Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
por Bruno Sena Martins

Não é achado de maior reconhecer que José Sócrates beneficia da fortuna histórica de suceder ao governo liderado por Santana Lopes. Ainda assim, creio que que este "dado genealógico" não tem sido suficientemente valorizado quando tentamos perceber, por exemplo, porque é que sucessivas evidências de embriaguez autoritária jamais resultam numa indignação generalizada da opinião pública. Veja-se a cavalgante perda de sensibilidade em relação ao que seja o respeito pela liberdade e pelo pluralismo de opinião enquanto bastião da democracia. Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua "relação tempestuosa" com os media seria, naturalmente, a questão do dia. Não é.

É claro que nem tudo deve à bitola legada por Santana Lopes. Sócrates beneficia também dos seus contemporâneos mais relevantes: o descalabro do principal partido da oposição, por um lado, e, por outro, um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc.

Ainda assim, o facto é que em pouco tempo Santana Lopes conseguiu juntar à incompetência governativa - enquanto tecnocrata, gestor e  líder de governo, já não falo como decisor político - uma manifesta tentação autoritária bem sublinhada pelo caso da saída de Marcelo da TVI. Em contraste com Santana Lopes, Sócrates mostra uma óbvia competência governativa - enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo -, tem os seus principais adversários públicos fundados em linhas deontológicas problemáticas, tem o principal partido da oposição convertido em anedota e, com tudo isto, a opinião pública portuguesa parece mais que disposta a perdoar-lhe os pecadilhos autoritários.

Nesta perda de sensibilidade jaz a semente de uma berlusconização em curso: na lealdade ao menor dos males, conforme historicamente definido por Santana Lopes, nenhuma forma de autocracia germina sem a disponibilidade prévia dos governados. Ou seja, a presente complacência com os sucessivos sinais exteriores de autoritarismo representa uma perda de sensibilidade democrática, mais: é um memorando do modo como os princípios democráticos dos governados tantas vezes têm capitulado perante as circunstâncias.

Publicado também em Avatares de um Desejo.

por Bruno Sena Martins
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18 comentários:
cafc
Cara Maria**

Tem todo o direito de defender Sócrates. Mas, se me permite, talvez devesse fazê-lo pela positiva, ou seja, salientar tudo o que entende que ele fez de bom para o País. Ao invés, "fala" dos outros que o antecederam. Vejamos:

1- Do que escreveu, retenho a "famelga" (PSD, se estou a interpretar correctamente) e tudo o que a minha amiga lhe associa;
2- Penso que devia ser mais cautelosa, porque:
a) Sócrates fez a "instrução primária" nessa "famelga". Depois, mudou de "estabelecimento de ensino" até ao grau universitário que "todos lhe reconhecem";
b) Só para citar um, Armando Vara não é dessa "famelga", pois não?

Por um momento, vou pensar que a minha amiga, ao escrever "famelga", queria referir-se aos Partidos responsáveis pela governação do nosso País. Então, não podia tentar excluir o PS, pois não?

"Depois juntam-se os cobardes e os tíbios, e estão feitas as alianças".
Como já me "obrigou" a uma interpretação do que escreveu, importa-se de explicar o sentido desta sua afirmação? De preferência e, como diz o nosso Povo, "chamando os bois pelos nomes".

Cumprimentos.

deixado a 8/2/10 às 18:18
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[...] Bruno Sena Martins, no Arrastão. [...]

deixado a 7/2/10 às 16:37
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SILVA
«Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua “relação tempestuosa” com os media seria, naturalmente, a questão do dia.»
E o que são os media? Uma entidade ética superior ou tão só o reflexo dos interesses dos grupos económicos e as opiniões dos seus jornalistas?
E por que é que hão-de ser eles a marcar o ritmo da vida política do país? Julgam que Portugal é só Lisboa e a vida dos portugueses se resume à comunicação social?
Estou farto de me apresentarem os jornalistas como a reserva ética do país, quando muitos não passam de escumalha.
Quanto ao resto, concordo com o artigo.

deixado a 7/2/10 às 17:57
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JMG
"... um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc."
Ou seja, o jornalismo que denunciou Sócrates estava inquinado, não obstante ter razão; isento de vícios foi o jornalismo que nunca o denunciou. Persigne-se porque logo que o homem caia do cavalo todo o jornalismo aderirá à senda persecutória.

deixado a 7/2/10 às 18:07
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Na politica:

O caso Casa Pia foi cabala
O caso Freeport foi conspiração
A Face oculta é jornalismo de buraco de fechadura…

Mas:
Uma jornalista foi calada
Um responsável máximo de televisão foi silenciado vamos dizer assim…
Um director de jornal foi exonerado.
Jornalista é apelidado e taralhoco, reage e quase que é cilindrado pelo sistema.
Para alem de todas as tramóias e mais alguma que são evidentes no que se vai sabendo…um exemplo??? Os Penedos, os Varas e afins, estão em todas...por certo pura coincidência


