidade produtiva, menos vindouros é igual a mais divida para os vindouros...


Talvez a solução seja moralizar o mercado e a Câmara Corporativa deverá proibir os anti-concepcionais. Mas tudo o que o mercado oferece é bom...


JgMenos
Considerando a inevitabilidade de dizeres asneiras, só tenho a acrescentar o seguinte:
Quando houver economia regressam os emigrantes, mais os filhos, mais os imigrantes de multiplas origens.
Quem não tem economia não tem nada - e nada a fazer senão fazer as reformas necessárias!


 


what?
Deixa tu de dizer asneiras e de destruir a economia! Há quanto tempo se anda a reformar, com o resultado contrário? Quantos emigrantes de segunda geração viste voltar? No tempo da Câmara Corporativa não havia emigração, não era?

deixado a 15/1/14 às 00:14
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Anónimo
Senhor JgMenos deixe de dizer tanta asneira e exija que o governo acabe com os cortes, pois assim não há, nem haverá economia. Será que é tão difícil para si, ver que não há economia com cortes? É que as duas coisas não casam, por mais que queiram impingir  essa teoria.


JgMenos
É tão difícil para si, ver que não há economia com défices crónicos e dívida crescente?


Anónimo
É fácil, facílimo, porque sem economia continuam esses défices crónicos e a dívida crescente, como é lógico. Viver de cortes e dinheiros emprestados, sem desenvolvimento da economia isso é que não pode ser.
Abra os olhos e mente JgMenos

 

deixado a 16/1/14 às 23:10
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Ricardo
Sempre lesto o lápis azul que apaga a obscenidade moral dos boys laranjas.


Sempre pronto ao frete, sempre disponível para engraxar as botas do dono, sempre atento para lamber e devolver a imaculado o cú gordo do patrão.


Tenha vergonha na cara.


JgMenos
Quando te falta o argumento, logo te foge o pé prá chinela!

És uma besta que não queres saber se eleges deputados que mais não são que paus mandados que mal sabem assinar o nome, e ficas à espera que apareça obra pela mão de tais grunhos?


what?
esses paus mandados analfabetos que o J acha um mal necessário - que coerência...

deixado a 17/1/14 às 11:15
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