Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
por Bruno Sena Martins
[caption id="attachment_19574" align="alignnone" width="400" caption="REUTERS/Andres Stapff"][/caption]

Compreendo a excitação com o golo do van Bronckhorst, mas, na minha humilde opinião (vá, nem tanto assim), o melhor golo do mundial continua a ser o do Quagliarella contra a Eslováquia (não confundir com a Eslovénia -  até porque desconheço algum golo marcado pelo referido jogador contra esta selecção da ex-Jugoslávia). Justifico a minha opção por duas razões, a prosaica, o golo é extremamente belo sob diversos pontos de vista, alguns deles relacionados com tendências recentes na dança contemporânea; e a fenomenológica, aquele golo é marcado por um homem em trânsito para Roma. A poucos minutos de ouvir Lippi desejar-lhe umas excelentes férias na Malásia, Quagliarella executa uma modalidade menos costumeira do desespero. O desespero, como nos conta a história militar, apela a superação e à convocação das últimas forças normalmente vertidas em momentos de raiva individual (remates fulminantes, cavalgadas para a linha, mergulhos contra porta-aviões, insultos à mãe do poeta) ou em actos de racionalidade colectiva que, afinal, constituem a expressão táctica do "nada a perder" e o aproveitamento do pavor semeado por experiências sociais como a que tomou lugar em Camp Nou, decorria o ano de 1999 (aqui falamos do clássico chuveirinho, da subida do guarda-redes à área, ou, noutros tempos, do ingresso do Vinha em Campo). O chapéu do Quagliarella sequer é comparável à utilização de panenkas em penalties decisivos, gesto que não resulta de mera loucura individual (excepto no caso do Postiga) mas da consciência acerca da substrato motivacional do guarda-redes naqueles momentos: instruídos no heroísmo de Goycochea, mexem-se invariavelmente, perscrutando a glória em estiradas elegantes, e não admitem a possibilidade de que o maior esforço a ser feito pela pátria possa consistir em permanecerem quietos. Já  o golo do Quagliarella não parte de nenhum pressuposto racional acerca do terror ou do desejo de glória do adversário, é o gesto de um homem indignado com a possibilidade de não conseguir explicar de outra forma a injustiça pressentida ao imaginar, dali a uns minutos, o abraço consolador do Materazzi.

Publicado também em Avatares de um Desejo.

por Bruno Sena Martins
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11 comentários:
Bruno Sena Martins
:) shame on me, caro Aristides. abraço

deixado a 7/7/10 às 22:56
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