Segunda-feira, 5 de Abril de 2010
por João Rodrigues


As contas estão feitas: as empresas que o governo quer privatizar geraram, no ano passado, resultados líquidos positivos de 350 milhões de euros, o que representa mais do dobro do montante que o governo quer poupar no PEC com o pagamento de juros da dívida pública. Os seis mil milhões de receitas previstas, quando nem um cêntimo estava inscrito no programa eleitoral do PS, contribuirão para uma redução insignificante, de pouco mais de 2%, do peso da dívida pública no PIB.

Será que isto justifica a destruição talvez irreversível de qualquer possibilidade de um Estado estratego capaz de garantir o interesse público em sectores sensíveis da economia, tal como Manuel Alegre bem denunciou, ou a violação do contrato eleitoral com os cidadãos, a base de uma democracia sã? Não creio. Sabe-se que a redução sustentável da dívida só pode vir de um novo modelo de crescimento que prescinda de receitas neoliberais fracassadas. A experiência internacional vem mostrando que o controlo público de sectores estratégicos da economia, nomeadamente no campo das infra-estruturas e dos serviços de rede - da rede eléctrica aos serviços postais -, indispensáveis para a coesão social e territorial de uma comunidade política digna desse nome, é mais eficiente e eficaz do que a mera e sempre ligeira regulação de actores privados.

O resto da minha crónica no i pode ser lido aqui.

por João Rodrigues
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12 comentários:
Rxc
E se o Estado não fosse em "receitas neoliberais", não se endividasse no estrangeiro e gastasse apenas aquilo que tem, sem hipotecar cada vez mais o futuro das próximas gerações? Claro que em seguida depressa chegaríamos à conclusão que não se pode redistribuir a riqueza que não se cria, e o modelo social do burgo mostraria de imediato a sua insustentabilidade (devido a ser, basicamente, um esquema em pirâmide que a nossa demografia já não sustenta).

deixado a 5/4/10 às 16:25
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João Sebastião
Mais importante que reduzir a dívida é distribuir pelos 'amigos' o resto do sector empresarial do estado. Se possível, incluindo cláusulas leoninas para o lado dos compradores, tipo indemnizações compensatórias... não vá o diabo tece-las!
As medidas são sempre na mesma direcção, utilizando fórmulas gastas e comprovadamente ineficazes.
A riqueza no mundo cresceu, mas a pobreza também aumentou... temos um país, e um mundo, cada vez mais desequilibrado e egoísta!
Será que estes estrategos e políticos, com tratamento principesco, ainda não se aperceberam que vivemos todo no mesmo planeta?

deixado a 5/4/10 às 16:48
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[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão, Rede TubarãoEsquilo. Rede TubarãoEsquilo said: A privatização da República?: As contas estão feitas: as empresas que o governo quer privatizar geraram, no ano pa... http://bit.ly/dsQA3e [...]

deixado a 5/4/10 às 16:49
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Hugo SS
A existência de monopólios públicos é mau para a economia entregar estes monopólios a privados ainda é pior(distribuir o que era de todos para passar a ser só de alguns)...como fazer para acabar com a dança das cadeiras em altos cargos das grandes empresas que ainda são do estado?

deixado a 5/4/10 às 17:19
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JB
«resultados líquidos positivos de 350 milhões de euros»
Dava para pagar um submarino.
Mas há mais:
Estão a sair 360 milhões, para pagar 260 blindados Pandur que não servem para o Afeganistão.
Outro submarino.

deixado a 5/4/10 às 18:22
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CausasPerdidas
Partindo-se do princípio de que os cidadãos devem controlar através do seu voto os assuntos que lhes dizem respeito, as privatizações não deveriam ser debatidas apenas sob a luz do foco económico. Trata-se de um debate sobre a qualidade da democracia quando discutimos quem governa o quê e para que servem determinadas empresas que compõem a coluna vertebral de qualquer projecto de país.
Nenhum município do interior poderá fazer planos de parque tecnológicos se o instalador de energia decidir que o investimento na rede local não é prioritário porque não terá um retorno rápido para satisfazer o nervosismo dos accionistas - não me venham com "entidades reguladoras", experimentem ligar para as avarias se forem de uma aldeola do interior, façam o mesmo exercício de Lisboa ou do Porto, e depois digam. As empresas devem gerar lucros, sim, mas há muitos "lucros" que não têm cotação no mercado especulativo.

deixado a 5/4/10 às 18:22
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[...] Vi no excelente blog do nosso amigo Arrastão [...]

deixado a 5/4/10 às 18:23
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Barton Fink
Violação do contrato eleitoral? Sem dúvida.
Fim do Estado estratega? Espero bem que sim!
Pode ser que desta forma o Estado se preocupe finalmente em regular os mercados, é essa a sua função, mas que renegou e atribuiu a autoridades pseudo-independentes.

deixado a 5/4/10 às 18:40
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Inteiramente de acordo. Há sectores cruciais que não podem nem devem ser privatizados.

Mas depois sobra-nos uma questão: de que modelo de Estado estamos ainda a falar?

Com as «democracias burguesas» a nacionalizar bancos - para os salvar da falência - alegando intenção de minorar danos sociais??!??

Toda a avalização política destes estranho dias está a começar a ficar obsoleta...

Quando o muro caiu não te deste conta que os pilares do capitalismo racharam? Esquerda, Direita??

deixado a 5/4/10 às 19:33
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CausasPerdidas
A nacionalização de bancos levados ao descalabro pela especulação bolsista ou pelo rebentar das bolhas do crédito à maluca não foi mais que a "socialização dos prejuízos". Prejuízos, a única coisa que a burguesia distribui pelos "de baixo" sem ser necessário o recurso à greve.

deixado a 5/4/10 às 20:57
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