Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
por Pedro Sales


O mais espantoso nesta história das casas da CML é o sepulcral silêncio que envolveu um esquema com esta dimensão. Durante mais de 30 anos, foram entregues 3200 casas a título excepcional e sem critérios definidos. Façamos as contas. Uma em cada sessenta famílias a viver em Lisboa tem uma casa, loja ou sobreloja entregue pela câmara a preços de saldo. Tão espantoso quanto o sucesso deste silêncio, e revelador do esquema bem português que foi alimentando esta rede de cumplicidades, é o desplante que os visados revelam nas respostas à imprensa. Pedro Feist diz que o poder discricionário do vereador da habitação ”é uma realidade histórica”, o que parece tornar a prática aceitável. Como é normal entre nós, não há nenhum arrendatário desta criteriosa prebenda que não ande na rua de cabeça erguida e sem vergonha de ninguém.


Baptista Bastos recusa-se mesmo a revelar quanto paga de renda, dizendo apenas que quando precisou de casa pediu. É um assunto privado, claro, como é que podia ser de outra forma beneficiar de uma casinha com uma renda de favor, subsidiada com os impostos dos restantes lisboetas? Que isso nunca o tenha impedido de escrever aquelas insuportáveis crónicas invocando uma intangível superioridade moral que só a ele assiste, dá a dimensão perfeita de como o descaramento pode render frutos entre nós. A começar pela casinha.


PS: Passado o torpor do escândalo, interessante mesmo era conhecer a listagem dos restantes três mil e tal inquilinos e os critérios que presidiram à atribuição de cada casinha. Talvez desse para perceber melhor algumas comissões de honra...


por Pedro Sales
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53 comentários:
Madalena
O estranho é que mesmo sem nomes desde o Kruz que todos nós sabiamos mas ia passando... era o caso dos meninos do Camões Enfim!... Agora que sabemos concretamente a falta de vergonha de quem deu e de quem recebeu ... é de vomitar de nojo e indignação...

deixado a 29/9/08 às 14:01
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Chico da Tasca
"É um assunto privado, claro, como é que podia ser de outra forma beneficiar de uma casinha com uma renda de favor, subsidiada com os impostos dos restantes lisboetas?"

E o que dizer dos muitos casos de rendas de favor subsidiadas sómente à custa de um : o senhorio ?

Quanto a mim ainda é um escândalo maior, porque se trata de verdadeiro Roubo em nome do socialismo.

deixado a 29/9/08 às 14:08
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Abjecto. O Sistema no seu melhor. Mas deixa lá que, como escrevi hoje, o RTavares ainda se enterrou mais.

deixado a 29/9/08 às 14:10
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A revelação da lista dos Bastos é uma exigência de cidadania de que os lisboetas não devem abdicar. A Câmara Municipal de António Costa, José Sá Fernandes e Helena Roseta não pode fazer de conta que não se passa nada.
Há que pôr termo ao escândalo.
Há que desmascarar por completo os pregadores de moral para consumo alheio e pôr um travão à insolência que revelam nas declarações à comunicação social sobre o caso, rindo-se na cara de todos nós. É que somos nós, os lisboetas, que estamos a pagar as casas em que eles moram, sonegadas aos que, por razões de pobreza extema, têm direito a elas.
Isto não pode ficar em "águas de bacalhau", como é costume. Vamos ver.

deixado a 29/9/08 às 14:28
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O Psiquiatra de serviço
É uma casa portuguesa, concerteza.

deixado a 29/9/08 às 14:38
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Tiago Moreira
Pedro,
averiguou se a lista com os nomes dos inquilinos nao se pode obter?
parece-me haver uma necessidade publica de acesso a informacao dado que sao rendas subsidiadas por impostos municipais
(se que nao e' jornalista mas talvez pudesse passar a ideia a um amigo ou colega que o seja)

cumprimentos
Tiago

deixado a 29/9/08 às 14:41
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O Pedro ainda pergunta por critérios?
È evidente que é o critério do vereador que tem esse pelouro... e ninguém tem nada com isso.

Quanto ao "famigerado" BB é um caso tipico de "chicoespertismo malandro" muito lisboeta.
Não vê que, coitado, nem tem dinheiro para gravatas?

deixado a 29/9/08 às 14:42
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Incrível como estes episódios recorrentes acontecem e envolvem sempre aqueles que berram pela intervenção económica do estado e que "o estado somos todos nós". Depois, quando estas merdas acontecem, temos que ouvir o "não tem que ser assim" como quem diz "a culpa é dos outros"

deixado a 29/9/08 às 14:45
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Bang Bang
A prosa de Baptista Bastos tem estilo. É de qualidade superior e rara nos tempos que correm, só ao alcance de sobredotados. Se o mercado não é capaz de o reconhecer, isto é, não o recompensa materialmente, então que seja o poder politico a fazê-lo. Atendendo àquilo que ele merece, uma casa é muito pouco.

deixado a 29/9/08 às 15:03
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A Luta Continua!
Bem, isto acontece em Lisboa, onde há massa crítica e estão sediadas as instituições fiscalizadoras. Imaginem o que é viver em Braga (no longínquo norte...quase no pólo norte!!) com um autarca no poder à mais de 30 anos. Aqui é mais na base: arranja-me uma casa, um emprego, uma alteração ao PDM, etc. A rede de influências e a impunidade é total.

Bem-vindos ao país real!

deixado a 29/9/08 às 15:08
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