Domingo, 1 de Agosto de 2010
por Bruno Sena Martins

"O argumento de que a vida moderna assenta numa dieta de horrores que nos corrompe e a que gradualmente nos habituamos é uma ideia inaugural da crítica da modernidade ― sendo a crítica quase da mesma idade da própria modernidade." Susan Sontag

A recente capa da Time representa Aisha, uma jovem afegã barbaramente mutilada após ter fugido de casa dos sogros que a maltratavam. Percebe-se a polémica trazida pela publicação desta capa; em causa está, primeiro, a violência da imagem. Ao incómodo causado pela mutilação, pelo modo como através da empatia trazemos a mutilação para casa (para os nossos corpos, para os corpos que nos são familiares), acresce o impacto de vermos uma mutilação infligida num corpo em que reconhecemos a marca da  juventude e de uma beleza dilacerada:  "todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são, até certo ponto, pornográficas" (Sontag). Na nossa semiótica,  uma imagem análoga representando uma mulher idosa teria menor efeito de choque. Há ecos deste torpor na força romântica que Allen Poe encontra  no tema da morte de uma mulher bonita, em "Annabel Lee", por exemplo:
"For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;"

Ou seja, os sonhos acossados são-no também pela imagem de uma beleza proscrita.

Em segundo lugar, a imagem colhe a nossa atenção como estandarte de um manifesto político: "O que acontece se deixarmos o Afeganistão", lê-se na capa (Aisha foi recolhida por uma organização humanitária e estará em trânsito para os EU onde será submetida a uma cirurgia reconstrutiva). Não discuto o uso político de imagens e o seu papel de denúncia (fiz o mesmo há uns posts atrás a propósito das touradas), podemos é discutir, como faz Sontag acima, em que medida a exposição a imagens choque deve ser ponderada, caso a caso, sob perigo do efeito choque se ir perdendo à medida que a trivialização das imagens de horror torna o horror num trivial facto da existência.

Publicado também em Avatares de um Desejo.

por Bruno Sena Martins
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43 comentários:
j.s
Esta capa é um dos maiores exemplos de desonestidade que já vi. Isto não é que se passaria no Afeganistão se os americanos saíssem, isto é o que acontece no Afeganistão com os americanos lá, o que só demonstra a futilidade da guerra.

deixado a 1/8/10 às 15:54
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simon
Aquilo no Iraque é só estátuas yankys, por acaso, que ainda há dias fui lá de passeio e era a dar co pau de obamas e bushs a cada esquina.
E no mais é aquilo tudo, ao fim da festa, um paraíso.
Que até me alembra o resendes, serviçal invasor, o yanky cawboy, mais forte, ladrão à força, e digo, oh, vão lá tecer loas a quem merece, não a serviçais sem carácter.
E está vendo ao que vai dar a sua posição de encomenda, ó Cunha?
Mas é a verdade.

deixado a 3/8/10 às 16:01
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Emanuel
O debate não devia passar pela guerra mas pela cultura. A questão é: devemos interferir numa cultura em nome da nossa própria cultura??? Claro que estamos perante um caso horrível de desumanidade. Nem discuto. Mas devemos nós, ocidentais, impôr a nossa visão??? Uma coisa é dentro do nosso país e com o poder dos votos, impedir touradas ou minaretes. É democrático, é legítimo. Outra coisa é pensarmos que podemos interferir numa outra cultura, para impôr a nossa visão do mundo por muito correcta que pensemos ser.
Penso que este é um dos grandes debates que vai atravessar o séc. XXI. Confesso que não tenho resposta para ele, embora desejasse que o mundo não tivesse mais Aishas!

deixado a 1/8/10 às 17:01
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j.s
A questão cultural resume-se a saber se os direitos colectivos de um povo se sobrepõe aos direitos individuais.

deixado a 1/8/10 às 17:27
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da Maia
Bruno,
excelente questão a que levantas!
Se habituarmos as crianças a imagens de violência, arriscamos a essa indiferença.
Há um tempo para aprendermos a sonhar, e um tempo para constatar as cruezas e dificuldades da vida que experimentamos.
Quem é habituado a touradas não sentirá a crueza no espectáculo... mas se a criança associar um simpático touro de desenhos animados, ao animal que vai ser torturado num espectáculo para multidões... aí as coisas começam a ser diferentes.

deixado a 1/8/10 às 17:55
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GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
Apercebem-se desta realidade e continuam a defender Burkhas e Niqabs.

Um mínimo de coerência é fulcral para manter a credibilidade do vosso discurso político..que mantenho...tem os seus pontos fortes.

deixado a 1/8/10 às 18:26
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A seguirmos o raciocínio do Emanuel, o canibalismo, a lapidação, a escravatura, os pogroms e as câmaras de gás, por serem uma expressão de cultura, não deveriam ser reprimidos. Há lá algo mais cultural que os massacres do Ruanda e de Serebrenica, foda-se!
E, ó Emanuel, poderá ser democrático proibir-se as touradas e os minaretes, mas de legitimidade duvidosa, para dizer o mínimo.

deixado a 1/8/10 às 18:29
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Navegante
Mais uma razão para que se impeça a entrada de certas culturas e certos costumes na Europa. Começam com burkas e niqabs e pouco a pouco estão a mutilar jovens por motivos morais e religiosos

deixado a 1/8/10 às 18:41
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Bruno Sena Martins
"isto é o que acontece no Afeganistão com os americanos lá"

É bem visto, embora nada indique que as coisas melhorem com a saída dos americanos.

deixado a 1/8/10 às 20:21
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Acontece no Afeganistão e acontecerá em todos os países onde os sere humanos não forem livres de mostrar o rosto.
O que ocultarão burkas e niqabs?

deixado a 1/8/10 às 20:36
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