Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
por Bruno Sena Martins
Como sucessor de Manuela Ferreira Leite, um sério desastre político, Passos Coelho teria sempre muitas dificuldades em desiludir aqueles que há muito o tinham por certo na presidência do PSD. E, diga-se de passagem, Passos Coelho teve também algum mérito no crédito que foi granjeando: mostrou uma postura de honestidade, mostrou sentido de Estado quando ele foi necessário e mostrou ser capaz de levar o debate para além das suspeitas sobre a culpabilidade criminal de José Sócrates.

Da minha parte, lá lhe fui reconhecendo mérito político, ao mesmo tempo que me perguntava se uma fortíssima agenda ideológica neoliberal teria sido apenas um estandarte de campanha ou algo que definiria a matriz da sua oposição e eventual governação. A questão é tão mais premente dado que entre a primeira candidatura (contra Santana Lopes e Ferreira Leite) e a segunda se deu a crise mundial, sublime atestado da da embriaguez ideológica que conduz os apologistas da desregulação, do menos estado e do livre curso das forças económicas. A avaliar pelas atoardas sobre o Sistema Nacional de Saúde, Passos Coelho tampouco se comoveu com o facto de os Estados Unidos se terem disposto a repensar o seu sistema ao encontro de uma protecção universal que tantas provas tem dado (na eficiência e no investimento per capita do Estado). Chegamos à conclusão que Passos Coelho acredita num selvático neoliberalismo e não deixa que a realidade atrapalhe a pureza das suas ideias.

Nas propostas relativas à revisão da constituição fica, além de uma olímpica trapalhada, a impressão de um fervor ideológico demasiado incandescente para que Passos Coelho sequer conseguisse ponderar em algumas coisas básicas: não é pela constituição que se definem políticas económicas, as alterações ao sistema político não se fazem com esta leviandade, tratar-se-ia sempre de uma agenda com pouco apoio popular e sem hipóteses aprovação parlamentar.

Nesta semana Passos Coelho hipotecou de tal forma o seu futuro político que vale a pena indagar a que se deveu esse bizarro voluntarismo: inépcia política e fervor ideológico são as respostas mais óbvias. Eu tenho uma terceira: ao candidatar-se Passos Coelho terá recolhido apoios que o comprometeram na afirmação de uma agenda estranha ao próprio mainstream do PSD e pouco lógica na definição de uma oposição ao PS de Sócrates. Passos Coelho não é um ideólogo, é alguém que se fez eleger como representante das forças do mercado indígena e que, portanto, utiliza a ideologia para se legitimar perante os seus pais políticos. Passos Coelho fez um frete e à custa dele passou por uma semana de vergonha histórica. Resta saber se Passos vai para continuar a fazer de menino de recados ou se ganha coragem para matar o pai, permitindo-se, quem sabe, a uma relação menos afectada com a realidade.

Publicado no Aparelho de Estado.

por Bruno Sena Martins
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38 comentários:
mário borges
A ironia da ironia por escrito é que a maior parte das vezes ironicamente não é mesmo perceptível.
Daí a dizer que eu não sei o que é ironia deixa de ser ironia e ou é piada ou é confronto.

deixado a 23/7/10 às 16:08
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Joao da Silva
Em relacao ao sr. PPC nao tenho nenhuma opiniao, porque nao o conheco, e nao ha memoria de algo que tenha feito. E quanto a escritos, so aquele insonso rol de banalidades que editou em livro.
Mas quanto ao seu mentor, um tal de angelo, desse tenho opiniao, eh um grunho que tem as maos sujas de sangue.
Digo isto, porque estava na Av. dos Aliados no Porto, naquela noite de 30 de Abril para 1 de Maio de 1982, e vi serem assassinados Pedro Vieira e Mario Emilio Goncalves.
eu vi o assassino a disparar na cara do Mario, que espreitava os acontecimentos, e como o sniper esperou cobardemente ate o atingir na face.
Gritei-lhe assassino, e fui barbaramente espancado por meia duzia de "valentes" da intervencao vindos de lisboa, a mando do agora todo-poderoso da empresas de seguranca.
Que ate hoje continua impune e nunca foi condenando nem politicamente.
o PPC tem como mentor um covarde. que mais tarde ou mais cedo ha-de pagar por os seus actos.

