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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Suspenda-se a democracia

Pedro Sales, 17.11.10


Não serão bem os seis meses pelos quais suspirava Manuela Ferreira Leite, mas a democracia já parece ter sido suspensa, pelo menos até ter sido descerrada a cortina da cimeira da NATO. Com a fronteira franqueada, a mesma polícia que tem passado a última semana em exercícios coreografados para televisão ver, justifica a detenção de dois cidadãos porque, para lá de transportarem um canivete e uma faca de cozinha das grandes, “tinham em seu poder cartazes anarquistas e antipoliciais".

Como, da última vez que dei pela existência de leis e de uma constituição da república, ser anarquista e não gostar da polícia ainda estava longe de ser crime, esta extradição só pode ser encarada como mais um passo na narrativa que tem vindo a ser diligentemente criada por estes dias: as manifestações contra a cimeira são coisa de delinquentes e grupos radicais violentos. Aqui chegados, vale tudo, a começar pela criminalização de uma ideia e a estigmatização de uma posição política e ideológica.

O propósito é claro. Esvaziar a manifestação e marginalizar politicamente todos quantos se oponham à grandiosidade do evento que vai colocar Lisboa de pantanas. Podemos achar que são só três dias, mas a normalização e resignação perante estados de excepção dos direitos e liberdades mais elementares é um risco muito mais perene do que a presença entre nós de Merkel ou Obama. Quem disse que a democracia não pode mesmo ser suspensa?

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