Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
por Bruno Sena Martins
"Terá de existir a propriedade privada de grandes obras de arte, acompanhada de tudo aquilo que essa propriedade acarreta de riscos materiais, de cobiça, de exclusão das correntes do pensamento e do sentimento gerais? A interrogação torna-se ainda mais premente quando o quadro, a escultura ou produção de arquitectura em causa foram concebidos tendo em vista antes do mais a exposição pública como é, evidentemente, o caso da maioria das obras da Idade Média, do Renascimento e dos séculos XVII e XVIII. Dizer que os coleccionadores privados, sobretudo nos Estados Unidos, têm sido generosos por permitirem que alguns convidados eruditos dêem uma olhadela aos seus tesouros (nem sempre o fazendo, na realidade), não é resposta. Deverá a simples riqueza ou a especulação febril do investidor determinar a localização e o acesso a algumas produções do legado humano, universais e sempre insubstituíveis? Há ocasiões em que penso que a resposta deve ser categoricamente negativa: as grandes obras de arte não são, não podem ser, propriedade privada. Mas não tenho a certeza."

George Steiner, "O Sacerdote da Traição", George Steiner em The New Yorker.

por Bruno Sena Martins
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20 comentários:
Daniel
Um vénia a este grande pensador do nosso tempo :)
Dentro daquilo que conheço do autor, o livro que mais aprecio é "A Ideia de Europa". Aconselho!

Quanto ao texto, a ideia não é nova. Já há coisa de 4 ou 5 anos, um deputado brasileiro quando questionado sobre a exploração da Amazónia e consequências para a humanidade, expôs um ponto de vista semelhante.

deixado a 17/8/10 às 23:12
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João Cerqueira
Eu tenho a a certeza de que as grandes obras de arte podem ser privadas, embora também ache que a maioria delas devam ser públicas.
Ao longo da História sempre houve mecenas que patrocinaram a actividade dos artistas, assim como particulares que pagaram aos grandes criadores para possuírem os seus trabalhos.
Suponho que foi a partir do Renascimento que a obra de arte _ sobretudo a pintura_ se tornou realmente privada.
No entanto, nas épocas posteriores, sendo a maioria da arte religiosa, a obra continuava a ser privada, mesmo quando exposta numa igreja.

Por outro lado, convém não esquecer que a sobrevivência de muitos tesouros da arte se deve ao esforço de muitos coleccionadores privados. Muitos artistas são também grandes coleccionadores_ por exemplo de arte africana.
E alguns destes privados criaram museus ou «casas de arte» reunindo peças de várias partes do mundo que, de outro forma, jamais seriam vistas.
Para quem gosta de viajar até ao Brasil e aprecia arte colonial, portuguesa e holandesa, um bom exemplo é o museu do magnata Ricardo Brenand no Recife

http://www.institutoricardobrennand.org.br/index2.html

deixado a 18/8/10 às 00:36
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JORGE SILVA
"...Suponho que foi a partir do Renascimento que a obra de arte _ sobretudo a pintura_ se tornou realmente privada..."



É curiosamente nesse período que os artistas se começam a afirmar como tal, deixando de ser anónimos, a ser conhecidos individualmente e a ter uma importancia social que não tinham até aí.

deixado a 18/8/10 às 01:03
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Crítico de Arte
Esta é boa!

Sem propriedade privada não existiria sequer grande parte das obras de arte que temos hoje em dia, pois muitos artistas viviam e produziam mediante trabalhos comissionados. Imaginar a arte europeia sem os Medici, os Thyssen ou os Rothschild é em si anedótico. Nem saberíamos de Virgílio ou Horácio não fora Mecenas...

Esquecem-se, meus senhores, que essas obras "concebidas tendo em vista antes do mais a exposição pública" foram criadas por encomendas de patronos privados (muitas vezes da Igreja aqui sempre tão vilipendiada) e tinham sobretudo em vista manifestações de grandiosidade e riqueza dos respectivos proprietários. Bernini, Michelangelo e muitos outros da mesma estirpe trabalhavam todos ao soldo de patronos.

