Quarta-feira, 23 de Junho de 2010
por Bruno Sena Martins
[caption id="" align="alignnone" width="400" caption=""Isto não é um hambúrger""][/caption]

Muitos acólitos salivares defenderam que a vitória contra a Coreia do Norte não poderia deixar de representar o esmagamento daquela monarquia comunista pelo capitalismo,  mais: tamanho arraso teria ficado sintetizado pelo modo como Simão festejou o segundo golo com a dança do Hambúrguer ("BigMacMacLocoBigMac", ao que parece), no fundo, coreografia de um oportuno piscar de olho de Simão a mais uns trocos do seu patrocinador, a Mcdonalds.

Mas, devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, coisa para a qual não tenho tempo, se bem que possa adiantar que jamais cederei à chantagem moral de torcer por uma equipa que apresenta a Unicef como patrocinador, que jamais me inibiria de torcer pela Coreia do Norte face ao mal vestir do Dunga, que não acredito na hipótese de que a França tenha sido justa vítima da ignomiosa mão de Henry (a França foi apenas um equipa que, incapaz de fazer frente à ilegitimidade pública da sua qualificação, sentiu o secreto desejo de se boicotar, de algum modo a selecção francesa teve demasiados pruridos morais para poder levar o crime até ao fim, pelo que jogadores, dirigentes, treinadores não foram minimamente castigados, serviço a que o futebol raramente se presta, antes se suicidaram em fundo remorso, provavelmente por serem demasiado boas pessoas),  devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, dizia, o que fica para a posteridade, do ponto de vista simbólico, é o modo como o gesto de Simão veio colonizar um festejo há muito estabelecido nos relvados, refiro-me ao coração que os jogadores costumam dedicar lá para casa, deduz-se, às suas senhoras.

Senão recorde-se: depois do golo do Simão, Hugo Almeida e Liédson celebraram os seus golos fazendo ternos coraçãozinhos com as mãos, mas o comum adepto, condicionado pela publicidade do Simão, já só consegue ver tenros hambúrgueres onde antes estava o eterno amor à mulher do Liédson. Portanto, quando muito, o jogo contra a Coreia é  uma cintilante expressão de como, uma vez mais, o capitalismo vingou em colonizar a utopia do amor.

por Bruno Sena Martins
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41 comentários:
Realmente o marketing de massas é uma coisa poderosíssima, quase uma bomba atómica.
Se calhar teremos q actualizar Einstein e afirmar que E=mc2 tb é válido para os factores
(E)xistence, (m)oney e (c)elebrity.

deixado a 23/6/10 às 14:39
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Grunho
Hambúrguer? Prefiro um bife. Até mesmo um bitoque.

deixado a 23/6/10 às 14:41
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Não sei bem se concordo, mas gostei bastante de ler.

deixado a 23/6/10 às 15:17
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cafc
Não vou procurar mais. Por agora, "contento-me" com:

http://www.youtube.com/watch?v=uabNJD064eg&feature=related

Se não tiver alguma "coisa a ver" com a mensagem do post, que se "lixe". Para mim, tem.

Viva a Utopia do Amor!

Carlos

deixado a 23/6/10 às 15:31
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"(...) Hugo Almeida e Liédson celebraram os seus golos fazendo ternos coraçãozinhos com as mãos, (...) já só consegue ver tenros hambúrgueres onde antes estava o eterno amor à mulher do Liédson.

Porra, o Hugo Almeida a declarar amor eterno à mulher do Liedson?
Ele pode não gostar de ter um brasileiro na selecção, mas não se faz isso a um colega!

deixado a 23/6/10 às 15:44
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Pedro Lourenço
No futebol não há capitalismo, socialismo, fascismo. Pode haver anarquia, mas da selecção francesa já se falou bastante ;)

Há dinheiro a rodos, claro, capitalismo exacerbado, transferências milionárias, contratos publicitários. Mas isso é consequência do mundo em que vivemos.

E se querem saber, para mim, anti-capitalista convicto, apologista da decência, se há actividade em que o capitalismo é menos pernicioso, essa actividade é precisamente o futebol. Não tanto nos efeitos que o capitalismo no futebol tem nas outras modalidades, em que o futebol se torna numa espécie de eucalipto que seca tudo em seu redor. Mas isso é matéria para outra discussão.

Mas o capitalismo no futebol tem muitas vantagens e quase não encontro desvantagens.

Gostaria apenas de recordar um episódio que serve para demonstrar que não vale a pena tentarmos misturar futebol com política porque ambos são como o azeite e água. Por muito que se queira e se tente, nunca se consegue misturá-los.

Por alturas do México 70, o Brasil vivia sob uma ditadura. Ora, o regime militar brasileiro usou naturalmente a selecção nacional como forma de promover o país e, consequentemente, o regime. No dia da final, conta um ex combatente brasileiro na clandestinidade, estavam alguns combatentes, todos eles clandestinos, a acompanhar o jogo pela rádio. "Estavamos todos a torcer pela derrota do Brasil, que significaria a derrota do regime. Eis que o Brasil marca. Gritámos todos golo e comecámo-mos a abraçar, a saltar e a dançar."

Ninguém mais que aqueles combatentes queria a derrota do regime. Mas, na hora da verdade, não foram capazes de ficar tristes ou desapontados com a vitória do seu país. Pelo contrário, a vitória encheu-os de alegria.

Por muito que actualmente o futebol seja uma actividade milionária, o seu encanto nunca irá desaparecer. Por muito que se ponha em causa o "amor à camisola" e as reais motivações dos jogadores, certo é que, uma vez em campo e ouvido o apito inicial, são 11 contra 11, e cada vez mais é possível a um 11 pobre triunfar sobre um 11 rico.

Essa imprevisibilidade é a razão pela qual o capitalismo nunca conseguiu derrotar o futebol. E dessa forma, o futebol consegue usar o capitalismo e extrair dele o que de melhor ele pode dar, nunca se deixando corromper pelos seus malefícios.

deixado a 23/6/10 às 15:57
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Alexandre Carvalho da Silveira
Sr Daniel Oliveira, que belo post. A ultima frase então é de uma profundidade que nos encandeia.

deixado a 23/6/10 às 16:00
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FS
Parece-me a mim que o Hugo Almeida e o Liedson fizeram corações, mas que o Simão fez mesmo o hambúrguer... ou foi mesmo isto que o bruno disse, mas de uma forma politico-moralmente intrincada?




Melhor só mesmo o "L" (de Luciana) do Djaló....

deixado a 23/6/10 às 16:00
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Alexandre Carvalho da Silveira
Apresento as minhas desculpas ao Sr Daniel Oliveira, porque não foi ele que escreveu a prosa acima.
Dirijo-me então ao Sr Bruno Sena Martins.

deixado a 23/6/10 às 16:03
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Bruno Sena Martins
Ironia, apresento-lhe Alexandre Carvalho Silveira, Alexandre Carvalho Silveira, Ironia.

deixado a 23/6/10 às 16:32
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