Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
por João Rodrigues
Em artigo na “Visão”, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos pôs o dedo na ferida europeia, sem quaisquer rodeios e usando a teoria social crítica como guia para a compreensão que antecede o apelo à união dos trabalhadores europeus e dos seus diversos movimentos sociais: “A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho.”

A guerra ao trabalho reveste-se de múltiplas formas: da desregulamentação das relações laborais à erosão da provisão pública de bens sociais. Os objectivos são claros: reduzir o peso dos salários directos e indirectos e relançar a acumulação de capital através da expropriação de bens comuns. Os ideólogos nacionais deste processo europeu não escondem os seus objectivos. Daniel Bessa, por exemplo, defendeu na semana passada a privatização das escolas e dos hospitais. A miopia gerada pelas ideias e pelos interesses não cessa de me espantar.

Esta guerra, se for politicamente bem sucedida, apenas vai acentuar o chamado processo de financeirização das economias capitalistas maduras, ou seja, o processo de aumento da importância dos agentes, mercados e motivos financeiros. A literatura económica sobre o domínio do capital financeiro, que circula sem entraves, tem assinalado vários padrões perversos que desembocam em sucessivas crises financeiras.

Em primeiro lugar, temos a pressão selectiva sobre os assalariados dentro de empresas cada vez mais obcecadas em criar valor para o accionista, o que tem levado a uma quebra dos rendimentos do trabalho no rendimento nacional em muitos países desenvolvidos e a um aumento generalizado das desigualdades. Curiosamente, a satisfação dos accionistas não tem tradução nos indicadores de investimento criador de emprego.

Em segundo lugar, temos assistido, à escala europeia e mundial, à criação de desequilíbrios insustentáveis nas relações internacionais: modelos nacionais assentes no endividamento, que, em alguns casos, compensou temporariamente os efeitos negativos da estagnação salarial na procura, tendo como contrapartida modelos exportadores agressivos, assentes na compressão salarial permanente e cujos excedentes são reciclados pelo mercados financeiros.

Em terceiro lugar, o aumento da dependência dos trabalhadores face a um sistema financeiro naturalmente pouco transparente e cada vez mais complexo, que a erosão da provisão pública favorece, em áreas que vão da habitação à segurança social, intensifica aquilo a que o economista Costas Lapavitsas designa por “expropriação financeira” dos trabalhadores.

O aumento da presença e do controlo públicos do crédito ou a taxação das transacções financeiras são hoje a melhor forma de começar a responder, no campo das propostas, à guerra do capital financeiro.

Crónica i

por João Rodrigues
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11 comentários:
E quem está disposto a levar em frente essas medidas?

Sinceramente, estou farta de convénios, convenções, palestras e afins sobre o que todos já percebemos: estamos nas mãos de pulhas ganaciosos, mas o que mais me irrita, é ver quem há uns tempos declarava do alto da sua arrogante sapiência que estavamos a ir no rumo certo, para agora os ver contradizer-se em teorias que os "ignorantes" já adivinhavam.

Menos conversa e mais acção, por favor. Pois, aí é que a porca torce o rabo.

deixado a 14/6/10 às 12:42
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A unica questão que importa é: a financeirização é uma fase que o capitalismo atravessa porque tem de atravessar, ou é possível imaginar uma maturação mais desejável que o leve por outro caminho? É possível, num quadro em que a democracia se aplica num quadro de parlamentos nacionais (ou, imaginemos, europeu) travar uma luta que se desenrola a nível global, sendo que o poder económico pode sempre chantagear a deslocalização dos capitais para outros países mais favoráveis?

deixado a 14/6/10 às 14:32
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Minhoto
Quem diria hem? A esquerda revolucionária, onde se inclui o Boaventura, a ser agora reaccionária do lado dos "direitos adquiridos".

deixado a 14/6/10 às 15:09
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Bulshit!!! É impressionante como uma série de afirmações sem qualquer sustentação consegue passar por conhecimento quando é tudo treta, do princípio ao fim.