Desporto:

Um Jogador bate num árbitro e é comentador
Um Jogador bate no seleccionador e chega a Director
Seleccionador agride jornalista e continua a sê-lo
Atleta bate em director e nada…está tudo bem


Resumindo: Depois destes elevadíssimos exemplo de carácter, achamos que os nossos jovem que formados nas base destas péssimas atitudes são do piorio…
Se calhar até são…mas também são muitooooooooooooooo o meio em que são criados e o meio onde são criados é o que acima resumidamente se relata.

deixado a 7/2/10 às 19:02
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cafc
Tenho momentos em que só consigo escrevinhar a sério. Este, é um deles. E, como sou repetente nesta matéria, transcrevo excertos de uma canção:

"Mais vale ser um cão raivoso
Do que um carneiro
A dizer que sim ao pastor
O dia inteiro
E a dar-lhe de lã e da carne e da vida
E do traseiro
Mais vale ser diferente do carneiro
Um cão raivoso que sabe onde ferra
Olhos atentos e patas na terra.(...)

(...) Mais vale ser um cão raivoso
Que um caranguejo
Que avança e recua e depois
Solta um bocejo
E que quando fala só se ouve a garganta
No gargarejo
Mais vale não ser como o caranguejo
Um cão raivoso que sabe onde ferra
Olhos atentos e patas na terra. (...)"

E, agora, uma canção completa:

"Tem ratos
Tem ratos
Tem ratos
Vivem escondidos
Nos nossos sapatos.

Tem ratos
Vivem escondidos
Nos nossos sapatos
Roem-nos os dedos.

Tem medos
Tem medos
Vivem escondidos
Nos nossos segredos."

(À queima roupa - de Sérgio Godinho).

E, assim, penso que transmiti o que penso.

deixado a 7/2/10 às 19:31
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Maria**
Pois é disso mesmo que se trata, Sócrates mete num chinelo todos esses politicos de pacotilha e de encomenda por medida que andaram a fazer de conta que governavam , enquanto permitiam que os amigalhaços andassem a gamar tudo o que havia.

O problema é que os da pacotilha e os que andam no gamanço pertencem todos á mesma famelga e entre tios primos noivados e vizinhanças protegem-se uns aos outros como de costume.

Depois juntam-se os cobardes e os tíbios,e estão feitas as alianças.

deixado a 8/2/10 às 00:43
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miguel
Gostei da sua análise e, em larga medida, concordo com o que diz.

No entanto, julgo que não explora suficientemente o facto de as "denuncias" de Sócrates ocorrerem, sistemáticamente, em contextos de sanha perscutoria onde a deontologiajornalistica não mora. E explorando este aspecto resulta, para mim, uma pergunta e uma observação.

Pergunto porquê? Porque é que nos últimos 5 anos nunca assistimos a um processo jornalistico que pareça ter origem num contexto equilibrado e rigoroso. è coincidência?

Observo que existe um numero de pessoas que compreende que não assitimos aos "bons" contra o "mau". Os "bons" não são. Têm ódios pessoais, mentem, insinuam, sujam, armam-se em vitimas. Manipulam.
E quem assim observa tem de escolher entre o nosso Berlusconi, que sempre podemos "deseleger" e o poder que não conhecemos, não elegemos e não dominamos.
Como bem dizia o Daniel Oliveira...antes o que conhecemos e elegemos.

è aqui que estou. Quando me parecer garantido que o J M fernandes, o Moniz, a Manuela, o Crespo e o pequeno arquitecto, estão arrumados e não voltam mais...então eu vou gritar para correrem com o Sócrates.
Até lá recuso-me a contribuir para a vitória (?) das hienas.

miguel

deixado a 7/2/10 às 21:04
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Antonio Cunha
Nem Socrates é tão bom nem Santana é tão mau como so pintam. São igualzinhos.

E ninguem me tira da ideia que as pessoas preferirarm votar novamente em Socrates, porque não havia um cadidado que fosse minimamente credivel. E aí a culpa é da Manela.

deixado a 7/2/10 às 19:54
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joaquim azevedo
Pois, Bruno Sena Martins, tem razão. Por mim, o governo pode cair ontem e nem acho que esta seja a razão principal para tal.
Enquanto todos nos divertimos muito a discutir escutas, Mário Crespo, TVI, José Manuel Fernandes, Vara, PT, BPN, BPP, orçamento das bananas da (Ma)Madeira etc, o desemprego aumenta, a prepotência patronal não tem limites e o povo trabalhador cai na pobreza.
E as questões passam a ser estas: Então a miséria das classes trabalhadoras está aí à vista de todos e a malta passa o dia a escrever? Não se arranja nada melhor para combater a burguesia? Que tal convocar o Povo para a rua? Podemos contar com o Alegre ao nosso lado nesta luta contra o Capital? Ou será que já não pretendemos combater o Capital?

deixado a 9/2/10 às 00:14
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