Sábado, 24 de Abril de 2010
por João Rodrigues


Em tempos de crise surge com redobrada força o discurso do “estamos todos no mesmo barco”. Este discurso, que exprime uma ideia de destino comum, de solidariedade partilhada no sacrifício e na austeridade, deve ser levado a sério. Se for sério, o que se calhar é raro, só pode conduzir a reformas igualitárias profundas, dada a distância abismal que separa o ideal de uma comunidade política inclusiva da realidade socioeconómica de um país imensamente fracturado. É por estas e por outras que a edição portuguesa deste livro - O Espírito da Igualdade - Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor - não podia ser mais oportuna (um excerto pode ser lido aqui).

Repito o que escrevi quando saiu a edição britânica. Richard Wilkinson e Kate Pickett, dois reputados especialistas internacionais na área dos determinantes sociais da saúde, não só sistematizam na obra décadas de investigação empírica, que há muito que indica que os países mais desiguais têm, globalmente e para os vários escalões sociais, piores resultados na área da saúde pública e níveis muito superiores de sofrimento social evitável, como alargam o leque das relações abordadas: da população prisional aos níveis de confiança, passando pelos resultados escolares.

Como bons cientistas sociais, os autores não confundem correlação com causalidade. A sua análise estatística mostra um padrão claro de associação entre cada um dos problemas abordados e as diferenças entre ricos e pobres, mostrando também que nenhuma outra variável exibe o mesmo comportamento. Este é um ponto de partida para uma detalhada exploração dos mecanismos causais que permitem dizer que as desigualdades de rendimentos são a principal causa dos problemas escrutinados.

Os autores dão uma grande importância à forma como as desigualdades de rendimento criam um filtro que dificulta as relações sociais entre os indivíduos, que aumenta a conflitualidade, o sofrimento, o consumo defensivo, a comparação invejosa, o preconceito de classe e que impede a descoberta de soluções cooperativas que substituam mecanismos de dominação, a descoberta de regras e de instituições comuns menos hierarquizadas, que são a base material do florescimento humano, da felicidade.

O Rui Tavares também escreveu sobre este livro. O sítio que Wilkinson e Pickett criaram está cheio de referências e de dados sobre os impactos sociais negativos da desigualdade económica. Quem quiser saber mais sobre a área dos determinantes sociais da saúde, pode ler o relatório da OMS: a injustiça social faz muito mal à saúde e as utopias de mercado que a geram também.

PS. Férias, finalmente. Um par de semanas sem escrever. Boas leituras.

[Publicado, em simultâneo, no Ladrões de Bicicletas]

por João Rodrigues
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18 comentários:
Barton Fink
É o chamado mundo virtual...
O texto revela um profundo desconhecimento da natureza humana.
Por mim, prefiro que os peixinhos possam continuar a saltar livremente, é esse o verdadeiro espirito de Abril.

deixado a 25/4/10 às 02:59
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Nenhum dos exemplos que indicou é exemplo. Todos tiveram uma Nomenklatura privilegiada que vivia em condições com que a generalidade do povo nem sonhava. Não são exemplos de igualdade, mas de desigualdade.

Para ser mais honesto, fale antes na Suécia, na Dinamarca, na Noruega - olhe, fale em todos os países da União Europeia com excepção de Portugal e do reino Unido, que partilham o triste recorde de serem respectivamente o terceiro e o segundo países mais desiguais do mundo desenvolvido - de onde resulta, entre muitas outras coisas, que a esperança de vida dos 20% dos suecos mais pobres é superior à dos 20% dos britânicos mais ricos.

deixado a 25/4/10 às 01:32
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Minhoto
"– Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor - " então não? Temos o exemplo de Cuba , URSS, Albânia, Jugoslávia, RDA, Polónia, Hungria, Bulgária, Checoslováquia, Estónia, Lituânia, China, Letónia entre outros no presente ou recente passado.
É mentir com todos os dentes e tratar dados com a desonestidade do costume. Se falar em Liberdade aí sim, contudo esta não é igualitária.
Fui ao Blogue do Rui Tavares, com o devido cuidado de ter as vacinas em dia e deparei-me com um coisa escrita sobre a pureza, (não é o simpático Manuel Pureza do BE) e a homogeneidade, que é herdeira da religião (não há nada como matar dois coelhos com só uma cajadada) e tal e coisa, bem o "método empírico" da memória das pessoas que viveram em regimes igualitários pode enviar um "método estatístico" por mail ao Rui Tavares sobre o que foi a vida muito igual para muitos e mais igual para poucos (vejam-se os peixinhos), mais uma vez é um panfleto político este livro, um activo tóxico intelectual. Os capitalistas de Hollywood, finos como são quem gosta de dinheiro que advém de saber e trabalho, já vão lançar um novo filme sobre o Robin dos Bosques. lol

deixado a 25/4/10 às 00:28
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Pedro
Caros amigos e leitores deste blog: A senhora Stilwell resolveu escrever uma crónica de fim-de-semana que é uma provocação cobarde ao 25 de Abril. Deixou escrita na sua página: http://www.destak.pt/opiniao/61175
um texto de Salazar de há 70 anos atrás. Este já fez despertar algumas simpatias pelo ditador, mas também houve quem renegasse o espírito que a dita senhora parece querer fazer prevalecer. Espero que muitos daqueles que defendem o 25 de Abril como dia da liberdade, contra as décadas de ditadura obscura que este País viveu, deixem um comentário contra o texto desta senhora, exprimindo todo o seu desagrado. Será a única maneira de fazer com que os novos fascistas (esses novos amantes de Salazar) se escondam e percebam que ainda não é a hora de sair do seu buraco.

deixado a 24/4/10 às 22:28
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[...] Vi no excelente blog do nosso amigo Arrastão [...]

deixado a 24/4/10 às 21:23
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CausasPerdidas
Esses que gostam de proferir o "estamos todos no barco" são normalmente os que têm lugar garantido nos salva-vidas, dizem-no para acalmar aqueles que ficarão fechados no porão acompanhando o barco até ao fundo.

deixado a 24/4/10 às 18:02
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a
E como estamos em Abril deixo-vos uma sugestão:


http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1550686

rm

deixado a 24/4/10 às 17:47
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É a banha da cobra, alimenta e não engorda.

deixado a 24/4/10 às 17:04
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[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão. Arrastão said: Arrastão Precisamos deste espírito: Em tempos de crise surge com redobrada força o discurso do “estamos todos no ... http://bit.ly/cW4nPv [...]

deixado a 24/4/10 às 15:58
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A que texto se refere? Ao do João Rodrigues, ao de Wilkinson e Pickett, ou ao excerto deste para que remete o link?

E quais são, exactamente, os aspectos da natureza humana que "o texto" (seja ele qual for) ignora?

deixado a 25/4/10 às 12:53
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