"Os objectivos são claros: reduzir o peso dos salários directos e indirectos e relançar a acumulação de capital através da expropriação de bens comuns" com base em quê isto é dito? Há dados concretos que suportem? Objectivos de quem? Dos votantes?

deixado a 14/6/10 às 16:10
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da Maia
O texto é bom, mas acho que falta salientar que há uma guerra entre dois sectores financeiros:
(i) o especulativo;
(ii) o produtivo.
O sector financeiro produtivo, do investimento com sustentação material, é talvez simbolizado por Henry Ford, o primeiro que anteviu os perigos do descontrolo capitalista nos mercados especulativos.
Esse está a morrer, porque o sector especulativo goza com a situação servindo-se da deslocalização e globalização. Desfavorece barreiras proteccionistas que tenham a ver com uma medida da qualidade social inerente ao trabalho.
Enquanto se colocar na mesma balança o trabalho escravo e o trabalho humano, o escravo sairá sempre mais barato. A Organização Mundial do Comércio está dominada pelo sector especulativo e assim é o primeiro agente em prol do trabalho escravo.
Deixar o mercado especulativo correr, sem essas barreiras proteccionistas, só tem efeito a longo termo, quando os cidadãos já não tiverem crédito.
As primeiras empresas a ressentirem-se da falta de dinheiro são aquelas que apostam no trabalho mais caro, e são essas que sustentam o mercado especulativo - por darem poder de compra aos seus empregados!

Compensa roubar? Sim, se não houver polícia!
Neste momento estamos a assistir a roubos impunes, feitos pelos mercados especulativos... sem que haja nenhuma "polícia" de mercados.
Os Estados não agem pois eles próprios estão sob controlo na dívida por esses agentes, e ainda acham que podem negociar, sustentando até os bancos que depois "os vão chular", por controlo dos agentes decisores.

A situação pode bater no fundo... não creio!
Os mercados especulativos têm dinheiro para o "bluff", e injectam dinheiro se virem que há um movimento contra eles. Podem é fazer bluffs sucessivos com o dinheiro que têm, e o povo não se pode dar ao luxo de andar sempre em manifestações a dizer "chega!".

deixado a 14/6/10 às 17:34
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Lúcio
Finanquê?
Ele foi a "deslocalização", ele foi o semanticamente absurdo "telemóvel", ele foram as "acessibilidades", etc.
Faltava este palavrão para mais um "criativo" se sentir vivo.

deixado a 14/6/10 às 18:29
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Wyrm
Excelente post como atesta a fraqueza das respostas...
Contra factos não há argumentos.

deixado a 14/6/10 às 19:51
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Tonibler, desculpe-me, mas você é daqueles que só vêem a parede depois de bater nela, não é?

Eu disse lá para cima que estava farta de conversa, e estou, mas o que João Henriques aqui diz não é mais do que a trama que se desenrola sob o nosso nariz, não é especulação ou teorias da conspiração. Se não vê, ou anda por Marte ou da tropa faz parte.

deixado a 14/6/10 às 21:58
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Graça,

Com base em quê as coisas são ditas? Isso é conversa da treta. Parte-se de umas afirmações que até passam bem por são repetidas muitas vezes, do tipo "temos a pressão selectiva sobre os assalariados dentro de empresas cada vez mais obcecadas em criar valor para o accionista, o que tem levado a uma quebra dos rendimentos do trabalho no rendimento nacional em muitos países desenvolvidos e a um aumento generalizado das desigualdade". Qual pressão selectiva? Mas há alguma empresa que viva sem criar valor? Qual quebra dos rendimentos? Qual trabalho? Que aumento generalizado das desigualdades? É isso importante, sabendo que nunca se viveu tão bem?

E depois de se meter uma frase destas, que é profundamente treta, vai numa senda de conclusões do mesmo estilo...Este tipo de texto deve ser publicado em papel macio que não largue tinta para que tenha alguma utilidade.

deixado a 14/6/10 às 23:29
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"Qual pressão selectiva? Mas há alguma empresa que viva sem criar valor? Qual quebra dos rendimentos? Qual trabalho? Que aumento generalizado das desigualdades? É isso importante, sabendo que nunca se viveu tão bem?"

Pressão criada pelo facto de os desempregados serem cada vez mais. Ainda que diga que se vive cada vez melhor - o que em termos médios da sociedade é inegável - está a condenar 11% da população a ser permanentemente excluída. Daí que não sei quanto "vale" para si cada desempregado, numa altura em que as leis de mercado ditam a bancarrota de empresas que poderiam ser úteis. São alguns pontos em que pode ir pensando, Tonibler.

E já agora, o facto de irmos vivendo cada vez melhor também é também válido em Cuba, e não me parece que você seja um defensor acérrimo do regime. Estou errado?

deixado a 15/6/10 às 11:52
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