Terça-feira, 13 de Julho de 2010
por João Rodrigues



"«O capitalismo tem a pele dura», dizia José Saramago numa entrevista em 2008. A partir de agora as suas palavras são ainda mais nossas. Estas, proferiu‐as ele numa altura em que a desmontagem crítica da crise parecia poder abrir uma janela de oportunidade para, finalmente, caírem por terra os mitos em que assentam os princípios neoliberais (eficiência dos mercados, capacidade de auto‐regulação do sector financeiro para evitar grandes sobressaltos na economia, dispensabilidade do Estado por parte dos sectores privados, «globalização feliz» e todas as teorias do «fim da história»). Apesar de ser hoje muito diferente o conhecimento que os cidadãos têm dessa complexa construção ideológica e institucional que é o neoliberalismo, e diferentes também as potencialidades de intervenção cidadã, o certo é que, por agora, tudo parece apontar para que os grandes culpados pela crise vão ser os seus grandes beneficiários. Dito de outra forma, esta crise do neoliberalismo está a servir para aprofundar o modelo neoliberal. A possibilidade, referida por Saramago na mesma entrevista, de «que se mude alguma coisa para que tudo continue na mesma», parece estar a ser substituída por uma arte, deveras impressionante, de não se mudar nada... para que tudo fique pior." O resto do artigo da Sandra Monteiro no Le Monde diplomatique - edição portuguesa deste mês pode ser lido aqui.

Para além da homenagem a Saramago, destaque na edição portuguesa deste mês para o suplemento sobre a "Europa e as saídas para a crise" (artigos de José Reis, Manuela Silva e Nuno Teles), para o artigo de Miguel Madeira sobre as virtudes do controlo das empresas pelos trabalhadores, entre outras "alternativas económicas a partir de baixo", e para o artigo de Fernando Marques, economista da CGTP, sobre as remunerações dos executivos em Portugal. Não percam.

por João Rodrigues
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23 comentários:
Carlos Marques
"virtudes do controlo das empresas pelos trabalhadores, entre outras “alternativas económicas a partir de baixo”"

Isto é a sério?... Medo, muito medo!

E por falar em "alternativas económicas a partir de baixo", o que fez o comunista Saramago com o capital do Nobel? O mesmo que Sampaio com aquele prémio que recebeu, tendo dito até: "Este agora é para mim!" E muito bem. O seu a seu dono.

deixado a 13/7/10 às 21:58
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Alberto
Saramago era como os padres, que diziam e dizem: ""fazei aquilo que eu digo, não façais aquilo que eu faço".
Viveu faustosamente numa mansão, comeu dos melhores manjares, bebeu dos melhores vinhos, dormiu nas melhores camas.
Será que não teria sido melhor abster-se
de criticar o capitalismo e os capitalistas, que ele tanto odiava ?
Quase é certo que deixou milhões de euros depositados lá por um qualquer ou quaisquer bancos de Espanha.

deixado a 13/7/10 às 22:48
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Carlos Martins
Acha que fez pouco? Ou desejava mais?

deixado a 13/7/10 às 23:22
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Fernando
Capital não é dinheiro, meu caro. O Daniel Oliveira, que também percebe dessas coisas, que lhe explique.

deixado a 13/7/10 às 23:29
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Carlos Martins
O Le Monde é um excelente orgão de comunicação. Faz parte das minhas leituras de referência. Tem pouca procura ao contrário das revistas de fofoquices.
Para alguns trabalhadores devia ser obrigatório ler , depois submetidos a testes. Se aprendiam um pouco mais.
Cumprimentos.

deixado a 13/7/10 às 23:46
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Carlos Martins
Mas para se ser anti-capitalista deve-se passar fome, dormir em barracas e não ter dinheiro?
E eu a pensar que era uma questão de consciência social e moral entre outras.

deixado a 13/7/10 às 23:52
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LB
Suponho que nunca tenha ouvido falar disto: http://www.mondragon-corporation.com

Antes a incoerência dos comunistas que a coerência dos capitalistas, também lho posso dizer. Sempre é menos ínvia.

deixado a 13/7/10 às 23:54
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Eleitor
De empresas controladas pelos trabalhadores ainda me lembro. Foi no tempo das empresas em auto-gestão e o resultado não foi dos melhores. Lembram-se de Tróia, da Mocar...?

deixado a 14/7/10 às 00:07
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João Cerqueira
Entro nesta discussão dizendo que já escrevi várias vezes neste blogue que considero Saramago um dos maiores escritores que humanidade produziu.

Mas tal não me impede de considerar que quando o ilustre escritor criticava o capitalismo parecia esquecer-se de que também fazia parte desse sistema e a ele _ ao capitalismo _ acabava por devolver os lucros ganhos com o seu talento.
Porque foi nos países capitalistas que Saramago mais vendeu, beneficiando do marketing, da publicidade, das mega feiras dos livro que, ano após, ano aumentavam o número de leitores da sua admirável obra.

Ou seja, sendo indiscutível que Saramago era um génio, o sistema capitalista catapultou-o para a fama e para a riqueza.
Depois _ como qualquer outra pessoa sensata faria _ o escritor aplicou os seus proventos nesse mesmo sistema que toda a vida zurziu.

deixado a 14/7/10 às 00:13
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Carlos Marques
Fernando, se calhar eu percebo mais destas coisas do que você pensa, mas estou sempre disposto a aprender mais.

Então dinheiro não é capital?

deixado a 14/7/10 às 00:14
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