Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


“O Negócios lança hoje a primeira lista anual em Portugal sobre os mais poderosos na economia.” Saúda-se a iniciativa de Verão do Jornal de Negócios, iniciada esta semana. Um bom jornal económico tem a obrigação de nos dar um retrato do capitalismo realmente existente. As ficções liberais de uma “economia de mercado” esvaziada de relações de poder podem ficar para os economistas. Alguns economistas, claro. Cada vez menos, talvez. O que é o poder na economia? Samuel Bowles e Herbert Gintis, na minha opinião dois dos melhores economistas da actualidade, deram esta definição no New Palgrave, o dicionário de referência da economia: é a capacidade que um agente A tem, e que lhe advém, por exemplo, dos recursos que controla, de fazer com que o agente B siga um determinado curso de acção pretendido por A, porque caso contrário B sabe que A tem a capacidade de lhe impor um outro curso de acção que tem custos bastante mais elevados e B não dispõe da mesma capacidade. Existem outras definições úteis para descrever uma economia capitalista. Por exemplo, a do sociólogo Steven Lukes, num livro já clássico sobre este assunto: o poder mais extremo é quando A tem a capacidade de moldar as preferências de B para que este faça o que é vantajoso para A: governar a economia através do "consenso" é mais eficaz do que governar através da "coerção". Como entender racionalmente os investimentos empresariais nos "mecanismos invisíveis de persuasão", da publicidade ao investimento na hegemonia ideológica, por exemplo, senão como um esforço para deter um certo grau de poder sobre as decisões de outros? Os exemplos multiplicam-se. Toda a gestão pode ser encarada como estando dedicada à criação mecanismos de poder. Daí o maior realismo de alguns estudos de gestão sobre estas matérias. Qualquer pessoa que trabalhe numa empresa sabe que o poder dos patrões aumenta com o aumento do desemprego (é por isso que os capitalistas tendem a não gostar de políticas económicas de pleno emprego). O desemprego é assim um mecanismo disciplinar. O poder é sempre uma questão de grau e de contexto (estamos a falar de relações sociais). É de natureza qualitativa, embora alguns dos seus efeitos se possam quantificar. É um bem posicional: uma soma positiva para um agente corresponde a uma soma negativa para outro. Quem tem poder e quem está exposto a esse poder? O poder económico advém sobretudo do controlo dos activos da economia. Numa economia demasiado desigual como a portuguesa, o capital concentrado tem uma tendência quase imparável para se transmutar em poder político, gerando uma desigualdade enorme na capacidade que os cidadãos têm para influenciar a vida da comunidade política. Capitalismo e democracia estão sempre em tensão: a segunda só se expande limitando o primeiro. É sobretudo nas sociedades capitalistas desiguais que uma das formulações de Marx e Engels se arrisca a tornar-se verdadeira: o governo age como se fosse o comité-executivo dos negócios da burguesia, de uma certa burguesia. O jornalismo deve investigar estas coisas. A informação é uma condição necessária para reformas que incrementem o controlo político do capital, contribuindo para a democratização e ampliação da esfera pública, garantindo que o Estado permanece um campo de disputa e de negociação, impedindo que este se torne um mero instrumento das classes economicamente dominantes. Desculpem a repetição da foto, mas encontrei no Negócios uma mais nítida. Diz tanto sobre os tempos que correm…

por João Rodrigues
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3 comentários:
GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
Cumprimentos pelo bom trabalho Joäo.

deixado a 6/8/10 às 18:48
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Wyrm
Realmente os nossos "liberais" só se metem com quem podem. Dos ladrões já têm eles medo. Continue João Rodrigues, você só peca por não se ver e ouvir mais.

deixado a 6/8/10 às 21:15
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Vera
Eka! ;) No caso por exemplo das leis antitrust norte americanas o Agente A é o estado e o Agente B é a empresa, onde é que está essa regulação a favor do mais fraco face ao mais forte? Veja o que se passou por exemplo com a Microsoft e outros na questão da concorrência. E quem manteve as taxas de juro artificialmente baixas nos EUA senão a Federal Reserve que gritou "gasta!" e de 2001 a 2003 desceu uns bons 5%, que teve como um dos resultados a famosa "bolha imobiliária"? Nesse caso B fez o que foi vantajoso na perspectiva da política monetária de A. O estado meteu a colher ou não? B seguiu o "consenso" de A! Eu cá acho que os governos entram a matar nos negócios da "burguesia" na expectativa de colher dividendos futuros e que limitam o poder da livre iniciativa. Tem havido uma grande arbitragem por parte dos estados com os resultados que estamos a ver. Onde o Estado pode intervir e fiscalizar quase não mexe, mas mexe onde não devia.

deixado a 7/8/10 às 01:00
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