Terça-feira, 20 de Abril de 2010
por João Rodrigues


“O problema é evidente, mas a lentidão e a debilidade da resposta põem em causa a sobrevivência do euro. Os mercados não são propriamente uma fonte de sabedoria: são predadores, muitas vezes são estúpidos, são completamente imprevisíveis, se a Alemanha e a Europa não encontrarem soluções, podem provocar estragos.”

Joseph Stiglitz em entrevista ao El País. Qual é o problema? É simples de descrever, mas muito difícil (impossível?) de resolver politicamente no actual contexto: basta ver o que acontece às mais modestas propostas de taxação da banca para que esta internalize parte dos custos sociais das crises financeiras. E, no entanto, vale a pena repetir, até porque nem todos os defensores da integração europeia partilham do europeísmo feliz que deu origem a este desastre institucional: não há moeda única segura sem orçamento federal redistributivo com peso, sem dívida pública europeia (euro-obrigações), sem convergência na fiscalidade e na regulação robusta do sector financeiro e com um BCE que pode ajudar os bancos, mas não pode ajudar os Estados que tiveram de segurar as economias no contexto de uma crise financeira global causada pelos bancos (estatutos…). Não há moeda única segura enquanto o financiamento dos Estados em crise depender dos humores dos mercados financeiros liberalizados, do turbilhão da especulação ou de linhas de crédito público a taxas de juro elevadas e com condições de ajustamento geradoras de depressão (isto é pior do que os desastrosos planos do FMI dos anos oitenta e noventa porque nem sequer existe a hipótese da desvalorização cambial). Não há moeda única segura enquanto coexistirem excedentes e défices exagerados nas relações comerciais como resultado da aposta da burguesia alemã na competitividade obtida por via da compressão salarial. Na Alemanha, onde os salários já são elevados e onde existe um Estado Social robusto, esta estratégia de promoção das exportações à custa dos défices das periferias é mais fácil de aceitar pelos trabalhadores (a ameaça de deslocalização empresarial para leste também ajuda à “persuasão”: sempre a economia do medo), mas, mesmo na Alemanha, esta estratégia não tem gerado grandes resultados em termos de crescimento. Em Espanha ou em Portugal, com níveis salariais absolutos tão baixos – cerca de 40% dos assalariados portugueses ganha 600 euros líquidos por mês ou menos –, com desigualdades salariais bem mais elevadas e com um Estado social mais fraco, imitar a Alemanha é utópico. De qualquer forma, esta estratégia deprime o mercado interno europeu (para onde vão as nossas exportações?), esmaga os países mais fracos, sem instrumentos de política para transformarem as suas economias, e aprofunda a crise europeia geral. Enfim, não há moeda que sobreviva sem mecanismos de solidariedade construídos com alianças políticas. Estamos todos juntos nisto - países credores e devedores - ou então vai cada um para seu lado. E este cenário não será bonito para ninguém. Para ninguém.

[Publicado, em simultâneo, no Ladrões de Bicicletas]

por João Rodrigues
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7 comentários:
[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão. Arrastão said: Arrastão Ave agoirenta?: “O problema é evidente, mas a lentidão e a debilidade da resposta põem em causa a sobrev... http://bit.ly/9vqC7w [...]

deixado a 20/4/10 às 10:15
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Carlos
Caro João,

bem dito! Concordo que faltam elementos para garantir a estabilidade ao EURO e garantir o desenvolvimento de toda a zona €, mas se recuar uns 15 anos no tempo vai-se lembrar o que foi afirmado contra o governo económico proposto pelos franceses ou a coordenação proposta pelos germânicos (Holandeses, austríacos incluídos). E pasme-se toda a esquerda junto com a Direita, opôs-se veementemente com o argumento da Federação Europeia encapotada, Europa contra os cidadãos...

Entretanto para quem pronuncia o fim do euro e como a moeda está em queda, no lançamento da moeda única o € valia 1,17$. Hoje quando está segundo os arautos da desgraça à beira do precipício vale 1,34$.

A Califórnia pagou, ou melhor não pagou, subsídios e despesas com IOU (I owe you) que mais não são que uns papelitos tipo cheques pré-datados. O dólar não estava à beira de desaparecer em 2009, pois não? A califórnia está para o dólar como a Alemanha está para o Euro!

O Reino Unido tem um défice de 11,4% e uma dívida de 68,1% o que o coloca em igual ou até pior situação que Portugal.

