Sábado, 6 de Novembro de 2010
por Bruno Sena Martins
Publicado na Liga Aleixo



Sábado passado fui assistir à Tempestade com Varela no papel de George Clooney. Por um sortilégio que não vale a pena descrever em pormenor (uma amiga minha é irmã do sócio gerente de uma empresa da cidade que recebe convites para os jogos com frequência e não havendo interessados nos altos quadros da dita empresa os amigos das irmãs dos altos quadros poderão ser bafejados por um convite com direito a vinho e a arroz de pato) tive o ensejo de assistir ao jogo comodamente instalado entre os canapés da bancada vip. Vips propriamente ditos vi o Pinto da Costa, a quem fiz questão de segurar a porta para passar aproveitando para um leve aceno da cabeça como quem diz “Confie, o James Rodriguez é uma cartada de génio, senhor presidente". Também lá estava o  Fernando Gomes com ar de quem deve ter algum aproveitamento entre o mulherio nostálgico dos goleadores dos anos 80. Entre os anónimos, além de umas pessoas que conheço da charcutaria do Pingo Doce, lá estava o Paulo Bento.

Mas deixemos os queijinhos de cabra e miudezas e vamos ao pensamento que prende o estimado leitor a estas divagações espúrias: como é que se sente um pessoa com um cadastro ligado à Académica perante o assalto de um clube vindo da cidade que tem a pior estação de expressos a leste de Greenwich (não me enganei, é darem a volta ao globo)?

Nascido em Coimbra vivi quase toda a minha vida a menos de 50 metros do Estádio do Calhabé (pouco se me dá que lhe tenham mudado o nome, em todo o caso também continuo a chamar Cat Stevens ao Yusuf Islam e não pense alguma ex que com esta idade vou passar a ligar ao apelido de casada - nas minhas memórias chamam-se sempre Nefertiti Sena Martins). Como não tivesse quem me levasse à bola, arranjei maneira de me socializar no espectáculo: ingressei na equipa dos apanha-bolas. Quer dizer, ingressei não será o termo, digamos que me tornei um habitué. Duas horas antes do jogo lá estávamos sentados junto à entrada dos jogadores. O chefe dos apanha-bolas, ligeiramente mais velho que o resto da criançada, chegava entretanto. Pouco antes do jogo íamos todos para um balneário equipar e ouvíamos a habitual táctica: “não se ponham à frente da publicidade porque os patrocinadores pagam fortunas para aparecerem nos resumos”, “quando a Académica estiver a ganhar (raramente acontecia) não vale a pena devolverem a bola com pressas de maior”, etc. No intervalo, em vez de massagens e conselhos do treinador, tínhamos direito a sumo e pipocas: lá ficávamos no nosso mini-balneário – a arrumação das bolas e dos pinos - a saborear o justo preço do nosso suor. Foi nessas comissões de serviço na pista de tartan que pude testemunhar o insigne futebol de Lewis e Latapy, jogadores com que Tinidad e Tobago contribuiu para apaziguar o trauma geracional causado pelo caso Ndinga.

Na explicação da traição de Judas, Slavoj Žižek socorre-se de uma ideia valorosa que sintetiza na citação de John Le Carré: "o amor é tudo o que ainda podemos trair". Invertendo, só pode haver traição quando existe uma relação sentimental a sacrificar. Quando não, tudo o que existe é calculismo e logro – deslealdade porventura, mas sem os pináculos da traição, sem o agonismo de alguém que violenta o que deveras sente. Perdoem a elegia retorcida, o facto é que a Académica é o único clube que alguma vez pude trair.