A referência ao século XVII nesse texto chega a ser igualmente anedótica: esse século foi precisamente o da afirmação da Era de Ouro da Pintura Holandesa. Que, como saberão, brotava do intenso mercado de arte existente numa altura e num país em que qualquer ferreiro queria ter um quadrozito lá na loja. Rembrandt, Vermeer ou van Goyen puderam deixar-nos a sua herança artística pelos clientes que lhes iam encomendando as peças.

À pergunta "Deverá a simples riqueza ou a especulação febril do investidor determinar a localização e o acesso a algumas produções do legado humano, universais e sempre insubstituíveis?"

Devolvo a seguinte: "E sem a riqueza de particulares com afinidade pelas artes existiriam sequer essas produções do legado humano, universais e sempre insubstituíveis?"

Ou podemos todos bastar-nos com a bela e interessantíssima arquitectura do tipo soviético que ainda hoje nos consegue deslumbrar?

deixado a 18/8/10 às 01:15
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JORGE SILVA
Sem duvida!
O grande problema aqui é que estes "Arrastões" quando chegam ao poder são grandes mecenas...o se são!!!
O Estado como tal prova-o todos os dias que não tem qualquer aptidão para fomentar as artes de maneira eficiente preservar o património, e incutir o gosto pelo tema na opinião pública. E quando o faz, destribui as tradicionais benesses pelos politicamente alinhados...

Basta andar por Portugal e verificar o estado caótico e indecoroso em que os nossos museus se encontram (salvo raras e honrossas excepções), os nosso património urbano, os edifícios históricos, as artes em geral.

deixado a 18/8/10 às 01:36
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Crítico de Arte
Solomon Robert Guggenheim

Só estas três palavras deveriam ser suficientes para calar esta gente que nos vem falar nos "riscos", na "cobiça", na "exclusão" e na "especulação febril" dos privados no Mundo das Artes.

Estou certo que para eles o património da Humanidade ficaria em muito melhores mãos se deixado ao cuidado das Isabeis Pires de Lima e Gabrielas Canavilhas da nossa terra...

Ao descaramento a que estes esquerdalhos chegaram!

deixado a 18/8/10 às 01:47
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Sidewinder
Um objecto não é obra-de-coisa-nenhuma se estiver apenas ao alcance de um reduzido número de pessoas, o que torna um objecto obra-de-arte, mais do que o aprumo e perfeição técnicas, é a validação e tornar-se referência por parte de/para a sociedade.

deixado a 18/8/10 às 02:24
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Pão Metálico
Este gajo é um grande pensador do nosso tempo? Porquê?

Neste texto, do tipo ― eu era para estar a brincar acom a pilinha, mas depois apeteceu-me escrever isto ― demonstra uma ignorância surpreendente, aliás já aqui referida.

deixado a 18/8/10 às 09:58
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Lisboeta
As obras de arte que são detidas por privados deveriam ter um "estatuto" similar ao que existe para a propriedade da terra na Suécia. Neste país, se eu for dono de uma herdade, não posso proibir seja quem for que atravesse essa minha herdade. Não posso, inclusive, proibir que alguém apanhe os produtos que eu lá cultivo. Claro que se isto fosse em Portugal, havia muito menino que nunca mais gastava um chavo na mercearia lá do bairro. Até o homem Soane corria o risco de ir à falência... ;-)

deixado a 18/8/10 às 11:36
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Crítico de Arte
Tendo em conta que até o allemansrätten protege neste caso a propriedade privada até 300 metros ao redor da casa do proprietário, a terra cultivada e os jardins, como raio quer você proporcionar a todos esse acesso a obras muito provavelmente guardadas em casa dos donos?

A partir de agora, com a desculpa de querer ver os Picassos, eu poderia introduzir-me em qualquer casa alheia quando bem entendesse? Era só tocar a campainha ou nem isso seria preciso e saltava o muro?

deixado a 18/8/10 às 12:10
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