Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
por Bruno Sena Martins


Sendo um bom filme, fico com a sensação de que Estado de Guerra está a ser grandemente sobrevalorizado em função daquilo que seria suposto representar. Cento e trinta e um minutos depois, é lícito supor que tanta reverência e unanimidade só pode dever à ideia que vem sendo cristalizada com a antevisão dos Oscars; reza a dita que o mundo cinematográfico se divide entre os blockbusters (Avatar) e os outros (Estado de Guerra). É bem verdade que, descontado o deslumbre tecnológico, Avatar consegue ser básico até para os padrões de um filme Disney, pelo que, no directo contraponto com o filme de Cameron, Estado de Guerra aparece como se de uma obra-prima se tratasse. Não é o caso.

Ademais, tendo James Cameron e Kathryn Bigelow sido casados, a dicotomia "quem não gosta deste deve gostar muito daquele" tem sido exacerbada por uma directiva tácita: temos que optar pelo membro do ex-casal que convidamos para o nosso aniversário, já que os dois iam dar mau ambiente. Da minha parte, não faço grande questão da presença de nenhum deles.

Reparo agora, crescentemente convencido da bondade da minha tese, que o início texto do Jorge Mourinha no Público expressa, em termos cintilantes, a tal dicotomia (ressalva: fui ler as críticas já depois de começar este texto):
"O melhor filme de guerra em muitos anos e um filme de acção que envergonha 95 por cento dos "blockbusters" americanos recentes."

Em bom rigor, o que é que os blockbusters têm a ver com o assunto? Pois, nada. Por aqui vemos como Estado de Guerra tem surgido na agenda mediática enquanto estandarte possível da oposição - estética e ideológica - aos filmes de massas. O facto é que o imperialismo mediático forjou um perverso Tratado de Tordesilhas. Assim, no vago manifesto que perpassa, consta que devemos abraçar Estado de Guerra com convicção, devemos elegê-lo como sinal inequívoco de que não pertencemos à tribo que se fez nativa do mundo dos blockbusters. Lamento a traição ao regime oposicionista no poder: da dialéctica em apreço, não achei especial graça a nenhum dos espécimes.

Publicado originalmente em Avatares de um Desejo.

por Bruno Sena Martins
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32 comentários:
Sugiro aquele que é o melhor filme de Bigelow, "Strange Days".

deixado a 28/2/10 às 18:35
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João
Também acho que The Hurt Locker (6/10) está a ser sobrevalorizado. Infelizmente, acho que vai ser ele o grande vencedor dos Óscares deste ano (como se já não bastasse Slumdog Millionaire ter ganho o ano passado...).

"Melhor filme de de guerra em muitos anos"? Pff. Esse lugar pertence, sem a menor dúvida, a Letters from Iwo Jima (10/10).

Avatar (9/10) é um excelente blockbuster, que encanta não só pelos seus efeitos especiais, mas também pela originalidade do novo mundo magnificamente criado por Cameron. Embora, sim, a história por vezes enjoe pelos papéis clichezados dos militares maus, capitalistas sem escrúpulos, etc. Mas não é o suficiente para manchar um grande filme como é Avatar.

deixado a 28/2/10 às 18:56
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Joaquim
Assino por baixo!

deixado a 28/2/10 às 19:05
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Antonio Cunha
Vou ver e amanha comento... :)

deixado a 28/2/10 às 19:39
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“Strange Days”, é um excelente filme, mas superado por "Estado de Guerra", este não é um filme, é Cinema a espirrar por todos os poros, com mais mina ou menos mina.

deixado a 28/2/10 às 22:27
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Excelente post porque vai de encontro aquilo que eu penso e que temia tornar público.
Não vi nem tenciono ver o Avatar, peço desculpa.
Tenho muita pena que Precious ou The Messenger não venham a ter nenhum prémio.

deixado a 28/2/10 às 22:55
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Vítor
Eu concordo com a frase de Jorge Mourinha e no entanto gosto de Avatar. Quando Jorge Mourinha escreveu esse texto ainda não tinha estreado Avatar. Este post parece sugerir que Jorge Mourinha não gosta de blockbusters, o que é mentira porque ele gostou imenso do último Star Trek. Eu penso que ele se refere a filmes como aqueles realizados por Michael Bay que só servem para encher o olho. The Hurt Locker estreou em Maio do ano passado nos EUA e foi o filme mais bem recebido pela crítica desde então. Avatar só estreou em Dezembro e as nomeações para os óscares foram em Janeiro. Ainda nem sequer se falava em Avatar e óscares e The Hurt Locker já recebia aplausos. Para isso basta ver a crítica de Eurico de Barros feita em 2008 no Festival de Veneza.
http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=13099

deixado a 1/3/10 às 00:47
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Pedro M Lourenço
é uma questão de dialética, portanto. para não ter gostado do filme, é que não há razões. Não gostou, pronto... É uma razão válida, como qualquer outra. Mas será que valia a pena um post?

deixado a 1/3/10 às 02:16
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É um bom filme de propaganda, mas só para quem nunca foi à tropa! Então aquela cena em que o gajo puxa os fios e descobre as bombas... linda: deu uma imagem com o seu simetrismo! LOL

deixado a 1/3/10 às 11:28
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P. S. Avatar é tão só a pior merda de filme que o Cameron realizou... uma mera parafernália de efeitos especiais em cima do argumento de um western de 5ª categoria.

Como filme de ficção científica é para limpar o cu - excepto para viciados em jogos de PC e outros amantes de tapeçarias...

deixado a 1/3/10 às 11:32
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