Terça-feira, 23 de Março de 2010
por Bruno Sena Martins


Custa-me a crer que alguns dos meus contemporâneos estejam dispostos a embarcar na veleidade de comparar Messi a Maradona. Bem dizia Foucault quando perorava sobre o vício de cada tempo para se achar no epílogo da história:
"[É como se constantemente] vivêssemos num presente de ruptura, num momento grandioso seja de completude, seja de decadência, e assim em diante. Choca-me o viés de solenidade com que o discurso filosófico reflecte  sobre o seu tempo."

Onde está "discurso filosófico" na minha tradução apressada, leia-se "bola". Ao pensar na hipótese de Foucault, sou obrigado a reconhecer que talvez tenha usado aquele mesmo viés para defender a incomensurabilidade de Maradona e Pelé. Não obstante, talvez pela funda consciência de que o meu tempo já passou, cá estou em defesa de Maradona, desta vez para impedir que  malta do "hoje em dia" se arvore em testemunha do "melhor de sempre".

Se acaso desprezo os que intentam comprar Maradona com Messi, o que não deixa de ser verdade, tenho a temperança suficiente para pôr a mão na consciência fazendo notar me movem sobretudo razões emocionais. Não consigo conceber a comparação (ou melhor, concebo quando me obrigam a abjurá-la veementemente) entre Messi, para quem ser genial tem piada e é divertido, e Maradona, um praticante do abismo existencialista, alguém que instrumentalizou o génio para fugir ao pavor cénico de não conseguir vencer tudo sozinho.

Até ver, o génio de Messi consiste em criar a ilusão de que actua numa equipa de jogadores triviais (quando na verdade sempre viveu luxuosamente rodeado de Xavis, Iniestas, Henrys, Ronaldinhos, Ibrahimovics).
Já o génio de Maradona produz uma alucinação bem mais radical: cria a ilusão de que um só jogador pode levar uma equipa (realmente) trivial a qualquer vitória (quando, na verdade, todos sabemos que isso só é possível quando esse jogador se chama  Maradona - Nápoles, México 86 e Itália 90 - se o árbitro não tivesse inventado aquele penalty). Como diziam os antigos, o passado (aquele em que  Maradona viveu) é um campeonato diferente.

Publicado também em Avatares de um Desejo

por Bruno Sena Martins
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41 comentários:
LFM
Sim senhor. I'm impressed!

deixado a 24/3/10 às 00:04
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LAM
Em termos de bola, não. Em termos unicamente de bola Messi tem tudo. Não é, e creio nunca vai ser um Maradona, porque lhe falta um altar. Faltam-lhe páginas na biografia com estórias de coca, putas e escândalos, e sem isso não se fazem deuses.E esse altar, como Maradona, não o vai encontrar num campo de futebol.

deixado a 24/3/10 às 00:23
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Vítor
Quando o Leo Messi chegar aos calcanhares do Zinedine Zidane pode fechar as luzes e retirar-se contente. Quanto ao mais, reconheço razão ao autor do post. Basta recordar que ninguém se lembra hoje em dia dos fantásticos jogadores da selecção austríaca que só não foi campeã do mundo nos anos 30 porque foi anexada pela Alemanha. Na Espanha, ainda se lembram que existiu um génio chamado Alfredo Dí Stefano. Por aqui parece que o futebol nasceu com o Pelé e o Maradona.

deixado a 24/3/10 às 01:05
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eu
Verdade será também que não podemos comparar os defesas de hoje em dia, aos de outrora, no caso de Péle a diferença era abismal, na do Maradona não tanto mas consideravelmente diferente. O futebol de hoje em dia é bem mais competitivo, bem mais intenso, tanto a níveis físicos como tácticos, será então muito difícil fazer uma comparação acertada. Talvez sejam os velhos do Restelo que não querem aceitar que os seus ídolos de juventude, não sejam os melhores.

deixado a 24/3/10 às 02:18
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António Barbosa
Lam ...se calhar o altar a que se refere tem na sua base uma coisa que se chama...carisma...que é coisa que uns têm e outros não..e uns entendem e outros não.
Maradona tem carisma coisa que mesi não tem...da mesma forma Ayrton Senna tinha carisma...coisa que Michael Schumacher nunca teve.
E não vale a pena dizer que não é importante porque é...faz toda a diferença ter carisma e não ter...felizmente que faz num mundo povoado de gente a mais sem aura nenhuma.

deixado a 24/3/10 às 02:35
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ulisses
o Nápoles nem daqui a 1000 anos será novamente campeão italiano

deixado a 24/3/10 às 08:17
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[...] Vi no excelente blog do nosso amigo Arrastão [...]

deixado a 24/3/10 às 08:27
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Bruno Sena Martins
"os velhos do Restelo (...) não querem aceitar que os seus ídolos de juventude (...) não sejam os melhores"

Sim, é por aí. Melhor, também é por aí.

deixado a 24/3/10 às 10:10
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Bruno Sena Martins
Nem mais, como dizia o Ricardo na caixa de comentários do avatares: "Quando o Messi for campeão com uma equipa destas (http://upload.wikimedia.org/wikipedia/it/d/d7/Napoli_1986-87.jpg), então sim, podem começar a falar em "melhor do mundo".

deixado a 24/3/10 às 10:39
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MP
Neste blog, quando se fala de bola, fala-se bem. Quase sempre.

deixado a 24/3/10 às 11:18
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