Espero que o Daniel deixe passar este comentario,
pois como calcula quando vejo ou ouco falar de tal coisa, fico mais que fodido.

Cumprimentos

deixado a 23/7/10 às 11:03
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Como a Argentina no «Mundial», Passos Coelho passou, numa semana, de fulgurante "promessa" a decepcionante "já era"...

deixado a 23/7/10 às 11:14
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João Silva
Mas alguém duvidava da vacuidade deste moço? O problema é que as forças que o suportam aliadas à voracidade de um aparelho sedento de lugares e "negócios" e a uma comunicação social totalmente (com honrosas mas muito poucas excepções) vão conseguir apagar isto e pô-lo a mandar neste triste e desgraçado País.

deixado a 23/7/10 às 11:50
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João Silva
Mas alguém duvidava da vacuidade deste moço? O problema é que as forças que o suportam aliadas à voracidade de um aparelho sedento de lugares e “negócios” e a uma comunicação social totalmente (com honrosas mas muito poucas excepções) ao serviço do poder vão conseguir apagar isto e pô-lo a mandar neste triste e desgraçado País.

deixado a 23/7/10 às 11:52
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Pedro Lourenço
http://www.bloomberg.com/news/2010-07-21/gold-makes-dead-portuguese-dictator-top-investor-without-gains-to-prove-it.html

Vendam o ouro do Salazar e atirem as propostas do PPC pela janela. E a seguir o próprio PPC e restante comandita.

deixado a 23/7/10 às 11:52
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vitor
Um marxista-leninista a criticar alguém porque "não deixa que a realidade atrapalhe a pureza das suas ideias". Quando uma pessoa pensa que já ouviu tudo...

deixado a 23/7/10 às 12:08
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Nesta semana Passos Coelho hipotecou de tal forma o seu futuro político

Não restam dúvidas.
Está a assustar fortemente a esquerda.
Tem futuro.

deixado a 23/7/10 às 12:15
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Rui F
Correcto Bruno

Mas agora aparecem as desculpas: "isto é um documento para se ir pensando, sem stresses"
Até o PsemS já prometeu pensar no assunto após as presidenciais.

Mas não deixa de ser curioso é o facto da proposta ter sido pensada por um apoiante da causa monarquica dentro dum partido basicamente republicano.
Até parece que não tinham mais ninguem.

deixado a 23/7/10 às 12:20
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pedro
a análise politica virada para o próprio umbigo dá nisto.. pensar q o PPC está a tentar ser presidente (ou lá o q se chama) do Bloco..

mas esta tirada é q me baralhou (considero como altamente possivel ser apenas o meu intelecto n estar à altura do argumento) :

"não é pela constituição que se definem políticas económicas"..

mas voçê já leu a constituição? já lá viu os capitulos sobre política económica, comercial, agricula até!?!? já leu a parte sobre os latifundios? axa q isto deve estar numa constituição?
a ideia de "neutralizar" a constituição na sua vertente económica parece-me ser (n sou constitucionalista) uma das propostas centrais desta proposta de revisão..

como pode , simultaneamente considerar a tendencial (nunca perfeita) neutralidade constitucional ( "não é pela constituição que se definem políticas económicas") uma "fortíssima agenda ideológica neoliberal " ?!?

nada impediria q o bloco, uma vez eleito pra formar governo, decidisse de sua justiça sobre as mais variadas matérias, revertendo ou anulando esse suposto "neoliberalismo" e nos levasse para outras latitudes políticas..

só n percebo é pq e q a constituição deve ser um programa de governo quando nem voçê concorda com isso!!!

deixado a 23/7/10 às 12:20
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