Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014
por Daniel Oliveira

A viragem "liberal" de Hollande, com a redução dos encargos das empresas com o trabalho (em troca duma promessa, sem qualquer conteúdo real, de criação de emprego), levou a que alguns observadores se referissem a ele como "François Blair" ou o "Schroeder francês", ligando o líder do PSF às duas figuras centrais do processo de neutralização ideológica do centro-esquerda europeu. Esta "viragem" é a consequência lógica da falta de rumo e de programa político dos socialistas europeus em geral e os franceses em particular. Na realidade, não há nada mais confrangedor do que ver o comportamento atarantado do centro-esquerda durante esta crise. Que, em toda a Europa, pode ser verificada pela aceitação generalizada do Tratado Orçamental (que inviabiliza qualquer política social ou expansionista em tempo de crise) ou pela escolha de Martin Schulz, apoiado por Angela Merkel e sem que alguma coisa de substancial a distinga da chanceler, para suceder a Durão Barroso.

 

Esta conversão final de Hollande resulta da ausência duma narrativa alternativa (socorro-me do contributo doutro socialista famoso) para explicar esta crise. Sem ela, estão condenados a chegar às mesmas conclusões que aqueles a que supostamente se opõem. Esses sim, têm uma narrativa: esta crise resulta dum Estado Social insustentável que levou a défices e dívidas públicas incontroláveis e dos custos excessivos da sua mão de obra que levaram à perda de competitividade da Europa. No meio, já ninguém se parece lembrar de como e onde nasceu realmente esta crise financeira e de que forma ela se alastrou pela Europa. Não seria necessário fazer grande esforço para encontrar uma "narrativa" alternativa. Bastaria consultar a cronologia dos acontecimentos.

 

A narrativa agora dominante é simples e leva a um programa claro: privatização ou redução das funções sociais do Estado, reduções fiscais para as empresas, redução de rendimentos do trabalho e perda de direitos sociais e laborais. Como os socialistas e social-democratas não têm, apesar de todas as evidências, outro diagnóstico para apresentar também não têm programa. São baratas tontas à procura do seu próprio lugar. É um equívoco pensar que o problema dos socialistas portugueses, franceses, espanhóis ou alemães são as suas lideranças sem carisma. Isso não é causa, é consequência. Seguro ou Hollande são os líderes certos para o atual discurso socialista: um redundante nada.

 

Só que em democracia é necessário haver alternativas. Para que os cidadãos não fiquem condenados a uma qualquer fatalidade e para que não sejam obrigados a procurar fora da democracia a solução para os seus problemas. Uma das razões porque me oponho a "governos de salvação nacional" é exatamente porque, se falham, deixam os cidadãos sem um "plano B" dentro do próprio sistema democrático. E é normal que essa alternativa seja garantida por forças que, pela sua implantação política e eleitoral, pelo seu conhecimento do aparelho de Estado e pela sua história, estejam em condições de liderar um governo. Mais: neste caso concreto, seria normal que fossem os socialistas e os social-democratas (não haja confusão com os "social-democratas" portugueses) a defenderem o Estado Social que é, em grande parte, criação sua. E a ter, já agora, uma visão alternativa sobre os caminhos do projeto europeu que ajudaram a construir.

 

A desistência dos socialista em apresentar alternativas obrigará, naturalmente, a uma alteração do quadro político na Europa. Ela já está, na realidade, a acontecer. Pode materializar-se no crescimento de forças à esquerda de socialistas e social-democratas. Por via da aliança entre estes e dissidentes socialistas, como aconteceu, muito timidamente, na Alemanha, com o Die Linke, ou por via do crescimento da esquerda radical, como sucedeu na Grécia, com o Siryza. Pode resultar no crescimento da extrema-direita, como está a acontecer em França, em que a Frente Nacional arrebanha o eleitorado socialista, baseando o seu discurso numa agenda social tradicionalmente de esquerda. Pode terminar no estilhaçar o sistema partidário à esquerda, com o crescimento de fenómenos inorgânicos, como em Itália, com o Movimento Cinco Estrelas. Ou pode acontecer que haja, dentro dos próprios partidos socialistas e social-democratas, uma revolta interna e que uma nova geração de políticos, que não está comprometida com os erros do passado, volte a dar aos socialistas um papel ideologicamente relevante (não é o mesmo que relevância eleitoral). Ainda não aconteceu em lado nenhum.

 

Uma coisa é certa: a política tem horror ao vazio. E é isso mesmo que a desistência socialista está a criar: um enorme e perigosíssimo buraco político, pronto a ser preenchido por o que há de melhor e, sobretudo, o que há de pior na Europa. Se não mudarem de rumo e insistirem em não ser mais do que uma versão mole dos que hoje dominam o pensamento político europeu, os socialistas estarão condenados a ser, como são os comunistas em quase todo o espaço europeu, uma relíquia do passado. Os opositores do modelo social europeu dirão que a única forma do centro-esquerda se modernizar é ficar igual a eles. É natural que seja esse o seu desejo. Mas é evidente que não lhe trará grande futuro. Se nada mudar, esta crise pode bem vir a ser o Muro de Berlim dos social-democratas.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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21 comentários:
JgMenos
Ora aí está uma boa base de entendimento: vocês são uns bonzinhos, incorruptos, com elevado altruísmo e enorme sensibilidade social.
Sempre que governam só fazem asneira...mas sempre pelas melhores razões e não por horrorosos critérios economicistas.
Sejam muito felizes...


Menos,

Falas-te em bonsinhos?..." empresa do ex-presidente do INEM e da sua mulher, até quarta-feira chefe da gabinete do Ministro da Administração Interna, foi constituída apenas com um capital de mil euros e sete dias antes da assinatura de um contrato de consultadoria com o Estado no valor de 74.390 euros"

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3636549 (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3636549)

Sempre que governam??? Como se os comunas por exemplo, munca lá meteram o cu??? 

Dou-te um doce se encontrares uma noticia destas a envolver comunistas.


JgMenos
Os comunistas criavam, não uma empresa, mas um repartição pública atulhada de camaradas, todos muito  voluntariosos, disciplinados e prontos a passar o resto da vida a dar consultas!
Era um doce só!


Menos,

Tu cada vez estás mais menos. O que dizes não passa de uma alegoria.

Doce, doce é: Mais dois terriveis e mal cheirosos comunistas...

Fisco apanha Marques Mendes em venda ilegal de ações. O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões.

Atinha porra

 


JgMenos
Tu é que tens que atinar que é para isso que serve o Estado: legislar, regular, fiscalizar e punir.
Não há Estado que faça de toda a gente santos pagadores, a não ser que faça de todos destituídos!
Não interessado...

deixado a 20/1/14 às 22:45
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Menos,

Acabou...

Uma abraço

deixado a 21/1/14 às 13:00
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Anónimo
Olha que tu e os teus com a bela merda que andam a fazer é melhor estarem caladinhos.


JgMenos
Lixeiros de duvidosa quaidade a limpar montanhas de merda sempre tem que dar alguma merda!

deixado a 20/1/14 às 17:53
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