Domingo, 8 de Agosto de 2010
por João Rodrigues
Concordo com o Daniel Oliveira: a existirem capitalistas bilionários, é melhor tê-los generosos e filantropos. No entanto, escolher entre duas alternativas dadas, não implica necessariamente consentir com a estrutura que gerou estas escolhas. E é sobre a estrutura que gera o filantrocapitalismo que temos de falar. Comecemos pelo gráfico acima. Impressionante, não é? O conhecido bilionário e filantrocapitalista Warren Buffet afirmou com realismo que a luta de classes existe e que a sua classe a tinha ganho nos últimos tempos. Um dos efeitos do filantrocapitalismo, ou talvez mesmo um dos seus objectivos, é o de legitimar as modificações estruturais que geraram as terríveis desigualdades económicas, uma das principais causas, segundo inúmeros estudos empíricos, dos problemas sociais.

Os Estados devem taxar os ricos e criar regras que protejam os contrapoderes na esfera da economia, caso dos sindicatos. Decidir sobre as prioridades sociopolíticas e socioeconómicas, como resultado de um debate democrático entre cidadãos, que escrutine os valores em disputa, é melhor do que deixar que as preferências não escrutinadas dos mais ricos determinem cada vez mais, dentro e fora das fronteiras, muitos dos problemas que são considerados prioritários. Sobre isto, que é provavelmente o mais importante, o Daniel já escreveu o essencial.

Apenas um exemplo ilustrativo para os países ditos em vias de desenvolvimento e subdesenvolvidos, para os quais o filantrocapitalimo tem grandes planos: o Estado indiano de Kerala. Um Estado de desenvolvimento intermédio no contexto indiano, em termos do estreito rendimento per capita. Um Estado pobre. E, no entanto, um Estado com indicadores de desenvolvimento humano, nas áreas da saúde e da educação, típicos dos países desenvolvidos. O segredo? A mobilização política e social das classes subalternas é uma parte substancial da explicação, segundo Amartya Sen. Uma sociedade civil activa e contra-hegemónica. Um Estado governado durante décadas por uma coligação de esquerda dirigida por comunistas. Reformas na estrutura fundiária e serviços públicos básicos. Na realidade, custa pouco, mas dá um trabalhão político. Recentemente, Kerala decidiu promover o software livre. A Microsoft prefere andar a financiar cursos na Índia para promover o software proprietário. Filantropia, dizem eles.

Como indica alguma investigação na área dos determinantes sociais da saúde, não há melhor do que governos apostados na expansão dos serviços públicos e na redução das desigualdades: quanto maior é a percentagem da despesa pública nas despesas de saúde, melhores são os resultados nestas áreas. Construir infra-estruturas públicas coerentes é bem melhor do que cooptar técnicos e recursos para esforços privados descoordenados com boa imprensa, mas com pouco escrutínio.

Especular ou criar e gerir rendas de monopólio, não é o mesmo do que gerar soluções políticas para a questão social. Gates e outros exibem a típica arrogância que o dinheiro concentrado e a adulação geram e que Marx tão bem descreveu em 1844.

Precisamos mas é de instituições públicas internacionais bem financiadas. E de cooperação internacional. E de relaxamento das patentes e dos direitos de propriedade intelectual. E de criação de oportunidades para o desenvolvimento, da reforma agrária ao proteccionismo comercial selectivo e temporário, este último exigindo modificações das regras da OMC, feitas para cristalizarem as vantagens dos países já desenvolvidos. Há muito para fazer nas estruturas. Eu confio sempre mais na criação de movimentos políticos pelos grupos sociais interessados, e geralmente subalternos, do que no esforço filantrópico que tende a reproduzir abjectas hierarquias sociais. Lutar contra a estrutura que gera o filantrocapitalismo é bem capaz de ser, afinal de contas, parte da solução…

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador