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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Antidepressivo

Daniel Oliveira, 12.01.08



Vários bloggers e comentadores aqui do Arrastão se têm espantado pela minha simpatia por Obama. Esperavam que eu "apoiasse" John Edwards ou Dennis Kucinich, ambos com um discurso mais à esquerda. Acontece que não sou americano. Não voto nem apoio candidatos. Os americanos terão de ponderar questões internas e externas. Sou europeu e apesar de saber que as políticas internas norte-americanas terão reflexos na nossa vida, quando mais não seja por influência política, é a política externa de cada candidato e as condições para a aplicar que mais me interessam.

Claro que o candidato de que me sinto mais próximo é Kucinich. Mas uma das razões porque recuso um sistema eleitoral não proporcional em Portugal é esta mesmo: a de se tornar inútil apoiar um candidato que não vence. Só que essa é a realidade da política nos EUA. E por isso talvez as alternativas fora do mainstream, por lá, passem menos pela política institucional do que cá e ainda menos pela política federal.

Claro que o discurso actual de John Edwards me é mais simpático. Mas a verdade é que não ignoro que Edwards procura um nicho de radicalidade que não corresponde ao seu percurso político. É por isso que os discursos dos candidatos em tempo de campanha, numa corrida tão longa e tão profissionalizada e num país com realidades políticas e culturais tão diferentes das nossas, devem ser relativizados.

Quanto a Hillary Clinton, não me esqueço (quem se pode esquecer?) do seu empenhamento na reforma do sistema de saúde e como acabou a ser financeiramente apoiada por todos aqueles que a tornaram impossível. De como apoiou a guerra no Iraque quando era difícil ser contra ela e de como, no momento em que as coisas mudaram, passou a defender a retirada imediata (uma posição de quem se está nas tintas para o que aconteça por lá) e responsabilizou os iraquianos pelo caos, por, descaramento dos descaramentos, não se saberem governar a si próprios. A senadora Clinton é de um oportunismo político assustador.

Neste momento, o discurso de Obama, em plena campanha, apesar das suas enormes qualidades retóricas e da sua empatia difícil de igualar, é quase vazio. Era previsível que assim fosse. Mas a minha simpatia por ele parte de duas razões muito práticas:
1. É o candidato que, pelas suas características e pelo capital de esperança que transporta, mais possibilidades tem de fazer alterações substanciais na política externa americana. Com a Casa Branca a sofrer de um gravíssimo défice de credibilidade, o que Obama tem vale ouro: as pessoas acreditam nele. É quase impossível não acreditar. É dos poucos candidatos que poderá inverter o clima de paranóia, medo e desconfiança que Bush instalou no país.
2. Por não estar ligado ao establishment de Washington, por não ter responsabilidades no passado, por ter tido a posição que teve sobre a guerra e até por ser descendente de muçulmanos e mestiço, é o candidato que, enquanto Presidente, mais facilidade poderá construir pontes com os sectores mais moderados do Islão (que são, ao contrário da ideia instalada, maioritários), com os povos europeus e com a América Latina, dando passos para ultrapassar a espiral de ódio que os neo-conservadores alimentaram.

Não sou optimista. Enquanto não houver uma mudança radical no nosso modo de vida, que diminua a nossa dependência petrolífera, todas as regiões ricas em petróleo viverão em permanente sobressalto. Também não sou optimista em relação a alterações no lugar que os EUA ocupam no Mundo. Que o mais forte tente impor a sua vontade é da natureza humana. São por isso humildes as minhas expectativas: alguém que deite água na fervura, antes que seja tarde demais. E para o conseguir, terá de ser alguém a quem os povos deste Mundo dominado por uma única potência dêem o beneficio da dúvida. Não vejo entre os candidatos (independentemente da sua radicalidade ou moderação) pessoa com melhores condições para conseguir esta tarefa quase impossível do que Barak Obama. E mesmo com ele é improvável.

Compreendo que a mesma direita que aplaudiu Bush, que esteve na primeira linha da defesa da guerra do Iraque, que quer mão de ferro com o Irão ou que defende a privatização do sistema de saúde esteja pronta para apoiar Obama, mesmo que isso seja de uma incoerência absoluta. Clinton representa o antes de Bush. Apoia-la seria a admissão mais evidente do erro. Um passo atrás. Mas com a provável (não segura) vitória de um democrata, se a direita europeia e portuguesa estiver conta Obama e Obama vencer ela fica órfã. Porque ser pró-americana é uma das suas principais fontes de legitimação ideológica. Seja qual for o presidente, vá para onde for, faça o que fizer... Mesmo na direita americana não falta quem queira fazer as pazes com país e com o Mundo. Obama parece ser o único com essa capacidade.

A esquerda tem o mesmo problema: receio de apoiar um candidato que ganhe e depois não se poder opor a ele.

Por mim, sei que George W. Bush não nasceu do nada. O que são hoje os EUA e o que é o seu Império não mudará com Obama. Nem me parece que ele o queira fazer. Não é esse o seu papel. Mas se o problema não é apenas Bush, Bush foi um problema sobre o problema. Se Obama vencer pode não mudar muito do essencial. Mas talvez o Mundo não viva mais oito anos no fio da navalha. Não é pouco.

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