A verdade é que muitos especuladores apostaram contra o EURO e querem que as suas apostas saiam vencedoras, não existe muito mais a dizer.

deixado a 20/4/10 às 10:40
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mário borges
É que dá gosto ler o que este sacana escreve aqui pelo blogue...

deixado a 20/4/10 às 14:02
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JMG
Temos então o Estado Federal Europeu: um orçamento federal redistributivo (em que os que tiverem as contas públicas mais sólidas pagam para os que as não tiverem); com uma dívida pública europeia (financiada presumìvelmente com inflação e/ou as poupanças dos países cujos cidadãos mais poupam); convergência da fiscalidade (alinhada pelas taxas mais altas em cada imposto - os Estados Unidos da Europa teriam, já se vê, os impostos das sociais-democracias avançadas); e várias políticas tendentes a eliminar vantagens competitivas de uns países sobre outros, a fim de reduzir desequilíbrios comerciais. Acredito que este programa possa ter muitos adeptos em Portugal, Grécia e outros aflitos. E não duvido que esta economia de vasos comunicantes seja aliciante para quem ache que o segredo do progresso harmónico mora no Estado e na redistribuição. Mas, João Rodrigues, defende a democracia parlamentar/burguesa/liberal ou não? Porque, se defende, como creio, então só com uma gritante falta de sintonia com a putativa vontade dos cidadãos "europeus" é que pode imaginar que um tal programa teria pernas para andar. E como, a meu ver, não tem nem está ou estará perto de ter, então - perdoe-me o atrevimento - o que deveria defender para resolver uma parte dos problemas que enuncia seria a saída do Euro.

deixado a 20/4/10 às 18:47
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Carlos
Caro JMG,

Da minha parte acho que um pacto de estabilidade e crescimento cuja execução é garantida e existam punições automáticas severas é suficiente.

Por ex. por que é que a Grécia conseguiu enganar o Eurostat e o continua a fazer (os jornais gregos dizem que o défice afinal anda à roda dos 14% e não dos 12,4%) e a dívida é o dobro da permitida?

É simples quando chega a hora de votar as sanções, Portugal, Espanha, Itália e mesmo França votam contra porque sabem que podem ser a seguir.

Depois porquê que o PEC refere como punição não receber Fundos de coesão ou estruturais? Existem países como a Holanda que não recebem nada e portanto que punição existe caso a Holanda decidisse não cumprir????

são estas coisas que acho necessário corrigir, não é preciso mudar a casa toda.

Mas continuo a dizer que o Secretário de estado das Finanças cravinho e o Ministro Alemão das Finanças têm razão. Esta discussão levantada pelos economistas é movida por especuladores com interesses. Na sexta vi um entrevista em que o Soros que arrasou há 20 anos a Libra, afirma que o Euro vai deixar de existir. O ex-economista-chefe do FMI trabalha para um Fundo de investimento e diz que portugal vai entrar em default!!!!

sou apenas eu, ou parece que os economistas parecem um rebanho a ser conduzido, sem se pergutarem porquê?

deixado a 20/4/10 às 22:34
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Rxc
Então a culpa é toda da Alemanha produzir bens e serviços de forma competitiva e com uma qualidade acima da média, que toda a gente no Mundo quer...Realmente nunca tinha visto a coisa por essa perspectiva, que me parece totalmente sensata e coerente.
Virtuosos serão pois os países que se contentam em consumir recorrendo ao crédito (disponibilizado por quem trabalha mais e melhor), visto que é o consumo que cria riqueza, suponho, dentro desta lógica irrepreensível. E que dizer da produção, essa actividade vil e desprezível, que rebaixa o homem e o trata como um, heresia!, trabalhador, julgando que assim é útil para a sociedade.
Já me esquecia que a esquerda acha que temos "direito" ao que bem nos apetecer, haverá alguém que pague a conta no fim.


deixado a 21/4/10 às 09:46
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JMG
Meu caro Carlos:
Não estamos no mesmo comprimento de onda: A sua Europa é a dos Pactos de Crescimento, BCE, Euro e superestruturas várias; a minha, que já não existe mas acredito que pode reviver, é a da defunta CEE. Na minha Europa o Euro é um pesadelo. E não sou o único a pensar assim: há pelo menos mais duas pessoas, uma recentemente internada no Julio de Matos e outra, residente em Paços de Ferreira, designada pela comunidade local como o"maluco de Freamunde". Já vê que não sou companhia frequentável. Cordiais cumprimentos.

deixado a 21/4/10 às 11:58
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