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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Compreendeu?

Daniel Oliveira, 30.01.08


Sócrates diz que foi "sensível aos protestos" e compreendeu "o sentimento psicológico das pessoas". Mas ao ouvir o debate no Parlamento e a entrevista ao seu número dois e clone Silva Pereira ao canal 2 fiquei com a sensação que não percebeu bem o que está em causa. As pessoas estão-se nas tintas para quem lhes fecha as urgências e os SAP. E o problema não é de comunicação, nem sequer é o estilo arrogante do ministro que parte. O problema são na realidade dois problemas: falta de credibilidade do Estado e sentimento de abandono.

A credibilidade: as pessoas não acreditam nas garantias de que as solução que estão a ser implementadas são melhores do que aquelas que têm. Não trocam o certo pelo incerto. Não é apenas conservadorismo ou imobilismo. É experiência em lidar com os nossos poderes públicos e o sentimento de que nos últimos dez ou quinze anos não pararam de perder com mudanças que os governos garantiam ser para melhor.

O abandono: o Interior tem visto fechar correios, escolas, urgências e estações de caminhos de ferro. Quando são serviços imprescindíveis acabam por ser os privados a substituir o que era público e fechou. A única coisa que parece chegar-lhes a casa são auto-estradas, para sairem de lá mais depressa. Muito do que estava a ser feito por Correia de Campos podia parecer racional do ponto de vista estatístico (muito nem isso é), mas a sensação de segurança de cada cidadão não se mede estatisticamente. E não é pura ilusão. Isso é ainda mais evidente quando falamos de saúde. Sobretudo a dos cidadãos mais velhos, que já se sentem completamente desprotegidos em tudo o resto.

Se Sócrates não pretende mudar de rumo na política de saúde não compreendeu nada e não foi sensível a coisa nenhuma. Trabalhou para os jornais e para os opinadores. Só que os medos fundados e infundados das pessoas são uma coisa muito mais profunda. É indiferente quem seja o ministro. Há forma de fazer bem: não mudar o que está bem e, para o que está pior, dar melhor antes de tirar. Ao afirmar que «não encerraremos mais urgências antes de existirem alternativas» Sócrates pode ir pelo caminho certo. Com a condição de saber que há matérias em que a confiança demora a conquistar-se e que não basta a opinião de burocratas para a garantir. Demora mais tempo do que a mudança de humor de colonistas e jornalistas.

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