Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014
por Daniel Oliveira

 

 

Com um político em quem vote quero ter em comum alguns pontos de vista fundamentais sobre o que é melhor para a sociedade. Quero que ele seja coerente com esses pontos de vista na sua ação. Quero que cumpra as promessas que faz. Quero que não use o cargo que ocupa em benefício próprio ou para favorecer interesses particulares. Quero que use os recursos públicos com rigor e cumpra, no exercício das suas funções, as leis. Se governar, quero que o faça com competência, inteligência, eficácia e bom senso. Espero que seja inteligente, informado e politicamente inspirador.

 

Não sou nem mais nem menos tolerante com um político do que sou com qualquer outro cidadão no que toca ao seu comportamento cívico. Não considero que um político deva "dar o exemplo" fora do desempenho das suas funções públicas. Da mesma forma que não lhe quero dar mais direitos, não lhe exijo mais deveres. Espero que cumpra genericamente as regras de vida em sociedade, mas compreendo que, como qualquer ser humano, tenha as suas falhas. Não procuro, nem na política nem em qualquer outro lado, santos.

 

A minha posição sobre a vida privada dum político é a mesma que tenho em relação a qualquer pessoa que não seja da minha intimidade: não me diz respeito. Pode ser um péssimo pai ou mãe, uma pessoa intratável, antipático, desleal, egomaníaco, adúltero. Não sendo meu amigo ou minha amante, tanto me faz. As características pessoais de um político só me interessam na estrita medida em que isso afete diretamente a forma como exerce o seu cargo.

 

Dito tudo isto, o único pecado público de Fraçois Hollande, que, com toda a razão, não respondeu, na conferência de imprensa de ontem, às perguntas sobre a sua vida privada, foi ter tentado usar, mesmo que não o tivesse feito de forma explícita, a tumultuosa vida amorosa de Sarkozy em seu benefício político. E ter prometido o que nenhum humano pode prometer: que o seu comportamento seria "em cada instante exemplar".

 

Depois de tudo o que escrevi, não devia, bem sei, comentar mais nada. Só que, talvez por Hollande ser doutras paragens ou apenas porque é demasiado irresistível, dou-me a mim próprio algum espaço de manobra. Ninguém saudável está verdadeiramente chocado com Hollande. A maioria das pessoas sentirá, quanto muito, um certo espanto por tão apagada figura ter no seu currículo amoroso três mulheres lindíssimas. Parece sobrar, na vida privada do presidente francês, a energia que lhe falta na vida pública. Não é para qualquer um ser ex-marido Segolene Royal, ter encontros amorosos com Julie Gayet e provocar colapsos nervosos a Valérie Trierweiler. Quem atirar a primeira pedra não é por não ter pecado. É por se roer de inveja.

 

Seria péssimo que, também em França e nos países latinos, o insuportável apego protestante à virtude privada ganhasse espaço. Há pouca coisa que o catolicismo nos tenha oferecido de útil. Uma delas é, sem dúvida, alguma hipocrisia para temperar a vida em sociedade e a relação com o altíssimo. É talvez essa arte de viver na penumbra, na dúvida e no não-dito que faz dos latinos bons garfos, bons bebedores de vinho e bons amantes. E de todos eles, os franceses são reis. Com provas dadas, há décadas, no Eliseu. Trouxesse Hollande para a política os seus dotes pessoais de sedutor e a sua impetuosidade amorosa (talvez com mais engenho do mostrou ao tentar esconder os seus pecadilhos) e seguramente a França e a Europa ficariam a ganhar. A exigência dos franceses devia ser: levem o "presidente normal" e dêem-nos este homem como líder.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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19 comentários:
apenas li primeira estrofe
És um lúbrico!

(and you know it)...

deixado a 15/1/14 às 19:55
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