Proverbialmente convertido ao Dasein de Martin Heidegger, Richard Rorty instava-nos cultivar a capacidade para questionarmos ao espelho: “será que nasci na tribo errada”? A questão, alegava, deveria tornar-nos mais hábeis para celebrar as escolhas face aos constrangimentos da cultura de partida. Ámen. Ainda assim, importa amainar os festejos: até que ponto será tudo exultante nessa capacidade para nos desenraizarmos em favor das afinidades eleitas no curso de uma vida? Afinal, a traição, bem o sabemos, é uma das modalidades de uma escolha liberta de constrangimentos. Quando me perguntam como posso ser um adepto tão ferrenho do F. C. Porto, quase esquecendo o clube dos inícios, a Académica, não consigo deixar de lamentar uma traição que perpetrei por óbvios sonhos de grandeza. Tanto quanto a capacidade de abjurar as origens em favor das opções, a fidelidade à tribo em que se nasce também pode ser uma virtude. Desgraçadamente não a pratico.

por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | partilhar

14 comentários:
Adolfo Dias`
ainda me lembro do Pinto da Costa e do Luis Filipe Vieira antes dos jogos do FCP em Alverca...eram só amizades, almoçavam juntos na Quinta e o PdC uma vez entrou no relvado do Alverca com uma "narça" naqueles queixos, que parecia que, sem vento nenhum, um vendaval assolava Alverca! Ai, ai...entre o LFV dos pneusssnif e o PdC da fruta, o futebol nacional está mesmo bem entregue!

deixado a 6/11/10 às 19:20
link | responder a comentário

Veremos amanhã

Se o porto vencer receio que chegue
o FMI

deixado a 6/11/10 às 20:26
link | responder a comentário

Não deixando de ser brilhante na forma e erudito nas convulsões, ainda falta aqui um qualquer coisa para explicar o pecado que temos em comum. Pecado salvo seja, que amar, etc.

deixado a 6/11/10 às 20:42
link | responder a comentário

Antonio Cunha
ó Bruno e não tem vergonha de ter como presidente do clube do coração um corrupto ?

deixado a 6/11/10 às 20:45
link | responder a comentário

LAM
quem não tem?

deixado a 6/11/10 às 22:57
link | responder a comentário

simon teles
ter como presidente um corrupto...

Mas como, António, se o texto todo dá a pensar que o Sena puxa ao azul e não a essoutra côr que sugere?!

Questão de ponto de vista, pela certa.

deixado a 6/11/10 às 23:00
link | responder a comentário

C. Serra
Seu "traidor!" Como pode trocar a Briosa pelos Andrades?

Nunca consegui ser apanha-bolas no Calhabé. Mas no meu tempo do liceu (que ainda se chamava D. João III) o professor João de Barros levava, à quarta-feira à tarde, um grupo de alunos que ele achava que tinham jeito para o futebol, para umas jogatanas no relvado do estádio. E, suprema felicidade, eu fazia parte dos escolhidos.

Depois, vim para Lisboa e ainda dei uns pontapés nas classes jovens do Belenenses. Até que o meu pai achou que o futebol me andava a desviar de actividades "mais importantes".

Bons tempos, esses em que os pais ainda não achavam que ser futebolista era o máximo.

Mas o bichinho da Académica ficou, mesmo se alguma da mística se esvaiu com o tempo (e com a "industrialização" do futebol, que matou a parte desportiva).

P.S. - Já agora: Como é que foi parar ao Montemorense?

deixado a 6/11/10 às 23:01
link | responder a comentário

Chico da Tasca
ESte bruno Sena martins enoja-me.

A prosa dele enoja-me.

tudo neste gaijo me enoja.

Bimbalhoco de merda !

deixado a 6/11/10 às 23:14
link | responder a comentário

Chico da Tasca
E olha, bimbo de merda:

agarra no james rodriguez e no Capo e mete os dois por esse cu bimbo acima.

e podes censurar isto à vontade cagalhoto de merda.

deixado a 6/11/10 às 23:17
link | responder a comentário

Chico da Tasca
aparece aqui com cada monte de merda a cagar posts que só visto...

dasse !!!!!!!

deixado a 6/11/10 às 23:23
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador