Domingo, 10 de Janeiro de 2010
por João Rodrigues


No ladrões de bicicletas e nas crónicas no i tenho insistido muito num ponto: devemos ver o neoliberalismo como a utopia de uma sociedade de mercado, uma engenharia política intransigente imune a toda a evidência, que pretende, entre outros objectivos, abrir novas áreas da provisão pública ao capital privado. O resultado prático tende a ser a parasitagem do Estado por uma coligação de sectores económicos reaccionários, através de privatizações e de parcerias público-privadas cada vez mais desastrosas para o interesse público.  

O economista Daniel Bessa, que sintomaticamente já tinha exibido, em artigo no Público, a sua admiração por algumas facetas de um “Lenine” inventado para a ocasião, deu recentemente uma entrevista ao mesmo jornal. As privatizações começaram há vinte anos, de forma inocente, nas cervejas e, com gente como Bessa a mandar, vão acabar nos hospitais, nas escolas e, quem sabe, na água. Um triste destino: reforçar os interesses que vivem à custa da ineficiente acumulação por apropriação dos recursos que são de todos. Aproveita-se a crise causada pelas desigualdades que esta ideologia favoreceu e legitimou – já Milton Friedman dizia que a crise é sempre uma oportunidade.

Um triste destino de uma fracção (maioritária?) da burguesia, peço desculpa, da “classe média” nacional: mendigar por dinheiro público para perpetuar um modelo de capitalismo condenado. Privatizar, usando a dívida pública como mau pretexto e apostar na caridade (notar que a dívida pública, que estava mais ou menos estabilizada em percentagem do PIB, só aumentou acentuadamente no contexto da maior crise desde os anos trinta e foi assim em todo o lado…). Estas são a melhores formas de minar a construção de um Estado social universal, o modelo redistributivo mais eficaz e politicamente viável, e de desincentivar a aposta privada nos sectores de bens transaccionáveis. Quem quererá investir nos concorrenciais sectores para o mercado interno ou para exportação quando pode controlar infra-estruturas públicas ou gerir escolas e hospitais, sectores onde os lucros estão relativamente garantidos?

A única linguagem que os economistas “leninistas”entendem é a linguagem de quem tem poder para passar os cheques. Nada mais conta. Acho que são estes os nossos principais adversários. Que economistas como Bessa tenham ganho projecção e tido poder com o PS é bem revelador dos descaminhos deste partido. É neste projecto de regressão, onde se deve incluir a ideia de cortes nos salários nominais e de aumentos do IVA normal, que se insere o hipócrita discurso de ano novo de Cavaco, mas isso fica para a crónica do i de amanhã: o que tem de explodir e o que tem de implodir?

por João Rodrigues
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12 comentários:
Joao Fernandes
Tudo nacionalizadinho é que é bom.
Desde o tremoço, à cerveja, tudo pelo Estado, tudo para o Estado.
Quem é que não tem nostalgia das lojas soviéticas e este-alemãs?
Oh, velhos tempos. Glória.

deixado a 10/1/10 às 12:22
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Antónimo
A propósito da classe média e dos salários mínimo deixei isto no outro dia no 5 Dias. Confesso que gostava de ter algum troco no tema. Já que não vi no argumentário de vários blogues que me falassem do que são vencimentos de pessoas reais.

«Também seria interessante relacionar com uma discussão que mais ou menos vai andando por aí acerca do que é classe média em Portugal – ou de como certas elites salariais publicadas e/ou poderosas se querem encaixar nelas à viva força mas ignoram a realidade.

Uma elite intelectual faz ou não faz parte das classes médias? Em princípio diria que sim, mas os seus salários não os deixa incluir nas classes médias definidas à la Câncio, Pedroso ou Pitta (este mais antigamente).

Veja-se
http://www.publico.pt/Educação/bolseiros-apelam-ao-parlamento-por-novo-estatuto-que-os-tire-da-precariedade_1416442»

deixado a 10/1/10 às 13:11
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Antónimo
E que dizer do currículo do novo patrão da CIP, um homem que veio da UGT (em boa hora criada para fazer frente à unicidade sindical da CGTP ou por outro motivo que agora não me ocorre)?

Vira-casacas ou cavalo de Tróia?

deixado a 10/1/10 às 13:25
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interroga-se sobre o rumo ao "capitalismo de guerra" como se se tratasse de algo novo (!), uma novidade. De facto a prática é bem antiga: começou com o keynesianismo militar de Roosevelt como programa para sair da crise, acabou como é sabido na guerra inter-imperialista entre nações pelo controlo dos mercados. Foi institucionalizada por Eisenwoher em nome da manutenção da economia baseada no Complexo-Industrial-Militar.

Actualmente, como já não existem nações a quem declarar guerra, é aos povos de todo o mundo que a "guerra ao terrorismo" é declarada. (discurso de Bush após o 11.9). Uma coisa que na prática se consubstanciado nas declaração do estado de emergência e na perda de direitos civis, com a introdução de clausulas restritivas ao Patriotic Act - cláusulas que não foram revogadas por Obama, antes pelo contrário, estão ainda a ser reforçadas com os novos spins de alarme, pânico&medo lançados no natal e ano novo.

A questão fulcral é esta: porque carga de água hão-de os cidadãos ser condicionados nas suas liberdades fundamentais e direitos económicos sociais adquiridos, em nome da situação de guerra criada artificialmente, se são os governos que se dizem eles próprios incapazes de velar pela nossa segurança?. A história é outra, e fora do PS/PSD não existem possibilidades de mudar de governo neoliberal. Portanto, estamos encostados ao dilema "liberdade ou fascismo" - e como se infere, isto é coisa que não se resolverá por votos. Só para recordar que Obama fez a campanha inteira sustentando a viabilidade da recuperação económica invocando sempre Roosevelt. Só que, em relação aos tempos da IIGG os meios tecnologicos de destruição são muito diferentes, o que agravará a situação. O que aí vem não vai ser bonito nem heróico...

Portanto, vejam lá se atinam, ao não partir de pressupostos errados para apresentarem soluções de emancipação falsas.

Quanto à arenga do Rui Bebiano sobre Trotski nem me darei ao trabalho de ir lá comentar, tão básica é a manipulação. Temos a opinião de Robert Service, um historiador de Cambridge, isto é, da facção que ganhou a guerra. E o camarada Bebiano está à espera do tijolo de 600 páginas para termos a opinião dele. Pelo meio dos milhões de opiniões possiveis não se passará mais nada. Está tudo seco. Querias...
Independência e multidiversidade de análise meninos! Debate. Apresentem outros livros e outras fontes alternativas. Não há nada para inventar, sobre o periodo soviético a História está escrita no marxists.org

deixado a 10/1/10 às 13:47
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Manuel Monteiro
Mas a que propósito metem o Lenine nas trafuchices da burguesia capitalista? Esta gente perdeu a noção do rídiculo...
Manuel Monteiro

deixado a 10/1/10 às 13:52
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Libertário
"Não há nada para inventar, sobre o periodo soviético a História está escrita no marxists.org"

Espalhanço total!
A história baseia-se em factos concretos não em interpretações subjectivas desses mesmos factos.

deixado a 10/1/10 às 15:32
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leonardo
Meu caro, nas escolas já começou e não se ouve falar disso. Exemplo: cantinas. Antes asseguradas pela própria escola, com auxiliares de acção educativa contratados pelo Ministério da Educação. Agora, em muitíssimas escolas, esse serviço foi privatizado, entregue ao cartel das empresas de catering que lesaram o Estado em 172 milhões de euros (http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=331902). Pois bem, na escola do meu filho as refeições servidas por uma dessas empresas são escassas em quantidade (p. ex. a sopa) e más em qualidade (iogurtes bolorentos, ementas repetitivas e mal confeccionadas, etc), motivando já abaixo-assinados. Mas disto não se ouve falar. Privatizar, privatizar...

deixado a 10/1/10 às 16:16
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6 Libertário
pois sim, são jogos de palavras:
a(s) história(s) baseiam-se em interpretações subjectivas dos factos concretos.
É nessa linha de pensamento que foi produzido o meu comentário

deixado a 10/1/10 às 17:44
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Antonio Cunha
Não existe, nem nunca existiu uma empresa publica neste pais que fosse bem gerida e que desse sequer algo que se parecesse um bom serviço ao publico.

O problema deste pais é a despesa publica. E começa logo no numero de funcionários publicos.

Podem dar as voltas que quiserem

um bom exemplo :

Quantos professores reformados existem ? Quantos estão no topo ?

Agora é só multiplicar cada prof por 50.000€/ano

deixado a 10/1/10 às 22:28
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Não seria era então melhor deixarmos de usar a expressão "neoliberalismo" (embora confesse que também não me ocorre outra)?

deixado a 10/1/10 às 23:22
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