Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
por Bruno Sena Martins
Boaventura Sousa Santos: O Fascismo Financeiro, Publicado na Visão em 6 Maio de 2010.
"Há doze anos publiquei, a convite do Dr. Mário Soares, um pequeno texto (Reinventar a Democracia) que, pela sua extrema actualidade, não resisto à tentação de evocar aqui. Nele considero eu que um dos sinais da crise da democracia é a emergência do fascismo social. Não se trata do regresso ao fascismo do século passado. Não se trata de um regime político mas antes de um regime social. Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo, promove uma versão empobrecida de democracia que torna desnecessário e mesmo inconveniente o sacrifício. Trata-se, pois, de um fascismo pluralista e, por isso, de uma forma de fascismo que nunca existiu. Identificava então cinco formas de sociabilidade fascista, uma das quais era o fascismo financeiro. E sobre este dizia o seguinte."



O fascismo financeiro é talvez o mais virulento. Comanda os mercados financeiros de valores e de moedas, a especulação financeira global, um conjunto hoje designado por economia de casino. Esta forma de fascismo social é a mais pluralista na medida em que os movimentos financeiros são o produto de decisões de investidores individuais ou institucionais espalhados por todo o mundo e, aliás, sem nada em comum senão o desejo de rentabilizar os seus valores. Por ser o fascismo mais pluralista é também o mais agressivo porque o seu espaço-tempo é o mais refractário a qualquer intervenção democrática. Significativa, a este respeito, é a resposta do corrector da bolsa de valores quando lhe perguntavam o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.

A virulência do fascismo financeiro reside em que ele, sendo de todos o mais internacional, está a servir de modelo a instituições de regulação global crescentemente importantes apesar de pouco conhecidas do público. Entre elas, as empresas de rating, as empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais. As notas atribuídas – que vão de AAA a D – são determinantes para as condições em que um país ou uma empresa de um país pode aceder ao crédito internacional. Quanto mais alta a nota, melhores as condições. Estas empresas têm um poder extraordinário. Segundo o colunista do New York Times, Thomas Friedman, «o mundo do pós-guerra fria tem duas superpotências, os EUA e a agência Moody’s». Moody’s é – uma dessas agências de rating, ao lado da Standard and Poor’sFitch Investors Services. Friedman justifica a sua afirmação acrescentando que «se é verdade que os EUA podem aniquilar um inimigo utilizando o seu arsenal militar, a agência de qualificação financeira Moody’s tem poder para estrangular financeiramente um país, atribuindo-lhe uma má nota».

Num momento em que os devedores públicos e privados entram numa batalha mundial para atrair capitais, uma má nota pode significar o colapso financeiro do país. Os critérios adoptados pelas empresas de rating são em grande medida arbitrários, reforçam as desigualdades no sistema mundial e dão origem a efeitos perversos: o simples rumor de uma próxima desqualificação pode provocar enorme convulsão no mercado de valores de um país. O poder discricionário destas empresas é tanto maior quanto lhes assiste a prerrogativa de atribuírem qualificações não solicitadas pelos países ou devedores visados. A virulência do fascismo financeiro reside no seu potencial de destruição, na sua capacidade para lançar no abismo da exclusão países pobres inteiros.

Escrevia isto a pensar nos países do chamado Terceiro Mundo. Não podia imaginar que o fosse recuperar a pensar em países da União Europeia.

por Bruno Sena Martins
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13 comentários:
Antonio Cunha
Este Boaventura faz-se !!!

Vindo de Coimbra (centro embrionário do BE) tá-se logo a ver o que escorre daquela cabecinha.

deixado a 6/5/10 às 17:28
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Enter to my parlour, said the spider to the fly.

Yep!
:(

deixado a 6/5/10 às 17:48
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João
Ò amigo, quanto muito seria útero que é o sítio onde se desenvolvem os embriões. Mas de qualquer forma não foi em qualquer tertúlia coimbrã, ou mesmo mesa de café que nasceu o BE.

deixado a 6/5/10 às 17:48
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ferreira
uma invetigação ao caso do despedimento colectivo no casino Estoril. A razão é de que a Srª Ministra do Trabalho no dia 12-02-2010 na Assembleia da Républica disse que o caso do casino estoril estava a ser acompanhado com a administração e a comissão de trabalhadores . A verdade é que nunca a comissão dos trabalhadores tiveram esse acompanhamento portanto é falso o que a srª ministra disse e para os milhares de pessoas que nesse dia ouviram foram enganados e agora eu pergunto: Será que vivemos numa sociadade que a mentira do governo é uma verdade para o povo e para os restantes partidos politicos sem haver a preocupação de se investigar que a Srª Ministra do Trabalho actua com o que diz numa casa que deve ser respeitada por todos a Assembleia da Républica.
O mais grave é que uma semana atraz quando a comissão de trabalhadores anuncia aos média que no dia 2010-04-14 vai entregar no Tribunal de Cascais uma providência cautelar, visto que da parte das entidades competentes nunca houve interesse em resolver tal caso e que a Srª Ministra do Trabalho que tanta preocupação tem com o desemprego nada faz.
Acontece que no dia seguinte ligaram para a comissão de trabalhadores da parte do Ministério do Trabalho para no dia 2010-04-20 apresentarem-se no ministério para resolver a situação.
Qual o espanto que no dia 2010-04-20 a comissão de trabalhadores se apresentou no ministério julgando que havia já uma resposta do Gabinete da Srª Ministra visto o caso remontar no inicio do mês de Fevereiro. Meus Srs o inesperado aconteceu não tinham nada a dizer como ainda perguntaram o que passa com o casino estoril.

