Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
por Bruno Sena Martins
Ao contrário do que muitos pensam, defender o bem público não é achar que o sector privado é a encarnação do demo nem que o Estado é a mãe de todas as virtudes. Defender o bem público é considerar que o bem público deve estar ao serviço do interesse público e não de interesses particulares. Esses interesses particulares podem ser vários e não se prendem sempre com os malefícios do  grande capital - embora aconteça frequentemente.

Por exemplo, quando as parcerias público-privadas favorecem despudoradamente as empresas privadas temos dois interesses particulares em jogo: o interesse do grande capital e o interesse dos governantes movidos pelas amizades fraternas - sedimentadas na recruta das jotas - ou pelo retorno que esperam obter quando as sondagens começarem a cair.

Quando Victor Baptista explica como o PS pôs à sua disposição 3 cargos em empresas públicas sabemos que não basta pedir mais Estado, sabemos que não basta pedir que a decisão política esteja a salvo das manipulações de acumulação de capital. Também é preciso pedir um Estado a salvo de quem o governa nestes termos, com os vícios corporativos do regime anterior, com compadrios da sociedade de vizinhança e com o deslumbramento do próximo topo de gama.

Salvar o Estado dos interesses partidários, dos interesses pessoais dos governantes, do interesses pessoais dos amigos dos governantes, dos interesses pessoais da vizinha do médico, dos interesses pessoais da sobrinha do Vereador da Câmara é, no limite, um desígnio de esquerda. Os neoliberais não defendem uma ideologia, defendem os interesses particulares, os seus, quando são inteligentes, ou os interesses particulares dos grandes capitalistas, quando são apenas papalvos. A esquerda que defendesse a força do Estado dos interesses não seria menos papalva. Era bom termos um Estado decente para atirar nas fuças do grande capital e dos seus partidários. Um estado capaz de defender o interesse público, capaz de virtude suficiente para abjurar a corrupção imposta pelos ditames da acumulação privada é, hoje em dia, uma utopia de esquerda.

Publicado no Aparelho de Estado.

por Bruno Sena Martins
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40 comentários:
Antonio Maria
O sr é Deputado não é?
Esta denúncia não configura um crime público?
O que é que a PGR está espera?

deixado a 15/10/10 às 15:57
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Nuno
Presume-se pelo último parágrafo que nenhum "encartado" do BE ou PCP tirou partido da sua posição para obter benesses do Estado ou dá-las a um amigo/familiar/companheiro.

deixado a 15/10/10 às 16:20
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Muito mais do que uma utopia, um Estado capaz de defender o interesse público e, também, de impor regras (e aplicar sanções eficazes) no confronto inevitável entre os vários interesses privados constitui a principal e mais urgente linha programática da Esquerda portuguesa, pois já é uma conquista efectiva da Esquerda europeia, nos Países mais evoluídos, durante todo o Século XX (que não deve retroceder).

deixado a 15/10/10 às 14:02
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simon teles
Um chato, esse Victor Baptista.
A malta não está habituada a isto.
A ouvir cantar um colega de turma, um camarada que como um qualquer de nós meteu o chico.
Porque, enfim, em Roma sê tão romano, trafulha, corrupto, tachista, ou nem o País há-de entender o teu prurido de serviço.

deixado a 15/10/10 às 14:19
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Nuno
Eu não concordo com compadrios e aparelhos partidários que tomem conta do Estado... serei de esquerda, papá?

deixado a 15/10/10 às 14:19
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Bruno,

Os PECs desta gente é outro.
Não é este que vive ou é casado com Edite Estrela?? Edite Estrela que tendo 2 filhas são ambas funcionarias do Parlamento Europeu.

Simplesmente VERGONHOSO

deixado a 15/10/10 às 14:32
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Cfe
O texto até que ia mais ou menos bem, com algumas reservas, até que chegou ao meio e descambou na defesa da esquerda como protetora do estado e do neoliberais como bichos-papão do erário público.

Pois olhe: é pela defesa do gigantismo do estado, que tudo pretende controlar, regulamentar e taxar que se amesquinham a sua volta o bando de sanguessugas de todos os quadrantes da vida pública portuguesa. Quanto maior é o poder e recursos que os governantes tem a sua disposição maior é o desperdício dada a leniência e facilidade em gastar sem contole.

Quer queira quer não, habitualmente, o controle dos gastos só acontece pela limitação dos recursos em qualquer ação de planejamento, pública ou privada e não pela virtude do administrador: este devido, ao suspeito processo de nomeação, raramente é competente.

deixado a 15/10/10 às 15:00
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Boa tentativa de desculpabilização daquilo que andam a vender há séculos, mas é difícil esquecer tanta burrada.

deixado a 15/10/10 às 15:04
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Cristina
Meus amigos,

Para mim, é cada vez mais claro que temos de "espantar" definitivamente esta escumalha (desculpem a palavra que é forte, mas ditada pela sordidez da situação!).
Está nas nossas maõs dar a volta a isto!
Só o PCP e o BE não estiveram no Governo desde 25 de Abril de 1974.
Está na altura de lhes dar a oportunidade de mostrarem o que valem.
E se nada valerem, não sei...!
Que Deus nos valha!

deixado a 15/10/10 às 15:34
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Pedro Lourenço
Esse, meu caro, é o diagnóstico de um país. Caciquista, nepotista e pronto a seguir pelo caminho mais fácil para obter o sucesso.

Esse é infelizmente nosso retrato enquanto povo.

Os governantes, não são estrangeiros, nem extraterrestres, são assim porque nós todos somos assim.

deixado a 15/10/10 às 17:07
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