Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
por Bruno Sena Martins


Quando nos damos conta dos extremos de agressividade por que se pautam as políticas militaristas do Estado de Israel, uma das explicações mais pertinentes refere ao modo como embriaguez torcionária se alimentou do estatuto de imputabilidade que, muito graças aos Estados Unidos, foi sendo cavado na arena internacional. No entanto, há outras questões e outras respostas que merecem ser contempladas. Para começar, esta pergunta aparentemente ingénua: "Como é possível que o povo judaico, depois de tudo o que passou, seja capaz de sujeitar as populações palestinianas a tal humilhação e espezinhamento?"

Podemos responder, claro, com a ferocidade defensiva que começou por ser essencial à própria existência do Estado de Israel, e que haveria de se converter numa ferocidade preventiva/opressiva que, incapaz de tomar em conta a desproporção das forças em conflito, configura a vitória sobre os palestinianos em termos que dramaticamente se aproximam da aspiração, militarmente sustentada, ao seu aniquilamento (reduzir a nada/nihil).

Mas deverá ter sido em conta um facto, frequentemente negligenciado, do inconsciente colectivo judaico. Após o Holocausto, quando todo o mundo apontava o dedo à ignomínia alemã, teve lugar uma outra culpabilização menos conhecida. Muitos judeus acusavam as próprias vítimas do Holocausto ― e não pode haver acusação mais vil e injusta ― de terem caminhado para as câmaras de gás como cordeiros para o matadouro, sem resistência. Esse sentimento, essa perversa culpabilização da vítima, veio a dar lugar à convicção de que jamais se poderia dar um palmo possibilidade ao inimigos: "jamais cordeiros". Creio que esse sentimento, incorporado como resposta à insana culpabilização da vítima do Holocausto, permite explicar a muita da ferocidade e da intransigência com que os inimigos, já dobrados, continuam a ser tratados. O "nunca mais" impede Israel de reconhecer o povo palestiniano como o parente próximo das atrocidades que no passado vitimaram os judeus, o "nunca mais" impede Israel de se perceber como carrasco, o  "nunca mais"  impede Israel de compreender que nenhuma paz se cumprirá cortejando as condições de possibilidade  para o aniquilamento  de um povo.

por Bruno Sena Martins
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51 comentários:
Sim, será mais uma explicação parcial para o complexo "todo" de uma situação insustentável e que terá de ter um fim quanto antes.

deixado a 2/6/10 às 12:05
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LGF Lizard
Os árabes e os palestinianos nunca aceitaram a criação de Israel. Além do mais, nunca os israelitas teriam lutado se os palestinianos quisessem mesmo a paz.

deixado a 2/6/10 às 13:54
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Ontem ouvi uma frase, que noutra altura faria com que me "saltasse a tampa" e à qual não reagi, não concordo minimamente com o conteúdo da frase, mas pergunto-me porque é que não reagi, de tão aviltante vou escusar-me a reproduzi-la.

deixado a 2/6/10 às 12:26
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Gostei dos mapas.
Falta aquele em que mostra Israel dono do Sinai após uma guerra que lhe moveram (curioso tinha a ideia que era sempre Israel o primeiro a atacar) e que ganhou.
Cá na minha território que se perde numa guerra é território perdido.
Os mouros sabem perfeitamente que lhe aconteceu isso aqui em Portugal.

deixado a 2/6/10 às 12:46
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Peço desculpa tenho uma dúvida que o senhor vai tirar.
Estavam ambos muito quietos naquele mapa que tem muito verde e porque é que de repente parte do verde desaparece?

deixado a 2/6/10 às 12:48
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LMr
Mas que diabo de "país" é esse, assinalado a verde? "Palestina"? E existia já há tantos anos. Hmmm.

deixado a 2/6/10 às 12:51
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Fado: Resolução 181 da ONU diz-lhe alguma coisa, Fado Alexandrino?

deixado a 2/6/10 às 12:56
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Daniel Oliveira
2 Jun 2010 às 12:56


Não, não me diz nada nem responde á pergunta.
O que já me diz muita coisa é o seu afã (ainda vai terminar em cônsul honorário do Hamas) em vir responder onde não foi chamado.
Tem receio que o seu colega de blog se engasgue com as questões?
Cheira-me assim um bocadinho a paternalismo.
Eu, se fosse a ele não gostava.

deixado a 2/6/10 às 13:02
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fado alexandrino,
Se não lhe diz nada quer apenas dizer que não está minimamente preparado para ter este debate. Informe-se. Não custa nada.

deixado a 2/6/10 às 13:03
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Lúcio
Fado

A sua pergunta era retórica e toda a gente o percebeu - mesmo quem finge ignorar que a "redução do verde" foi o perverso resultado conseguido por quem, 3 vezes, tentou aniquilar pelas armas o vizinho...

deixado a 2/6/10 às 13:04
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