Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

Espartanos e rigorosos

Daniel Oliveira, 15.09.08



Sobre a renúncia de Ramalho Eanes aos retroactivos a que tinha direito relativos à reforma como general, que nunca recebeu, escreve João Gonçalves: "No meio do esterco, o homem". O esterco, suponho, são todos os políticos, o sistema, enfim, a democracia que não passará de uma grande latrina. A decisão de Eanes é legitima e estarei longe de a criticar. E é natural que, num país onde o normal é o contrário, esta decisão mereça respeito. Mas a oposta, a de receber a reforma a que tinha direito, seria igualmente inatacável. A defesa do rigor é a defesa do cumprimento de regras legais e éticas. É isso que falta. E a aceitação deste dinheiro não ofendia nem umas nem outras.

Como escreve, e muito bem, Nuno Pombo, "considero extremamente perigosa esta ideia: a de que temos, para sermos rectos, de renunciar aos nossos direitos". Pode-se ser austero e não ser rigoroso (é o caso dos que ultrapassam os seus poderes e impõem para lá da lei a sua vontade). Salazar, talvez porque se julgasse, ele sim, um homem bom rodeado de esterco, era espartano sem ser rigoroso no uso dos seus poderes e no cumprimeto da ética política. Assim como se pode não procurar uma vida "franciscana" e ser-se de um rigor ético inatacável.

Ramalho Eanes fez o que lhe parecia melhor e por isso deve ser elogiado. O acto não transforma em esterco tudo o que o rodeia. E suponho que não era essa a mensagem que o ex-presidente queria passar. Foi essa que João Gonçalves captou. E assim, um acto nobre foi recebido como uma jogada populista.

15 comentários

Comentar post

Pág. 1/2