Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
por Daniel Oliveira
Ia eu outro dia na carreira 9 da Carris quando reparei com espanto que, no meio de encontrões, um senhor segurava num portátil e lia o Insurgente. Virou-se para mim e disse: "este senhor (ele usou outra termo mas por educação não repito), sabe quem é?" Olhei e assinava o RAF. "O gajo não disse que não lia mais o Público?", perguntou o homem na casa dos 70 e que me contou, enquanto agarrava o portátil em desequilíbrio, ser torneiro mecânico aposentado. Uma senhora de porte imponente e com uma bata listada, que devia andar pelos 50, lá do fundo do autocarro, confirmou: "É verdade! É verdade!" "Parece que agora tem conversas com desconhecidos que lêem os artigos que ele se recusa a ler e que acham sobre o que lêem exactamente o mesmo que ele acharia se os tivesse lido", continuou o homem. "Pois é", respondi eu, um pouco baralhado, enquanto sentia um cotovelo de uma senhora no meu abdómen. "E o mais engraçado", continuou com um riso talvez exagerado tendo em conta que um miúdo acabara de bolçar em cima do teclado do seu Mac, "é que é logo alguém com uma vida inteira dedicada aos mercados financeiros, de prestígio intocável, que assim dá uma especial autoridade técnica às suas opiniões".

"Mas o mais interessante, posso mesmo dizer que se trata de uma possibilidade num milhão", disse, enquanto enfiava o portátil num saco do Minipreço, "é que, noutro dia, o cunhado de uma prima minha que vinha de comboio para Lisboa viu um tipo a ter uma conversa parecidíssima com esta - ficou atento por ele estar a falar da bolha do imobiliário, que é uma coisa que lhe interessa imenso. Estava toda a gente boquiaberta a olhar para ele. É que a cadeira ao lado dele estava vazia, com um jornal pousado". "A sério?", perguntei eu, já mais interessado, apesar de ter a cara a esborrachar-se num varão por causa de um grupo de adolescentes que queria sair no Rato. "Sabe o que eu lhe diria, se deixasse um comentário no Insurgente?", gritou ele, já do lado de fora do autocarro, na rua Alexandre Herculano. Eu aproximei-me da janela, com o autocarro em andamento, para o ouvir. E ele gritou: "Get over it!".

Apesar de um ou outro pormenor ser romanceado (o miúdo não chegou a bolçar), juro por tudo, tudo, tudo o que há de mais sagrado que esta conversa aconteceu nestas circunstâncias e mais ou menos nestes termos. Um dia destes tenho de vos contar a conversa que tive com Ben Bernanke e Henry Paulson à porta de um bar no Bairro Alto. Foi interessantíssima.

por Daniel Oliveira
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