deixado a 6/5/10 às 18:02
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[...] This post was mentioned on Twitter by Rede TubarãoEsquilo. Rede TubarãoEsquilo said: Ler: Boaventura Sousa Santos: O Fascismo Financeiro, Publicado na Visão em 6 Maio de 2010. “Há doze anos publiquei... http://bit.ly/bk8ej5 [...]

deixado a 6/5/10 às 18:47
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Libertário
O que estamos a assistir não é fascismo financeiro, é FASCISMO ESTATAL.
Não foram as agências de rating que criaram o euro, foram os burocratas estatais.
Não foram as agências de rating que obrigaram os países pobres da UE a entrar no euro impedindo-os de manipular a moeda consoante as necessidades do seu desenvolvimento. Foram os incompetentes governativos do estado.
Não foram as agências de rating que decidiram esconder as reais contas gregas. Foi o estado grego.
Não foram as agências de rating que fizeram o estado grego ter a maior despesa militar per capita da europa. Foi o estado grego.
Não foram as agências de rating que esbanjaram biliões de euros durante décadas em projectos que premiaram apenas uma elite corrupta. Foi o estado.
Não foram as agências de rating as culpadas pela mesquinha falta de solidariedade entre os estados membros do euro. Foram os estados.
Não foram as agências de rating que premiaram um exercito de funcionários públicos cuja única função é criar burocracia para outros funcionários com 15 meses de salários por ano, ,bem acima da média e reforma aos 54 anos.
Não foram as agências de rating que elegeram sistematicamente um bando de corruptos para governar o estado.

deixado a 6/5/10 às 19:03
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Em tempos trabalhei no Casino Estoril, como também trabalhei noutras empresas, enquanto estudava à noite, uma vez que tinha que ir para a Guerra, que tivesse um posto, que me permitisse não só ganhar mais algum dinheiro, como também aplicar as lições que a vida me ia dando. Lembro-me do no Casino Estoril trabalhar com um algarvio, como eu, que foi prisioneiro na Índia, como o foi o Coronel José Rolita Correia Caniné, que escreveu um livro de poesia, onde em determinada página se lê algo sobre a democracia, fica aqui uma quadra do nosso Coronel:-”É boa a democracia/quem é que diz que não/senão não se sabia/que havia tanto ladrão!”
SER LADRÃO
Anda cá ó meu ourives
dá-me já esse teu ouro
mato-te logo, não vives
tu és meu bom tesouro!
-
eu faço parte dum gang
desse o da mão armada
com simples bang bang
fica esta mala recheada!
-
eu levo-te todas as jóias
o ouro que tens e prata
e fecha todas clarabóias
vê como ladrão te trata!
-
dou-te logo uma facada
fica teu sangue a jorrar
com a arma engatilhada
eu já acabo por te matar!
-
ourives e a companheira
no estabelecimento estão
lá pegam numa caçadeira
truz, truz, matam ladrão!
-
pode-se dar um inverso
de ser um ladrão a matar
e não há lei no universo
deste Portugal sem par!?
-
se for o caso contrário
em qu'o ladrão se mata
o ourives, pobre otário
vende seu ouro e prata!
-
é o atentado à liberdade
e o atentado a uma vida
e o deixam na realidade
com esperança perdida!?
-
nunca mates um ladrão
nem lhe atires a matar
porque as leis da Nação
são feitas p'ra nos lixar!
-
e do Banco de Portugal
roubaram umas toneladas
que um António genial
teve de Cruzes gamadas!
-
já ouvi contar a história
de um Pai para seu filho
qu'o Fisco é uma glória
roubam-te todo o “milho”!
-
à Grécia eles emprestam
e te retiram um subsídio
Pátria filhos não prestam
são tratados com'ovídeo!
-
e há ladrões por aí fora
que roubam tudo que há
deixam este povo á nora
ser ladrão é que cá dá!?
-
Pisco

deixado a 6/5/10 às 23:20
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Se ainda não, lê: A Democracia Totalitária, BAUMIER, Mathieu, Publicações Europa-América, 2007.

E: A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?, LOURENÇO, Eduardo, Gradiva, 2009.

(Se quiseres mais... tenho umas centenas...)

A questão essencial não é apontar maleitas pontuais - é sim repensar toda a questão Direita/Esquerda no contexto pós-moderno da «morte das ideologias». É a isso que me dedico de há 5 anos para cá.

Entre muita coisa, destaco: o sistema económico em que estamos, em rigor, já não é capitalismo; é um monstro híbrido, que, grosso modo, resultou da «marxização» do capitalismo, ou seja, o sistema capitalista foi-se defendo do marxismo e mudando, para sobreviver enquanto capitalismo; a «consertação social» é um dos exemplos - nada há mais anti-marxista, é a anulação da própria luta de classes enquanto motor da história, por uma espécie de «regatear de praça» entre patronato e sindicatos (?, leia-se «novos chulos do proletariado» LOL).

Claro, e depois tens esta múmia em forma de democracia burgueso-«liberal-social» (que de liberal nada tem, apesar de gostarem de a insultar de neo-liberal), a salvar a banca privada com dinheiros públicos (nada há mais anti-capitalista, e nada tem que ver com economia socialista; de social, nada tem), invocando minorar danos sociais!

Etc, vou mas é beber um copo, que hoje já tive a minha dose de política, com gagás salazaristas, nazis vermelhos anarco-nacionalistas, e outros pândegos...

deixado a 6/5/10 às 23:56
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Manolo Heredia
As famílias, os municípios, os estados, todos a viver à tripa-forra com dinheiro emprestado, a juros baixos.
Agora, que toca a pagar, é que chegam as dores-de-barriga!
Percebe agora a falácia dos "juros baixos para dinamizar a economia": mais um conto-do-vigário!

deixado a 7/5/10 às 00:38
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Que enorme estupidez...

deixado a 7/5/10 às 10:51
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